xtase Mortal
(Rapture In Death)
Nora Roberts
Traduzido e revisado por Projeto_romances
Projeto_romances@yahooo.com.br
Captulo 1
O beco era escuro e fedia a urina e vmito. Era a residncia para ratos
magros e geis e felinos de olhos famintos que os caavam. Olhos vermelhos
brilhavam na escurido, alguns eram humanos, mas todos eram selvagens.
Eve sentiu seu corao falhar por um momento enquanto avanava
lentamente para o interior escuro, mido e ftido do beco.Ele se dirigira para l.
Estava certa disso. E seu trabalho era persegui-lo, encontr-lo e traze-lo.
A arma estava firmemente plantada entre as mos.
- Oi docinho, o que quer comigo? O que quer?
As vozes vinham do escuro, speras devido aos produtos qumicos e
misturas baratas. As lamentaes dos amaldioados, as risadas dos loucos.
Ratos e gatos no viviam ali sozinhos. A companhia dos lixos humanos que se
recostavam nas paredes de tijolos, no lhe trazia conforto. Movimentava a
arma fazendo uma varredura do local, encolhendo-se enquanto desviava-se de
uma unidade recicladora amassada, que, pelo cheiro, no funcionava h
dcadas. O cheiro de comida gordurosa impregnava o ar dentro do beco.
Algum choramingou. Foi quando seus olhos focalizaram o menino, em torno
dos treze anos de idade, seminu. As feridas na sua face estavam
infeccionadas; seus olhos eram duas frestas de medo e desesperana
enquanto arranhava seu corpo de encontro ao muro imundo. A piedade agitouse
em seu corao. J tinha sido uma criana assim um dia, escondida em um
beco imundo como aquele.
- Eu no vou machucar voc. manteve sua voz serena, mal um
murmrio, sem desviar seus olhos, manteve o contato enquanto abaixava sua
arma. E estava assim quando veio o golpe.
Veio de trs, um movimento, um rugido. Estava pronto para matar com
apenas um golpe do basto que carregava. Sentiu o sibilar do objeto passar
raspando por sua orelha quando girou evitando ser atingida. Mal teve tempo
para se recriminar por ter se distrado, esquecendo-se do alvo principal
quando, cento e cinqenta quilos de msculos voaram em sua direo. A arma
escapou de sua mo e retiniu caindo em meio  escurido. Nos olhos
masculinos o brilho inconfundvel, s causado pelo uso de um produto qumico
em particular, Zeus. Observou a trajetria que o basto em sua mo seguia e,
calculando o tempo, rolou para o lado, segundos antes dele bate-lo contra a
parede. Tomando um impulso com os ps, mergulhou de cabea em sua
barriga. Enquanto um grunhido desconcertado alcanava a garganta do
homem, elevou seu punho fechado e rgido, despedaando-o sob sua maxila. A
fora do golpe irradiou a dor por todo o seu brao.
Pessoas gritavam, correndo para a segurana, em um mundo limitado
onde nada e ningum estavam seguros. Girou, usado o mpeto do movimento
para acertar um chute que quebrasse o nariz do seu adversrio. O sangue
jorrou unindo-se ao miasma nojento de odores. Seus olhos eram selvagens,
mal sentiu o golpe. A dor no era um adversrio a altura para o Deus dos
produtos qumicos. Sorrindo enquanto o sangue escorria sobre sua cara, o
homem batia o grosso basto contra a mo.
- Vou matar voc, cadela da policia. - circundou-a, balanando o basto
no ar em movimentos rpidos e sibilantes. Sorria e sorria enquanto se esvaia
em sangue.  Vou quebrar sua cabea e comer seu crebro.
Sabendo o que queria dizer aquilo, sentiu a adrenalina se espalhar por
seu organismo. Vida ou morte. Respirava com esforo, o suor escorria oleoso
sobre sua pele. Evitou o golpe seguinte, inclinando-se at seus joelhos. Pegou
sua arma de choque em um gesto rpido e o ajeitou sorrindo.
- Coma isto primeiro, filho da puta - sua arma reserva estava entre as
mos. No se preocupou em ajust-la para o choque. O choque faria, pouco
mais do que um agrado, em um homem daquele tamanho entupido de Zeus.
Estava ajustado para o extermnio. Ele se preparava para ir na sua direo
quando o acertou em cheio. Os primeiros a morrer foram os olhos. J tinha
visto aquilo acontecer antes. Os glbulos giravam como olhos de vidro em uma
boneca, mesmo enquanto se aproximava.
Avanou um passo preparando-se para carregar fogo mais uma vez, mas
o basto j escapava de seus dedos e o corpo comeava uma dana
espasmdica enquanto seu sistema nervoso entrava em colapso.
Caiu aos seus ps, uma massa disforme, do que tinha sido um ser
humano, que resolvera brincar de Deus.
 Voc no estava sacrificando uma virgem, idiota. - murmurou, e sentiu
toda a energia selvagem da luta sendo drenada de seu sistema, passou as
mos pelo rosto e deixou seu brao, que segurava a arma, cair ao lado do
corpo. O som fraco do couro contra o concreto alertou-a. Comeou virar-se, a
arma j levantada, mas mos a circundaram, levantado-a at que ficasse nas
pontas dos ps.
- Preste mais ateno em sua traseira, tenente, - a voz sussurrou
imediatamente antes que dentes mordiscassem levemente o lbulo de sua
orelha.
- Roarke, maldio! Eu quase o matei!
- No chegou nem perto. - com uma risada, girou-a em seus braos e logo
sua boca estava sobre a dela, quente e faminta.- Adoro observa-la em ao,
tenente. - murmurou e sua mo, gil mo, deslizada seu corpo acima rumo aos
seios.
-  estimulante -cortou o assunto. Mas seu corao estava trovejando em
resposta.  Mas este no  o momento apropriado para uma seduo.
- Ao contrrio. A lua de mel  conhecida como uma tradicional ocasio
para uma seduo  puxou-a de encontro a si, mantendo as mos sobre seus
ombros - Queria saber onde estava. Devia saber. - olhou de relance para baixo,
para o corpo aos seus ps.  O que fez?
- Ele tinha uma certa predileo em esmagar cabeas de jovens mulheres
e depois comer seus crebros.
- Oh... - Roarke recuou, balanando a cabea. - Francamente, Eve! No
poderia ter sugerido algo menos repugnante?
- Havia um sujeito na colnia da Terra h alguns anos atrs que coube no
perfil, e eu queria saber...  o puxou para fora da escurido do beco e franziu a
testa ao observ-lo.
Estavam de p em um beco fedorento, com a morte aos seus ps. E
Roarke, um elegante anjo negro, usava um smoking com abotoaduras de
diamante.-Por que est vestido assim?
- Tnhamos planos  recordou-a.  Jantar, lembra?
- Esqueci. - guardou sua arma afastado-se. - No imaginei que esta
priso duraria tanto tempo.  soltou a respirao devagar em um suspiro. -
Suponho que eu devo me arrumar.
- Gosto de voc do jeito que est. - moveu-se contra ela outra vez,
tocando-a possessivamente.  Esquea o jantar... por enquanto. - seu sorriso
era lento e irresistvel. - Mas eu vou insistir em um programa um pouco mais
simptico. Termine o programa.- requisitou a mquina.
O beco, os odores, os corpos amontoados desapareceram. Estavam em
um quarto enorme, vazio a no ser por alguns equipamentos e luzes
implantados nas paredes. O assoalho e o teto eram de vidros escuros e
espelhados para melhor projetar as cenas hologrficas disponveis no
programa. Era um brinquedo de Roarke, o mais novo, da maioria de
brinquedos sofisticados que possua.
- Comece 4-B de Ajuste Tropical. Mantenha o status de duplo controle. -
em resposta veio o som dos fluxos de ondas no mar e o polvilhar do brilho das
estrelas na gua. Sob seus ps a areia era branca como acar, e as
palmeiras acenavam em um dana extica.
- Assim est melhor - Roarke decidiu, em seguida comeou a desabotoar
sua camisa.  Ou pelo menos estar quando eu a despir.
- Voc tem me despido cada vez que eu pisco durante essas trs
semanas.
Ele arqueou as sobrancelhas.
- Privilgios de marido. Queixas?
Marido. Era ainda uma sacudida. Aquele homem com cabelos negros,
rosto de poeta e selvagem olhos azuis irlandeses era seu marido. Nunca iria se
acostumar com aquilo.
- No. Apenas... - sua respirao ficou presa na garganta quando uma de
suas mos de longos dedos deslizou sobre seus seios. - Uma observao.
- Policiais. - sorriu, desabotoando seus jeans. - Sempre observando. Voc
no est em servio, tenente Dallas.
- Eu estava apenas mantendo meus reflexos afiados. Trs semanas longe
do trabalho, voc pode comear a enferrujar...
Ele deslizou uma das mos entre suas coxas nuas com um propsito
certo, enquanto olhava sua cabea ser jogada para trs com um gemido.
- Seus reflexos so quase perfeitos. - murmurou e a puxou para baixo em
direo a areia branca e macia. Sua esposa.
Roarke gostava de pensar naquilo enquanto ela o cavalgava, enquanto
ela se movia sob ele e quando se deitava exausta ao seu lado. Esta mulher
fascinante, esta dedicada policial e alma inquieta, lhe pertencia. Ele observara
seu trabalho no programa, o beco, o assassino drogado. Sabia que ela
enfrentava a realidade de seu trabalho com a mesma agressividade
assustadora e corajosa determinao que demonstrara na iluso. Admirava-a
por isso, apesar de ter convivido com muitos maus momentos. Em alguns dias,
iriam voltar a New York e teria que compartilha-la com tais responsabilidades.
Por agora, no queria compartilha-la com mais nada. Com ningum.
No estranhara estar de volta aos becos que cheiravam a lixo e falta de
esperana humana. Crescera dentro deles, escapara muita vezes para seu
interior e eventualmente fugira deles.
Ele estava vivendo sua vida quando ela havia surgido, impetuosa e letal
como uma seta de arco e fecha, e tinha mudado tudo outra vez. Os policiais
tinham sido uma vez o inimigo, a seguir um divertimento, e agora estava ligado
a um. Apenas duas semanas antes, a tinha observado caminhar em sua
direo em um vestido fludo de bronze rico, com suas flores na mo.
As contuses que um assassino tinha feito em seu rosto, somente horas
antes, tinham sido disfaradas por cosmticos. E naqueles olhos, naqueles
olhos de cor de conhaque, grandes e expressivos, ele percebera seu
nervosismo e seu divertimento.
Aqui vamos ns, Roarke.Quase pode ouvi-la dizer esta frase quando
colocou sua mo sobre a dela. Para melhor ou para o pior eu estarei com
voc. Que Deus nos ajude.
Neste momento exibia seu anel, e ele o dela. Havia insistido naquilo,
embora tais tradies no fossem particularmente atuais, em meados do
sculo XXV. Quis o lembrete tangvel de que um pertencia ao outro, um
smbolo deles. Naquele momento ergueu-lhe mo, beijando seu dedo acima da
faixa de ouro que o adornava e que tinha sido feito para ela. Os olhos
permaneciam fechados. Estudou o perfil anguloso de sua face, a boca ampla, e
os curtos cabelos castanhos, desalinhados em alguns pontos.
- Eu te amo, Eve.
Uma cor fraca floresceu em sua face. Era to facilmente tocada, pensou.
Quis saber se ela tinha alguma idia de como era enorme seu prprio corao.
- Eu sei. - abriu os olhos.  Eu estou, ah, comeando a me acostumar com
isso.
- Bom.
Escutando a cano da gua que batia contra a areia, da brisa agradvel
que sussurrava atravs das folhas, levantou uma das mos e ajeitou algumas
mechas do cabelo masculino. Um homem gostava dela, pensou. Poderoso, rico
e impulsivo. Poderia conseguir semelhantes cenas com a presso de um dedo.
E tinha feito isso para ela.
- Voc me faz feliz. - seu sorriso brilhou, fazendo-lhe sentir uma ondulao
de prazer no estmago.
- Eu sei.  com facilidade, sem esforo, a ergueu at que ela passasse as
pernas em torno de si. Deslizou sua mo preguiosamente pelo corpo
alongado, liso e musculoso.  Pronta para admitir que est satisfeita por eu tla
carregado para fora do planeta, para a ltima parte de nossa lua de mel?
Ela riu, recordando seu pnico, sua veemente recusa em embarcar no
transporte que estava a sua espera. E como ele tinha rugido e rido, e a lanado
sobre o ombro escalando a plataforma de embarque com ela praguejando
sobre ele.
- Eu gostei de Paris, - disse com um fungadela.  E amei a semana que
tivemos no ilha. No via nenhuma razo para terminarmos em um resort no
espao quando iramos gastar a maioria do nosso tempo na cama.
- Voc estava assustada.  tinha se deleitado com demonstrao de
covardia ante a possibilidade de sua primeira viagem fora do planeta, e ficara
satisfeito em mant-la ocupada e distrada durante todo o percurso.
- No estava.  at os ossos, pensou. Assustada at os ossos.  Estava
irritada e com boa justificativa, j que voc fez planos sem discutir comigo.
- Recordo-me de certa pessoa, muita envolvida em um caso, me dizer que
eu poderia fazer tudo como preferisse.- sorriu - Voc era uma bela noiva.  ele
deslizou as mos por suas curvas.
- Era o vestido.
- No, era voc.  levantou uma das mos e tocou seu rosto. - Eve Dallas.
Minha.
Sentiu o amor a inundar. Era sempre assim, sentia-se como se tivesse
sido apanhada inesperadamente por uma gigante onda e no tivesse meios de
escapar.
- Te amo.  inclinou-se em sua direo para encontrar a boca masculina.
- E aparentemente voc  meu.
Jantaram antes da meia noite. A lua banhava o terrao que pertencia ao
Olympus Grande Hotel, quase terminado, Eve comia uma lagosta recheada e
apreciava a vista.
O resort Olmpicos seria, com Roarke puxando as cordas certas,
terminado e registrado inteiramente dentro de um ano. Por agora, eles o tinham
para si. Se ignorassem os grupos de construtores, a equipe de funcionrios, os
arquitetos, os coordenadores, os pilotos, e outros distintos habitantes que
compartilhavam da enorme estao no espao.
Da pequena mesa de vidro, onde estavam sentados, podiam ver toda a
regio que envolvia o resort. As luzes que brilhavam clareando a equipe da
noite.O rudo discreto das engrenagens dos maquinrios durante a hora do
trabalho. As fontes, os fachos de simuladores de luzes e os arco-ris da cores
que fluam atravs das guas que esguichavam das fontes. Eram para ela, e
ela o sabia. Ele procurava lhe mostrar o que estava construindo e talvez faze-la
comear a compreender que era parte disso agora. Como sua esposa.
Esposa. Suspirou soltando a respirao presa nos pulmes e bebericou o
champanhe gelado. Estava levando algum tempo para compreender como
deixara de ser Eve Dallas, tenente do homicdio, e se transformara na esposa
de um homem que alguns diziam ter mais dinheiro e poder do que o prprio
Deus.
- Problemas?
Ela fixou os olhos sobre seu rosto, sorrindo discretamente.
- No. - com grande concentrao, mergulhou a lagosta na manteiga
derretida. Manteiga real, nenhuma simulao ia para a mesa de Roarke - E a
provou.  Como vou enfrentar aquilo que eles chama de comida l na cantina
uma fez de volta ao trabalho?
- Voc come barras energticas durante o servio, em todo o caso.  Ele
voltou a encher seu copo de vinho, levantado uma das sobrancelhas quando
ela estreitou os olhos.
 Voc est tentando me embebedar, amigo?
- Absolutamente.
Riu, algo que notou fazer cada fez com mais facilidade e freqncia
durante aqueles dias, e com um encolher de ombros ergueu sua taa de cristal.
- Ora inferno, farei este favor para voc! Ficarei bbada!-virou a taa de
vinho bebendo-o como gua.  E darei a voc uma noite que nunca mais
esquecer.
O desejo que pensava estar satisfeito por alguns momentos rastejava
dentro de sua barriga.
- Bem, neste caso - derramou o vinho em sua prpria taa, enchendo at
a borda  Ficaremos ambos bbados.
- Eu gosto daqui, - anunciou.
Empurrando a cadeira para trs, levou sua taa para a compacta mureta
de pedra esculpida. Devia ter custado uma fortuna t-la lavrado e, em seguida
enviado, mas era Roarke, afinal de contas. Inclinando-se observou as luzes e o
show das guas, fez uma varredura pelos edifcios, todas as abbadas e
colunas, todos lustrosos e elegantes para abrigar as pessoas suntuosas e os
jogos que os suntuosos viriam jogar.
O cassino tinha sido terminado e brilhava como uma esfera dourada na
obscuridade. Um, das dzias de lagos, tinha sido iluminado para a noite e a
gua jorrava azul cobalto. Passarelas insinuavam-se entre edifcios,
assemelhando-se s linhas de prata. Estavam vazios agora, mas imaginou o
que seriam em seis meses a um ano: repleto de pessoas cintilando em sedas e
brilhando com suas jias.
Eles viriam ser mimados dentro das paredes de mrmore do SPA, com
seus banhos de lama e facilidades para realar o corpo, por consultores de fala
macia e por andrides solcitos. Viriam perder fortunas no cassino, para beber
os drinks exclusivo do clube, para fazer amor com corpos firmes e suaves de
companheiros licenciados. Roarke iria lhes oferecer um mundo de maravilhas,
e poderiam vir. Mas no seria seu mundo ento. Ela estava mais confortvel
nas ruas, no meio do mundo ruidoso da lei e do crime. Roarke compreendia
aquilo, ela pensou, porque viera do mesmo lugar que ela. Tinha-lhe oferecido
aquele momento, aquele espetculo quando ainda era somente deles.
- Voc est fazendo algo aqui - disse e girou o corpo para se recostar
contra a murada.
- Esse  o plano.
- No - agitou sua cabea, satisfeita por esta comeando a sentir as
influencias do vinho - Voc far algo que as pessoas falaro por sculos, que
sonharo. Voc foi longe para um ladro que cresceu nos becos de Dublin,
Roarke.
Seu sorriso foi lento e apenas um pouco dissimulado.
- No estou assim to distante disso, tenente. Eu escolho as carteiras
agora. Eu o fao to legalmente quanto posso. Ser casado com uma policial
limita determinadas atividades.  franziu as sobrancelhas naquele momento.
- No quero ouvir nada sobre isto!
- Eve, Querida. - levantou-se, trazendo  garrafa com ele-. Ainda a
preocupa o fato de estar loucamente apaixonada por um mau carter? -
encheu sua taa outra vez, a seguir equilibrou a garrafa ao lado. - E que h
meses atrs estava em sua pequena lista de suspeitos de assassinato?
- Voc divertiu-se com aquilo? Com o fato de ser suspeito?
- Eu... - deslizou o polegar sobre os ngulos de sua face onde uma
contuso j havia desaparecido, exceto em sua mente.  Eu estava um pouco
preocupado em relao a voc - muito, admitiu para si mesmo, muito
preocupado.
- Eu sou uma boa policial.
- Eu sei.  o nico membro da polcia que ter, sempre, minha completa
admirao. Que estranha obra do destino o fato de me envolver assim com
uma mulher com tamanho senso de justia.
- Parece mais mpar a mim que eu tenha me ligado a algum que pode
comprar e vender planetas por capricho.
- Casado.  riu, girando-a de costas para si, tocando com o nariz sua
nuca.  Vamos l, diga! Ns somos casados. A palavra no a sufocar.
- Eu sei o que somos.  ordenou-se a si mesmo relaxar, inclinou-se para
trs de encontro a ele. - Deixe-me viver com isso por enquanto. Eu gosto de
estar aqui, longe de tudo, com voc.
- Ento vai admitir que eu tinha razo por pressiona-la por estas trs
semanas?
- Voc no me pressionou.
- Tive que importun-la - beliscou sua orelha. Tocou seu rosto com os
lbios. Suas mos deslizaram at seus seios.- Implorar.
Ela bufou.
- Voc nunca implorou por qualquer coisa, no nesta vida. Mas talvez
voc tenha me importunado. Eu no tinha trs semanas de folga no trabalho
em...nunca.
Ele decidiu no lembra-la que no o tinha tido agora, precisamente.
Raramente atravessava um perodo de vinte e quatro horas sem rodar um
programa de realidade virtual envolvendo seu trabalho.
- Por que ns no a transformamos em quatro?
- Roarke...
Riu.
 Estava apenas testando. - apontou para seu copo - Beba seu
champanhe. Voc no est bbada o bastante para o que eu tenho em mente.
- Oh? - Seu pulso disparou, dando-lhe sensao de tonteira.  E o que ?
- Seria um desperdcio falar. - decidiu.  Vou dizer apenas que pretendo
mant-la ocupada pelas prximas quarenta e oito horas que ainda temos.
- Quarenta e oito horas?  Com um sorriso bebeu o resto do vinho que
estava na taa. - Quando poderemos comear?
- No h hora melhor  parou com a expresso irritada. O sinal da porta
estava soando - Eu disse a equipe de funcionrios que no estaria aqui a
trabalho. Fique aqui.  Acariciou-a fechando o robe que tinha desatado. - Eu os
manterei distante. Bem distantes.
- Pegarei outra garrafa enquanto isso.  Eve disse sorrindo enquanto
agitava as ltimas gotas da sua. - Algum bebeu esta toda.
Divertido, deslizou para dentro do quarto, cruzando o largo espao do
living com seu teto de vidro transparente e tapetes macios. A queria ali, para
comear, decidiu, nesse assoalho, rendendose com as estrelas sobre ambos.
Arrancou um lrio branco de dentro de um vaso de porcelana, imaginando como
a mostraria o que, apenas um homem habilidoso, poderia fazer a uma mulher
com as ptalas de uma flor.
Estava sorrindo enquanto atravessava o vestbulo com suas paredes
douradas abrangendo a escadaria de mrmore arrebatador. Moveu o visor em
sua direo e preparou-se para mandar ao inferno o empregado que os
interrompera. Com alguma surpresa viu o rosto de um de seus engenheiros
assistentes.
- Carter? Algum problema?
Carter friccionou uma mo sobre um rosto suado e terrivelmente plido.
- Senhor. Receio que h. Eu preciso falar com voc. Por favor.
- Est certo, espere um momento. - Roarke deixou sair um suspiro de
frustrao enquanto batia de leve na tela, desacoplando as fechaduras. Carter
era novo para sua posio, em seus vinte poucos anos, mas era um gnio na
projeo e execuo de seu trabalho. Se houvesse um problema com a
construo, era melhor que resolvesse agora.
- O cu do salo est deslizando? - Roarke perguntou quando abriu a
porta-Eu pensei que j tivssemos resolvido sobre a angulatura.
- No, quer dizer...Sim senhor. Eu resolvi. Ele est funcionando
perfeitamente agora, senhor.
O homem tremia. Roarke percebeu, esquecendo-se de seu
aborrecimento.
- Ocorreu algum acidente?  Segurou seu brao e o levou at o living
sentando-o em uma cadeira. - Algum foi ferido?
- Eu no sei, senhor. O que significa acidente?- Carter piscou, o olhar
vidrado.- Senhorita. Madame. Tenente, - disse enquanto o Eve entrou.
Comeou levantar-se, e a seguir caiu fraco na cadeira novamente quando ela
lhe deu um rpido empurro.
- Ele est em choque, - disse a Roarke, sua voz energtica. Tente alguns
desses conhaques extravagante que voc tem aqui.  agachou-se mantendo
seu rosto no mesmo nvel do homem. Suas pupilas estavam dilatadas.
- Carter, no ? Respire lentamente.
- Eu...- Sua face estava branca como cera agora.- Eu pensei...Eu estava
indo...
Antes que pudesse terminar, Eve empurrou sua cabea para baixo, entre
seus joelhos. -Respire. Apenas respire. D-me o Brandy, Roarke.- ela estendeu
a mo e ele lhe entregou com um resmungo.
- Fique calmo, Carter. - Roarke tentou tranqiliza-lo  Beba um gole disto.
- Sim, senhor.
- Por Cristo, pare de me chamar de senhor!
A cor voltou a face de Carter, devido ao conhaque ou ao embarao.
Assentiu, tomando um gole e deixando sair o flego.
- Estou chocado. Penso que fiz o que era certo. Vim diretamente para c.
Eu no sabia se devia. Eu no sabia o que fazer. passou a mo pela face
como se estivesse vendo um filme de horror. Inspirou profundamente dizendo
depressa.- Drew, Drew Mathias, em meu dormitrio. Est morto.
Expeliu o ar para fora de seus pulmes, ento estremeceu novamente.
Tomou outro gole profundo do conhaque e engasgou. Os olhos de Roarke se
estreitaram. Puxou da memria um retrato de Mathias: jovem, vido, cabelos
vermelhos e cobertos de sardas. Um perito da eletrnica com especialidade
em astronomia.
- Onde, Carter? Como aconteceu?
- Pensei que devia falar com voc, imediatamente. - agora havia dois
crculos vermelhos que marcavam as bochechas de Carter - Vim diretamente
falar com voc...e sua esposa - Pensei, j que ela  uma policial... poderia
fazer algo.
- Voc precisa um policial, Carter?  Eve pegou o copo de bebida da mo
instvel do homem. - Porque voc precisaria de uma policial?
- Eu acho que... ele deve ter...se suicidado, tenente. Estava pendurando
l, apenas pendurando l na luz do teto da entrada do living. E seu rosto... Oh,
Deus! Oh Jesus!
Eve deixou Carter que enterrava seu prprio rosto entre as mos e virouse
para Roarke.
-Quem  a autoridade no local para algo assim?
- Possumos uma segurana padro, a maioria dela automatizada 
Inclinou a cabea em aceitao - Eu diria que  voc, tenente.
- Certo, veja se voc consegue alguns equipamentos para mim Eu vou
precisar de algo para registrar... um gravador de som e vdeo...Alguns papis
filmes transparentes, sacos da evidncia, pinas, um par de escovas
pequenas.
Deixou a respirao sair em um silvo enquanto passava as mos pelos
cabelos. Ele no teria o equipamento que informaria com exatido a
temperatura do corpo e o horrio da morte.
No haveria nenhum equipamento de varredura, nenhum aspirador,
nenhuns dos produtos qumicos padres de medicina forense que carregava
habitualmente. Eles teriam que improvisar.
- H um mdico, certo? Chame-o. Ter que permanecer aqui dentro. Eu
irei me vestir.
A maioria dos tcnicos usava as alas terminadas do hotel como moradia.
Carter e Mathias tinham aparentemente se dado bem o bastante para
compartilharem uma sute com dois quartos espaosos durante sua temporada
na estao.
Enquanto se deslocavam para o dcimo andar, Eve entregou a Roarke
uma agenda porttil.
- Sabe como usar isso?
Roarke arqueou as sobrancelhas. O produto fora fabricado por uma de
suas industrias.
- Eu penso que posso faze-lo.
- timo.  ofereceu-lhe um sorriso fraco. - Voc ser o meu assistente.
- Voc consegue nos acompanhar, Carter?  perguntou.
- Sim.  mas ele saia do elevador para o corredor do dcimo andar como
um bbado que tentava passar no teste de competncia. Teve que limpar as
mos suadas duas vezes nas calas antes de iniciar a leitura da palma da mo
no scaner.Quando a porta deslizou se abrindo, recuou.
- No achei que voltaria aqui to cedo.
- Fique aqui ento. - disse - Eu posso precisar de voc. - entrou.
O brilho das luzes era ofuscante, estavam em seu nvel total. A msica
ressoava das unidades da parede: Um rock pesado e discordante com um
vocalista que berrava fazendo que Eve se lembrar de sua amiga Mavis. O
assoalho fora coberto com um azul caribenho oferecendo a iluso de andar
sobre as guas. Ao longo das paredes norte e sul, bancadas de computadores
foram fixadas. Um estao de trabalho, sups, providas de todas as classes de
placas, microchips e ferramentas eletrnicas. Viu as roupas empilhadas no
sof, os culos de realidade virtual repousavam sobre a mesa do caf com trs
garrafas da cerveja asitica - duas delas, agora, achatadas e prensadas pela
mquina recicladora - e uma tigela de bolinhos temperados. E viu o corpo nu
de Drew Mathias que balana suavemente de um n improvisado feito de
lenis e amarrado a um brilhante cristal azul Chandelier.
- Ah, inferno.  suspirou - Quantos anos ele tinha, Roarke? Vinte?
- No muito mais do que isso.  Roarke apertou os lbios enquanto
observava a face jovem do rapaz.- Estava roxa agora, os olhos esbugalhados e
a boca congelada em um sorriso repugnante. Algum cruel capricho da morte
tinha deixado aquele sorriso.
- Tudo certo. Iremos fazer o que pudermos.
Dallas, tenente Eve, NYPSD, responsvel, estando dentro das
propriedades autorizadas do interespao, at entrarmos em contato e possam
chegar at aqui autoridades pertinentes. Morte suspeita, desacompanhada.
Mathias, Drew, Resort Olympus, quarto trinta e seis, 1 de agosto, 2058.
- Eu quero desce-lo. - Roarke disse.
No devia t-lo surpreendido como rapidamente e sem aviso prvio,
passara de esposa para policial.
- Ainda no. No vai fazer nenhuma diferena agora, e eu preciso da cena
gravada antes que qualquer coisa seja tirada do lugar.  voltou-se para a
entrada. - Voc tocou em algo, Carter?
-No. - esfregou as costas da mo sobre sua boca.  Eu apenas abri a
porta, como agora, e entrei. Eu o vi assim que entrei. Voc... voc tambm o
viu. Eu suponho que estava ali h um minuto. Estava l. Eu soube que estava
morto. Vi em seu rosto.
- Por que voc no vai para o quarto? - gesticulou  Voc pode descansar
um tempo. Chamarei se precisar de voc.
- O.K.
- No chame mais ningum. - ordenou.
- No, no eu no chamarei ningum.
Fechou a porta e voltou-se.
Seu olhar se deslocou para Roarke, e ali ficou por alguns instantes. Sabia
que ele estava pensando, assim como ela, que havia poucos- como ela que
no conseguiam escapar dos contra-tempos.
- Vamos comear do comeo - disse-lhe.
Captulo 2
O nome do doutor era Wang, e era velho, como a maioria dos mdicos em
projetos fora dos planetas. Poderia ter se aposentado aos noventa, mas como
outros de sua famlia, tinha escolhido viajar de locaes em locaes,
atendendo os arranhes e escoriaes, receitando drogas para os que ficavam
doentes no espao ou devido ao contrapeso da falta de gravidade,
ocasionalmente trazia um beb ao mundo e fazia requerimentos de
diagnsticos. Mas sabia diagnosticar um morto quando via um.
- Morto. - sua voz era rouca, fraca extica. Sua pele era amarelada e
enrugada como um mapa velho. Seus olhos eram pretos, em forma de
amndoas. Sua cabea era lustrosa e lisa, emprestando a aparncia de uma
esfera de bilhar antiga, uma tanto quanto golpeada.
- Sim, eu diria que bastante.  Eve esfregou os olhos. Nunca tinha
conhecido um mdico do espao, mas ouvira falar sobre eles. No se
importavam de ter sua agradvel rotina interrompida  D-me  causa e a hora
da morte.
- Estrangulamento. - Wang bateu um dedo longo de encontro s marcas
roxas na garganta de Mathias.  Auto-induzido. Momento de morte eu diria
entre dez e onze da tarde, neste dia, neste ms, neste ano. - ofereceu um
pequeno sorriso.
- Obrigada, doutor. No h nenhuns outros sinais da violncia no corpo,
assim eu estou inclinada a concordar com seu diagnstico da morte autoinduzida.
Mas eu quero os resultados de uso de droga. Temos que saber se ele
foi induzido quimicamente. Voc tratou o morto para alguma coisa?
- Eu no posso dizer, mas ele no me parece estranho. Eu tenho seus
registros, naturalmente. Ele deve ter vindo para o exame padro quando
chegou.
- Eu vou quere-los tambm.
- Farei o meu melhor para satisfaze-la, Sra. Roarke.
Eve estreitou os olhos.
- Dallas, Tenente Dallas. Ponha pressa nisso, Wang. - olhou para baixo,
para o corpo outra vez. Homem pequeno, pensou, franzino, plido. Morto.
Franziu seus lbios, estudando seu rosto. Como policial j vira o que estranhos
truques da morte, particularmente mortes violentas, podiam fazer com as
expresses, mas nunca tinha visto semelhante coisa. Olhos arregalados, um
sorriso aberto. Aquilo lhe dava calafrios. Um desperdcio, um desperdcio
pattico de uma vida to nova feito de forma insuportavelmente sombria.
- Anlise seu exame, Wang. E depois me mande os relatrios. Pode
mandar os relatrios para o tele-link em minha sute. Preciso dos nomes dos
parentes mais prximos.
- Certamente. - sorriu para ela. - Tenente Roarke.
Sorriu de volta, mostrando seus dentes e no disposta a jogar aquele
velho jogo. Permaneceu de p com as mos sobre os quadris enquanto Wang
dirigia-se aos seus dois assistentes para que transportassem o corpo.
- Voc achou divertido - resmungou para Roarke.
Ele piscou cheio de inocncia.
- Como?
- Tenente Roarke.
Roarke tocou em sua face porque necessitou faze-lo.
- Por que no? Ambos podemos usa-lo como um alvio cmico.
- Claro, seu Dr. Wang est rindo h minutos. - observou o mdico saindo
junto do rapaz morto em uma maca-Como odeio isso! Fico puta de raiva com
algo assim!
- No  um nome to ruim.
- No. - quase riu enquanto friccionava as mos contra sua face.  No 
isso. Um menino. Um menino que joga fora seus prximo cem anos de vida.
Que coisa sem propsito!
- Eu sei.  a girou para massagear seus ombros. Voc est certa que 
um suicdio?
- Nenhum sinal de luta. No h marcas no corpo.  deu os ombros sob
suas mos. - Eu entrevistarei Carter e conversarei com alguns funcionrios,
mas pelo que vi, Mathias veio para casa, ligou as luzes e o som. Bebeu duas
cervejas, talvez tenha usado os culos de realidade virtual e comeu alguns
bolinhos temperadas. Ento foi l dentro, tirou os lenis de sua cama, fez uma
corda, formando um n muito preciso, profissional. - Olhou em volta si para
fixar a cena na mente.- Retirou sua roupa, jogou-a de lado. Subiu na mesa.
Voc pode ver pela mancha de ps. Amarrou a corda  iluminao e deu um
puxo ou dois para ver se era seguro. Ento deslizou sua cabea para dentro
do n e usou o tele-controle para levantar o suporte sufocando a si mesmo at
a morte.- mostrou o tele-controle que j guardara como evidncia.
- No foi rpido.  uma subida lenta, no seria o bastante para lhe dar
uma morte mais agradvel, como uma garganta quebrada, mas ele no
tentou recuar, seu propsito continuou inalterado. Se ele tivesse desistido
poderamos notar marcas de unhas em sua garganta na tentativa de se libertar.
As sobrancelhas de Roarke uniram-se.
- Mas este no seria um gesto instintivo?
- Eu no sei. Eu diria que depende da vontade que ele tinha de morrer. E
o motivo. Poderia ser usurio de drogas. Logo saberemos o suficiente. Uma
certa mistura de reagentes qumicos. A mente no reagiria  dor. Pde mesmo
t-la apreciado.
- Eu no negarei que pode ter drogas ilegais circundando por aqui. 
impossvel regular e supervisionar hbitos e escolhas pessoais de cada
membro da equipe de funcionrios. - Roarke deu os ombros, franzindo as
sobrancelhas.  Mas Mathias seria uma surpresa para mim se fosse um
usurio ilegal, na verdade seria surpreendente at que fosse um usurio.
- Pessoas so uma surpresa constante,  sempre um deslumbramento
saber o que eles bombeiam dentro de sua circulao sangunea.- Eve levantou
seus prprios ombros por sua vez. - Darei inicio a uma investigao padro
para entorpecentes e verei o que posso conseguir de Carter.- deslizou sua mo
pela nuca masculina - Por que voc no relaxa e dorme um pouco?
- No, eu ficarei com voc. - disse antes que ela pudesse argumentar, -
Voc me designou como auxiliar.  deu-lhe um pequeno sorriso.
 Todo ajudante que se preze saberia que preciso de um caf.
- Ento verei se tenho algum. - Roarke moldou seu rosto entre as mos.
Eu pretendia que voc mantivesse um tempo afastado disso.  ento a deixou
para ir em direo a cozinha adjacente para ver seu caf.
Eve entrou no quarto. As luzes eram fracas e Carter estava sentado em
um lado da cama, com a cabea entre as mos. Aprumou-se quando a ouviu
entrar.  Relaxe Carter, eu ainda no o deterei como suspeita  quando viu sua
face empalidecer sentou-se ao seu lado - Humor negro, mal de policiais.Terei
que gravar nossa conversa, algum problema?
- No. - engoliu em seco. Tudo bem.
- Tenente Eve Dallas, entrevista com Carter. Diga-me seu nome todo,
Carter.
-Jack. Jack Carter.
- Jack Carter. A respeito da morte, sem testemunhas, de Drew Mathias.
Voc compartilhava a sute trinta e seis com o morto, confirmado?
- Sim. Por cinco meses. ramos amigos.
- Esta noite. Diga-me aproximadamente a que horas chegou na sute.
- No sei ao certo. Suponho que j era meia noite e meia Eu tinha um
encontro. Estou vendo algum. Lisa Cardeaux  uma das paisagistas. Ns
pretendamos verificar o complexo de entretenimento. Eles esto passando um
filme novo, l. Depois disso, ns fomos ao Clube Arena. O complexo  aberto
aos funcionrios. Bebemos alguns drinques e escutamos algumas msicas.
Como teramos um dia muito ocupado amanh, no permanecemos at tarde.
Eu a levei at o quarto - deu um sorriso fraco - Tentei convence-la a me deixar
entrar com ela, mas ela no quis nem falar do assunto.
- Certo, assim que recebeu um fora de Lisa, voc veio para a casa
imediatamente?
- Sim. Deixei-a nos bangals e subi. Ela gostava dos bangals.Gostava de
morar ali. No gostava dos quartos do hotel. Foi isso que me disse. Depois de
alguns minutos nas passarelas deslizantes estava aqui.- respirou
profundamente, friccionou uma das mos sobre seu corao como se tentasse
acalma-lo - Drew havia fechado a porta. Sempre teve preocupao com isso.
Alguns da equipe no vem problema em deix-la aberta quando h algum
dentro do quarto, mas Drew tinha muito cime do equipamento e tinha parania
que algum pudesse toc-lo.
- O scaner de mo  codificado apenas para vocs dois?
- No.
- Certo, continue.
- Eu o vi. A certa distncia, foi quando fui atrs de voc.
- Ah certo. Qual foi a ltima vez que o viu vivo?
- Esta manh. - Carter esfregou os olhos, tentando visualizar a cena -
Luz, alimento, uma conversa normal  Fizemos um rpido lanche.
- Como ele estava? Estranho? Deprimido?
- Ah no. - os olhos de Carter se animaram pela primeira vez  Pelo que
me lembro ele estava timo. Estava muito bem. Estava rindo com todos e
gracejando sobre eu e Lisa. Por que no tenho- voc sabe  tido muita sorte.
Ns provocvamos um ao outro, uma merda amigvel. Eu respondia que ele
no conseguia nada a tanto tempo que no saberia se isso acontecesse. E que
trouxesse uma mulher e sasse conosco para aprender como  que se faz.
- Ele estava saindo com algum?
-No. Falava sempre de uma tal Baby que estava se relacionando com
ele. No estava na estao. A Baby, como ele a chamava. Ele iria usar sua
prxima folga para lhe fazer uma visita. Disse que ela tinha tudo, crebro,
beleza, corpo e um vigor para o sexo que no tinha fim. Por que ele se
contentaria com um rascunho quando podia ter a obra de arte?
- Voc no sabe seu nome?
- No. Era apenas a Baby. Para ser honesto, eu estranho a escolha. Drew
no era um homem que chamaria a ateno das Babys. E era tmido com as
mulheres e se realizava com jogos e seus brinquedos eletrnicos. Estava
sempre trabalhando em algo.
- O que sabe sobre outros amigos?
- No tinha muitos. Era quieto em meio a muitas pessoas, introvertido,
voc sabe.
- Usava produtos qumicos, Carter?
- Certamente, seu estimulante padro de todas as noites.
- Ilegais, Carter. Usava?
- Drew? - Seus olhos cansados arregalaram-se  De nenhuma maneira.
Absolutamente, nenhuma maneira. Era um tipo careta e certinho. No mexia
com ilegais, tenente. Tinha uma mente boa e queria mant-la deste modo. E
queria manter seu trabalho e desenvolve-lo. Era apenas um gentil de merda.
Fazia seu trabalho e batia o ponto.
- Tem certeza que saberia se ele resolvesse experimentar?
- Voc sabe como so essas coisas quando se convive com algum por
cinco meses - os olhos de Carter ficaram tristes outra vez. - ...voc comea
acostumar-se a ele, hbitos e tudo mais. Como eu disse, ele no se
relacionava com muitas pessoas. Era mais feliz sozinho, junto com seu
equipamento, mergulhando em seus programas de jogos.
- Um introvertido ento.
- Sim, era o seu jeito. Mas no era perturbado, nem depressivo. Ele
sempre ficava dizendo que estava fazendo algo grande, um novo brinquedo.
Tinha sempre um brinquedo novo.- Carter murmurou.  Dizia que aquela
semana iria fazer uma fortuna que faria Roarke ter inveja de seu dinheiro.
- Roarke?
- No queria dizer nada com isso - Carter disse rapidamente, defendendo
o morto. - Voc tem que entender que, Roarke, para a maioria de ns... ele 
como um diamante, sabe? Duro e frio. Nadando e dinheiro, vestindo-se com
elegncia, grandes investimentos, poderoso, uma nova esposa sexy.  parou
enrubescendo - Desculpe-me.
- No se preocupe.  iria decidir mais tarde se era divertido ou chocante
que um menino que mal completara vinte anos a considerasse sexy.
-  apenas o que muito de ns tcnicos  bem, a maioria deles  almeja.
Roarke era seu exemplo. Drew o admirava. Tinha ambies, Sra...tenente.
Tinha objetivos e planos. Porque faria isto? - De repente seus olhos encheramse
de lgrimas - Porque faria isto?
- Eu no sei, Carter. s vezes nunca saberemos o porque... - o conduziu
de volta a conversa, guiando-lhe para que tivesse um retrato bastante claro de
Drew Mathias.
Uma hora depois no havia mais nada que tivesse de ser acrescentado ao
relatrio para quem quer que o transportasse e fechasse o caso. Inclinou-se
recostando na parede de vidro do elevador enquanto ela e Roarke voltavam a
cobertura.
- Penso que seria melhor se ele dormisse em outro quarto. Para que
dormisse melhor esta noite.
- Dormir bem se usar os tranqilizantes. E voc? Dormira bem?
- Claro - entrou no corredor, esperando que Roarke desacoplasse as
travas de segurana da sute.  O retrato que eu tenho dele  de um homem de
inteligncia mediana e com altas aspiraes. Receoso de mulheres reais. Feliz
em seu trabalho- deu os ombros- No havia ningum em seu quarto. Nenhuma
ligao do tele link, nenhum e-mail recebido ou emitido, nenhuma mensagem
gravada. A segurana da porta foi ativada s 16 horas por Mathias e
desativada s 23 horas por Carter. No houve visitantes, ningum saiu. Ficou
apenas l de noite, pendurado.
- No  um homicdio.
- No...no  um homicdio. Isso  o melhor. Quer saber o pior? Ningum
para responsabilizar. Ningum para punir. Apenas um morto. Uma vida
desperdiada.- virou-se de repente envolvendo-lhe em seus braos.
- Roarke, voc mudou minha vida.
Surpreendido, baixou seu seus olhos para os dela. Os olhos no estavam
molhados, mas secos, ferozes e irritados.
- O que  isto?
- Voc mudou minha vida, - repetiu. - Ao menos parte dela. Eu estou
comeando a ver que  a mais melhor parte dela. Eu quero que saiba disso. Eu
quero que recorde disso, quando as coisas comearem a ser deixadas para
trs e estabelecermos uma rotina. Se eu esquecer ou deixar de saber, o que
sinto ou penso, ou quanto voc me significa.
Tocado pressionou os lbios em sua testa.
- Eu no a deixarei esquecer. V dormir. Voc est cansada.
- Sim estou.- deslizou as mos por sua nuca enquanto alcanavam o
quarto. Restavam menos de quarenta e oito horas. No deixaria que uma
morte intil atrapalhasse o fim de sua lua de mel.
Inclinou sua cabea, os olhos brilhantes.
- Voc sabe. Carter me acha sexy.
Roarke parou. Estreitou os olhos.
- Como?
Oh! Amava aquela voz de irlands arrogante.
- E voc  frio.- continuou percorrendo-lhe a cabea e ombros rgidos
enquanto desabotoava sua camisa.- E duro. Como um diamante.
- Ah...sou? Realmente?
- Voc  um diamante bruto...E  muito invejado. E parte da razo pela
qual voc  invejado, se esta interessado em saber,  o fato de sua nova
esposa ser sexy.
Despida da cintura para cima, sentou-se na cama e jogou fora seus
sapatos. Lanou um olhar glacial sobre ele e o viu fechar os punhos dentro dos
bolsos e sorrir.
Seus lbios curvaram-se tambm. Sentiu muito bem em sorrir.
- Ento homem frio e bruto  Arqueou um das sobrancelhas  O que
pretende fazer com sua nova esposa sexy?
Roarke passou a lngua sobre os lbios e deu um passo a frente.
- Porque eu no demonstro?
...............................
Achara que seria melhor daquela vez, pensou, enfrentando a viagem de
volta, sendo arremessada atravs do espao como uma bolinha em um
estilingue. Estava errada. Discutira, usando razes muito lgicas, por que no
queria entrar no transporte particular de Roarke.
- No quero morrer.
Ele apenas rira encarando seus olhos estreitos e em seguida a pegara no
colo e carregara para a plataforma.
- Eu no vou ficar aqui - seu corao batia como um louco quando pisou
na cabine da nave.- Estou falando srio...ter que me bater para que eu fique
nesta mortal armadilha voadora.
- Mmm-hmm.  escolheu uma cadeira larga e cncava forrada de couro
preto, conservou-a em seu colo e num gesto rpido fechou as correias,
prendendo seus braos para limitar qualquer represaria.
- Ei! Pare!- apavorada se debateu, forou as tiras e o amaldioou-Deixeme
sair daqui! Deixe-me sair!
O traseiro de Eve se agitando em seu colo lhe dava uma slida idia de
como pretendia passar as horas seguintes ao lanamento.
- Retire-as assim que tivermos nos distanciado.- Roarke requisitou ao
piloto e ento ao assistente de vo  Ns no vamos necessitar de seu servio
por enquanto. E travou a porta da cabine no momento que a assistente de
bordo saiu discretamente.
- Eu vou fazer voc pagar por isso -prometeu.
Quando ouviu o barulho das turbinas dos motores e sentiu a vibrao
fraca sobre seus ps sinalizando uma decolagem iminente, considerou
seriamente rasgar as tiras que a prendiam com os dentes.
-Eu no estou fazendo isso. Eu no estou fazendo isso. Diga-lhe para
abortar.
- Tarde demais.- envolveu seu corpo com os braos, esfregando o nariz
em sua garganta-Relaxe Eve, voc est mais segura aqui do que estaria
dirigindo em Mistow.
- Oh Cristo!  fechou os olhos com fora quando um rugido estrondoso
partiu do motor. A nave pareceu disparar em linha reta e para cima, deixando
seu estmago em terra firme. Foi jogada para trs, de encontro a Roarke.
Sentiu falta de ar o que era anormal naquele momento da viagem e percebeu
que a presso em seu peito era causada por sua respirao presa. Soltou o ar
e ofegou como um mergulhador que imerge de uma grande profundidade.
Ainda estava viva. E aquilo era algo bom. Agora teria que mat-lo. Ento
percebeu que, alm de no estar mais presa, sua camisa estava desabotoada
e mos estavam em seus seios.
- Se voc pensa que faremos sexo depois que voc...- girou o corpo
parcialmente para enfrent-lo. Viu o brilho do humor passar rapidamente em
seus olhos antes dele fechar os lbios sobre seu mamilo.- Bastardo - mas ela
riu com o prazer tomando conta de seu corpo.
E ela envolveu sua cabea com as mos incitando-o. Nunca imaginara
que um dia poderia sentir tanto prazer. Aquelas inundaes selvagens de
prazer, o deslize lento e excitante contra ela. Moveu-se de encontro a ele,
deixou-se esquecer de tudo o mais a no ser a maneira que seus dentes se
fechavam com delicadeza sobre o mamilo enquanto sua lngua o acariciava.
Assim, foi ela que o puxou para o tapete grosso e macio e foi ela que arrastou
sua boca at a dela.
- Dentro de mim - enfiou as mos por sua camisa querendo sentir a rigidez
e calidez dos msculos sobre as mos.- Eu o quero dentro de mim!
- Ainda temos horas pela frente.- mergulhou em seus seios de novo,
assim, pequenos e firmes. Aquecendo-os com as mos - Eu preciso prov-la.-
o tempo todo. Era uma mistura to extica de sabores...da boca a garganta, da
garganta para os seios. Provou com calma, ternura, delicadeza e com uma
concentrao focalizada no prazer mtuo. Sentiu-a comear tremer sob sua
mos e boca. Deixava um rastro de umidade  medida que descia os lbios por
sua barriga, facilitando seu caminho para baixo, mordiscando-a de leve entre
as coxas. Sua lngua a tocando l, fazendo-a gemer. Suas coxas arqueadas
para ele enquanto ele as envolvia, levantando-as, abrindo-as. Quando a lngua
deslizou preguiosamente em seu calor, sentiu o primeiro rasgo do orgasmo.
- Mais - vida agora, devoradora. Deixava-o ir para onde ningum mais
tinha ido, ele sabia. Perder-se-iam juntos. Quando estremeceu, quando as
mos relaxaram sobre o tapete, ele deslizou acima de seu corpo, em sua
direo. Unido-os. Os olhos vibraram abrindo e se encontraram com os dele. A
concentrao foi o que viu l. Controle absoluto. Quis, necessitou destru-la, a
conhecia e sabia que podia destru-la.
- Mais.- insistiu, circundando suas pernas em torno de sua cintura para
fazer a penetrao ser mais profunda. Viu o brilho em seus olhos e a
necessidade pungente e escura que vivia dentro dele e, puxando sua boca
para a dela, raspando seus dentes sobre aqueles belos lbios masculinos,
moveu-se sob ele. Ele afundou suas mos em seus cabelos, sua respirao se
tornando mais rpida enquanto se forou dentro dela, mais duro, mais rpido,
at que pensou que o corao explodiria por sua ferocidade. Acompanhou-o
arremetida por arremetida, presso por presso, aqueles pequenos golpes
curtos, empurrando suas pernas para trs, seus ombros, suas coxas.
Pequenas mordidas deliciosas de dor. Sentiu vim outra vez, a contrao
violenta de seus msculos que deslizavam sobre ele como a glria. Outra vez.
Era tudo o que podia pensar. Repetidas vezes, outra vez, A golpeava engolindo
os pequenos gritos e gemidos excitados da carne que ia de encontro  carne.
Sentiu-se fora do corpo novamente, subindo para o pico. Gemendo baixinho,
os lbios deslizando atravs de sua garganta, pressionado seu rosto contra
seus cabelos e com uma investida final esvaziou-se em seu interior.
Desmoronou contra ela. Sua mente confusa e seu corao trovejando.
Estava mole como a gua abaixo dele, mas seu corao quase pulava para
fora do peito.
- Ns no podemos manter esta rotina  falou aps um momento.  Ns
nos mataramos.  deu um riso arquejante.
- Morreremos felizes, em todo o caso. Eu tinha pretendido um bocado
mais romance. Algum vinho e msica para a nossa despedida de lua de mel -
levantou sua cabea, sorrindo para ela  Mas era muito trabalho.
- Isso no significa que eu no esteja puta da vida com voc.
- Naturalmente. Ns tivemos algum de nossos melhores momentos
quando voc puta da vida comigo  segurou seu queixo e acariciou com a
lngua seus lbios  Eu a adoro, Eve  quando estava ajustando-se a aquilo,
como sempre, ele rolou para o lado e andou nu at um console espelhado
entre duas cadeiras. Colocou sua palma l e esse deslizou.
- Eu tenho algo para voc.
Eve olhou a caixa de veludo com suspeita.
- Voc no tem que dar presentes. Voc sabe que eu no os quero.
- Sim. A deixa incomodada e inquieta- sorriu- Talvez seja por isso que eu
o fao  sentou ao seu lado no cho, lhe entregando a caixa - Abra-a.
Imaginou que seria uma jia. Ele parecia adorar enfeitar seu corpo.
Esmeralda, diamantes, cordes de ouro. Mas quando abriu, viu somente uma
flor branca e singela. Como a de seu buqu de casamento, ela lembrou.
-  uma flor?
- Ema petnia.  a encarou, todo sentimental, enquanto a retirava da
caixa. Simples, bsico, ordinrio, uma que pode crescer em todo o jardim. As
ptalas estavam macias e frescas.-  um processo novo em uma das minhas
companhias. Preserva sem mudar a textura. Eu queria t-la. - Fechou as mos
sobre as dela. - Queria que ambos a tivessem para lembrar que algumas
coisas duram.
Levantou os olhos para ele. Ambos tinham vindo da misria, pensou, e
sobreviveram. Tinham sido criados junto com a violncia e a tragdia, e a
tinham superado. Andaram trajetos diferentes e tinham encontrado uma rota
mtua. Algumas coisas duram, ela pensou. Algumas coisas ordinrias. Como o
amor.
Captulo 3
Trs semanas no tinha modificado em nada a central de polcia. O caf
ainda era um veneno e o rudo insuportvel. A vista de sua nfima janela estava
ainda mais miservel.Estava excitada por estar de volta.
Os policiais de sua unidade tinham deixado uma mensagem para esperla.
A vira piscando maliciosamente logo que entrara, em seu monitor. Calculou
que a recebera de seu velho parceiro Feeney, um gnio da informtica, o
agradeceria mais tarde, por contornar seu cdigo.
BEM VINDA DE VOLTA, TENENTE LOVEJOY Hubba-hubba.
Hubba-hubba? Bufou disfarando um sorriso. Um humor infantil, sem
dvida, mas que a fez se sentir em casa. Olhou de relance para a baguna
sobre a mesa. No havia sobrado tempo algum para arrum-la entre o
inesperado fechamento do caso, durante sua despedida de solteira, e o dia de
seu casamento.
Entretanto notou o disco ordenadamente selado e competentemente
etiquetado sobre sua pilha de trabalho antigo. Obra de Peabody, concluiu.
Deslizando disco dentro da unidade, praguejou e golpeou o driver para tentar
cessar o rudo que emitia. Viu que Peabody, sempre de confiana, tinha escrito
o relatrio de apreenso, arquivado e registrado corretamente. No deveria,
Eve concluiu, ter sido fcil para ela. No quando compartilhara a cama com o
acusado. Olhou novamente para as pilhas de papis sobre a mesa e fez uma
careta. Podia ver que teria vrios compromissos na corte e estaria mergulhada
nisso por alguns dias.
A Malabarismo que tivera que fazer para acomodar o pedido de Roarke,
de trs semanas de afastamento, tinha um preo. Era hora de pag-lo.
Bem, ele tambm fizera um grande malabarismo, lembrou-se. E agora
era hora de voltar ao trabalho e a realidade. Rather tinha revisto os casos que
ela devia testemunhar, ligou seu tele-link e puxou uma pesquisa pela oficial
Peabody. O rosto srio e familiar, com um capacete preto na cabea apareceu
no centro de seu monitor.
- Senhor. Bem vinda de volta ao trabalho.
- Obrigada Peabody. Meu escritrio, por favor. O mais rpido possvel.
Sem esperar resposta, ela desligou a unidade com um sorriso no rosto.
Sabia que Peabody tinha sido transferida para a diviso de homicdio.
Agora ela pretendia ir um pouco mais longe. Ela ligou o tele-link novamente.
- Tenente Dallas. O comandante est livre?
- Tenente - a secretria do comandante aparece na tela - Como foi sua lua
de mel?
- Muita boa - ela percebeu o rpido fluxo de calor que se irradiou no olhar
da mulher. O hubba hubba devia t-la divertido. Aquele olhar sonhador a fez
querer se retorcer na cadeira.
- Obrigada.
- Voc era uma linda noiva, tenente. Eu vi sua foto em diversos canais de
eventos e os canais de fofocas estavam repletos delas. Ns vimos algumas
imagens sua em Paris, tambm. Eu achei muito romntico.
- Sim - Era o preo da fama, Eve pensou.- Foi agradvel...E o
comandante?
- Oh, claro. Um momento, por favor.
Enquanto a unidade zunia Eve rolou os olhos. Poderia aceitar o fato, mas
nunca apreci-lo.
- Dallas - o sorriso do comandante Whitney era falsamente largo e parecia
forar a cara escura. - Voc est com...uma tima aparncia.
- Obrigada, senhor.
- Divertiu-se na lua de mel?
Cristo. ela pensou, quando algum iria perguntar se ela se divertira sendo
fodida em torno do mundo e dentro de uma nave espacial?
- Sim, senhor.
- Suponho que voc j tenha lido o relatrio de Peabody a respeito do
fechamento do caso Pandora.
- Sim, muito completo. A promotoria quer dar pena mxima para o Casto.
- Voc chegou bem perto desta vez, Tenente.
Ela tinha noo de quanto perto chegara. No apenas perder o dia de seu
casamento, mas tambm o resto de sua vida.
- Este tipo de coisa queima a imagem da polcia, comandante.- ela disse -
Eu sai apressada comandante e tive tempo apenas para pedir que Peabody
fosse transferida para esta unidade. Sua ajuda neste caso e em outros foi bem
valiosa.
- Ela  uma boa policial - Whitney concordou.
- Eu concordo. E eu tenho um pedido comandante.
Cinco minutos depois, quando Peabody entrava em seu escritrio, Eve
estava inclinada para trs em sua cadeira, fazendo varredura de dados em seu
monitor.
- Tenho que estar na corte em uma hora - disse sem preliminares - No
caso Salvatore. O que voc sabe sobre isto, Peabody?
- Vito Salvatore est sendo acusado de vrios assassinatos, com a
circunstncia adicional de tortura. Ele , segundo dizem, distribuidor de
substncias ilegais e est sendo acusado de matar trs outros conhecidos
negociantes de Zeus e TRL. As vtimas foram queimadas vivas em uma
pequena casa em Lower East Side, inverno passado. Depois seus olhos e suas
lnguas foram rancados. Voc tem esta preliminar.
Peabody recitou a data de morte enquanto ela prestava ateno no seu
uniforme impecavelmente passado e limpo.
- Muito bom, oficial. Voc leu meu relatrio de apreenso sobre o caso?
- Sim tenente. Eu li.
Ele notou o nibus areo passar por sua janela, fazendo um barulho
infernal e deslocando o ar.
- Ento voc sabe que antes de eu conter Salvatori, eu quebrei o brao
esquerdo dele na regio do cotovelo, sua maxila, e ainda o aliviei de diversos
dentes. Seus advogados esto tentando me pegar por fora excessiva.
- Eles no tinham muito tempo, senhor, de modo que ele estava tentando
queimar a construo quando voc o encurralou. Se voc no o tivesse
restringido atravs de todas as maneiras possveis, ele teria sido frito. Pode-se
se falar assim.
- Ok. Peabody. Eu tenho vrios outros desses at a semana terminar. Eu
preciso de todos os meus casos transferidos e condensados para minha
agenda. Voc pode me encontrar com os dados requeridos em trinta minutos
na sada leste.
- Senhor, eu estou em trabalho. O detetive Croach me designou para dar
baixa em alguns arquivos antigos.- somente o leve desdm em sua voz indicou
o que Peabody sentia sobre Croach e a inferior atribuio.
- Deixe que eu lido com Croach. O comandante aceitou meu
requerimento. Voc est designada para mim,agora. Portanto deixe de lado
qualquer que seja o trabalho que atiraram para cima de voc e comece a
trabalhar de verdade aqui.
Peabody piscou.
- Designou-me para voc, tenente?
- Seus ouvidos sofreram algum dano enquanto estive ausente?
- No senhor, mas...
- Voc tem alguma coisa com o Croach? - Eve se deleitou em ver a boca
da sria Peabody abrir-se chocada.
- Voc est brincando? Ele ...- travou-se endurecendo o corpo - Ele nem
mesmo  meu tipo, tenente. Acredito que eu tenha aprendido minha lio sobre
relacionamentos romnticos no trabalho.
- No se torture em excesso por aquilo, Peabody. Eu gostava de Casto,
tambm. Aquele trabalho foi um inferno e voc o fez muito bem.
Ajudou ouvir, mas a ferida ainda estava muito recente.
- Obrigada, Tenente.
- Este  o motivo pelo qual eu estou atribuindo este trabalho a voc, com o
meu permanente apoio. Voc quer o distintivo de detetive, oficial?
Peabody sabia o que estava sendo oferecido a ela: uma oportunidade, um
presente como nenhum outro. Ela fechou seus olhos por um momento at que
pode controlar sua voz.
-Sim senhor, eu quero.
- Bom, voc ir trabalhar como nunca para isso. Comece com os dados
que eu requeri e ande com isso.
- Agora mesmo, senhor. - na porta, Peabody parou e voltou-se - Eu queria
agradecer pela chance que voc est me dando.
- No faa. Voc mereceu. E se voc fracassar, eu a farei trabalhar no
trfego - ela sorriu docemente - Trafego areo.
................................
Testemunhar na corte marcial era parte de seu trabalho, assim como, Eve
lembrou a si mesma, relacionar-se com doninhas de classe altas como S.T.
Fitzhugh, advogado de defesa. Ele era escorregadio e habilidoso, um homem
que defendia os criminosos de mais baixo nvel, mas que possuam dinheiro o
bastante para sustent-lo.
Seu sucesso era devido a reis da droga, assassinos e molestadores que
pagavam para se livrar das algemas da lei. Devido a eles, o advogado tinha
recursos para os ternos coloridos e sapatos feitos a mo.
Era uma figura arrojada na sala de audincia, sua pele de chocolate
derretido era um fino contraste com as cores leves que ele habitualmente
vestia. Sua face alongada e simptica, era lisa como a seda do forro de sua
jaqueta. Graas aos tratamentos pelo qual era submetida de trs em trs
semanas no Adonis, um salo exclusivo para homens freqentado pela elite
na cidade. Sua figura era aprumada, de quadris estreitos e ombros largos e sua
voz era de bartono, profunda e rica como a de um cantor de pera. Cortejava a
imprensa e se socializava com a elite da criminalidade, possua seu prprio jato
particular.
Era um pequeno prazer para Eve despreza-lo.
- Deixe-me tentar dar um claro retrato do que aconteceu com meu cliente,
tenente- Fitzhugh levantou as mos juntando seus polegares para dar a forma
de uma moldura - Um quadro claro das circunstancias que a conduziram a
atacar meu cliente em seu lugar de negcios.  O advogado prosseguiu
objetivo. Fitzhugh parafraseava graciosamente- Voc, tenente Dallas, causou
em meu cliente um grave dano corporal na noite em questo - Olhou de
relance para trs, para Salvatori, que estava trajando para ocasio um terno
preto e simples.
Depois de aconselhado por seu advogado ele parara seu tratamento
cosmtico e rejuvenescedor por trs meses. Havia tons cinzas em seu cabelo,
e sua face e corpo tinham uma aparncia decadente. Ele parecia velho e
indefeso. O jri devia estar fazendo uma comparao entre a jovem e atltica
policial e a delicadeza do velho homem.
- Mr. Salvatori resistiu a priso e tentou iniciar um incndio. Era necessrio
restringi-lo.
- Restringi-lo?- Fitzhugh falou vagarosamente, voltou-se e encarou o jri
que registrava cada detalhe, moveu-se para baixo do tribunal de jurados,
atraindo uma das seis cmeras automticas com ele , de maneira a focar na
tipia apoiada nos ombros magros de Salvatori.
- Sua restrio resultou em uma fratura mandibular e estilhaou o brao
de meu cliente.
Eve lanou um olhar na direo do jri. Alguns membros do grupo
olhavam com simpatia em demasiada para o acusado.
- Est correto. Mr. Salvatori recusou meu pedido para que sasse da
construo e jogou a tocha de acetileno que estava em suas mos
- Voc estava armada, tenente?
- Estava.
- Voc levava sua arma padro emitida pela polcia de Nova Iorque?
- Sim.
- Se, como voc descreveu, Mr Salvatori estava armado e resistiu, por que
voc no conseguiu administrar-lhe um choque plausvel?
- Eu errei. Mr. Salvatori estava incrivelmente rpido naquela noite.
- Eu entendo. Em seus dez anos na fora policial, tenente, quantas vezes
foi necessrio que empregasse fora bruta? Para matar?
Eve ignorou as borbulhas em seu estmago.
- Trs vezes.
- Trs? - Fitzhugh repetiu, deixou o jri estudar a mulher que
testemunhava sobre a cadeira. Uma mulher que tinha matado pessoas - No 
uma proporo um pouco alta? Voc no poderia dizer qual percentagem
indica uma predileo por violncia?
A promotoria tinha a prerrogativa que as testemunhas nunca estavam em
julgamento, mas era bvio, pensou Eve, que policiais estavam sempre em
julgamento.
- Mr. Salvatori estava armado  ela comeou calmamente - Eu tenho
mandato para sua priso por torturar e matar trs pessoas. Essas trs pessoas
tiveram seus olhos e lnguas arrancados e em seguida foram levadas para
aquele local e queimadas. Por estes crimes, Mr Salvatori est sendo acusado
neste tribunal. Ele recusou-se a cooperar, jogou uma tocha em minha cabea.
O que me deixou tonta. Ele ento me atirou no cho. Eu acredito que suas
palavras foram essas: Eu vou rancar seu corao sua piranha da polcia.
Neste caso, ns policiais, relacionamos este ato com certa indisposio para se
entregar. Neste meio tempo, eu quebrei sua maxila, fazendo saltar diversos
dentes e quando ele jogou a tocha sobre mim eu acertei seu brao, quebrandoo.
- Voc apreciou fazer isso, tenente?
Ela encarou os olhos estreitados do advogado.
- No senhor. Eu no. Mas eu aprecio o fato de estar viva.
......................................
- Parasita - Eve resmungou entrando em seu veculo.
- Ele no ir livr-lo dessa - Peabody se acomodou no interior do veculo
sentido-se como tivesse entrando em uma quente fornalha, imediatamente,
ocupou-se com a unidade de controle da temperatura.- A evidncia  muito
clara. E voc no o deixou que a fizesse fraquejar.
- Sim. Eu sei.- Eve enfiou os dedos entre seus cabelos, dirigindo pelo
trfego vespertino de Midtown. As ruas estavam engarrafadas fazendo-a rilhar
seus dentes. Mesmo no trfego areo, o cu estava cheio de nibus,
caminhonetes lotadas de turistas e viajantes.  Quase morremos para tirar
bastardos como Salvatori das ruas, para homens como Fitzhugh fazer fortunas
para faze-los escapar por entre nossos dedos novamente- deu os ombros - s
vezes fico revoltada com isso.
- Quem quer deslize de nossas mos ns os pegaremos de volta.
Com um meio sorriso, Eve olhou de lado para sua companheira.
- Voc  uma otimista, Peabody. Eu desejo saber por quanto tempo este
otimismo vai durar. Irei fazer uma parada antes de nos registrar - ela disse,
mudando a direo em um impulso - Eu quero tirar o ar da sala de tribunal de
meus pulmes.
- Tenente? Voc no precisava estar na corte hoje. Por que estava l?
- Se voc quer seguir a carreira de detetive, Peabody, voc precisa ver o
contra quem est lutando. No so apenas os assassinos, ladres e
traficantes. So os advogados.
No foi surpresa encontrar as ruas engarrafadas e nenhuma vaga para
estacionar.
Sem hesitar, Eve adentrou em uma vaga ilegal, e ligou as luzes de
servio. Enquanto saia do carro, dava a um trabalhador que estava na
passarela deslizante, um olhar fixo. Ele sorriu piscando atrevido ento se
afastou para arredores distantes e mais propcios.
- Est rea  cheia de trabalhadores, negociantes e prostitutas no
licenciados. - Eve foi falando - Por este motivo eu adoro esse lugar - abriu a
porta e para o Dow and Dirty Club, entrando no ar denso que cheirava a suor,
bebida barata e comida ruim. Os quartos privativos que se alinhavam em uma
parede lateral estavam abertos, deixando o cheiro de sexo ranoso se
espalhar.
Era uma taverna, uma que apreciava ser rstica, no mnimo, e trabalhava
as margens da lei, da sade, e da decncia.
Uma faixa hologrfica focava no palco jogando luzes indiferentes para um
nmero limitado de clientes desinteressados.
Mavis Freestone estava em uma cabine isolada na parte de trs, o cabelo
roxo caindo por suas costas e dois trapos incandescentes drapejados e
prateados sobre seu corpo pequeno e audacioso.
E pela maneira que sua boca se movia e seus quadris se mexiam, Eve
teve certeza que ela estava ensaiando algum dos seus interessantes vocais.
Eve bateu no vidro, esperando que os olhos de Mavis procurassem em
torno de si e pousassem nos seus.
A boca de Mavis, do mesmo roxo abrasador de seu cabelo, alargou-se em
uma expresso de prazer. Deu uma volta rpida e quando empurrou a porta, o
barulho ensurdecedor das guitarras que a acompanhou do interior da cabine
quase explodiram seus tmpanos. Mavis lanou-se dentro de seus braos, e,
embora ela estivesse berrando, Eve capturava somente algumas poucas
palavras sobre o som estrondoso.
- O que?- rindo, Eve bateu a porta fechando-a, sacudiu a cabea onde
ainda soava ecos.- Cristo, Mavis. O que era aquilo?
- Meu nmero novo. Ele vai bater no inconsciente.
- Acredito.
- Voc voltou.  Mavis lhe deu dois espalhafatosos e inevitveis beijos -
Vamos sentar-se ali. Tomaremos uma bebida. Conte-me cada detalhe. No me
esconda nada. Hei, Peabody, voc no est cozinhando neste uniforme?
Arrastou Eve at uma mesa nojenta, e apertou o boto do menu.
- O que voc quer?  por minha conta. Crack est pagando um belo
salrio semanal aqui. Disse que sentiu falta de voc. Estou to feliz de v-la!
Voc tem uma aparncia fabulosa. Voc est radiante. No tem uma aparncia
tima, Peabody? O sexo  uma terapia, no?
Eve riu novamente, sabendo ela vinha ali apenas por isso. Distrao.
- Apenas dois copos de gua gelados, Mavis. Estamos em servio.
- Ah, como se algum aqui fosse denunciar vocs. Desabotoe um pouco
este uniforme, Peabody, estou sentindo calor apenas em olhar para voc.
Como foi em Paris? Como foi nas ilhas? Como foi no resort? Ele fudeu seu
crebro em todos os lugares?
- Lindo, maravilhoso, interessante e sim ele o fez. Como vai Leonardo?
Os olhos de Mavis ficaram sonhadores. Ela sorriu e brincou com o menu
com sua unha prateada.
- Nossa convivncia  maravilhosa. Melhor do que eu pensei que seria.
Ele desenhou este traje para mim.
Eve estudou as finas cintas de prata que cobria parcialmente os seios de
Mavis.
-  assim que voc o chama?
- Eu tenho feito este nmero novo, vejam. Oh, eu tenho tanta coisa para
dizer para vocs!- ela deu um gole na gua fria, agora mexia em um entalhe da
mesa - Eu no sei por onde comear. H este homem, um engenheiro musical.
Ele est trabalhando comigo. Ns estamos fazendo um disco, Eve.Tratamento
completo. Ele est certo que pode vender. Ele  demais, Jess Barrow. Ele
estava bombando h alguns anos atrs com seu prprio material. Talvez voc
tenha escutado falar dele.
- No - Eve pensou que, para uma mulher que vivera nas ruas por uma
boa parcela de sua vida, Mavis, era incrivelmente ingnua sobre certas coisas.-
Quanto est pagando para ele?
- No  o que est imaginando - os lbios de Mavis moveram-se em um
beicinho - Eu estou pagando metade do dinheiro da gravao, certo? E se
tivermos sucesso ele fica com sessenta por cento nos primeiros trs anos,
depois disso renegociamos.
-Eu j ouvi falar dele - Peabody comentou. Ela abriu um boto de seu
colarinho. Um tributo a sua afeio por Mavis - Ele tem um dos maiores hits
dos ltimos tempos, e ele est atado h Cassandra.
As sobrancelhas de Eve arquearam-se enquanto ela erguia os ombros.
- A cantora, voc sabe.
- Voc  uma amante de musicas, Peabody? Voc nunca deixa de me
surpreender.
- Eu gosto de ouvir algumas msicas - Peabody murmurou em um tom
defensivo, parecendo embaraada - Como qualquer um.
- Bem, Cassandra, j  carta fora do baralho - Mavis disse animada - Ele
est procurando alguns novos vocalistas. Assim como eu.
Eve perguntava-se o que outra coisa ele podia estar procurando.
- O que o Leonardo pensa disso?
- Ele acha que  super. Voc precisa ir ao estdio, Eve, nos surpreender
em ao. Jess , um gnio certificado!
Ela intencionava surpreend-lo em ao, sem dvida. A lista de pessoas
que Eve gostava era muito pequena. E Mavis estava nela.
Esperou at ela estar de volta ao carro com Peabody, dirigindo-se para a
Central de Polcia.
- Faa uma procura por Jess Barrow, Peabody.
Sem aparentar surpresa, Peabody removeu sua agenda e obediente
anotou a ordem - Mavis no ir gostar disso.
- Ela no tem que saber.
Eve desviou-se, circulando um carrinho aerodeslizante que oferecia frutas
congeladas em um palito, curvou para Dcima, onde escavadoras automticas
estavam rasgando as ruas novamente. Acima dela um dirigvel ofertava pelas
ruas, a clientes especiais do Bloomingdales: promoo da pr-estao de
inverno dava aos homens, mulheres e afins, vinte por cento de desconto na
compra das roupas. Uma pechincha.
Ela localizou o homem em uma depresso, vestido com o casaco indo a
direo de um trio de meninas pr-adolescentes.
-Merda. Aquele  Clvis.
- Clvis?
- Aqui  seu campo de atividade. Sua rea.- Eve disse simplesmente
desviando-se para o interior de uma zona de carregamento.- Eu costumava
fazer este percurso quando era policial de rua. Ele tem circulando por aqui por
anos. Vamos nos aproximar Peabody, e poupar aquelas meninas.
Pisou no acelerador, contornando dois homens que discutiam sobre
baseball. Pelo cheiro que exalavam, julgou estarem discutindo por um tempo
demasiadamente longo.
Gritou, mas as furadeiras cobriram sua voz.
Resignada, ela acompanhou seus passos e interceptou Clvis antes que
ele alcanasse as inocentes garotas.
- Hei Clvis!
Ele piscou para ela atravs das plidas lentes que o protegiam da
radiao solar. Seus cabelos eram loiros, cor de areia, e cacheados em torno
do rosto como um inocente querubim. Era um octogenrio. Mas no
aparentava a idade que tinha.
-Dallas. Hei, Dallas. Eu no tenho visto voc por essas bandas a muito
tempo - ele deixou que os dentes grandes e brancos brilhassem enquanto
analisava Peabody.- Que  esta?
- Peabody, este  Clvis. Clvis, voc no est indo incomodar aquelas
pequenas garotas, esta?
- No, merda. Hum, hu. Eu no estava indo incomod-las.  ele meneou
as sobrancelhas-Eu ia apenas mostrar uma coisa para elas. Isso  tudo.
- Voc no quer fazer isso, Clvis.  melhor manter-se dentro de casa,
est fazendo muito calor aqui fora.
- Eu gosto de calor.- ele soltou uma risada- L vo elas- ele disse com um
suspiro, enquanto o trio de garotas atravessavam a rua.- Suponho que no
poderei lhes mostrar hoje. Ento mostrarei para vocs.
- Clvis, no...- Ento Eve prendeu seu flego. Ele afastava para os lados
as abas de seu casaco. Sob ele estava nu, a no ser por um brilhante lao
azul amarrado cerimoniosamente em volta de seu pnis flcido.
- Muito bem, Clvis. Esta cor fica bem em voc. Combina com seus olhos
- ela colocou a mo amigavelmente em seu ombro.- Vamos fazer um passeio,
certo?
- Certo. Voc gosta de azul, Peabody?
Peabody assentiu solenemente enquanto ela abria a porta da unidade,
ajudando-o a entrar.
- Azul  minha cor favorita.- ela fechou a porta do veculo, encontrando os
olhos risonhos de Eve.
- Bem vinda de volta, Tenente.
-  muito bom est de volta, Peabody. Apesar de tudo,  muito bom est
de volta.
.............................
Era tambm, muito bom, esta em casa. Eve dirigiu atravs dos altos
portes de ferro que guardavam a fortaleza. Era menos chocante agora,
deslizou ao longo da curva, atravs dos gramados bem feitos e rvores floridas
em direo a elegante manso de pedras e cristal, onde ela vivia atualmente. O
contraste em relao onde trabalhava e onde morava agora era gritante. Tudo
era calmo ali. Um tipo de quietude em meio  cidade grande, que somente os
muitos ricos podiam conseguir. Podia ouvir o cantar dos pssaros, observar o
cu, cheirar o doce aroma da grama recentemente podada. Minutos distantes,
estava a abundante, ruidosa e suada massa nova-iorquina. Ali, ela sups, era o
refugio. Tanto para Roarke, quanto para si mesma. Duas almas perdidas. Ele
os chamava assim.Ela se perguntava se tinham deixado de ser perdidas
quando encontraram um ao outro. Deixou seu carro em frente  entrada,
sabendo que o veculo amassado e de modelo ultrapassado, ofenderia
Summerset, mordomo esnobe de Roarke. Seria simples coloca-lo no pilotoautomtico
e faze-lo dar a volta na casa para estacion-lo na vaga reservada
para ele na garagem, mas se divertia com suas pequenas alfinetadas em
Summerset.
Abriu a porta e o encontrou-o esttico no grande vestbulo com o nariz
franzido e um esgar de desprezo nos lbios.
- Tenente, seu veculo  ofensivo.
- Hei! Ele  propriedade da cidade.- ela estendeu a mo para
cumprimentar o gato de olhos exticos - Voc no o quer ali, tire-o voc
mesmo.
Ela escutou uma sonora risada ecoar pelo salo, arqueou as
sobrancelhas.
- Convidados?
- Certamente.
Com seu desaprovador olhar, Summerset analisou sua velha camisa e
suas calas amassadas, deslizando o olhar sobre a arma ainda acoplada ao
corpo.
- Eu sugeriria que voc tomasse um banho e depois mudasse suas
roupas, antes de se unir aos convidados.
- Eu sugeriria que voc beija-se minha bunda-ela disse docemente e
passou por ele.
Na sala de visitas, lotada de tesouros que Roarke tinha coletado em todo
universo conhecido, uma ntima e elegante festa estava acontecendo. Os
canaps se assentavam elegantemente nas bandejas de prata, um vinho de
um plido dourado cintilava nas taas. Roarke era um anjo negro, vestido com
uma roupa que ele considerava casual. A camisa de seda negra, aberta no
colarinho, as calas tambm na mesma cor, perfeitamente drapejadas.
Completava o traje um cinto de prata que lhe caia perfeitamente. Mostrava
exatamente o que ele era: rico, bonito e perigoso.
Apenas um casal estava com ele na sala. O homem era to claro quanto
Roarke era sombrio. Os cabelos dourados e longos caiam pelos ombros,
cobertos como uma confortvel camisa azul. O rosto quadrado e bonito,
apenas com os lbios demasiadamente finos, em contraste com os olhos
castanhos escuros que observavam. A mulher era impressionante. Uma
cascata de cabelos vermelhos profundos, da cor do mais rico vinho, descia em
ondas e caiam sensualmente abaixo da curva do queixo. Os olhos verdes,
fogosos como uma gata, e sobre esses as sobrancelhas escuras como carvo.
Sua pele era como alabastro estendida sobre as proeminncias de seu
rosto. E a boca era sensual e generosa. Seu corpo era compatvel ao rosto, e
estava, atualmente, aderido a uma coluna esmeralda onde um decote expunha
o elegante ombro esquerdo desnudo e mergulhava entre os incrveis seios em
direo a cintura.
- Roarke! - ela deixou escapar aquela risada fluda outra vez, deslizando
uma mo plida sobre os cabelos da nuca de Roarke e beijando lhe
delicadamente - Eu tenho sentido uma terrvel falta sua.
Eve pensou na a arma que estava presa nas correias ao lado de seu
corpo e como ela estava padronizada para uma potncia baixa. Ela mandaria
aquela ruiva, com apenas um golpe, a uma dana louca. Era apenas um
pensamento de passagem, Eve assegurou a si mesma, e soltou o gato
Galahad antes que comprimisse as camadas de gordura contra suas costelas.
- Voc no perdeu tempo.- disse casualmente enquanto entrava.
Roarke censurou-se e olhou em sua direo sorrindo. Ns teremos que
limpar este ar de convencimento de sua face, pensou. Em pouco tempo.
- Eve, ns no ouvimos voc chegar.
- Obviamente.
Ela pegou um canap qualquer da bandeja e levou-o a boca.
- Eu acredito que voc no conhea nossos convidados. Reeanna Ott,
William Shaffer, minha esposa, Eve Dallas.
- Cuidado, Ree. Ela est armada.-com uma risada, Willian cruzou a sala
estendendo-lhe a mo. Movia-se em longos passos, quase como um galope.- 
um prazer conhece-la, Eve. Um prazer genuno. Eu e Ree ficamos muito
desapontados por no poder vim ao casamento.
- Devastados.- Reeanna sorriu para Eve. Seus olhos verdes cintilavam.-
Eu e Willian estvamos ansiosos para nos encontrar, face a face, com a mulher
que tinha colocado Roarke de joelhos.
- Ele ainda est.-Eve lanou um olhar de esguelha para Roarke enquanto
ele lhe entregava um copo de vinho - At agora.
- Ree e William estavam no laboratrio em Taurus - trs, trabalhando em
alguns projetos para mim. Eles s voltaram a Terra para um merecido
descanso.
- Oh?- Como se ela estivesse interessada naquilo.
- O projeto on-the-board tem sido um particular prazer. - Willian disse -
Dentro de um ano ou dois no mximo, as Industrias Roarke introduziro uma
nova tecnologia que ir revolucionar o mundo do entretenimento e diverso.
- Entretenimento e diverso - Eve deu um sorriso irnico - A destruio da
terra.
- Provavelmente ter potencial para isso - Reeanna bebericou seu vinho e
mediu Eve de cima a baixo: atrativa, irritante, competente. Pensou.- H
potenciais descobertas mdicas tambm.
- Que  a especialidade de Ree.- Willian elevou sua taa com ntima
afeio em seus olhos-Ela  uma mdica experiente. Eu sou apenas um garoto
me divertindo.
- Eu estou certa que, depois de um longo e exaustivo dia, Eve no est
querendo ouvir ns falarmos sobre nosso trabalho.- pausa- Os cientistas 
Reeanna falou com um sorriso de desculpa-So entediantes.  pausa- Voc
esteve no Olympus Resort. - A seda sussurrava enquanto Reeanna deslocava
o corpo. - Willian e eu fizemos parte da equipe que projetou a complexo de
divertimento e o centro mdico de l. Vocs tiveram tempo para uma tour?
- Brevemente - estava sendo rude, Eve lembrou a si mesma. Ela devia se
acostumar em voltar para casa, encontrar convidados elegantes e ver lindas
mulheres ronronando sobre seu marido.
- Muito impressionante, mesmo em estgio de execuo. Imagino que a
facilidade mdica ser melhor quando estiver pronto - virou-se para Willian
perguntando - Ento os hologramas nos quartos de hotel so seus?
- Culpado -ele disse com um brilhante sorriso - Eu adoro os jogos. E
voc?
- Eve os considera um trabalho. Acontece que ns tivemos um acidente
enquanto estvamos l. - Roarke o ps a par - Um suicdio. Um dos tcnicos
de autotrnica. Mathias?
As sobrancelhas de Willian se enrugaram - Mathias...jovem, ruivo e cheio
de sardas?
- Sim.
- Bom Deus - ele murmurou, deu um gole profundo no contedo do copo -
Suicdio? Vocs esto certo que foi um acidente? Minha lembrana  de um
jovem que grandes idias. No um que acabaria com sua prpria vida.
- Ele o fez - Eve falou sucinta - Enforcou-se.
- Que horrvel - plida agora, Reeanna sentava no brao de poltrona - Eu
o conheci, Willian?
- Acho que no. Voc pode t-lo visto em um dos clubes que amos, mas
no me lembro dele como algum muito socivel.
- Estou chocada com tudo isso - Reeanna disse - E como deve ter sido
degradvel ter que cuidar de uma tragdia dessas em plena lua de mel.- Bem,
no falemos mais sobre isso. - Galahad pulou na poltrona deslizando sua
cabea sobre as mos elegantes de Reeanna. - Eu prefiro ouvir sobre o
casamento que perdemos.
- Fique para o jantar - Roarke deu um aperto discreto em seu brao - Ns
poderemos entedia-los at as lgrimas com a narrativa.
- Infelizmente no podemos - Willian ofereceu aos ombros de Reeanna a
mesma carcia que ela tinha dado a cabea do gato - Iremos a uma pea de
teatro. J estamos atrasados.
- Voc est certo, como sempre - com bvio pesar reeanna levantou-se -
E espero voc nos de uma outra chance. Estaremos no planeta, talvez pelos
prximos dois meses, e eu vou amar a oportunidade de conhecer voc, Eve.
Roarke e eu temos um longa amizade.
- Voc  bem vinda em qualquer momento. Verei ambos no escritrio,
amanh, para um relatrio completo.
- Perspicaz e jovem.  Reeanna colocou sua taa de lado-Talvez
possamos almoar alguns dias desses. Apenas ns, mulheres -. Seus olhos
cintilaram com to bom humor que Eve se sentiu estpida - Ns poderemos
trocar impresses sobre Roarke.
O convite era demasiadamente amigvel para ser ofensivo. E Eve
percebeu-se sorrindo
- Isto pode ser interessante. - Ela falou indo at a porta com Roarke,
acenado-lhes.
- Precisamente quantas impresses...- disse enquanto voltava o passo
para encarar o marido -Haver para comparar?
- Isso foi h muito tempo.- ele a enlaou pela cintura para um beijo de
boas vindas atrasado - Sculos atrs.
- Ela provavelmente comprou aquele corpo.
- Eu teria que denomin-lo um excelente investimento.
Eve elevou seu queixo olhando-o mal humorada.
- H alguma mulher bonita que voc no tenha levado para sua cama?
Roarke inclinou a cabea e estreitou os olhos em considerao
- No.- ele riu quando ela remexeu-se em seus braos - Voc no ligou
para isso, ou j teria me batido.- ento grunhiu quando a mo fechada dela
acertou seu estmago. Friccionou-o, agradecido por ela ter retirado o punho-Eu
devia ter ficado calado enquanto estava ganhando.
- Que isto lhe sirva de lio, Dom Juan- Mas Eve deixou-o tirar seus ps
do cho e eleva-la acima do ombro.
- Com fome?- ele perguntou-lhe.
- Morrendo.
- Eu tambm.  ele comeou a subir os degraus - Vamos comer na cama.
Captulo 4
Eve acordou com o gato esticado sobre seu trax e o bip do tele-link
soando ao lado da cama. O alvorecer estava apenas se insinuando. A
luminosidade do cu que atravessava a janela era discreta e acinzentada,
como uma manha de chuva. Com os olhos parcialmente fechados ela se
esforou para deixar a voz sair.
- Bloqueie o sinal de vdeo.- requisitou, cancelando o sono de sua voz -
Dallas.
- Mensagem, tenente Dallas. Morte suspeita. Avenida Madisson cinco
dois. Unidade centro e trinta e oito. Residncia Arthur Foxx. Cdigo quatro.
- Mensagem recebida. Contate Peabody, oficial Della, para auxlio. Minha
autorizao- confirmou. Transmisso encerrada.
- Cdigo quatro?
Roarke tinha tirado o gato de cima dela e estava sentado sobre a cama
afagando preguiosamente Galahad para total xtase do felino.
- Significa que eu tenho tempo para uma chuveirada e um caf.-Eve no
achou um robe acessvel, assim andou nua at o banheiro. - H um oficial na
cena do crime- ela disse.Pisou na unidade do chuveiro, esfregando os olhos.-
Fora total, todos os jatos, 60 graus.
- Voc vai ferver.
- Gosto de ferver.-ela deixou escapar um gemido de prazer quando sentiu
os jatos de gua ardente golpeando-a por todos os lados.
Bateu na placa de vidro e despejou o sabo verde escuro espalhando-o
pelo corpo. Tempo depois quando saiu do box ela estava acordada. Suas
sobrancelhas arquearam quando viu Roarke recostado no umbral da porta,
segurando um copo de caf.
- Para mim?
- Faz parte do servio.
- Obrigada.
Ela pegou o copo entrando no tubo de secagem, bebericou enquanto
sentia o ar morno flutuando em sua volta.
- Por que fica ai, me olhando tomar banho?
- Eu gosto de observ-la. Alguma coisa sobre mulheres esbeltas e magras
quando esto molhadas e nuas.
Ele entrou no chuveiro e ordenou 30 graus. Que fez Eve se perguntar, por
que um homem que tinha todo o luxo do mundo na ponta de seus dedos
escolheria banhar-se com gua fria. Abriu o tubo de secagem e passou os
dedos atravs das mechas de seus cabelos. Usou um creme qualquer que
Mavis estava sempre empurrando em sua direo e escovou os dentes.
- Voc no tem que se levantar, por que eu me levantei.
- Eu estou de p.- ele disse simplesmente e escolheu uma toalha
aquecida em preferncia ao tubo de secagem.
- Voc tem tempo para o caf da manh?
Eve observou seu reflexo no espelho do banheiro. Cabelos e pele
brilhavam.
- Eu comerei algo mais tarde.
Ele enganchou a toalha em torno de sua cintura e agitou para trs seus
cabelos gotejantes, inclinando a cabea e encarando-a atravs do espelho.-
Que foi?
- Eu acho que gosto de olhar voc tambm.- ela murmurou enquanto
voltava para o quarto, tinha que se vestir para a morte.
...................................
O trfico na rua estava rpido. O Airbus rugia sobre sua cabea atravs
da chuva que caia, carregado de trabalhadores do turno da noite voltando para
casa e do turno do dia indo para o servio. Os quadros de avisos estavam
quietos e camels e carrinhos que ofereciam bebidas e alimentos j estavam a
postos. A fumaa saia atravs dos respiradouros vinda da ruas e passarelas do
mundo subterrneo do transporte e varejo.
O ar estava mido e quente.
Eve cruzou a cidade, no tempo previsto.
A seo da Madison onde o corpo a esperava era coberto de boutique
exclusivas e imensos edifcios prateados construdos para abrigar aqueles que
tinham recursos para morar l. As passarelas reas tinham paredes feitas de
material refletor que separava a clientela selecionada dos elementos e do
rudos que comeariam a aumentar dentro de uma ou duas horas. Um txi
passou por Eve com um passageiro solitrio.Uma loira elegante exibindo sua
brilhante jaqueta, um cintilante arco-ris de cores em meio  escurido. Uma
acompanhante licenciada, concluiu. Voltando para a casa depois do trabalho
noturno. Os ricos podiam ter recursos para comprar sexo extravagante junto
com suas roupas extravagantes.
Eve manobrou para dentro da garagem subterrnea da cena do crime e
mostrou seu emblema para o posto segurana que o scaneou e depois a ela,
para em seguida a luz mudar de vermelha para verde e brilhar seu nmero de
vaga atribudo. Era, como esperado, na extremidade final da garagem, distante
da comodidade do elevador. Policiais, pensou com resignao, como ela,
raramente ganhavam as melhores vagas.
Eve disse em voz alta o nmero do andar e o elevador a levou at l.
Em outro tempo, no muito distante, teria ficado impressionada com a
suntuosidade do salo do trigsimo oitavo andar, com o seu lago de hibiscos e
com o santurio de bronze. Isto fora antes de ela entrar no mundo de Roarke.
Ela observou as pequenas e titilantes fontes que ladeavam a entrada e
percebeu que era altamente possvel que seu marido fosse proprietrio
daquele edifcio.
Ela reconheceu o policial uniformizado que guardava o aporta 3800,
mostrou seu distintivo.
- Tenente.
O policial moveu-se quase imperceptivelmente, empertigando-se e
murchando o abdmen.
- Meu parceiro est l dentro com o colega de quarto, Mr. Foxx, que
descobriu o corpo de seu companheiro, chamando em seguida a ambulncia.
Ns nos deslocamos imediatamente, como manda o procedimento. A
ambulncia est esperando at que libere a cena, tenente.
- Est conseguindo manter o local protegido?
- At agora. lanou um olhar para a porta- Nos no conseguimos muita
coisa com Mr. Foxx. Ele est um tanto histrico. No estou certo do que pode
t-lo perturbado, alm do corpo.
- Ele moveu o corpo?
-No senhor. Isto , ainda est na banheira, mas ele tentou... h,
ressuscitar o morto. Devia esta em estado de choque para tentar. H bastante
sangue ali para se nadar.Os pulsos cortados - ele explicou  Pela verificao
visual ele devia ter morrido no mnimo  uma hora antes do companheiro
encontrar o corpo.
Eve segurou firmemente seu kit de campo.
- Notificou a forense?
- A caminho senhor.
- Certo. Desobstrua a oficial Peabody quando ela chegar e permanea
aqui. Abra a porta.  ela adicionou e esperou que o policial uniformizado
deslizasse sua chave mestra pela abertura da fechadura. A porta deslizou
abrindo a parede; Eve imediatamente escutou os gritos lamentosos que
deixavam transparecer profunda tristeza.
- Ele est assim desde que chegamos - a policial murmurou-Espero que
voc possa tranqiliza-lo e logo.
Sem nenhum comentrio, Eve entrou, deixando a porta deslizar e fechar
atrs dela. O assoalho era elaborado em preto e branco. As colunas
espiraladas eram drapejadas com algumas flores de videira. No alto um lustre
de cristal negro com cinco extenses. Atravs do prtico, o living seguia o
mesmo tema. Os sofs de couro negros, as flores brancas, mesas de madeira
em bano, luzes brancas. Drapejados de branco e preto fechavam o desenho,
luzes derramavam-se do teto projetando-se acima do assoalho.
Uma tela de divertimento fora usada, mas no tinha sido recolhida. As
escadas brancas lustrosas subiam para o segundo andar, e foram ornadas com
corrimes brancos, a estilo do trio. Exuberantes samambaias verdes estavam
penduradas em potes esmaltado no teto. O dinheiro pode gotejar, ela pensou,
mas a morte no tem respeito por isso. Era um clube sem sistema de classes.
As lamurias ecoavam e a atraram para o interior de um cmodo pequeno,
com paredes cobertas de livros antigos e confortveis cadeiras de um
tonalidade de Borgonha. Afundado em uma delas estava um homem. Seu rosto
elegante era de um ouro plido e cheio de lgrimas. Seus cabelos tambm
eram dourados e brilhavam como uma moeda nova, e um tufo escapava entre
seus dedos. Ele vestia um delicado robe branco que estava manchado com
sangue seco. Seus ps estavam descalos e suas mos estavam ornadas com
anis que cintilavam enquanto seus dedos tremiam. Havia uma tatuagem de
cisne preto em seu tornozelo esquerdo. O policial uniformizado que estava
sentado miseravelmente ao lado do homem olhou de relance para Eve,
comeando a falar. Eve balanou a cabea rpida, mantendo o distintivo a
vista. Gesticulou para cima movendo a cabea em uma pergunta.
Ele assentiu movendo o polegar para cima.
Eve voltou a sair. Ela queria ver o corpo, ver a cena do crime, antes de ter
com a testemunha.
Havia diversos quartos no segundo piso. Ainda assim, foi bastante simples
encontrar o caminho. Ela apenas seguiu a trilha do sangue. Entrou no quarto.
Ali o esquema era verde e azul, de modo que se sentiu flutuando debaixo
d'gua. A cama era um retngulo forrado com um lenol azul e montanhas de
almofadas. Havia esttuas ali tambm, tpicas variedades de nudez clssica.
As gavetas tinham sido embutidas nas paredes, camuflando e  para Eve-
desvitalizando o ambiente. O oceano azul do carpete era macio como uma
nuvem e manchado com sangue. Seguiu a trilha para dentro do banheiro
principal. A morte no a chocava, o que a aterrorizava, e ela sabia que sempre
o faria, era o desperdcio, a violncia e crueldade desta. Mas ela vivera com
isso tambm, muito, para ficar chocada, mesmo com aquilo.
O sangue tinha jorrado, regando e fluindo nos brilhosos azulejos de
marfim com nuances verdes. Tinha escorrido por cima do vidro da banheira, e
se espalhado sobre o assoalho espelhado partindo da ferida aberta no pulso da
mo que se dependurava frouxamente, sobre a borda da gigantesca banheira
de laterais transparentes. O interior da gua estava escuro, um tom cor de
vermelho, e o cheiro metlico de sangue impregnava o ar. Uma msica estava
tocando, algo com cordas, talvez um harpa. Grossas velas brancas tinham sido
acessas e ainda queimavam em torno da grande banheira oval.
O corpo que estava na gua avermelhada tinha sua cabea pousada
contra uma almofada dourada, o olhar elevado e fixo nas folhas da samambaia
pendurada no teto. Ele estava sorrindo, como se tivesse se divertido
desesperadamente para prestar ateno na prpria morte.
Aquilo no a chocava, mas a fazia pensar, enquanto revestia suas mos e
ps com protetores, enganchada em seu recordao, e levava seu kit para
dentro posicionando sob o corpo. Eve o tinha reconhecido. Nu, e sorrindo em
sua prpria reflexo, estava o renomeado advogado de defesa. S. T. Fitzhugh.
-Salvatori vai ficar muito despontado com voc, advogado.- ela murmurou
enquanto comeava a trabalhar.
Eve j tinha pegado uma amostra do banho de sangue , feito sua
verificao inicial para saber o tempo da morte, cobertos as mos do corpo e
gravado a cena, quando Peabody apareceu, com a respirao ofegante na
entrada do banheiro.
- Sinto muito, senhor.Tive problemas para entrar na cidade alta.
- Est certo - ela passou para Peabody a faca de marfim que segurava
dentro do saco de evidncias. - Veja o que consegue com isso.  antigo,
suponho. Artigo de colecionador. Ns analisaremos em busca de provas.
Peabody guardou a faca em seu estojo de evidncias, em seguida
estreitou os olhos- Tenente, ele no ...
- Sim, Fitzhugh.
- Por que ele iria se matar?
- Ns no determinamos que ele se matou ainda. Nunca faa suposies,
Oficial.- disse suavemente - Primeira regra. Chame a equipe para recolher as
provas, Peabody. E vamos etiquetar a cena. Podemos deixar o corpo para o
forense. Eu j acabei com ele por agora .- Eve recuou com a luvas sujas de
sangue.- Eu quero fazer uma preliminar com os policias que responderam o
chamado antes de conversar com Foxx.- Eve lanou um olhar para o corpo e
balanou a cabea- Isso parece o modo que ele sorria na corte quando estava
representando. O bastardo. - Ainda estudando o corpo, usou um lquido para
limpar o sangue de seu material, dobrou e colocou dentro de uma saco
tambm.- Diga que eu quero a toxologia O MAIS CEDO POSSVEL.- deixou
Peabody e seguiu a trilha do sangue de volta. Foxx choramingava baixo agora,
O policial uniformizado a olhou ridiculamente aliviado quando Eve apareceu.
- Espere-me com meu ajudante, l fora. Oficial. De a oficial Peabody seu
depoimento. Eu falarei com Mrs. Foxx, agora.
- Sim senhor.- com quase inadequado prazer ele saiu do quarto.
- Mr. Foxx. Eu sou a tenente Dallas. Sinto muito por sua perda- Eve
encontrou o boto que abria a cortina e o apertou deixando a luz aquosa
penetrar no interior do quarto.- Preciso falar com voc. Deve me dizer o que
encontrou aqui.
- Ele est morto.- a voz de Foxx era levemente musical, acentuada.
Encantadora.- Fitz est morto. Eu no sei como ele pode estar morto. Eu no
sei como ele pode simplesmente ir.
Todos vo. Eve pensou. H pouca escolha. Sentou-se e ps seu gravador
sobre a mesa bem a vista.
- Mrs. Foxx, eu posso ajudar.  apenas parte do procedimento. Ser
melhor para ambos se voc falar agora. Eu o porei a par de seus direitos.
Ela recitou o Miranda revisado enquanto as lgrimas escorriam. Ele
ergueu a cabea, e a fitou com seus inchados e vermelhos olhos.
- Voc acha que o matei? Pensa que eu posso t-lo matado ?
- Mr. Foxx ...
- Eu o amava! Estvamos h doze anos juntos. Ele era toda a minha vida!
Voc ainda tem a sua vida, ela pensou. Voc apenas no sabe ainda.
- Ento voc vai querer ajudar em meu trabalho. Diga-me o que
aconteceu.
- Ele estava tendo problemas para dormir ultimamente. Mas no gosta de
usar tranqilizantes. Ele podia usualmente ler, ouvir msica, gastar uma hora
com realidade virtual ou alguns jogos, o que quer que seja, para relaxar. O
caso que estava trabalhando o preocupava.
- O caso Salvatori.
- Sim. Acredito que sim.- Foxx limpava os olhos com a manga mida do
casaco.
- Ns no discutamos seus casos com profundidade. Era uma vantagem,
eu no ser advogado. Eu sou nutricionista. Foi assim que nos encontramos.
Fitz veio h doze anos atrs para eu ajud-lo em um dieta. Ns nos tornamos
amigos, nos tornamos amantes, ento simplesmente nos tornamos.
Eve iria precisar de todas as informaes, mas por enquanto ela s queria
saber os eventos que o conduziram ao ltimo banho.
- Ele tem tido problemas para dormir- ela frisou.
- Sim. Era acometido freqentemente por insnia. Ele se entregava a seus
clientes. Parasitavam sua mente. Eu estou acostumado a acordar no meio da
noite e encontra-lo programando um jogo ou sentado a frente da televiso. s
vezes tomava um banho morno.- O rosto de Foxx ficou plido- Oh Deus.
As lgrimas comearam a escorrer novamente fluindo mornas por debaixo
do queixo. Eve fez um examinou a sala e foi at um andride pequeno de
servio de quarto- Traga gua para o senhor Foxx.- requisitou. E pouco depois
o andride trazia um copo de gua.
- E o que aconteceu?- continuou.- Ele levantou no meio da noite?
- Eu no me lembro. No me recordo mesmo.- Foxx levantou as mos e
as deixou cair.- Eu durmo muito bem. No tenho este tipo de problemas. Ns
fomos dormir imediatamente depois da meia noite, olhando as ltimas notcia,
bebemos conhaque. Eu acordei cedo.
- A que horas?
- Eu acho que era umas cinco e quinze. Ns comeamos o dia cedo, eu
tenho hbito de programar a refeio da manh pessoalmente. Eu vi que Fitz
no estava na cama, supus que ele tinha tido uma noite ruim e que eu o
encontraria em uma outra cama ou no andar de baixo. Ento entrei no
banheiro, e o vi. Deus. Oh Deus, Fitz. Todo aquele sangue era como um
pesadelo.
Sua mo pressionava de encontro  boca, sua pele brilhava de suor e ele
tremia.
- Eu me joguei sobre ele. Bati em seu trax, tentando reanima-lo. Eu
suponho que fui um pouco louco. Ele estava morto. Eu podia ver que ele
estava morto. Tentei pux-lo da gua, mas ele  um homem muito grande, e eu
estava agitado e nauseado. Ele pressionou sua mos na boca do estmago.-
Chamei uma ambulncia.
Ela estaria perdida se ele tivessem chegado antes. Tranqiliza-lo foi uma
opo at ela ter os fatos.
- Eu sei que isto  difcil para voc, Sr. Foxx. Estou triste que tenhamos
que fazer isso agora, mas  mais fcil, acredite, se ns o fazermos.
- Tudo bem.- ele alcanou o copo de gua sobre o andride- Eu quero
fazer isso!
- Pode me dizer o que passava por sua mente na ltima noite? Voc me
disse que ele estava preocupado com o caso.
- Preocupado sim, mas no deprimido. Havia um policial que no
conseguia dobrar do tribunal e isso o irritava.- bebericou um gole de gua e
depois outro.
Eve decidiu que era melhor no mencionar que a policial que o irritava era
ela.
- E havia alguns casos pendentes que ele estava traando defesa. Veja,
que a mente dele era ocupada demais para dormir.
- Recebeu chamadas? Fez chamadas?
- Certamente, ambos. Trazia freqentemente trabalho para casa. Na
ltima noite ele ficou algumas horas em seu escritrio no andar de cima.
Chegou em casa aproximadamente as cinco e trinta, trabalhando at quase
oito horas. Ento jantamos.
- Ele mencionou qualquer coisa que o incomodava a no ser o caso
Salvatori?
- Sim. Seu peso- Foxx sorriu um pouco- Fitz odiou o quilo a mais que
ganhou. Ns falamos sobre incrementar o programa de exerccios, talvez
trabalhasse no ajuste do corpo quando tivesse algum tempo. Ns assistamos
a uma comdia na televiso do quarto, em seguida fomos dormir.
- Vocs discutiram?
- Discutir?
- Voc tem marcas em seus braos, Sr. Foxx. Voc teve alguma
desavena com Mrs. Fitzhugh na ltima noite?
- No.- mais plido ainda seus olhos brilharam ameaando outra crise de
choro- Ns nunca lutamos fisicamente. Certamente discutamos o tempo todo.
Pessoas fazem isso. Eu suponho que posso ter me machucado quando eu
estava...quando eu tentei...
- Sr. Fitzhugh tinha algum outro relacionamento alm de voc?
Repentinamente os olhos midos e secaram.
- Se voc est perguntando se ele tem outros amantes , no. Estvamos
comprometidos.
- Este apartamento est em nome de quem?
O rosto de Foxx ficou rgido.
- Foi posto em nosso nome h dez anos atrs. Pertenceu a Fitz.
E agora lhe pertence, pensou Eve.
- Suponho que Fitz era um homem rico. Voc sabe quem herdar?
- Com exceo das doaes a caridade , eu herdarei. Voc acha que eu o
mataria por dinheiro?- havia averso em seu tom agora, quase um horror.- Que
direito voc tem de me fazer essas perguntas horrveis neste momento?
- Eu preciso saber as respostas, Sr. Foxx. Se eu no o fizer aqui terei que
faze-lo na delegacia. Eu acredito que  mais confortvel para o senhor.- Pausa-
Fitzhugh coleciona facas?
- No.- Foxx piscou em seguida surpreso  Eu coleciono. Tenho uma
coleo de facas antigas. Registradas- ele adicionou rpido- Registradas
devidamente.
- Voc tem uma faca marfim, lmina reta, seis centmetros h muito tempo
em sua coleo?
- Sim. Do sculo IXX, da Inglaterra.  sua respirao comeou a ficar
ofegante.- Ele a usou? Usou uma de minhas facas? Eu no vi. Vi somente ele.
- Eu tenho uma faca como evidncia, Mr. Foxx. Ns estaremos fazendo
alguns testes. Eu darei a voc um recibo por ela.
- Eu no quero. Eu no quero v-la.- Ele enterrou a face entre suas mos-
Fitz. Como pode usar uma de minhas facas?- ele caiu em prantos novamente.
Eve ouviu o rumor de vozes no quarto ao lado e soube que a equipe
forense tinham chegado.
- Mr. Foxx - levantou-se - Eu estou indo ter com os oficiais e lhe trarei
alguma roupa. Eu terei que pedir a voc que permanea aqui por um pouco
mais de tempo. H algum que queira que eu chame?
- No. Nenhuma pessoa. Ningum.
..........................
- Eu no estou gostando disso, Peabody.- Eve murmurou quando
entraram em seu carro- Fitzhugh levanta no meio de uma noite ruim, pega uma
faca antiga, prepara-se para o banho. Ilumina o ambiente com as velas, coloca
uma msica suave e ento corta seus pulsos. Por nenhuma razo particular.
Esta aqui um homem no auge de sua carreira, com uma conta cheia da merda
do dinheiro que escava dos clientes que vinham bater na sua porta e decide-se
apenas que inferno, eu acho que vou morrer?
-Eu no entendo o suicdio. Acho que eu no tenho uma personalidade de
muitos altos e baixos.
Eve compreendia. Ela mesmo o considerara momentaneamente durante o
tempo que ficara em casas em poder do estado- e antes, naquele tempo de
escurido, quando a morte parecia uma libertao do inferno. Era por isso que
no podia aceitar que Fitzhugh o tivesse feito.
- No h nenhuma motivao aqui, pelo menos nenhuma que tenha sido
demonstrado at o momento. Mas ns temos um amante que coleciona facas,
que estava coberto com sangue e que vai herdar uma fortuna miservel!
- Voc est pensando que talvez Mr. Foxx o tenha matado?- Peabody
diminuiu a macha de seus passos quando alcanaram o nvel da garagem.- O
tamanho de Fitzhugh  quase duas vezes o dele. Ele no iria sem lutar, e no
havia nenhum sinal de esforo.
- Os sinais podem ser apagados- Eve murmurou.
- Teria marcas.
- E se Fitzhugh fosse drogado , no seria um esforo demasiado. Ns
veremos no relatrio de toxicologia.
- Por que voc quer que seja um homicdio?
- Eu no quero. Quero apenas que faa sentido. Um homicdio no se
encaixa aqui. Talvez Fitzhugh no conseguisse dormir, talvez tenha se
levantado. Algum estava usando o quarto de relaxamento, ou , pelo menos,
foi feito para parecer assim.
- Eu nunca vi qualquer coisa semelhante- Peabody admitiu- Todos
aqueles brinquedos em um lugar.Aquela imensa cadeira com todos aqueles
controles, a tela de parede, o Autobar, a estao de Realidade virtual, e uma
alterador de nimos. Usa sempre um alterador de nimos, tenente?
- Roarke tem um. Eu no gosto. Prefiro que minha personalidade venha
naturalmente a programado.- Eve observou a figura que se sentava na capota
de seu carro e silvou- Como agora, por exemplo. Eu posso sentir minha
personalidade se modificando. Imagino que eu esteja a ponto de ficar muito
aborrecida.
- Bem Dallas e Peabody, juntas outra vez!- Nadine Furst, reprter ncora
do canal 75, deslizou graciosa do cap do carro para o cho- Como foi a lua de
mel?
- Confidencial - disse apenas.
- Hey, Eu pensei ramos amigas- Nadine piscou para Peabody.
- Voc no perdeu tempo em colocar nosso pequeno ocorrido, no ar,
amiga.
- Dallas- Nadine esticou suas lindas mos- Voc pega um assassino em
um lugar pblico em sua prpria festa de despedida de solteiro, que eu fui
convidada,  notcia. O pblico no apenas tem direito de saber, eles se
alimentam disso. Os ndices de audincia subiram rapidamente. Olhe isso
agora, voc est voltando e certamente em meio de algo maior. Qual  o
negcio com Fitzhugh?
-  um homem morto. Eu tenho trabalho a fazer Nadine.
- Vamos l Eve- ela puxava a barra da camisa de Eve- Depois de tudo que
passamos juntas? D-me apenas uma informao.
- Os clientes de Fitzhugh tero que procurar outro advogado. Isso eu
posso dizer a voc.
- Vamos l. Acidente? Homicdio, o que?
- Ns estamos investigando- Eve disse curta e codificou abrindo o carro.
- Peabody?
Mas Peabody apenas sorriu e deu os ombros.
- Voc sabe Dallas,  de conhecimento comum que voc e o querido do
departamento no eram fs um do outro. Um pequeno exemplo foi o que
ocorreu na corte ontem. Ele descreveu voc como uma policial violenta, que
usa seu distintivo como instrumento sem corte.
-  uma vergonha que no possa dar a seu publico tais citaes.
Por que Eve tinha entrado e batido a porta Nadine teve que se inclinar na
janela.
- Ento me d uma!
- S. T. Fitzhugh est morto. A polcia ir investigar. Fim de papo.- Eve
ligou o motor e acelerou saindo de modo que Nadine teve que pular para trs
para conservar os dedos do p.
A risada de Peabody, Eve deslizou um olhar glacial em sua direo.
- Algo engraado?
- Eu gosto dela.-Peabody no pode resistir a olhar para trs e notou que
Nadine estava sorrindo.- E voc tambm.
Eve deixou escapulir uma risada.
- Gosto no se discute- disse e dirigiu-se para fora na manh chuvosa.
Tinha sido perfeito. Absolutamente perfeito. Saber que era ele que movia
as alavancas lhe dava uma excitante sensao de poder.Todos os relatrios
que chegavam das vrias agncias de notcia eram devidamente registrados e
gravados. Tais matrias requereram uma organizao cuidadosa e foram
adicionadas  pilha pequena, mas satisfatoriamente crescente de discos de
dados. Era to divertido, e aquilo era uma surpresa. No tinha sido o
divertimento o motivador principal da operao. Mas era um efeito colateral
delicioso. Quem sucumbiria em seguida?
No apertar de uma tecla, o rosto de Eve piscou em um monitor, todos os
dados pertinentes selecionado ao lado dela. Uma mulher fascinante. Lugar de
nascimento e pais desconhecidos. A criana abusada descoberta escondida
em um beco de Dallas, Texas, corpo ferido, mente anulada. Uma mulher que
no recordava os anos passados de sua prpria vida. Os anos que deu forma a
sua alma. Os anos que tinha sido espancada, violentada e atormentada . Como
esse tipo de vida tinha afetado a sua mente? Seu corao? Sua pessoa? A
menina tinha se convertido primeiro em uma assistente social e a seguir se
transformando em Eve Dallas, uma guerreira. A policial com a reputao de
escavar profundamente, e que tinha tido alguma notoriedade inverno passado
durante uma investigao de um caso delicado e feio. Fora quando se
encontrara com Roarke. O computador rugiu e a face de Roarke apareceu na
tela. Um par to intrigante. Seu passado no era mais bonito do que o da
policial. Mas tinha escolhido, ao menos inicialmente, o outro lado da lei para
deixar sua marca. E sua fortuna. Agora eram uma equipe. Uma equipe que
poderia ser destruda em um apertar de tecla. Mas ainda no. No ainda, por
algumas horas. Apesar de tudo, o jogo apenas tinha comeado.
Captulo 5
- Eu no consigo engolir isso- Eve murmurou quando baixou os dados
de Fitz. Estudou seu rosto impressionante, que piscava em seu monitor e
balanou a cabea- Eu no consigo engolir isso.- ela repetiu.
Olhou a data e o lugar de nascimento, viu que tinha nascido em Filadlfia
durante a ltima dcada do sculo precedente, casado entre 2033 at 2036.
Divorciado. Nenhuma criana. Veio para Nova Iorque no mesmo ano de seu
divrcio, estabelecendo sua prtica em lei criminal, e at onde poderia ver,
nunca tinha olhado para trs.
-Renda anual. -solicitou.
Fitzhugh, renda anual pela ltima declarao do imposto de renda. Dois
milhes e setecentos mi dlares.
- Sugador- ela murmurou- Computador, liste os detalhes de todas as
apreenses.
Procurar. Nenhum registro policial.
- Ok, ele est limpo. O que faremos a respeito disso? Liste todos as
denuncias contra o sujeito. Observou a pequena lista de nomes, e ordenou
uma cpia dela. Requereu uma lista de casos que Fitzhugh tinha perdido nos
ltimos dez anos. Anotou os nomes que constava nos processo contra ele. 
deu um suspiro - Aquela era uma ao cotidiana dos tempos em que viviam.
Se seu advogado no conseguiu libertar voc, o processe. Outro golpe na sua
esperanosa teoria de chantagem.
- Ok, talvez estejamos indo na direo errada. Nova pesquisa. Foxx,
Arthur. Residncia cinco, da Segunda Madison Avenida, Nova Iorque.
Procurando.
O computador deus alguns bipes e sons lamentosos, fazendo que Eve
golpeasse a unidade com a palma da mo sacudindo-o. No ia se aborrecer
com os cortes no oramento, agora.
Foxx apareceu na tela, uma imagem distorcida at que ela deu outro beijo
na unidade. Era mais bonito, notou, quando estava sorrindo. Ele era quinze
anos mais jovem que Fitzhugh, e tinha nascido em East Washington filho de
pais militares, tinha morado em vrias pontos do globo terrestre em seguida
tinha estalado-se em Nova Iorque em 2042 e trabalhado como consultor para a
organizao Nutrio para a vida. Sua renda anual ficou apenas em seis
algarismos. O registro no mostrava casamento, mas uma licena de unio
entre pessoas do mesmo sexo com Fitzhugh.
- Lista e detalhada todas as apreenses.
A mquina resmungou como se estivesse cansada de responder
perguntas, mas a lista apareceu. Uma conduta desordenada, dois assaltos, e
uma perturbao a paz.
- Bem, agora estamos chegando h algum lugar. Ambos indivduos, listar
detalhes de consultas psiquitricas.
No havia nada de Fitzhugh, mas comeou a listar a de Foxx. Com um
resmungo requisitou cpia. Olhou de relance quando Peabody surgiu.
- Forense? Toxologia?
- Forense ainda no, mas tem algo da toxologia.- Peabody entregou o
disco para Eve- Pequeno nvel de lcool, identificado como um vinho parisiense
2045. No o bastante para debilit-lo.Nenhum outro trao de droga.
- Merda.- estava esperanosa.
- Eu posso ter algo aqui. Nosso amigo Foxx gastou muito na infncia em
consultrios de terapia.Consultou no instituto Delroy h dois anos por vontade
prpria e retornou para uma observao h um ms. Faz algum tempo. Mas
um tempo bom, apesar de tudo. Noventa dias preso por violncia. E ele teve
que usar um bracelete de proibio por seis meses. Nosso menino tem
tendncias violentas.
Peabody examinou os dados.
- Famlia militar. Ainda tendem a ser resistentes ao homossexualismo. Eu
aposto que tentaram dirigir sua escolha para heterossexual.
- Talvez. Mas tem uma histria de problemas mentais, de sade e um
registro criminal. Deixe-me ver o que os tiras descobriram quando bateram nas
portas do edifcio de Fitzhugh. E ns falaremos com os scios de Fitzhugh na
firma.
- Voc no est apostando em suicdio.
- Eu o conheci. Ela arrogante, pomposo e vaidoso.- Eve agitou a cabea -
Os homens vaidosos e arrogantes no escolhem ser encontrados nus na
banheira, nadando em seu prprio sangue.
................................
- Era um homem brilhante.- Leanore Bastwick sentou-se em sua cadeira
de couro custon no escritrio de parede de vidro de Fitzhugh & Bastwick &
Stern. O escritrio era como uma piscina de cristal, imaculado e brilhante.
Combinava, pensava Eve, com sua gelada e impressionante beleza loira - Era
um amigo generoso. - Leanore uniu as mos de unhas impecveis sobre a
mesa. -Todos estamos em estado de choque aqui, tenente.
Era impossvel enxergar qualquer choque na polida superfcie de todo o
lugar. A floresta de ao de New York levantava-se atrs de Leanore,
emprestando a iluso que estava reinando sobre a cidade. Um plido cor-derosa
e um leve cinza adicionava elegncia e cor ao escritrio que parecia
decorado to meticulosamente quanto  mulher.
- Voc sabe de algum motivo pelo qual Fitzhugh tiraria sua prpria vida?
- Absolutamente nenhum.- Leanore manteve suas mos firmes e seus
olhos nivelados - Amava a vida. Sua vida, seu trabalho. Apreciou cada minuto
de cada dia mais do que qualquer outra pessoa. Sempre se encontrava assim.
No tenho nenhuma idia porque escolheria acabar com tudo.
- Quando foi a ltima vez que voc o viu ou falou com ele.
Hesitante. Eve quase podia ver as engrenagens trabalhando arduamente
atrs daqueles os olhos astutos.
- Realmente, eu o vi momentaneamente na ltima noite. Deixei uma pasta
com ele, discutimos um caso. Esta discusso , claro, particular.- Inclinou os
lbios de leve.  Mas eu diria que ele estava com seu usual entusiasmo de
sempre e estava at mais que isso por conta de duelar com voc na corte.
-Duelar?
-  como Fitz se referia ao a interrogatrio cruzado de testemunhas e
policiais.
Um sorriso cintilou em seu rosto.
- Era como plvora, em sua mente, de sagacidades e de nervos. Um jogo
profissional para um jogador inato do jogo. Eu no sei de qualquer coisa que
apreciava mais do que est l na corte.
- Que hora voc saiu do trabalho na ltima noite?
- Eu diria aproximadamente dez horas. Sim, penso que foi por volta das
dez horas. Eu trabalhei at depois do horrio e em seguida peguei o caminho
de casa.
-  comum, Mr. Bastwick, voc ficar alm do horrio de servio?
- No  incomum. Ns somos, apesar de tudo, scios e profissionais, e
nossos casos se sobrepe s vezes.
- Isso era tudo o que vocs eram? Scios?
-Voc supe, tenente, que, s porque um homem e uma mulher so
fisicamente atraentes e vivem em termo amigveis no podem trabalhar juntos
sem tenso sexual?
- Eu no suponho qualquer coisa. Quanto tempo vocs permaneceram
discutindo o caso?
- Vinte minutos, uma meia hora. Eu no cronmetrei. Ele estava se
sentindo muito bem quando terminamos. Disse-me isso.
- No havia nada que o preocupava particularmente?
- Teve alguns interesses sobre o caso de Salvatori e outros tambm. Nada
fora do normal. Era um homem seguro.
- E fora do trabalho. Em um nvel pessoal?
- Um homem discreto.
- Mas voc conhece Arthur Foxx.
- Naturalmente. Nesta firma ns cuidamos para que se socializemos com
os esposos dos scios e dos colaboradores. Arthur e Fitz era devotados um ao
outro.
- Nenhuma desavena?
Leanore franziu a testa.
- Eu no saberia dizer.
Certamente que saberia. , pensou do Eve.
- Voc e o Sr. Fitzhugh eram scios, vocs tinham uma proximidade
profissional e aparentemente um relacionamento pessoal prximo. Deviam
discutir sobre a vida pessoal de tempo em tempo.
- Ele e Arthur eram muito felizes.-O primeiro sinal de irritao de Leanore
foi um bater delicado de uma caneta de tonalidade coral de encontro  borda
da mesa de vidro. - Casais felizes tm ocasionalmente alguma discusso. Eu
imagino que discuta com seu marido de vez enquanto.
- Meu marido no tem, recentemente, encontrado mortos em sua
banheira.- Eve falou sem se alterar -O que fazia Foxx e Fitzhugh discutirem?
Leanore deixou escapulir de um huff de exasperao. Levantou-se,
digitando um cdigo em seu AutoChef, removeu um copo de caf quente. Nada
foi oferecido a Eve.
- Arthur teve episdios peridicos do depresso. No  o mais confidente
dos homens. Tendia a ser ciumento, isto exasperava Fitz .- Sua testa enrugou -
Voc est provavelmente ciente que Fitz esteve casado antes. Sua
bissexualidade era um tanto problemtica para Arthur, e quando era
pressionado, tendia a se preocupar em relao a todos os homens e mulheres
que Fitz fazia contato no curso de seu trabalho. Discutiram raramente, mas
quando o faziam , era geralmente sobre o cimes de Arthur.
- Tinha razo para ter cimes?
- Tanto quanto eu sei, Fitz era completamente fiel. No  sempre uma
escolha fcil, tenente, estando sobre os refletores como estava, e dado seu
estilo de vida. At hoje, h algumas pessoas que so - como podemos dizer-
incomodadas com uma opo sexual no tradicional. Mas Fitz no deu a Arthur
nenhuma razo para que se sentisse descontente.
- Contudo estava. Obrigado.- Eve disse levantando-se- Voc foi muito til.
- Tenente- Leanore comeou quando Eve e uma silenciosa Peabody
foram  direo a porta. -Se eu pensa, por um instante, que Arthur Foxx teve
qualquer coisa fazer com...- parou, e respirou fundo.  No...  simplesmente
impossvel acreditar.
- Menos impossvel do que acreditar que ele tenha cortados os pulsos e
se deixado sangrar at a morte? - Eve a encarou antes de sair do escritrio.
Peabody esperou at que estivessem fora do edifcio para comentar.
- No sei se voc estava colhendo ou plantados informaes.
-Ambos.- Eve olhou atravs do vidro protetor da passarela. Poderia ver o
edifcio onde era o escritrio de Roarke, um majestoso e lustroso bano entre
outros prdios. Ao menos no teve nenhuma conexo com este caso. No
tivera que se preocupar sobre descobrir algo que ele havia feito ou que um
conhecido dele fizera.
- Conheceu ambos, a vtima e o suspeito. E Foxx no mencionou que ela
esteve l depois do trabalho ontem  noite.
- Assim voc coloca Foxx de testemunha para suspeito?
Eve prestou ateno a um homem com um casaco bem talhado passar
por ela na passarela falando furioso ao telefone.  At que provemos que 
suicdio, Foxx  o primeiro, inferno, o nico suspeito. Teve os meios. Era sua
faca. Teve a oportunidade. Estavam sozinhos no apartamento. Tinha um
motivo. Dinheiro. Agora ns sabemos que tem um histrico do depresso, um
registro da violncia, e raios de cimes.
- Posso lhe perguntar algo?- Peabody esperou o assentimento de Eve. -
Voc no gostava de Fitzhugh nem no nvel profissional nem no pessoal, no 
verdade?
- Eu no o suportava.  isso que quer saber?
Eve saiu da passarela aerodeslizante e atravessou a rua onde tinha sido
afortunada o bastante para encontrar um lugar para estacionamento. Divisou
um carrinho de frituras, algumas salsichas de soja boiavam no leo junto com
rodelas de batatas, fez um desvio no pesado trfego de pedestres.
- Voc acha que eu tenho que gostar do cadver? D-me dois cachorros
quentes e uma poro de batatas fritas. E tambm duas latas de Pepsi.
- Faa diets para mim,- Peabody interrompeu e rolou-a os olhos sobre o
corpo esguio de Eve.-Alguns de ns tm que se preocupar com o peso.
- Cachorro quente diet e Pepsi Diet.
A mulher que dirigia o negcio tinha um pendente preso no centro do lbio
superior com o mapa do Canal de Panam e uma tatuagem com o mapa do
metr em seu peito. A linha A desviava-se e desaparecia dentro do frouxo
tecido transparente que cobria seus peitos.
- Registro, dois hot dogs, duas Pepsis e uma batata quente. Dinheiro ou
crdito?
Eve passou a bandeja de comida para Peabody e apalpou os bolsos
pegando o carto de crditos.
- Qual foi o prejuzo?
A mulher apertou o dedo roxo no console respingado de molho. O
aparelho emitiu alguns bips.
- Vinte e cinco crditos.
- Merda. Voc pisca e os hot dogs j esto mais caros.
Eve derramou os crditos na mo esticada da mulher, agarrou dois
guardanapos. Fez o caminho de volta e sentou-se em um dos bancos que
rodeava a fonte em frente do edifcio do tribunal. O pedinte ao seu lado a olhou
esperanoso. Eve bateu em seu emblema; ele sorriu e bateu na licena de
pedinte pendurada em torno de sua garganta. Resignada, ela retirou um carto
de cinco crditos do bolso e passou sobre a plaqueta.
- Encontre algum outro lugar para tumultuar  disse- Ou eu vou examinar
sua licena para verificar se ela  atual.
Ele disse algo incompreensvel sobre sua linha de trabalho, mas embolsou
o crdito e se retirou, dando o alojamento a Peabody.
- Leanore no gosta de Arthur Foxx.- Peabody engolia corajosamente. Os
hot dogs dietticos eram invariavelmente granulosos.
- No?
- Uma advogada de alta classe no d muitas respostas a menos que
queria. Alimentou-nos sobre o fato de Foxx ser ciumento, e que eles discutiam.
Eve ofereceu o pote de batatas gordurosas a Peabody, depois de um
esforo interno breve ela pescou uma.
- Quis que tivssemos estes dados.
- No  muito ainda. No h nada nos registros de Fitzhugh que implica
Foxx. Nem em seu dirio, sua agenda ou seu registro de ligaes. E em
nenhum dos dados que eu scaneei com as pontas dos dedos. E novamente,
nada indica uma propenso ao suicdio. Nada.
Contemplativamente, Eve sugava sua Pepsi, observando Nova Iorque e
todo sua carga de barulho e suor.
- Ns teremos que falar outra vez com Foxx. Tenho que ir a corte
novamente , hoje  tarde. Eu quero que voc volte para a Central de Polcia,
comece a analisar os relatrios porta a porta, e importune a forense para o
resultado da autpsia final. Eu no sei em que linha eles esto, mas eu quero
os resultados at o fim de meu turno. Eu devo sair da corte l pelas trs horas.
Faremos outra vistoria no apartamento de Fitzhugh e veremos porque ele
omitiu a rpida visita de Bastwick.
Peabody engoliu a comida e programou seus deveres do dia em sua
agenda.
- O que eu perguntei antes.  pausa - Sobre voc no gostar de Fitzhugh.
Eu quis saber apenas se seria mais duro empurra os botes quando voc tem
sentimentos ruins sobre o assunto.
- Policiais no tem sentimentos pessoas.- Ento ela suspirou - Besteira.
Voc pe aqueles sentimentos de lado e empurra as teclas.  nisso que
consiste o trabalho. E se acontecer, de eu pensar que um homem como
Fitzhugh merece terminar banhando-se em seu prprio sangue, no significa
que eu no farei o que for necessrio para encontrar como ele chegou l.
Peabody assentiu.
- Muitos policiais apenas arquivariam o caso. Suicdio. Fim de histria.
- Eu no sou como os outros policiais, e nem voc, Peabody.
Lanou um olhar de suave interesse para o explosivo rudo da coliso de
dois txis. O trfego de pedestres e das ruas apenas se desviou. Dos veculos
destrudos dois furiosos e excitados homens saram. Eve mordiscou e afastou
seu lanche enquanto os dois homens se empurravam e falavam criativas
obscenidades. Imaginou que eram obscenidades, j que nenhum palavra em
ingls foi proferida. Olhou para cima e no avisou nenhum helicptero
sobrevoando o trfego. Com um meio sorriso, ela passou o tubo vazio para
Peabody.
- Despeje isso na recicladora, depois volte para me dar uma mozinha
com aqueles dois idiotas.
- Senhor um deles retirou um basto. Devo chamar o apoio?
- No.- Eve friccionou-a as mos com antecipao enquanto se levantava.
- Eu posso segur-lo.
...........................
O ombro do Eve ainda doa quando saiu da corte duas horas mais tarde.
Imaginou que os motoristas de txi j deviam estar soltos nesse momento, o
mesmo no iria acontecer com o assassino de crianas que acabara de
testemunhara contra, pensou com satisfao.
Ficaria preso na Penitenciaria de Vigilncia Mxima pelos prximos
cinqenta anos, no mnimo. Havia alguma satisfao naquilo.
Eve moveu seu ombro ferido.
O motorista no tinha mirado nela exatamente, pensou. Tinha tentando
rachar a cabea do seu oponente , e ela tinha apenas se colocado no caminho.
Mas no ficara sentida por eles terem suas licenas de motoristas suspendidas
por trs meses.
Entrou em seu carro e, favorecendo seu ombro, ps o veculo em piloto
automtico para a Central de Polcia . No elevado, um guia turstico discursava
sobre a balana da Justia.
Bem , ela meditou, algumas vezes as coisas se equilibravam. Pelo menos
por um curto tempo. Seu Link emitiu bip.
- Dallas.
- Dr. Morris.- O mdico forense tinha olhos de falco, verdes vvidos sobre
as pesadas plpebras . Um queixo quadrado e proeminente que ostentava uma
barba recm feita. Eve gostava dele. Embora ela estivesse freqentemente
frustrada por sua lentido, ela apreciava seu meticulosidade.
- Terminou o relatrio sobre Fitzhugh?
- Estou com um problema.
- Eu no preciso de um problema, preciso do relatrio. Voc pode
transmiti-lo para o link do meu escritrio? Eu estou a caminho de outro local.
- No, tenente, voc esta a caminho daqui. H algo que preciso lhe
mostrar.
- No tenho o tempo para passar pelo necrotrio.
- Pois encontre - sugeriu e terminou a transmisso.
Eve apertou seus dentes . Os cientistas eram assim, amaldioados e
frustrantes, pensou enquanto se dirigia novamente para sua unidade.
.............................
Da parte externa, o Lower Manhattan City Morgue assemelhava-se aos
edifcios de escritrio que o cercaram. Essa camuflagem tinha sido um ponto
essencial no design. Ningum gostava de lembrar da morte e ter seu apetite
estragado enquanto fugia do trabalho para fazer um lanche rpido em uma das
delicatesse. Imagens de corpos etiquetados em gavetas de refrigeradores
tendiam a fazer voltar molhos de salada.
Eve recordou a primeira vez que tinha passado atravs das portas de ao
pretas da parte de trs do edifcio. Ela tinha sido um recruta, empurrando
ombros, em meio a duas dzia de outros recrutas uniformizados.
Ao contrrio de diversos dos seus camaradas, ela j tinha visto a morte de
perto e pessoalmente antes, mas nunca a tinha visto indicada, dissecada e
analisada. Havia uma galeria acima de um dos laboratrios de autpsia e l os
estudantes, os recrutas, e os jornalistas ou os romancistas com credenciais
apropriadas podiam testemunhar, em primeira mo, o funcionamento intricado
da patologia forense. Os monitores individuais em cada assento ofereciam
vistas em close para aqueles que tinha estmago para isso. A maioria deles
no voltava para um segundo passeio. Muitos saiam carregados.
Eve tinham sado caminhando com seus prprios ps, e tinha voltado,
inmeras vezes depois, porm no ansiava as visitas.
Seu alvo desta vez no era o referido The Theater , mas o laboratrio C,
onde Morris conduzia a maioria de seus trabalhos. Eve passou pelo corredor
de teto branco com seus assoalhos verde ervilha. Podia sentir o cheiro da
morte dali. No importa o que fosse usado para erradic-lo, o fedor
impregnante deslizava atravs das fretas, em torno das entradas, e pairavam
no ar como um sorridente lembrete da mortalidade.
A cincia mdica erradicara pragas, uma legio de doenas e condies,
estendendo a expectativa de vida a uma mdia de cento e cinqenta anos. A
tecnologia cosmtica tinha assegurado que o ser humano pudesse viver
atrativamente durante um sculo e meio. Voc poderia morrer sem rugas, sem
manchas da idade, sem nostalgia, dores e ossos se desintegrando. Mas voc
iria morrer ainda, cedo ou tarde. Para muitos que estavam ali, o dia chegara
mais cedo. Parou na frente da porta do laboratrio C, levou seu emblema at a
cmera de segurana, e deu seu nome e nmero do ID ao alto-falante. A palma
de sua mo foi analisada e aceita. A porta deslizou se abrindo. Era um
pequeno e deprimente cmodo sem janelas e apinhado de equipamentos e
computadores.
Algumas das ferramentas estavam organizada com a preciso de uma
bandeja cirrgica em uma bancada, eram brbaras o bastantes para fazer
tremer o homem mais fraco. Serras, laser, lminas de bisturi, mangueiras. No
centro do quarto estava uma mesa com calhas por onde escorria os lquidos
em um recipiente esterilizado para uma analise adicional. Na mesa estava
Fitzhugh, seu corpo despido que carrega as cicatrizes de uma inciso padro
em Y. Morris estava sentando em uma cadeira giratria, na frente de um
monitor, o rosto afundado na tela.
Vestia um jaleco branco do laboratrio que flutuava at o cho. Era uma
de suas poucas vaidades, o casaco que ondulava e serpenteava como a capa
de um super-heri sempre que andava de cima a baixo pelos corredores. Seu
cabelo estava alisado para trs e preso em um longo rabo de cavalo.
Eve sabia, desde que ele a chamara diretamente e no passando a
mensagem atravs de um de seus tcnicos, que havia algo fora do comum.
- Dr. Morris?
- Hmm. Tenente,- comeou sem se virar -Nunca vi qualquer coisa assim.
No em trinta anos explorando os mortos.
Ele virou-se com o casaco flutuando em torno dele. Sobre o jaleco vestia
calas justas e desgastadas e uma camiseta curta em vistosas cores.
- Voc me parece bem, tenente.
Deu-lhe um de seus sorrisos rpidos, charmosos, e seus lbios curvaramse
em resposta.
- Voc tambm est com uma aparncia boa. Livrou-se da barba.
Ele estendeu a mo, friccionado-a sobre o queixo barbeado. Ostentava
um cavanhaque preciso at recentemente.
- No me servia. Mas Cristo, eu odeio faze-la. Como foi a lua de mel?
Automaticamente, colocou as mos nos bolsos.
- Foi bem. Eu tenho um dia cheio hoje, Morris. O que voc tm para me
mostrar que no poderia mostrar na tela?
- Algumas coisas requerem uma ateno pessoal.
Deslizou seu banco at a mesa de autpsia, onde puxou um guincho que
deslocou a cabea de Fitzhugh.
- O que voc v?
Olhou de relance para baixo.
- Um homem morto.
Morris assentiu, como se estivesse satisfeito com a resposta.
- O que ns chamaramos um acontecimento normal, um simples cadver,
um homem que morreu devido  perda excessiva do sangue, possivelmente
auto-aflingido.
- Possivelmente?
Sobressaltou-se a palavra.
- A princpio, suicdio  a concluso lgica. No havia nenhuma droga em
seu sistema, muito pouco lcool, no mostra nenhuma leso, nem feridas
defensivas ou contuso, o assentamento do sangue eram consistentes com
sua posio na banheira, ele no se afogou, o ngulo do pulso ferido...
Chegou mais perto, ergueu umas das mos de Fitzhugh pelo pulso ferido
onde a leso se assemelhava a uma intricada lngua antiga.
- So tambm muito consistente de uma suicdio: um homem de mos
precisas, reclinando-se ligeiramente.
Demonstrou, usando uma lmina imaginria.
- Muito rpido, um corte preciso no pulso, rompendo a artria.
Embora tivesse estudado as feridas ela mesma, e as suas fotografias,
aproximou-se olhando outra vez.
- Porque no poderia algum ter vindo por atrs, inclinado sobre ele,
cortado nesse mesmo ngulo?
- No  alm do reino da possibilidade, mas se esse fosse o caso, eu
esperaria ver algumas feridas defensivas. Se algum interrompe seu banho e
corta seu pulso, voc fica inclinado a se irritar, algo assim .  Seu rosto irradiou
em um sorriso. - Eu no penso que voc apenas se recostaria em sua banheira
e se deixaria sangrar at a morrer.
- Assim voc est disposto a concordar com o suicdio.
- No assim rapidamente. Eu estou preparando-a.
Segurou-se no banco e se inclinou para trs sem sair do lugar.
- Eu fiz uma anlise padro do crebro, feita em todo caso de suicdio ou
suspeito de suicdio. Isso  o enigma aqui. O enigma real.
Escorregou sua cadeira at a sua estao de trabalho, gesticulava sobre
seu ombro para que o seguisse.
- Este  seu crebro - disse, batendo um dedo no rgo que flutua no
lquido transparente e unido ao computador por meio de finos fios. - De "Abby
Normal." "I beg your pardon."- Morris riu, agitou sua cabea. -Obviamente voc
no tem tempo de assistir filmes clssicos .  uma citao de Frankenstein. O
que quer dizer o provrbio : este crebro  anormal.
- H leses no crebro?
- Leses.  pausa- Bem, parece uma palavra extrema para o que eu
encontrei. Aqui...na tela.
Girou sobre ele mesmo e bateu na tecla. Uma vista em close do crebro
de Fitzhugh apareceu.
- Outra vez, a primeira vista, completamente como esperado. Mas ns
mostraremos a seco transversal.
Clicou outra vez, e o crebro foi cortado ordenadamente ao meio.
- H muita coisa dentro desta pequena massa - Morris murmurou.-
Pensamentos, idias, msica, desejos, poesia, raiva, dio. As pessoas falam
do corao, tenente, mas  o crebro que prende toda a mgica e mistrio da
espcie humana. Nos eleva, separa e define como indivduos. E os seus
mistrios  pausa- Bem,  duvidoso que iremos conhec-los todos . Veja aqui.
Eve inclinou-se aproximando, tentando ver o que ele indicava com a ponta
do dedo na tela.
- S vejo um crebro. No muito atrativo, mas necessrio.
- No se preocupe, eu tambm quase deixei passar. Nesta imagem, -
disse enquanto o monitor danava em cores e formas.- o tecido aparece em
azul, de plido a escuro e os ossos em branco. Os vasos sanguneos esto em
vermelho. Como voc pode ver, no h nenhum cogulo ou tumor que indicaria
desordem neuronais na estrutura. Realce o quadrante B, sees trinta e cinco
a quarenta, trinta por cento.- A tela piscou e uma seco da imagem ampliou.
Perdendo a pacincia, Eve deu os ombros, mas ento se inclinou.
- O que  aquilo? Parece um... Que? Um borro?
- Mas no  que  isso?
Ele sorriu novamente, olhando fixamente para a tela onde uma pequena
sombra, no maior do que um azeitona maculava o crebro.
- Quase como uma impresso digital, um dedo oleoso de uma criana.
Mas quando voc reala mais uma vez.
Fez isso com alguns comandos breves, estalando a imagem mais
prxima.
-  mais como uma minscula queimadura.
- Como  possvel fazer uma queimadura dentro de seu crebro?
- Exatamente.
Com evidente fascnio, Morris girou sobre o eixo de sua cadeira para o
crebro em questo.
-Eu nunca vi nada semelhante a esta pequena mancha, como a ponta de
uma agulha. No foi causada por uma hemorragia, por um pequeno trauma, ou
por um aneurisma. Eu passei por todos os programas padres de imagens
existentes do crebro e posso garantir que no encontrei nenhuma causa
neurolgica sabida para isso.
- Mas est l.
- Certamente, que est. Pode no ser nada, no mais do que um leve
anormalidade que causasse uma dor de cabea ou tonteira ocasional.
Certamente no seria fatal. Mas  curioso. Eu tenho mandado para todos os
mdicos de Fitzhugh para ver se ns fazemos alguns testes ou se encontramos
uma data para esta queimadura.
- Poderia causar depresso, ansiedade?
- Eu no sei. Ele tem uma falha no lbulo frontal esquerdo do hemisfrio
cerebral direito. A opinio mdica atual  que, determinados aspectos, tais
como a personalidade, esto localizados nesta especfica rea cerebral. Assim
parece que  nesta seco do crebro que recebemos e analisamos sugestes
e idias.
Deu os ombros.
- Entretanto, eu no posso documentar que esta falha contribuiu para a
morte. O fato  que, Dallas, neste momento eu estou confuso, mas fascinado.
E eu no estarei liberando seu caso at que eu encontre algumas respostas.
..............................
- Uma queimadura no crebro- Eve murmurou consigo mesmo,
codificando as trancas do quarto de Fitzhugh. Tinha vindo sozinha, querendo-o
vazio, o silncio, para dar oportunidade ao crebro de trabalhar. Ateque a
cena ficou clara. Foxx indo do quarto ao living. Retrocedeu seus passos no
andar superior, estudado o banho sangrento novamente. Uma queimadura no
crebro, pensou outra vez. As drogas pareceram  resposta mais lgica. Se
no mostrassem na toxologia, poderia ser algum tipo novo de droga, uma que
devia ser registrada ainda. Andou pelo quarto de relaxamento. No havia nada
mais l do que os brinquedos caros de um homem rico que gostava de se
divertir em seu tempo de lazer. No conseguia dormir, recordou. Veio para c
para relaxar, tomou um conhaque. Sentado estirado sobre a cadeira, prestava
ateno alguma tela.
Seus lbios franziram enquanto pegava o culos de realidade virtual ao
lado da cadeira. Examinou-o rapidamente. No quis usar o compartimento
para ele, apenas retrocederia um pouco.
Curiosa, deslizou os culos de proteo, requisitando a ltima cena
jogada. Foi instalada em um barco branco balanando em um interessante rio
esverdeado. Os pssaros voavam sobre ela, um cardume dos peixes
cintilantes passou ao seu lado. Nos bancos altos do rio estavam as flores
selvagens e grandes rvores. Sentiu-se flutuar, deixou sua mo mergulhar na
gua para quebrar a quietude da cena.
Era quase por do sol, e o cu estava indo de cor-de-rosa a roxo no oeste.
Poderia ouvir o zumbido baixo das abelhas, o barulho ritmado dos grilos. O
barco balanava como um bero. Disfarou um bocejo, retirou os culos de
proteo. Uma cena relaxante, sedativa, decidiu e abaixou os culos. Nada que
induziria um impulso repentino de cortar os pulsos. Mas a gua pde ter
mandando um impulso para um banho quente, e assim foi feito. E se Foxx
rastejasse para dentro do banheiro, sendo quieto o bastante, rpido o bastante,
poderia t-lo feito. Era tudo que tinha, Eve decidiu, e removeu seu comunicador
para requisitar uma segunda entrevista com Arthur Foxx.
Captulo 6
Estudou os relatrios de porta em porta dos recrutas. A maioria deles era
o que esperava. Fitzhugh e Foxx eram quietos, mas mantinham uma conduta
amigvel com seus vizinhos no edifcio. Mas se omitiu em relao  declarao
que andride de quarto de Foxx fez em que ele deixou o edifcio as vinte e
duas e trinta horas e retornou as vinte e trs horas.
- Ele no mencionou que saiu, Peabody? Nem uma palavra sobre sua
saidinha durante esta noite?
- No, nada foi mencionado.
- Temos os discos de segurana gravando o lobby e o elevador do prdio?
- Eu os carreguei. Esto sobre o relatrio 10:51 de Fitzhugh em sua
unidade.
- Vamos dar uma olhada.
Eve carregou sua mquina, inclinado-se para trs em sua cadeira.
Peabody observava o monitor sobre seu ombro e resistiu em mencionar que
ambas estavam agora, oficialmente, fora do horrio de servio. Era
emocionante, apesar de tudo, trabalhar lado a lado com a melhor detetive de
homicdio na central da Polcia. Dallas podia desprezar tudo aquilo, pensou
Peabody, mas era a verdade, seguira a carreira do Eve Dallas por anos, e no
havia ningum que admirasse ou desejasse rivalizar tanto quanto ela. O maior
choque da vida de Peabody foi , de algum modo, no decorrer daqueles curtos
meses, terem se tornados tambm amigas.
- Pare.
Eve empertigou-se na cadeira enquanto a transmisso se congelava.
Estudou a loira clssica que entrava no edifcio as vinte e duas e quinze.
- Bem, bem, ai est nossa Leanore.
- Teve um tempo razoavelmente prximo. Dez quinze.
- Sim, est na marca.
Eve passou a lngua em torno dos dentes.
-Que voc acha, Peabody? Negcios ou prazer?
- Bem, est vestida para negcios.
Peabody inclinou sua cabea e permitiu que uma fugaz ponta de inveja
subisse pela espinha observando o elegante traje de Leanore.
- Est carregando uma pasta.
- Uma pasta e uma garrafa do vinho. Realce o quadrante D, trinta a trinta
e cinco. Uma garrafa cara de vinho - Eve murmurou quando a tela estabilizou e
indicou claramente a etiqueta. -Roarke tem alguns dessa safra na adega. Eu
penso que vale aproximadamente uns dois mil dlares.
- Um frasco? Uau!
- Um copo- Eve corrigiu, divertida quando Peabody engasgou. -Algo no
combina .Recomece em tamanho e velocidade normal, desloque a cmera do
elevador. Hmm. Sim, sim. Imprima , -Eve murmurou, prestando ateno como
Leanore examinava-se em um estojo compacto de ouro que tirara de sua
pasta, pulverizando seu nariz com p , retocando seu batom enquanto o
elevador subia.
- Olhe ali, abriu os trs primeiros botes da blusa.
- Preparando-se para um homem,- Peabody disse, e encolheu os ombros
quando Eve inclinou-se lanando um olhar em sua direo.
- Eu suporia.
- Eu suporia, tambm.
Juntas, prestaram ateno aos passos largos de Leanore no saguo do
trigsimo oitavo andar at chegar ao apartamento de Fitzhugh. Eve adiantou a
gravao at que Foxx saiu quinze minutos mais tarde.
- No tem um semblante feliz, no  verdade?
- No - Peabody estreitou-a os olhos. - Eu diria que tem o olhar meio
transtornado- Arqueou as sobrancelhas quando Foxx descontou o mau humor
na porta do elevador.- Muito transtornado.
Esperaram o desenlace do drama. Leanore deixou o apartamento vinte e
dois minutos mais tarde, o rubor corando suas bochechas, olhos que
resplandeciam. Apertou o dedo chamando o elevador , engatando sua pasta no
ombro. Pouco tempo depois, Foxx retornou carregando um pequeno pacote.
- No permaneceu mais de vinte ou trinta minutos, no mximo uns
quarenta. O que aconteceu no interior do apartamento essa noite?- Eve
gostaria de saber. - E o que Foxx trouxe com ele? Contate os escritrios de lei.
Eu quero Leanore aqui para interrogatrio. Eu tenho um com Foxx as nove e
trinta da manh. Comece com ele ao mesmo tempo. Trabalharemos em
equipe.
- Voc quer dizer...eu interrogar?
Eve desligou o computador, dando os ombros.
-  uma boa ocasio para comear. Vamos nos encontrar aqui as oito e
meia. Ou melhor. Venha para o meu escritrio, l em casa, s oito horas. Vai
nos dar mais tempo. - Olhou de relance para seu tele-link que chamava,
considerou ignor-lo, mas depois aceitou a ligao.
- Dallas.
- Oi! - A cara brilhante de Mavis encheu a tela. -Eu estava esperando
apanh-la antes que fosse embora. Como  que vai tudo?
- Muito bem. Eu estava pronta para ir embora. O que est aprontando?
- timo sincronismo . Sincronismo grande. Super. Escute, eu estou no
estdio de Jess. Ns estamos indo fazer uma sesso. Leonardo est aqui. Ns
vamos fazer uma festa, assim que chegar aqui.
- Olhe... escuta, Mavis, foi um dia cheio para mim. Eu quero apenas...
- Vamos...! - Havia ansiosidade bem como entusiasmo. -Ns vamos trazer
algo para comer, e Jess fermenta uma cerveja incrvel . Vai atingir os seus
sentidos em segundos. Ele acha que se pudermos gravar algo decente hoje 
noite, poderamos comeara trabalhar. Eu gostaria realmente de voc por
perto. Voc sabe, aquele apoio moral de merda.Voc no pode, pelo menos,
d uma passadinha por aqui no caminho?
- Eu imagino que poderia.- Maldio. No tenho nenhuma coragem. -Vou
avisar a Roarke que chegarei atrasada .Mas no posso ficar muito.
- Ah, eu j falei com Roarke.
- Voc, o que?!
- Eu falei com ele a algum tempo atrs. Ah, voc sabe, Dallas, eu nunca
fui naquele escritrio super elegante. Ele estava tendo uma reunio...com as
Naes Unidas ou com alguma coisa assim l, sabe, todos aqueles rapazes de
fora do pas. Selvagem! Em todo o caso, me puseram direto para falar com ele
por que disse que era amiga de vocs. Assim, -Mavis riu sobre o suspiro de
Eve-, eu disse o que voc estava vindo, e ele disse que daria uma passada
aqui aps a reunio... ou a conferncia... ou o que quer que fosse aquilo.
- Bem...parece que est tudo resolvido.
Eve observou sua fantasia envolvendo uma jakuzzi, um copo do vinho e
um gordo bife se desvanecer.
- Claro que sim. Hey, essa  Peabody? Hey, Peabody, voc vem
tambm? Faremos uma festa! Venha agora!
- Mavis.- Eve a impediu segundos antes que ela desligasse.  Onde,
inferno, voc est?
- Oh, eu no disse? O estdio oito na avenida B .Apenas bata na porta.
Algum vai abrir para voc.
Ela ouviu alguma coisa que podia ser chamado de msica soar alto.
- Esto ajustando o som. Irei l.
Eve deixou escapar um suspiro, e passou as mos pelos cabelos
afastando-os dos olhos , e olhou de relance sobre seu ombro.
- Bem, Peabody, quer ir a uma sesso de gravao, para ter suas orelhas
fritadas, para comer comida horrvel, e beber um cerveja ruim?
Peabody no teve que pensar duas vezes.
- De fato, tenente, eu adoraria.
............................
Aceitaram seu destino batendo numa porta de ao cinzenta que parecia
ter sido golpeada repetidas vezes por um objeto rombudo . A chuva dessa
manh tinha deixado um cheiro desagradvel e gorduroso no ar vindo das ruas
e das unidades recicladoras que nunca pareciam estar funcionando bem
naquele ponto da cidade. Com mais resignao do que energia, Eve observou
dois usurios de drogas fazerem negcios sob a iluminao fraca do poste de
luz. Nenhuns deles pareceu preocupado ao ver o uniforme de Peabody.
Eve se voltou quando um dos drogados aspirou a droga a menos de dois
metros de distncia.
- Maldio, aquele  arrogante demais. Prenda-o.
Resignada, Peabody dirigiu-se para l. O viciado a focalizou, praguejou e,
engoliu o papel onde o p tinha sido colocado, girou o corpo preparando-se
para correr. Derrapou no pavimento molhado e bateu a cara no poste de luz.
Quando Peabody o alcanou j tinha achatado o traseiro no cho e sangrava
profusamente pelo nariz.
- Este j est fora de combate - ela informou a Eve.
-Idiota. Chame a central. Que venha uma carro da patrulha aqui para
transport-lo. Voc quer o colar?
Peabody considerou, agitou ento a cabea.
- No tem importncia. A policial da patrulha pode fazer isto. - Retirou seu
comunicador, deu a posio enquanto voltava para junto de Eve.
- O negociante ainda est atravessando a rua - comentou. - Tem patins
areos, mas eu poderia tentar persegui-lo por baixo.
- Eu detecto uma certa falta de entusiasmo.- Eve estreitou-a os olhos,
observando o negociante que atravessava a rua desajeitadamente com os
patins areos.
- Hey, imbecil, - chamou. - Voc v esta policial aqui?
Apontou o polegar para Peabody.
- Faa seu negcio em outro lugar,ou vou pedir pra ela aumentar o nvel
da arma para trs e ver voc mixar as calas.
- Foda-se- ele gritou a zuniu para longe com seus patins.
- Voc tem um jeito todo especial de tratar este tipo de gente, Dallas.
- Sim,  um dom.
Eve virou-se, preparada para bater outra vez na porta, mas deu de cara
com uma mulher de propores enormes. Tinha ombros to largos quanto uma
rodovia. Eles se sobressaiam de um traje de couro sem mangas e ondulavam
cobertos de msculos e tatuagens. Abaixo disso, vestia uma cala de pele cor
de rosa. Ostentava um anel de cobre no nariz e gel no cabelo que formava
curtas ondas lustrosas e negras.
- Atravessadores de drogas fudidos  disse, sua voz como uma exploso
de canho Fede mais que a vizinhana. Voc  a policial de Mavis?
- Ela mesma, e trouxe minha policial comigo.
A mulher olhou para Peabody de cima abaixo com seus olhos azuis
leitosos.
- Tudo bem. Mavis diz que voc  confivel. Eu sou Mary Grande.
Eve baixou sua cabea em sinal de entendimento.
- Sim, voc .
Fez-se um silncio de dez segundos e ento a cara de lua da Mary
Grande abriu-se em um sorriso.
- Vamos entrar. Jess est apenas aquecendo os motores l em cima .
Fazendo as boas vindas, segurou brao do Eve e entrou no curto corredor. 
Vamos l policial de Dallas.
- Peabody.
Com um olhar cauteloso, Peabody1 mantinha a distancia de Mary
Grande
- Corpo de ervilha. Sim, voc no  muito maior que uma ervilha.
Rindo de seu prprio gracejo, Mary Grande empurrou Eve para um
elevador acolchoado, esperando que a porta se fechasse.
Ficaram espremidas como sardinhas em latas, enquanto Mary
programava a unidade para ir at o nvel que queria.
- Jess, disse para levar vocs at o controle. Voc tem dinheiro?
Era duro manter algum tipo de dignidade quando tinha o nariz
pressionado contra as axilas de Mary.
- Para que?
- Para trazermos algo para comer. Voc tem que pagar a sua parte do
rango.
- Certo. Roarke j chegou?
- No vi nenhum Roarke. Mavis diz que no posso deixar de v-lo, pois 
imponente.
A porta acolchoada abriu-se, e Eve deixou sair o flego que prendia.
Mesmo enquanto sugava o ar, suas orelhas foram assaltadas. Mavis estava
cantando, a voz selvagem berrava acompanhada do rudo ensurdecedor.
- Ela est no caminho certo.
Somente sua afeio profunda que sentia por Mavis a impediu que
pulasse para trs, de volta ao ambiente impermevel ao som.
- Aparentemente.
- Eu trarei suas bebidas. Jess j vai servir a cerveja.
1 Peabody: traduo literal: corpo de ervilha
Mary afastou-se, deixando Eve e o Peabody em uma cabine controle de
vidro transparente semicircular que se inclinava acima de um estdio onde
Mavis colocava os coraes e os pulmes para fora. Com um sorriso forado
Eve, aproximou-se do vidro, para observar melhor. Mavis tinha prendido seu
cabelo para cima com uma presilha multicolorida de modo que parecia uma
fonte roxa jorrando sua cabea. Usava um de seus macaces modificados com
cintas de couro pretas que passavam por cima de seus seios nus. O resto do
traje era um brilhante caleidoscpio de cores que comeava no estmago e
terminado entre suas pernas. Danava acompanhando as batidas da msica
sobre um tamanco com um salto de dez centmetros. Eve no tinha nenhuma
dvida que o amante de Mavis projetara o traje para ela. Achou Leonardo em
um canto do estdio completando Mavis com um sorriso resplandecente como
um raio de sol e usava um macaco que parecia deslizar pelo corpo como se
estivesse usando um terno de grife.
- Que par. - ela murmurou enganchando os polegares nos bolsos traseiros
do jeans velho.
Girou sua cabea para falar com Peabody, mas a ateno de sua amiga
estava centrada a sua esquerda, e a expresso de Peabody, Eve notou com
alguma curiosidade, era um misto de admirao, choque e luxria.
Ao seguir seu olhar fascinado, teve sua primeira viso de Jess Barrow.
Era bonito. Uma pintura em movimento, com um longo cabelo cor de carvalho
lustroso. Seus olhos eram quase de prateados e moldado com longas
pestanas, focalizavam com ateno os controles que tinha a sua frente. Sua
compleio era perfeita, maas do rosto arredondadas e um queixo forte. Sua
boca era cheia e firme, e suas mos, que voavam sobre os controles,
esculpidas to finamente quanto o mrmore.
- Recolha seu lngua Peabody- Eve sugeriu, - Antes que voc pise nela.
- Deus. Meu Deus.  melhor pessoalmente. Voc no tem vontade de
morde-lo?
- No particularmente, mas voc pode ir adiante.
Peabody ajeitou os cabelos. Trocou o apoio dos ps algumas vezes.
Aquela era, lembrou a si mesma, sua superiora. Contenha-se.
- Eu admiro seu talento.
- Peabody, voc est admirando o trax dele. Que  muito bonito e eu
no posso ir contra voc nesta questo.
- Eu o quero para mim - ela murmurou, limpou ento sua garganta
enquanto Mary Grande aparecia atrs delas com dois copos cheios de um
contedo marrom escuro - Jess consegue esta cerveja de sua famlia sulina. 
muito boa.
Levando em considerao que no tinha marcas nem etiquetas, Eve
preparou-se para sacrificar algumas camadas que protegiam seu estmago.
Foi uma agradvel surpresa quando o lquido deslizou refrescante por sua
garganta abaixo.
-  tima. Obrigado.
- Se voc pagar, pode ter mais. Imagino que eu terei que descer agora,
para esperar Roarke. Ouvi dizer que ele tem dinheiro o bastante para se
mergulhar dentro dele. Como que pode no usar nenhuma jia se se casou
com um homem rico?
Eve decidiu no mencionar o diamante do tamanho de um punho de
beb que descansa entre seus seios sob sua camisa.
- Minha roupa de baixo  feita de ouro puro. Irrita um pouco, mas me dar
sensao de segurana.
Depois de processar a informao com um breve atraso, Mary jogou a
cabea para trs e deu uma gargalhada golpeando duramente o traseiro de
Eve, quase enfiando sua cabea no vidro a sua frente. Dirigiu-se ento para
fora, deixando entrar o som do rock ensurdecedor.
- Precisamos de uma dessas trabalhando a nosso lado -Eve murmurou-
Ela no necessitaria de armas nem de escudos.
A msica chegou a um nvel quase dolorido e ento foi interrompida como
um golpe severo de faca. Mavis deixou escapar um gritinho e se lanou nos
braos abertos de Leonardo.
- Voc esteve muito bem, querida.- A voz de Jess fluiu doce e seu acento
sulino flutuou pelo ar.
- Faa uma pausa de dez minutos e descanse essa garganta dourada
para mim. A idia de Mavis de descansar sua garganta foi deixada de lado com
um outro grito, em seguida acenava desesperadamente na direo de Eve.
- Dallas, voc est aqui. Isso no  super? Eu j estou subindo!, no saia
dai.-E desapareceu atravs de uma porta com seus tamancos da moda.
- Ento, esta  Dallas - Jess empurrou a cadeira afastando-se de seu
equipamento. Seus corpo era bem guarnecido, realado dentro um cala jeans
to velha quanto as de Eve e uma camisa simples do algodo que custaria
todo o salrio do ms de um policial. Usava um brinco de diamante preso em
sua orelha que cintilou enquanto cruzava a cabine e uma corrente tranada do
ouro em torno de seu pulso que deslizou fluda, pendendo sobre uma daquelas
bonitas mos quando ele a estendeu.
- Mavis vive me contando histrias sobre sua policial.
- Mavis nunca para de falar.  parte de seu encanto.
- Isso . Eu sou Jess, e estou encantando em conhece-la finalmente. -
Com sua mo ainda cobrindo a de Eve, girou lentamente para Peabody
ostentando um sorriso cativante
- Ao que parece temos duas policiais pelo preo de uma.
- Eu sou uma grande admiradora sua. - Peabody tentava controlar seu
nervosismo.- Eu tenho todos os seus discos em udio e vdeo. Eu fui a seus
concertos.
- Os amantes de msica so sempre bem vindos - Liberou a mo de Eve
tomando a dela.
- O que acha de eu lhe mostrar meu brinquedo favorito?- sugeriu,
conduzindo-as at o console. Antes que Eve pudesse segui-los, Mavis se atirou
para dentro da cabine.
- O que voc acha? Gostou? Eu que escrevi! Jess orquestrou , mas fui eu
que escrevi.Acredito que poderia vender.
- Eu estou realmente orgulhosa de voc. Voc soou grande. - Eve
correspondeu o abrao entusiasmado de Mavis e sorriu para Leonardo sobre
seu ombro.
- Como sente estando para se unir a uma das prximas lendas da msica
em formao?
-  maravilhosa.- Inclinou-se para dar um abrao em Eve  Voc esta
tima. Percebi que voc usou meus modelos durante algumas reportagens e
acontecimentos. Obrigado
- Eu  que agradeo.- Eve disse sincera. - Leonardo era um genial
projetista de roupas.  Graas a voc, eu no fiquei parecendo uma prima
pobre de Roarke.
- Voc nunca deixa de ser voc mesma - Leonardo corrigiu, mas estreitou
seus olhos e passou os dedos atravs de seu cabelo desarrumado.
- Voc necessita algum trabalho aqui. Se no refizer o corte a cada
semana ele perde a forma.
- Eu ia aparar as pontas esses dias, mas no...
- No - Agitou sua cabea solenemente, mas seus olhos cintilaram. 
Acabaram-se os dias que voc mesma cortava seus cabelos. Chame Trina e
pea que o faa.
- Ns teremos que arrast-la outra vez.- Mavis era toda sorriso.  Ela fica
inventando desculpas e depois corta de qualquer jeito com a tesoura da
cozinha - Riu quando Leonardo estremeceu.  Ns pediremos a Roarke para
persegui-la.
- Me encantaria  Saiu do elevador e foi direto para Eve, moldando seus
rosto com as mos, e a beijando os lbios.  E com que propsito eu irei
persegui-la?
- Nenhum. Tome uma bebida.- Passou-lhe seu copo.
Em vez de beber, Roarke beijou Mavis em cumprimento.
- Obrigada pelo convite.  uma instalao muito moderna.
- No  o mximo?  um sistema de primeira linha, e Jess trabalha com
todos os tipos da mgica nesse console. Tem seis milho instrumentos
programados ali dentro. Pode tocar todos. Pode fazer qualquer coisa.  noite
que foi no D & D mudou minha vida.  como um milagre.
- Mavis, voc  o milagre. - Prontamente, Jess conduziu Peabody de volta
ao grupo. Focou seus olhos ao dela. Eve podia ver o pulsar acelerado de sua
veia na garganta.
- Fica fria, menina - murmurou, mas Peabody somente rolou os olhos.
- Voc conheceu Dallas e Peabody, certo? E este  Roarke.- Mavis deu
um pulinho sobre seus tamancos.  Meus melhores amigos.
-  um genuno prazer. -Jess ofereceu uma de suas mos finamente
tratadas a Roarke. - Eu admiro seu sucesso no mundo dos negcios e seu
gosto para mulheres.
- Obrigado. Eu procuro ter cuidado com ambos.
Roarke olhou em volta e inclinou sua cabea.
- Seu estdio  impressionante
- Eu gosto de exibi-lo. Estava em estgio de planejamento por algum
tempo. Mavis  realmente o primeiro artista a us-lo,  exceo de mim
mesmo. Mary que vai trazer algo para comermos. Porque no lhe mostro
minha criao premiada antes que eu ponha Mavis de volta ao trabalho?
Conduziu o grupo para trs do console, e se sentou diante dele como um
capito no leme.
- Os instrumentos so programados, naturalmente. Eu posso fazer todo
um nmero de combinaes e variar o passo e a velocidade.  acessado
diante do comando da voz, mas uso raramente este recurso. Distrai-me da
msica.
Deslizou os controles e fez soar uma singela melodia.
- Grava tambm as vozes.
Bateu seus dedos sobre teclas e voz de Mavis soou, surpreendentemente
intensa e rica. Um monitor mostrou os sons convertidos em cores e formas.
- Eu uso para analisar o som pelo computador. esboou um encantador
sorriso de autocrtica e acrescentou- Ns musiclogos no podemos controlar,
mas isso  outra histria.
- Soa bem- disse Eve satisfeita.
- E soara melhor depois que mesclarmos com ela mesma. Ento a voz de
Mavis se dividiu em duas e uma se sobrepes a outra em total harmonia. As
mos de Jess danavam sobre os controles, fazendo soar guitarras,
instrumentos metlicos, o jingle de uma percusso, o lamento melodioso de um
sax. -Suave.  Tudo ficou lento e calmo. -. Agitado- A msica explodiu em
velocidade e som.
- Isto  tudo muito bsico, como fazer um dueto com gravaes de
artistas do passado. Poderia ouvir a verso de Hard Day's Night com o
Beatles. Eu tambm posso codificar qualquer som.
Com um sorriso encantador e atrevido, girou um seletor, e deslizou seus
dedos sobre as chaves. A voz de Eve soou Fique fria, menina As palavras se
fundiram com a voz de Mavis, repetindo, ecoando at desvanecer.
- Como fez isso?- ela exigiu.
- Eu apenas gravei com microfone - ele explicou- E adicionei ao console.
Agora que eu tenho sua voz no programa, posso mandar sua voz substituir a
de Mavis.- deslizou os controles outra vez , e Eve recuou quando se ouviu
cantar.
- No faa isso  ordenou.
Jess inclinou-se para trs rindo.
- Desculpe-me, eu no posso resistir a brincadeiras. Queira se ouvir
cantando, Peabody?
- No- ento inclinou os lbios  Bem, talvez.
- Deixe-me ver. Algo tranqilo, leve e clssico. Trabalhou por um
momento, para em seguida se recostar na cadeira. Os olhos de Peabody
arredondaram-se quando ouviu que cantava harmoniosamente atravs da
cano I've Got you Under my Skin.
-  uma de suas canes? - perguntou.  Eu no a reconheo.
Jess riu.
- No,  mais velha do que eu . Voc tem uma voz firme, oficial Peabody.
Um bom controle da respirao. Quer deixar seu emprego diurno e se juntar ao
grupo?
Ela corou e agitou a cabea negando. Jess cortou os vocais, ajustando o
console para um instrumental blue.
- Eu trabalhei com um coordenador que projetou alguns aparatos
eletrnicos para o Disney-World. Ficamos quase trs anos para terminar este 
acariciou o console como um ser querido - Agora que tenho o prottipo e uma
unidade trabalhando, estou esperando fabricar mais. Tambm funciona por
controle remoto. Eu posso faze-lo trabalhar de qualquer lugar. Eu comecei a
projetar uma unidade menor, porttil, e tenho trabalhado em um alterador de
nimos.
Pareceu travar-se, agitou sua cabea.
- Eu sou muito entusiasmado. Meu agente est comeando a se queixar
que gasto mais tempo trabalhando com a eletrnica do que com a gravao.
- Chegou a comida! - Mary gritava.
- timo ento! - Jess sorriu, e olhou para sua audincia.  Vamos atacar.
Voc tem que repor seu nvel de energia, Mavis.
- Eu j estou indo.-Agarrou a mo de Leonardo e se dirigiu para a porta.
Abaixo, Mary entrava com sacos e caixas no estdio.
- Vo se servindo, - disse Jess. -Eu irei em seguida. Tenho alguns ajustes
para fazer.
- O que voc acha?- Eve murmurou a Roarke quando se dirigiram para
baixo, seguidos por Peabody.
- Imagino que esteja procurando um investidor. - Eve fez um sinal,
assentido.
- , tambm me pareceu. Sinto muito.
- No  um problema. Tem um produto interessante.
- Eu pedi a Peabody fizesse uma busca sobre ele. Nada veio. Mas no
gosto da idia de que ele pode estar utilizando voc ou Mavis.
- Isso  algo que ainda iremos ver -Girou-a em seus braos enquanto
pisavam no estdio, deslizou as mos sobre suas coxas.
- Senti saudades. Senti saudades de passar todo o tempo ao seu lado.
Sentiu o calor despertar entre suas coxas, ardente, mais cobioso do que
o momento pedia. Seus seios formigaram.
- Eu tambm senti muita sua falta. Porque no discutimos um jeito de sair
correndo daqui, voltarmos para casa e fodermos como coelhos?
Ele estava duro com ferro. Enquanto se inclinava para beliscar sua orelha,
teve que se conter para no arrancar suas roupas.
-tima idia. Cristo. Eu quero voc.
Ao inferno onde estavam, pensou Roarke, e a agarrou pelos cabelos sob
sua nuca para pilhar sua boca. No console, Jess os observou com ateno e
sorriu. Em alguns minutos, pensou, poderiam estar no cho, transando
apressadamente. Melhor no. Com dedos hbeis, deslizou as teclas, mudando
o programa. Mais do que satisfeito, levantou e comeou a descer para o andar
de baixo.
...........................
Duas horas mais tarde, dirigindo-se para casa atravs das ruas escuras
iluminadas apenas com o brilho dos letreiros, Eve acelerou seu carro alm dos
limites permitido por lei. A necessidade era uma lembrana constante latejando
entre suas coxas, um desejo desesperado que precisava ser satisfeito.
- Voc est quebrando a lei, tenente.-Roarke disse suavemente.
Era como uma rocha outra vez, se sentia como um adolescente que fazia
uso de hormnios.
A mulher que se orgulhava de nunca abusar de seu emblema murmurou:
- Dobrando-a. - Roarke se inclinou e acariciou seus seios.
- Dobre mais.
- Oh Jesus.- J podia imagin-lo dentro dela, assim afundou o p no
acelerador e disparou pelas ruas como uma bala. O motorista de um carro
areo ergueu seu dedo mdio para Eve, quando ela fez uma curva brusca e se
dirigiu para o leste. Com uma maldio, Eve ligou a sirene, instalando sobre o
carro o globo vermelho e azul, fazendo-o piscar.
- No posso acreditar que estou fazendo isto. Eu nunca fiz isso.
Roarke deslizou uma mo entre suas coxas.
- Sabe o que vou fazer com voc?
Ela deu um risada rouca, engolindo em seco.
- No me diga, PELO AMOR DE DEUS. Vou acabar nos matando!
As mos coladas ao volante tremiam, seu corpo vibrava como uma corda
tensa. Sua respirao estava entrecortada. As nuvens que ocultavam a lua
deslizaram-se para deixar passar seu brilho.
- Use o controle para abrir os portes -ela arfou.-Use o controle. Eu no
vou reduzir.
Ele codificou-o rapidamente. Aberto rapidamente os majestosos portes
de ferro, ela passou a centmetros de ambos.
- Excelente trabalho. Pare o carro.
- S um minuto, s um minuto.- Ela conduziu rapidamente pelo caminho
da entrada, voando sobre as frondosas rvores e as fontes musicais.
- Pare o carro,- exigiu outra vez e pressionou a mo entre suas pernas.
Veio imediatamente, violentamente, mal conseguiu se manter na direo e
quase colidindo com um carvalho. Arquejante, freou o veculo deslizando e
parando-o inclinado sobre o cho.
Voou sobre ele.
Rasgaram suas roupas, lutando para se encontrar no interior estreito do
carro. Mordeu seu ombro, arrancado suas calas. Ele amaldioava e ela ria,
quando se arrastaram para fora do carro. Caram na grama num redemoinho
de membros e roupas retorcidas.
-Depressa. Depressa.- Era tudo que podia pedir pela tenso incontrolvel.
Sua boca estava sobre seus seios atravs da camisa rasgada, os
friccionava com seus dentes. Ela puxou suas calas, cravando os dedos em
suas coxas. Sua respirao era rpida e spera. A necessidade crua que o
aprisionava era to urgente quanto  dela. Podia sentir seu sangue rugindo,
uma onda gigantesca, atravs de suas veias. Suas mos a machucaram
quando empurrou suas pernas para trs, e se dirigiram ao interior profundo.
Ela gritou. Um selvagem e primitivo som do prazer. Suas unhas raspandolhe
as costas, seus dentes fincados em seu ombro. Poderia senti-lo pulsar
dentro dela, preenchendo-a com o cada impulso desesperado. A ascenso do
orgasmo era dolorosa e no mitigava a necessidade monstruosa. Estava
molhada, quente, seus msculos que se contraiam, bem como seus dentes,
com cada estocada em seus quadris.
Ele no podia parar, no podia pensar, mergulhava repetidas vezes como
um garanho que cobre uma gua no cio. No podia v-la atravs da nvoa
vermelha que toldava sua viso, apenas a sentia, o acompanhando,
pressionando seus quadris. Sua voz soava em seus ouvidos, toda gemidos,
sussurros e arquejos.
Cada som que partia dela penetrava em sua mente como um canto
primitivo.
Chegou sem aviso, alm de seu controle. Seu corpo explodiu,
simplesmente como um motor que chega a sua potncia mxima, e
descarregou. A onda quente da libertao o inundou, engolido-o, afogado-o.
Era a primeira vez que no sabia se ela o acompanhara at o final.
Desmoronou, rolando fraco para o lado, tentando encontrar ar para seus
pulmes. Estavam ao luar, estendidos na grama, suados, meio despidos e
trmulos, como sobreviventes solitrios de uma guerra particular. Com um
gemido, ela rolou sobre seu estmago e deixou que a grama mida refrescasse
sua face ardente.
- Cristo, o que foi aquilo?
- Sob outras circunstncias, eu chamaria de sexo. Mas... -Tentou abrir
seus olhos. -Eu no tenho palavras para definir...
- Eu mordi voc?
Ele comeou a sentir dores  medida que corpo se recuperava. Virou sua
cabea, olhou de relance para seu ombro e viu a marca de dentes.
- Algum o fez. Imagino que provavelmente voc.
Observou uma estrela cadente, atravessando o cu em direo a terra.
Tinha sido assim, ele pensou, como mergulhar cegamente no esquecimento.
- Voc est bem?
- No sei. Tenho que pensar sobre isso.
Sua cabea ainda girava.
- Ns estamos no gramado,- disse lentamente. - Nossa roupa est
rasgada. E tenho quase certeza que a marca de seus dedos est em meu
traseiro.
- Eu fiz o meu melhor,- ele murmurou.
Eve sorriu primeiramente, em seguida soltou uma risada, e por fim
gargalhava.
- Jesus, Roarke, Jesus Cristo, olhe para ns.
- Em um minuto. Acho que ainda estou parcialmente cego.- Mas estava
sorrindo quando se virou. Ela ainda gargalhava. Seu cabelo tinha mechas
arrepiadas em vrios ngulos estranhos, seus olhos vidrados, havia manchas
de grama e impresses de dedos em seu traseiro.  Voc no parece uma
policial, tenente.
Ela rolou para se sentar e o observou com a cabea inclinada para o
lado.
- Voc to pouco parece um menino rico, Roarke.  Rancou uma manga
solta de seu brao, era a nica coisa que restara da sua camisa.  Mas  uma
viso interessante. Como  que vai explicar isso a Summerset?
- Vou dizer, simplesmente, que minha esposa  um animal.
Ela bufou.
- Ele j tinha chegado a esta concluso sozinho.
Suspirando, olhou para a casa. As luzes brilhavam no andar trreo
dando-lhes boas-vindas.
- Como iremos entrar?
- Bem...- Encontrou o que era os restos da camisa de Eve, amarrou-a em
torno de seus seios, e comeou a rir sem controle. Comearam a vestir as
roupas arruinadas- Eu no posso carreg-la at o carro.Estava esperando que
voc me carregasse.
- Primeiro temos que nos levantar.
- Certo.
Nenhuns deles se moveu. As gargalhadas comearam outra vez,
continuou enquanto se agarravam como bbados em busca de apoio e se
levantavam.
- Deixe o carro ai- ele decidiu.
- Uh-huh.
Comearam a andar com passos vacilantes.
- Roupa? Sapatos?
- Deixe-os tambm.
- Boa idia.
Rindo como crianas que desobedeciam ao toque de recolher, tropearam
escadas acima, silenciosos enquanto atravessavam a porta.
- Roarke!- seguiram-se murmrios de surpresa e passos apressados.
- Eu sabia,- Eve murmurou aborrecida.  Eu disse.
Summerset apressou-se em sair das sombras, seu rosto normalmente
plcido estava coberto de choque e preocupao. Observou suas roupas
esfarrapadas, pele ferida e olhos selvagens.
- Foi um acidente?
Roarke empertigou-se, mantendo seu brao em torno dos ombros do Eve
tanto para sustent-la quanto para buscar apoio.
- No. Foi proposital. V dormir, Summerset.
Eve olhou de relance sobre o ombro enquanto ela e Roarke se ajudavam
escadas acima. Summerset ainda estava na porta, seu rosto aturdido. A
imagem foi to divertida que ela riu durante todo o trajeto at o quarto. Caram
na cama, exatamente como estavam e dormiram como bebs.
Captulo 7
Era um pouco antes da seis da manh quando, um bocado dolorida e
ainda um pouco atordoada, Eve sentou-se na mesa de seu escritrio.
Realmente considerava o apartamento que Roarke tinha construdo para ela
mais um santurio do que um escritrio. Seu projeto era similar ao apartamento
onde tinham vivido antes de conhece-lo e que to relutante tinha abandonado.
Ele o havia feito de modo que pudesse ter seu prprio espao, suas prprias
coisas. Mesmo depois de todo aquele tempo vivendo ali, raramente dormia em
sua cama quando ele se ausentava. Em vez disso, se enrodilhava na cadeira
de relaxamento e cochilava. Os pesadelos vinham menos freqentemente
agora, mas rastejavam de volta a sua mente em momentos mpares. Podia
trabalhar ali quando era conveniente, fechava as portas se quisesse
privacidade. E pelo fato de possuir uma cozinha completa , escolhia
freqentemente seu AutoChef a Summerset, quando estava sozinha na casa.
Com o sol fluindo atravs da janela atrs dela, reviu seu casos em aberto, e
reorganizou seu trabalho de campo. Sabia que no tinha o luxo de se limitar
exclusivamente ao caso Fitzhugh, ainda mais estando catalogado como um
provvel suicdio. Se no conseguisse uma evidncia forte em um ou dois dias,
no teria nenhuma escolha a no ser coloc-lo em uma posio de menor
prioridade. s oito horas, batidas soaram na porta.
- Entre, Peabody.
- Eu nunca vou me acostumar a este lugar, - Peabody disse enquanto
entrava -  como algo tirado de um velho filme.
- Voc deve pedir a Summerset para lev-la em uma excurso, - Eve
disse distrada.  Eu estou certa que h quartos que eu nunca tomei
conhecimento. H caf. - Eve gesticulou na direo da cozinha e continuou a
olhar sua agenda com o cenho franzido.
Peabody andou pelo aposento, olhando as unidades de entretenimento
que se alinham  parede, querendo saber como seria poder ter recursos para
todo o divertimento disponvel: msica, arte, vdeo, hologramas, Realidade
Virtual, cmaras de meditao e jogos. Jogue uma partida de tnis com o mais
recente campeo de Wimbledon, dance com o holograma de Fred Astaire, ou
faa uma excurso virtual ao palcio dos prazeres de Regis III.
Sonhando acordada entrou na cozinha. O AutoChef j tinha sido
programado para o caf, assim requisitou dois, carregado s canecas
fumegantes de volta ao escritrio. Esperou pacientemente enquanto Eve
continuava a murmurar. Peabody experimentou seu caf.
- Deus. Oh Deus.  real.- Piscando em choque, ela segurou a caneca com
ambas as mos reverentes. - Este caf  real.
- Sim, aqui voc acaba se acostumando. E difcil suportar aquilo que eles
chamam de caf l na central de polcia.
Eve olhou de relance para cima, fixou-se na expresso de prazer de
Peabody, e sorriu. No havia sido a muito tempo atrs que tivera uma reao
similar ao caf de Roarke. E a Roarke.
- Incrvel, huh?
- Eu nunca tinha tomado caf real antes.  como se bebesse ouro lquido
 e com a destruio das florestas e a escassez de chuvas era igualmente
caro. Peabody bebeu lentamente.
-  surpreendente.
- Voc tem meia hora para aprecia-lo antes de comearmos a decidir a
estratgia de hoje.
-Eu posso repetir? - Peabody fechou-a os olhos e inalou o aroma. - Voc
 meu dolo, Dallas.
Com um sorriso curto, Eve estendia a mo em direo ao tele-link quando
este soou.
- Dallas,- disse, a seguir seu rosto se iluminou com um sorriso.
- Feeney.
- Como  a vida de casada, pequena?
-  tolervel.  meio cedo para a equipe de investigao digital, no?
- Comeou quente o trabalho hoje. Algum engraadinho entrou no
computador do chefe e fritou quase o sistema inteiro.
- Entraram dentro do sistema?-Os olhos de Eve se alargaram de surpresa.
No tinha certeza nem se Feeney, com seu toque mgico, pudesse quebrar a
segurana do sistema da Polcia Central.
- Pelo que parece sim. Aqui est tudo uma loucura de merda, um inferno.
Eu estou ajeitando as coisas, -ele disse alegremente. Eu s pensei em
verificar como voc est, j que no tenho tido muitas notcias suas.
- As coisas esto meio corridas para mim.
- Voc no sabe andar em outro ritmo. Est com caso de Fitzhugh?
- Estou. Algo que eu deva saber?
- No. Seu dinheiro o matou, e ningum aqui est muito sentido com sua
morte. Aquele tipo seboso adorava espremer os polcias no banco de
testemunhas. Eu estava pensando em algo interessante,  o segundo suicdio
grande, em um ms.
Eve se interessou.
- Segundo?
- . Oh, aquele  certo. Voc estava em sua lua de mel revirando os
olhos com seu marido.- Ergueu suas sobrancelhas vermelhas.- Um senador do
leste, Washington, h algumas semanas atrs. Pulou a janela do edifcio do
capitlio. Polticos e advogados, todos esto loucos.
-  o que parece.Tem como voc mandar os dados desse caso? Transfira
para minha unidade do escritrio.
- Por que, vai comear a colecionar recortes?
- Apenas me interessou o caso.- Eve sentia um certo pressentimento, -
Da prxima vez que nos encontrarmos no restaurante eu pago a conta.
- Sem problema Assim que eu desembolar este sistema, vamos
combinar. No seja to difcil de encontrar, - disse-lhe e desligou.
Peabody continuava dando goles miserveis no caf.
- Est achando que pode haver uma conexo entre Fitzhugh e o senador
que se jogou da janela?
- Advogados e polticos, - Eve murmurou. - e coordenadores de autoeletrnico.
- Como?
Eve agitou sua cabea.
- Eu no sei. Desconectar, -requisitou a sua unidade, colocou a bolsa
sobre o ombro dizendo: Vamos.
Peabody esforou-se para no se aborrecer pela falta da outra xcara de
caf.
- Dois suicidas em duas cidades diferentes no intervalo de dois meses
no  uma coisa to rara, - ela disse, alongando seus passos para alcanar
Eve.
- Trs. Havia um jovem em Olympus que se pendurou quando ns
estvamos l. Mathias, Drew. Quero ver se consigo uma conexo entre eles,
qualquer coisa que os una. Amigos, lugares, hbitos, instruo, passatempos.-
Apressou-se escada abaixo.
- Eu no sei o nome do poltico. Eu no prestei ateno aos relatrios do
suicdio em Washington.- Ocupada, Peabody pegou seu computador de bolso
e comeou a procurar por dados.
- Mathias ia fazer vinte e dois anos, coordenador de auto-eletrnicos.
Trabalhou para Roarke. Merda.- Teve um mau pressentimento que acabaria
tendo que arrastar mais uma vez Roarke para dentro seu trabalho. - Se voc
tiver alguma dificuldade, pergunte a Feeney. Pode conseguir os dados, mesmo
estando bbado, mais rapidamente do que qualquer uma de ns.
Eve abriu a porta e franziu o cenho quando no viu seu carro parado na
entrada.
- Maldito Summerset. Eu sempre falo para ele deixar o carro onde eu
estaciono!
- Eu acho que ele fez isso. - Peabody colocou seus culos de sol.-Est ali,
obstruindo a entrada, v?
- Oh, sim.
Eve limpou sua garganta. O carro estava justamente onde o tinha
deixado, e balanando na brisa suave, podia-se ver alguns farrapos de roupas.
- No faa perguntas, - murmurou e comeou a descer o caminho.
- Eu no ia fazer.- A voz de Peabody era suave como seda. Especular 
mais interessante.
- Bico fechado Peabody.
- Sim senhor, tenente.
Com uma expresso compenetrada, Peabody entrou no carro e engoliu
uma risada quando Eve girou o veculo e caminhou para a sada.
......................
Arthur Foxx estava suando. Era apenas um sutil brilho no lbio superior,
mas para Eve j era o bastante. No tinha se surpreendido ao saber que o
representante que tinha escolhido era um dos scios de Fitzhugh, um jovem
entusiasta do trabalho, que exibia um traje caro com medalhes  moda
vigente nas delgadas lapelas.
- Meu cliente est compreensivelmente aborrecido. -O jovem advogado
franziu o rosto-. O funeral do senhor Fitzhugh est previsto para as treze horas
desta tarde. Escolheu um momento inoportuno para interrog-lo.
- A morte  que escolhe o momento, senhor Ridgeway, e costuma ser
inoportuna. Interrogatrio de Arthur Foxx, em relao a Fitzhugh, caso nmero
30091, conduzido pela tenente Dallas, Eve. Data: 24 de agosto de 2058, hora
9.36. Pode dizer seu nome para que conste no registro?
- Arthur Foxx.
- Senhor Foxx, voc est ciente que este interrogatrio est sendo
gravado?
- Estou.
- Exerceu seu direito a ser representado por um advogado e compreende
seus direitos e responsabilidades adicionais?
- Sim.
- Senhor Foxx, voc j fez anteriormente uma declarao sobre seus
movimentos na noite da morte do senhor Fitzhugh. Deseja revis-la?
- No  necessrio. J lhe expliquei o que aconteceu. No sei o que mais
espera de mim.
- Para comear, diga-me onde esteve entre as dez e meia e onze horas
na noite do incidente.
- J disse. Jantamos, vimos uma comdia, nos deitamos e assistimos as
ltimas notcias.
- Ficou em casa durante toda  noite?
-  o que eu disse.
- Sim, senhor Foxx, foi o que voc disse,  o que consta no registro. Mas
no  o senhor fez.
- Tenente, meu cliente est aqui voluntariamente. No vejo...
- Poupe-se -sugeriu ela-. Saiu do edifcio aproximadamente as dez e meia
e regressou trinta minutos mais tarde. Aonde foi?
- Eu... -Foxx afrouxou o n da gravata-. Sa por alguns minutos. Tinha
esquecido.
- Voc esqueceu.
- Minha mente estava confusa. Eu estava em choque. -A gravata rangia
enquanto os dedos de Foxx brincavam com ela- Me esqueci de algo to
irrelevante, quanto eu ter dado uma rpida caminhada.
- Mas est lembrando agora, no ? Aonde foi?
- Dar uma volta em torno do quarteiro.
- Voltou com um pacote. O que tinha?
Eve percebeu por fim quando ele deu-se conta que as cmaras de
segurana o tinham filmado. Olhou alm dela e seus dedos ficaram mais
ocupados na gravata.
- Parei numa loja vinte e quatro horas e comprei cigarros. De vez em
quando preciso fumar um.
-  algo fcil verificar com o estabelecimento e determinar o que comprou
exatamente.
- Tranqilizantes - cuspiu ele -. Queria dormir bem e decidi fumar erva.
No h nenhuma lei que o proba.
- No, mas h uma lei contra dar falsos depoimentos numa investigao
policial.
- Tenente Dallas -interveio o advogado com tom ainda sereno, mas com
uma nota de irritao, o que deu a entender a Eve que Foxx no tinha sido
mais comunicativo com seu representante que com a polcia-. O fato do senhor
Foxx ter sado do edifcio por um curto tempo, dificilmente tem relao com sua
investigao. E descobrir o corpo de um ser querido  uma desculpa mais do
que razovel para no recordar um detalhe nfimo.
- nfimo... talvez. Voc no mencionou Sr. Foxx, que voc e o senhor
Fitzhugh tiveram uma visita na noite de sua morte.
- Leanore no  uma visita -replicou Foxx com rigidez-. Ela ... era scia
de Fitz. Pelo que entendi tinham um certo assunto para discutir, o que  uma
das razes pela qual sai para uma caminhada. Queria dar-lhes alguns
momentos de privacidade para que discutissem o caso. engoliu em seco.
Achei que era mais conveniente para todos.
- Entendo. De maneira que, agora afirma que deixou o apartamento para
que seu marido e sua scia tivessem privacidade. Por que no mencionou a
visita da senhorita Bastwick em sua declarao anterior?
- No pensei nisso.
- No pensou nisso. Declarou que jantaram, viram uma comdia e se
deitaram, mas se esqueceu de acrescentar esses outros eventos. Que outros
acontecimentos esqueceu de dizer, senhor Foxx?
- No tenho nada mais que acrescentar.
- Por que estava aborrecido quando saiu do edifcio, senhor Foxx? Irritouse
por uma mulher bonita, uma mulher com quem o senhor Fitzhugh
trabalhava, aparecer na sua casa assim, to tarde da noite?
- Tenente, no tem nenhum direito de insinuar...
- No estou insinuando -replicou ela mal olhando o advogado - apenas
perguntando, de maneira muito direta, se o senhor Foxx estava aborrecido e
com cimes quando saiu como um furaco de seu edifcio.
- No sa como um furaco. Eu apenas sai - Foxx fechou um punho sobre
a mesa - E no tinha nenhum motivo para estar aborrecido ou com cimes de
Leanore. Apesar da freqncia de vezes que ela o assediava, ele no estava
interessado nela nesse sentido.
-A senhorita Bastwick assediava o senhor Fitzhugh? - Eve arqueou as
sobrancelhas - Isso devia aborrece-lo. Arthur. Sabendo que seu amigo no
tinha preferncias sexuais entre homens e mulheres, sabendo que passavam
horas juntos, todos os dias durante toda uma semana de trabalho, e que ela
vinha se exibir diante dele em sua prpria casa... No  uma surpreendente
que no estivesse irritado. Eu teria vontade de voar para cima dela.
-Ele se divertia -deixou escapar Foxx-. Parecia muito lisonjeado que
algum muito mais jovem e to atraente, se jogasse assim para cima dele. Ria
quando eu me queixava sobre ela.
- Ria de voc? -Eve sabia jogar o jogo. Uma nota de compaixo se
transmitiu em sua voz-. Isso deve t-lo enfurecido, no? Consumia-o por
dentro, no  assim, Arthur? Imagin-lo com ela, acariciando-a e rindo de voc.
- Eu a teria matado! -estourou Foxx, afastando o advogado que o
segurava enquanto enrijecia de ira-. Ela pensava que iria conseguir afast-lo de
mim, que conseguiria seduzi-lo. No era importante para ela que estivssemos
casados, comprometidos um com o outro. Tudo o que queria era triunfar.
Advogados fudidos.
- No gosta muito de advogados, no  verdade?
Foxx ofegava e conteve a respirao at conseguir mant-la uniforme de
novo.
- No. Regra geral no gosto. Eu no pensava em Fitz como um
advogado. Eu pensava nele como meu marido. E se eu estivesse disposto a
cometer um assassinato quela noite, tenente, teria matado Leanore.-Abriu os
punhos e voltou a fech-los-. Agora, no tenho nada mais para dizer.
Decidindo que era o bastante at o momento, Eve deu por finalizado o
interrogatrio e se levantou.
- Voltaremos a nos falar, senhor Foxx.
- Queria saber quando iro liberar o corpo de Fitz - disse ele, levantandose
com rigidez - Decidi no postergar o funeral, ainda que no seja muito
prprio j que seu corpo continua retido.
-  a deciso da equipe forense. Seus testes ainda esto incompletos.
- No basta que esteja morto? -A voz de Foxx tremeu -. No  bastante
que tenham lhe tirado a vida, voc tem que rancar cada pequeno detalhe
srdido de nossas vidas pessoais?
- No. -Ela caminhou at a porta e digitou o cdigo - No  bastante. -
Vacilou e decidiu dar um tiro no escuro - Suponho que o senhor Fitzhugh tenha
ficado muito impressionado e afetado com o recente suicdio do senador
Pearly.
Foxx assentiu com um gesto formal.
- Sim, ficou muito chocado, ainda que mal se conhecessem. - De repente
um msculo se contraiu em seu rosto - Se estiver insinuando que Fitz tirou sua
vida influenciado por Pearly,  ridculo. Tiveram apenas um rpido encontro e
raras vezes se falavam.
- Entendo. Obrigada por seu tempo. - Eve os acompanhou  porta e deu
uma olhada  sala contgua. Leanore j devia estar l dentro, esperando.
Eve andou com tranqilidade, percorreu o corredor at a mquina de
petiscos e estudou as opes enquanto fazia soar os crditos soltos em seu
bolso. Decidiu-se por uma guloseima e um tubo de Pepsi. A mquina lhe serviu
os produtos, pediu com voz montona que reciclasse os vasilhames e a
preveniu contra o consumo de acar.
- Ocupe-se de seus prprios negcios - Eve sugeriu. Inclinou-se para trs
de encontro a parede, comeu seu snak e despejou o lixo na rampa de
reciclagem. Andou calmamente pelo salo, estimou uma espera de vinte
minutos cozinhando Leanore. Iria direto no alvo.
A mulher andava de um lado para o outro como um gato engaiolado. As
elegantes pernas em passos rpidos. Voltou-se imediatamente quanto Eve
abriu a porta.
- Tenente Dallas, meu tempo  muito valioso, ainda que o seu no seja.
- Depende do ponto de vista. Eu no cobro dois mil dlares a hora,
elementar.
Peabody pigarreou.
- Para a gravao: Tenente Eve Dallas entrou na sala de interrogatrio C
para continuar com o procedimento. A interrogada foi informada de seus
direitos e optou por representar a si mesma. Todos os dados constam no
registro.
- Bem. - Eve sentou e indicou a cadeira diante dela - Quando terminar de
passear pela sala, senhorita Bastwick, poderemos comear.
- Estava preparada para comear o procedimento na hora combinada. -
Leanore sentou-se cruzando as pernas acetinadas - Com voc, tenente, no
com sua subordinada.
- Ouviu, Peabody?  minha subordinada.
- Constar na ata, tenente -respondeu Peabody secamente.
- Ainda considero este interrogatrio insultante e desnecessrio. -Leanore
passou as mos por seu traje negro-. Devo assistir ao funeral de Fitz dentro de
algumas horas.
- No estaria aqui sendo insultada desnecessariamente se no tivesse
mentido em sua primeira declarao.
Leanore lhe lanou um olhar glacial.
- Imagino que possa provar essa acusao, tenente.
- Declarou que tinha ido  casa da vtima a noite passada por um assunto
profissional. Que permaneceu ali discutindo um caso por vinte a trinta minutos.
- Mais ou menos -respondeu Leanore com frieza.
- Ora, senhorita Bastwick, sempre leva com voc uma garrafa de vinho
carssimo h uma reunio de negcios e se arruma para a tal reunio no
elevador como uma rainha para o baile da formatura?
- No h nenhuma lei que proba uma boa aparncia, tenente Dallas
Olhou para Eve de cima abaixo com expresso desdenhosa, desde o
cabelo despenteado at suas botas gastas -. Voc mesmo poderia tentar.
- Agora  voc quem est ferindo meus sentimentos. Arruma-se, abre os
trs primeiros botes da blusa e leva uma garrafa de vinho carssimo. Parece
preparada para uma seduo, Leanore. -Eve fez uma careta-. Vamos, est
entre mulheres. Sabemos do que se trata.
Leanore mostrou-se tranqila, estudando um ligeiro defeito em sua unha
perfeita. Fazia Eve pensar em um iceberg. Diferente de Foxx, no comeou a
suar.
- Passei aquela noite por sua casa para conferir um assunto profissional.
Tivemos uma breve reunio e em seguida fui embora.
- Esteve sozinha com ele durante esse tempo.
- Sim foi. Arthur teve um de seus ataques de mau gnio e foi embora.
- Ataques?
- Era tpico dele - disse Leanore - Tinha muito cimes de mim. Estava
convencido de que eu tentava afastar Fitz dele.
- E era verdade?
Um sorriso felino curvou os lbios de Leanore.
- Ora tente, se eu estivesse realmente empenhada em seduzir um
homem, acha que eu j no teria conseguido?
- Eu diria que voc se dedicou a fundo. E no conseguir poderia t-la
enfurecido.
Leanore encolheu os ombros.
- Reconheo que estava considerando. Fitz estava se desperdiando com
Arthur. Fitz e eu tnhamos muitas coisas em comum, e eu o achava muito
atraente. Eu gostava muito dele.
- O que ocorreu aquela noite foi de acordo com o afeto que sentia por ele?
- Digamos que deixei bem claro que estava aberta a uma relao mais
ntima. Ele no se mostrou receptivo primeiramente, mas era s questo de
tempo. - Leanore moveu os ombros num gesto rpido e seguro - Arthur devia
saber.  Seu olhar se tornou de novo glacial-.Por isso acredito que o matou.
- Que figura, heim? -murmurou Eve ao terminar o interrogatrio-. No
enxerga nada de mau em conduzir um homem ao adultrio e romper uma
relao de anos. Alm disso, est certa que no h homem no mundo que lhe
resista.  Suspirou - Cadelinha.
- Vai acus-la? -perguntou Peabody.
- Por ser uma cadela? -Com uma risada, Eve negou com a cabea -
Poderia tentar process-la por falso depoimento, mas ela e seus amigos
advogados resolveriam o assunto num abrir e fechar de olhos. No vale a
pena. No podemos coloc-la no lugar do acontecimento na hora da morte,
nem lhe atribuir um bom motivo. E no imagino essa mulher se lanando sobre
um homem de cento dez quilos para cortar suas veias. No iria querer manchar
de sangue seu bonito traje.
- Ento voltamos a Foxx.
- Estava com cimes e aborrecido, e vai herdar todos os brinquedos. - Eve
levantou e passeou pelo lugar-. No entanto seguimos sem nada. - Apertou os
olhos - E tenho que concordar com o que disse ao perder os estribos durante o
interrogatrio: teria matado a Leanore, no a Fitzhugh. Vou revisar os dados
sobre os dois suicdios anteriores.
- Ainda no tenho grande coisa - Desculpou-se Peabody saindo da sala
de interrogatrio atrs de Eve - No tive tempo.
- Agora h tempo. E Feeney provavelmente j me enviou os seus dados.
Passe-me o que tem e continue procurando - pediu Eve entrando em seu
escritrio-.
- Conectar - ordenou ao computador enquanto se deixava cair na cadeira
diante dele - Mostrar as novas mensagens.
O rosto de Roarke apareceu na tela.
Suponho que tenha sado para erradicar o crime. Estou indo para Londres
por um problema tcnico que precisa de uma ateno pessoal. No acredito
que demore muito tempo. Estarei de volta antes das oito, o que nos deixa
tempo de sobra para voar a New Los Angeles para a premiere.
- Merda, esqueci.
Na tela Roarke sorriu.
Imagino que deve ter esquecido oportunamente o encontro, assim quero
que considere isso um lembrete. Cuide-se, tenente.
Voar para a Califrnia para passar a noite conversando com famosas
estrelas da televiso, comendo os elegantes e minsculas legumes que
aquelas pessoas consideravam comida, deixando que os jornalistas se
aproximassem para gravar seu rosto e fazer perguntas estpidas no era sua
idia de uma noite divertida.
A segunda mensagem era do comandante Whitney ordenando-lhe que
preparasse uma declarao para os meios de comunicao sobre vrios casos
em andamento.
- Maldito seja, mais jornais- disse com amargura.
A seguir os dados de Feeney apareceram na tela. Eve encolheu os
ombros, afundou na poltrona e dedicou-se a estud-los.
s duas da tarde entrou no Village Bistro. Tinha a camisa colada s
costas porque o controle de temperatura de seu veculo tinha voltado a morrer
de morte no natural. No elegante restaurante o ambiente era to fresco como
a brisa do oceano. Suaves e encantadores cfiros acariciavam as ligeiras
palmeiras que cresciam em enormes vasos de loua branca. As mesas de
vidro estavam dispostas em dois nveis, estrategicamente situadas em torno de
uma pequena lagoa de gua negra, ou diante de uma ampla tela que projetava
uma praia de areia branca. As garonetes levavam uniformes curtos de tons
tropicais e abriam espao entre as mesas carregando bebidas coloridas e
pratos artisticamente apresentados.
O maitre era um andride vestido com um jaleco branco e programado
com um altivo acento francs. Ao ver os jeans gastos e a camisa amassada de
Eve, enrugou seu proeminente nariz.
- Madame, receio que no tenha mesas livres. Talvez prefira o
estabelecimento do prximo quarteiro ao norte.
- Certamente que sim. - Irritada ante a atitude do andride, Eve colocou o
distintivo na cara dele - Mas vou comer aqui. E no me importa nem um pouco
se isso pe seus chips num embrulho, amigo. Qual  a mesa da doutora Mira?
- Guarde isso - sussurrou ele, olhando para todas as partes ao mesmo
tempo e agitando as mos - Quer que meus clientes percam o apetite?
- O perdero de verdade seu eu pegar minha arma, e  o que vou fazer se
no me mostrar  mesa da doutora Mira e se encarregar de que me sirvam um
copo de gua mineral nos prximos vinte segundos. Programou isso?
O andride apertou os lbios e aquiesceu. Com as costas rgidas,
conduziu-a por um trecho de escadas de imitao de pedra at o segundo
andar, e a seguir a um recanto decorado como uma sacada com vista para o
oceano.
- Eve. - Mira se levantou de sua bonita mesa e lhe segurou ambas as
mos - Tem um aspecto excelente. - Para a surpresa de Eve, Mira a beijou na
face - Percebe-se que est descansada e feliz
- Suponho que estou. - Depois de uma breve hesitao, Eve se inclinou e
roou sua face com os lbios.
- A acompanhante da doutora Mira deseja um gua mineral - ordenou o
andride  garonete.
- Gelada - acrescentou Eve, sorrindo ao maitre.
- Obrigada, Armand. - Mira tinha brilhantes e serenos olhos azuis - Em
seguida faremos o pedido.
Eve deu outra olhada ao elegante restaurante e mudou de postura em sua
cadeira.
- Poderamos ter ficado em seu escritrio.
- Queria convid-la para almoar. Este  um de meus lugares favoritos.
- Esse andride  um imbecil.
- Bem, talvez programaram Armand excessivamente altivo, mas a comida
 extraordinria. Tem que provar os molucos Maurice. No se arrepender. -
Recostou-se na cadeira enquanto serviam a gua de Eve-.Diga-me, tudo
correu bem na lua de mel?
Eve bebeu todo copo de uma vez e voltou a se sentir um ser humano.
- Diga-me, at quando devo esperar que a pessoas me faam esta
pergunta?
Mira se ps a rir. Era uma mulher atraente, com o cabelo negro azeviche
recolhido para trs num rosto de serena beleza. Vestia um de seus elegantes
trajes amarelo plido. Tinha um aspecto asseado e polida. Era uma das
principais psiquiatras comportamentais do pas, e a polcia freqentemente lhe
pedia opinio a respeito dos mais perversos crimes. Ainda que Eve no tivesse
conscincia disso, Mira sentia por ela muito afeto e um forte sentimento
maternal.
- Voc se sente embaraada.
- Bem, j sabe. Lua de mel, sexo...  pessoal. -.Eve rolou seus olhos -
Soa estpido, mas imagino que no esteja acostumada a estar casada. E a
Roarke. A toda essa coisa.
- Vocs se amam e fazem um ao outro felizes. No  preciso se
acostumar a isso, s desfrutar. Est dormindo bem?
- No geral sim. - E recordando que Mira conhecia seus mais profundos e
escuros segredos, Eve baixou suas defesas - Continuo tendo pesadelos, mas
no com tanta freqncia. As recordaes vo e vm. Nenhuma  to dolorosa
quanto a que superei.
- Voc superou mesmo?
- Meu pai me violentava e me maltratava - disse Eve categoricamente -
Matei-o. Tinha oito anos. Sobrevivi. Quem quer que eu tenha sido antes de me
encontrarem naquele beco, j no importa. Chamo-me Eve Dallas. Sou uma
boa policial. Fiz-me sozinha.
- Bom. - Mas teria mais, pensou Mira. Os traumas como os de Eve tinham
ressonncias que nunca desapareciam por completo - Voc segue pondo
diante de tudo a polcia.
- Sou policial antes de qualquer coisa.
- Sim, e suponho que sempre o ser. -Mira esboou um sorriso - Por que
no fazemos o pedido e voc me explica a razo de seu telefonema?
Captulo 8
Eve seguiu a recomendao de Mira e pediu moluscos, depois se permitiu
o luxo de comer um pouco do autntico po fermentado da cesta de prata que
estava sobre a mesa. Enquanto comia, ofereceu a Mira um perfil de Fitzhugh e
os detalhes de sua morte.
- Voc gostaria que eu lhe dissesse se ele seria capaz de tirar sua prpria
vida? Se estava pr-disposto emocional e psicologicamente?
Eve arqueou uma sobrancelha.
- Essa  a idia.
- Infelizmente eu no posso faze-lo. Digamos que todos ns somos
capazes, dadas s circunstncias e o estado emocional.
- No posso acreditar nisso - replicou Eve com tal firmeza que Mira sorriu.
- Voc  uma mulher forte, Eve. Voc se fez forte, racional, resistente e
til.  uma sobrevivente. Mas se recorda do desespero, da impotncia e da
inutilidade.
Sim, Eve se recordava, recordava o tempo todo. Mudou a posio na
cadeira.
- Fitzhugh no era um homem intil.
- A superfcie pode ocultar um grande tumulto interior -A doutora levantou
uma mo antes que Eve pudesse interromp-la - Mas estou de acordo com
voc. Dado seu perfil, seus antecedentes, seu estilo de vida, no o definiria
como um possvel candidato ao suicdio, e menos ainda com uma
caracterstica to violenta e impulsiva.
- Ele era violento - assentiu Eve - Enfrentei-o nos tribunais pouco antes
desse acontecimento. Era um tipo arrogante e seguro de si, cheio de seu
prprio sentido de importncia, como sempre.
- Estou certa que isso  verdade. S posso dizer que alguns... muitos de
ns, em momentos de crise, ao defrontarmos com um problema pessoal, seja
do corao ou da mente, optamos por colocar fim a nossas vidas antes de viver
com aquilo ou mud-lo. Nem voc nem eu saberemos que crise podia estar
sofrendo Fitzhugh na noite de sua morte.
- Isso no  de grande ajuda - murmurou Eve - Est bem, deixe-me
descrever mais dois casos. - Brevemente, com a falta de paixo caracterstica
de um policial, relacionou os outros dois suicdios - Fazendo uma anlise
padro...
- O que tinham essas pessoas em comum? - perguntou Mira - Um
advogado, um poltico e um tcnico.
- Talvez uma leso no crebro. - Tamborilando com os dedos na toalha de
mesa, Eve franziu o cenho - Ainda tenho algumas cordas para puxar antes de
obter todos os dados, mas poderia ser o motivo. Por trs de tudo isso poderia
haver um motivo fisiolgico antes que psicolgico. Se existe uma conexo,
tenho que a encontrar.
- Est se afastando de meu terreno, mas se encontrar dados que
relacionem esses trs casos, ficarei feliz em colaborar.
Eve sorriu.
- Eu estava contado com isso. No tenho muito tempo. O caso Fitzhugh
no pode ter prioridade indefinidamente. Se no conseguir algo j para
convencer ao comandante de que mantenha aberto o caso, terei que passar
para outro. Mas por agora...
- Eve? - Reeanna se deteve junto  mesa, deslumbrante num vestido
longo com as cores do arco ris - Oh, que surpresa agradvel. Estava fazendo
uma pequena refeio com um scio e me pareceu familiar.
- Reeanna. - Eve deu um sorriso forado. No se importava de parecer
uma vendedora de rua ambulante junto a essa atrativa ruiva, mas a aborreceu
que ela lhe interrompesse o almoo  Acertou - Doutora Mira, Reeanna Ott.
- Doutora Ott. - Mira lhe estendeu uma mo com elegncia - Ouvi falar de
seu trabalho e o admiro.
- Obrigada, e o mesmo digo eu.  uma honra conhecer uma das melhores
psiquiatras do pas. Li vrios artigos seus e me pareceram fascinantes.
- Que lisonjeador. Por que no se senta e juntasse a ns para a
sobremesa?
- Eu adoraria. -Reeanna olhou interrogante para Eve - No estarei
interrompendo algum assunto oficial, no ?
- Parece que terminamos com essa parte do programa. - Eve olhou para o
garom que se aproximava da mesa chamado pelo gesto discreto de Mira-.
Somente um caf, da marca da casa.
- O mesmo - disse Mira - E uma poro de mousse de uvas silvestre. Sou
fraca.
- Sou assim tambm. - Reeanna sorriu radiante para garom como se este
fosse preparar pessoalmente o prato escolhido - Um caf com leite e uma
poro de torta de chocolate. Estou to farta da comida processada que
quando estou em Nova York tenho que aproveitar - confessou a Mira.
- E por quanto tempo ficar na cidade?
- Depende em grande parte de Roarke - sorriu para Eve - De quanto
tempo ser til para ele me manter aqui. Imagino que dentro de umas poucas
semanas me enviar e a Willian para o Olympus.
- Pelo que entendi  uma grande empresa - comentou Mira - Todas as
imagens que vi nos noticirios e nos canais de entretenimento me pareceram
fascinantes.
- Roarke gostaria de v-lo funcionando na prxima estao. - Reeanna
percorreu com uma mo as trs argolas de ouro envelhecido que levava em
torno da garganta- J veremos. Roarke geralmente consegue o que quer. No
concorda, Eve?
- Ele no estaria onde est se se conformasse com uma no.
- Certamente que no. Voc acaba de chegar de l. Chegou a ver a
galeria auto-eletrnica?
- Brevemente. - os lbios de Eve se arquearam ligeiramente- Tnhamos...
muito que ver em muito pouco tempo.
O sorriso de Reeanna foi lento e malicioso.
- Imagino. Mas suponho que usou alguns dos programas instalados ali.
William tem muito orgulho de seus jogos. E voc chegou a mencionar que tinha
usado o programa de holograma da sute presidencial do hotel.
- O fiz. Useio-o vrias vezes.  impressionante.
- O crdito maior  de William, refiro-me ao desenho, mas eu tambm
tenho parte do mrito. Pensamos em utilizar o novo sistema para melhorar o
tratamento de viciados e de certas psicoses. - Mudou de posio enquanto lhe
serviam o caf e a sobremesa - Pode ser que isso lhe interesse, doutora Mira.
- Sem dvida. Parece fascinante.
- E . Terrivelmente caro neste momento, mas esperamos refin-lo e
abaixar seu custo. Claro que para o Olympus Roarke queria o melhor... e o
est tendo. Como a andride Lisa.
- Sim. - Eve lembrou-se da assombrosa andride de voz sensual- Eu a vi.
- Estar no servio de relaes pblicas e atendimento ao cliente.  um
modelo superior que levou meses para ser aperfeioado. Seus chips de
inteligncia no so comparveis a nenhum no mercado. Ter capacidade para
tomar decises e aptides superiores aos modelos que podemos adquirir na
atualidade. William e eu... - Interrompeu-se com uma risada - Olhe para mim,
no consigo ficar afastada do trabalho...
-  fascinante. -Mira comeu com delicadeza um pedao de mousse - Seu
trabalho sobre os padres de ondas cerebrais e a influncia gentica na
personalidade, e sua aplicao na eletrnica so convincentes, inclusive para
uma psiquiatra convencida como eu. - hesitou e olhou a Eve - Pensando bem,
sua experincia talvez possa dar outro enfoque nesse caso em particular que
Eve e eu discutamos.
- Sim? - Reeanna escolhia com o garfo alguns pedaos do bolo de
chocolate evitando sua cobertura.
- Hipoteticamente. - Mira estendeu as mos, muito consciente da proibio
de fazer consultas extra-oficiais.
- Certamente.
Eve tamborilou os dedos na mesa. Preferia o enfoque de Mira, mas depois
de considerar as opes decidiu ser mais expansiva.
- Aparentemente se trata de morte auto-aflingida. Nenhum motivo
conhecido, predisposio desconhecida, sem estmulo de drogas, nem
histrico familiar. Padro de conduta normal at o momento da morte. No h
indcios de depresso ou mudanas de personalidade. O indivduo  um
homem de sessenta e dois anos de idade, profissional de sucesso, muito culto,
financeiramente estvel, bissexual, com uma relao estvel com um membro
do mesmo sexo.
- Impedimentos fsicos?
- Nenhum. Histrico de sade impecvel.
Reeanna estreitou os olhos concentrada tanto no perfil que lhe passavam
como na sobremesa que levava a boca lentamente.
- Algum problema psicolgico, tratamento?
- Nenhum.
-  interessante. Gostaria de ver o padro das ondas cerebrais. Est
disponvel?
-  material confidencial neste momento.
- Hummm. - Reeanna ficou pensativa e bebeu um gole de seu caf com
leite - Sem nenhuma anomalia fsica ou psiquitrica conhecida, nem vcio ou
consumo de substncias, ficaria inclinada a suspeitar de um problema cerebral.
Talvez um tumor. Mas imagino que nada apareceu na autpsia.
Eve pensou na pequena mancha, mas negou com a cabea.
- No um tumor.
- H classes de predisposio que escapam ao scaner e a avaliao
gentica. O crebro  um rgo complicado e segue despistando a mais
elaboradas tecnologias. Se pudesse ver seu histrico familiar... Bem, fazendo
um suposio bruta ....eu diria que seu homem tinha uma bomba gentica que
no foi detectada nas anlises normais. Tinha chegado a um momento de sua
vida em que seus fusveis simplesmente se esgotaram.
Eve arqueou uma sobrancelha.
- E fundiu?
- Vamos dizer que sim - Reeanna inclinou-se em sua direo - Todos
somos programados no seio materno, Eve. Como somos, quem somos. No s
a cor dos olhos, a estatura e a pigmentao da pele, mas tambm a
personalidade, gostos, intelecto ou escala emocional. O cdigo gentico nos 
carimbado no momento da concepo. Pode modific-lo at certo ponto, mas o
essencial permanece inaltervel. Nada pode mud-lo.
- Somos tal como ramos ao nascer? -Eve lembrou-se do quarto nojento,
de uma luz vermelha piscando e uma menina enrodilhada num canto com uma
faca ensangentada nas mos.
- Exato. - Reeanna sorriu radiante.
- Mas voc no citou o meio, o livre arbtrio, o instinto bsico do homem
de melhorar - contraps Mira - Nos considerar criaturas meramente fsicas sem
corao nem alma, e sem escolhas ao longo de nossa vida nos rebaixa a
condio de animais.
-  isso que somos - respondeu Reeanna agitando o garfo no ar -
Compreendo seu enfoque como terapeuta, doutora, mas o meu como
fisiologista vai por caminhos diferentes, por assim dizer. As decises que
tomamos ao longo de nossa vida, o que fazemos, como vivemos e em que nos
transformaremos foi gravado em nossos crebros enquanto nadvamos no
tero - virou-se para Eve - O sujeito em questo estava destinado a tirar sua
prpria vida nesse momento, nesse lugar e dessa forma. As circunstncias
poderiam ter mudado, mas o resultado teria sido o mesmo. Era seu destino.
Destino?, pensou Eve. Tinha sido seu destino ser violada e maltratada por
seu pai? Converter-se em menos do que um ser humano, e lutar para escapar
daquele abismo?
Mira agitou a cabea lentamente.
- No posso concordar. Um menino que nasce na misria em Budapeste,
que  separado de sua me ao nascer e criado num ambiente privilegiado em
Paris, rodeado de amor e ateno, refletiria esses cuidados e essa educao.
O meio afetivo e o instinto humano bsico de melhorar no podem ser
deixados de lado.
- Eu concordo at certo ponto - respondeu Reeanna - Mas o selo do
cdigo gentico, aquele que nos predispe ao sucesso ou ao fracasso, ao bem
ou ao mal, anula tudo mais. Mesmo nos lares que existe amor e toda a
ateno, crescem monstros; e nos cantos mais srdidos do universo, a
bondade, inclusive a grandeza, sobrevive. Somos o que somos, e o resto 
aparncia.
- Se assino sua teoria -disse Eve devagar-, o sujeito em questo estava
destinado a tirar a prpria vida. Nenhuma circunstncia nem mudana no meio
poderia t-lo impedido.
- Exatamente. A predisposio estava ali, oculta. Provavelmente um
evento desencadeou seu aparecimento, mas poderia se tratar de uma
bobagem, algo que passaria desapercebido em um teste padro de ondas
cerebrais. A pesquisa sobre o comportamento que o Instituto Bowers trabalha
tem evidncias consistentes mostrando o padro gentico do crebro e sua
indiscutvel influncia na conduta. Posso conseguir discos sobre o tema, se
assim desejar.
- Deixarei esse tipo de estudo para voc e para Dra. Mira - disse Eve
deixando seu caf de lado - Tenho que voltar a delegacia. Agradeo seu
tempo, Mira.  levantou-se- E suas teorias, Reeanna.
- Eu gostaria de discuti-las com mais tempo. Em outra ocasio. -Reeanna
estreitou sua mo e a agitou calorosamente - D recordaes minhas a
Roarke.
- O farei. -Eve se voltou ligeiramente quando Mira levantou para beij-la
no rosto - Entrarei em contato.
- Assim espero, e no s quando tenha um caso que discutir. Diga uma
oi para Mavis por mim quando a encontrar.
- Claro.
Enganchou sua bolsa no ombro e se encaminhou  sada, detendo-se
brevemente para sorrir com desdm para o maitre.
- Uma mulher fascinante - comentou Reeanna deslizando a lngua
lentamente na parte posterior da colher - Com um grande autodomnio, algo
irritvel, e pouco acostumada, e algo arredia, s demonstraes espontneas
de afeto. - Riu ao ver a Mira arquear uma sobrancelha - Desculpe-me, so
ossos do ofcio. Deixo William louco com isso. No era minha inteno ser
desagradvel.
- Estou certa que no. - Mira sorriu e a fitou com olhos calorosos e
compreensivos - Com freqncia me surpreendo fazendo o mesmo. E voc
est certa, Eve  uma mulher fascinante. Fez-se a si mesma, o que temo,
posso fazer cair por terra sua teoria da marcao gentica.
- Realmente?  Obviamente intrigada, Reeana se inclinou para ela- A
conhece bem?
- Tanto quanto  possvel. Eve  uma pessoa. reservada.
- Voc  muito afeioado a ela -observou Reeanna com um assentimento
de cabea - Espero que no me interprete mal se lhe disser que no era o que
eu esperava quando me inteirei que Roarke ia se casar. Que se casasse me
pegou de surpresa, mas imaginei que sua esposa seria o cmulo do
refinamento e sofisticao. Uma detetive de homicdio que leva um arma como
qualquer outra mulher leva um colar de famlia no era a concepo que eu
tinha para a esposa de Roarke. No entanto eles se combinam. Pode se
mesmo dizer... -Adicionou com um sorriso-: que  destino.
- Nisso eu tenho que concordar com voc.
- Agora me diga Dra. Mira, qual a sua opinio o cultivo DNA?
- Oh, penso que... -Feliz, Mira se acomodou para comear uma animada
discusso.
..................
Sentada diante do computador em sua escrivaninha, Eve reorganizava os
dados reunidos sobre Fitzhugh, Mathias e Pearly. No conseguia encontrar
nenhuma ligao, nenhum ponto em comum. A nica correlao real entre os
trs era o fato de que nenhum deles tinha apresentado tendncias suicidas
antes do fato.
- Probabilidades de que os casos estejam relacionados pediu Eve.
Calculando. Probabilidade de 5,2 %.
- Em outras palavras, nenhuma. -Eve suspirou pesadamente e franziu o
cenho quando um airbus passou estrondosamente, fazendo vibrar a pequena
janela - Probabilidades de homicdio no caso de Fitzhugh partindo dos dados
conhecidos at o momento.
Com o dados at o momento conhecidos, a Probabilidade de homicdio 
8,3 %
- Renda-se, Dallas - disse num murmrio - Deixe estar.
Propositalmente girou devagar em sua cadeira e observou o denso trfico
areo do outro lado da janela. Predestinao. Destino. Cdigo gentico. Se
passasse a acreditar nisso, que sentido teria seu trabalho... ou sua vida? Se
no tinha alternativa nem possibilidade de mudar as coisas, para que lutar para
salvar vidas ou fazer justia aos mortos quando a luta fracassaria? Se tudo era
codificado fisiologicamente, apenas tinha seguido seu destino vindo  Nova
York, lutado contra a escurido para se transformar em algum.
E se nesse cdigo tivesse realmente uma mancha que tinha apagado
esses primeiros anos de sua vida, seguiria neste momento apagando
pequenas pores de sua vida?
E poderia esse cdigo reaparecer a qualquer momento e transform-la no
monstro que tinha sido seu pai?
No sabia nada sobre outros parentes de sangue. Sua me era um
espao em branco. Se tinha parentes, tios ou avs, todos estavam perdidos no
vcuo escuro de sua memria. No tinha ningum em que basear seu cdigo
gentico, a no ser o homem que a tinha maltratado e violentado quando era
ainda uma criana, at que, tomada de dor e terror, o tinha golpeado pelas
costas.
E o matado.
Sangue em suas mos aos oito anos de idade. Por isso tinha se
transformado em um policial? Tentava constantemente lavar esse sangue com
leis e o que alguns continuavam chamando de justia?
- Tenente? - Peabody apoiou uma mo no ombro de Eve, quase pulando
quando Eve sobressaltou- Desculpe-me. Voc est bem?
- No. - Eve pressionou seus olhos com os dedos A discusso durante a
sobremesa tinha lhe perturbado mais do que pensara- Apenas um dor de
cabea.
- Tenho alguns analgsicos do departamento.
- No, Obrigada. - Eve tinha medo de medicaes,mesmo os legalmente
permitidos- J vai passar. No tenho mais sugestes sobre o caso Fitzhugh.
Feeney transmitiu todos os dados conhecidos sobre o jovem do Olympus. No
consigo encontrar nenhuma conexo entre ele, Fitzhugh e o senador. No
tenho nada mais para atribuir a Leanore e Arthur. Poderia pedir um detector de
mentiras, mas  intil. No conseguirei manter o caso aberto mais vinte e
quatro horas.
- Voc ainda acha que os casos esto correlacionados?
- Quero que estejam,  diferente. No estou sendo muito impressionante
em sua primeira misso como minha auxiliar, verdade?
- Ser sua auxiliar  a melhor coisa que poderia me acontecer. - Peabody
enrubesceu um pouco- Ainda que ficssemos presas nos mesmos casos os
prximos seis meses, ainda assim estaria apreendendo.
Eve se recostou na cadeira.
- Voc se satisfaz com muito pouco, Peabody.
Peabody deslocou o olhar at encontrar com os de Eve.
- Que nada,quando no consigo o melhor, fico insuportvel.
Eve se ps a rir e passou a mo por entre seus cabelos.
- Puxando o saco, oficial?
- No, tenente. Se fosse assim, faria uma observao pessoal, como o
fato que  ntido que o casamento lhe fez muito bem. Ou que nunca teve um
aspecto to espetacular . -Peabody sorriu quando Eve bufou- Desse modo iria
saber que estou puxando o saco.
- Est anotado.
Eve considerou um momento e depois balanou a cabea.
- Voc no disse que sua famlia  Livre-free-Agers?
Peabody no revirou os olhos. Mas o quis fazer.
- Sim, senhor.
- Artistas, fazendeiros, de vez em quando um cientista, e montes de
artesos, mas no policiais.
- Eu no gostei de tecer tapetes.
- Voc saber tecer?
- S se me ameaar com um laser.
- O que aconteceu ento? Sua famlia aborreceu voc e por isso decidiu
jogar tudo para o alto e entrar em um campo afastado do pacifismo?
- No, tenente. -Confundida ante a linha de interrogatrio, Peabody
encolheu os ombros- Minha famlia  grande. Ainda temos uma bela unio. No
compreendem o que fao ou o porqu quero fazer, mas nunca tentaram por
obstculos. Simplesmente decidi ser policial, do mesmo modo que meu irmo
quis ser carpinteiro e minha irm fazendeira. Um dos princpios mais fortes do
movimento  a expresso pessoal.
- Mas ento voc no entra no cdigo gentico - murmurou Eve e
tamborilou os dedos na escrivaninha - Voc no se encaixa. Hereditariedade e
meio ambiente, padres de genes... tudo isso deve influenciar de diferentes
modos.
- Os rapazes maus desejariam que isso tivesse acontecido, - disse
Peabody com seriedade- Mas estou aqui, mantendo a cidade segura.
- Peabody...se por acaso comear a ter um impulso inexplicvel de tecer
um tapete...
- Voc ser a primeira, a saber, tenente.
O computador de Eve emitiu dois apitos anunciando a entrada de dados.
- O relatrio adicional sobre a autpsia do jovem. -Eve gesticulou para que
Peabody se aproximasse -: Enumerar qualquer teste padro anormal do
crebro.
Anomalia microscpica, hemisfrio direito do crtex cerebral, lbulo
frontal. Quadrante esquerdo. Inexplicvel. Pesquisa e anlise ainda em
processo.
- Bem, bem...acredito que acabamos de encontrar uma abertura.
Visualizar o lbulo frontal e a anomalia. - Na tela apareceu o corte transversal
do crebro - Aqui est.  surgiu um rpido excitamento no estmago quando
Eve bateu na tela - Est mancha, v?
- No consigo ver direito -Peabody se inclinou at ficar quase recostada
contra a face de Eve - Parece um defeito na tela.
- No;  um defeito no crebro. Quero Zoom do quadrante seis em vinte
por cento.
A imagem deslocou-se, e a seo com a anomalia encheu a tela.
- Parece mais uma queimadura do que um orifcio, no ? - Eve disse
quase para si mesma- Mal d para enxergar, mas que classe de influncia
poderia ter no comportamento, na personalidade e na tomada de decises?
- Eu costumava tirar boas notas em Anormalidades Fisiolgicas na
Academia. - Peabody encolheu seus ombros- Me saia melhor em psicologia, e
melhor ainda em tticas. Mas isso est alm da minha capacidade.
- Da minha tambm - admitiu Eve - Mas h uma conexo, a primeira que
temos. Visualizar a seo transversal da anomalia cerebral de Fitzhugh,
arquivo 12871. Dividir tela com a imagem.
A tela ficou imprecisa. Eve soltou uma maldio e deu uma pancada com
as costas da mo fazendo aparecer no centro da tela uma imagem trmula.
- Filho da puta. Este material atrasado que temos que utilizar aqui... Fico
me perguntando como conseguimos fechar algum caso. Baixe todos os dados
para o disco, seu imprestvel!
- Talvez se o enviasse para a manuteno -sugeriu Peabody e recebeu
um rosnado por toda resposta.
- Era esperado que o revisassem durante minha ausncia. Esses babacas
da manuteno parecem no saber o que fazer com seus dedos. Vou utilizar
um dos computadores de Roarke.- Surpreendeu Peabody arqueando uma das
sobrancelhas e bateu o p no solo, impaciente, enquanto esperava a mquina
baixar as informaes- Algum problema com isso, oficial?
- No, tenente. - Peabody mordeu a lngua e decidiu no mencionar a
srie de cdigos que Eve estava disposta a infringir - Nenhum.
- timo. Faa os trmites necessrios para conseguir o scaner do crebro
do senador e compar-lo.
Peabody deixou de sorrir.
- Voc quer que eu bata de frente com aquele pessoal de Washington?
- Sua cabea  bem dura para suportar a pancada - Eve pegou o disco e
o guardou no bolso - Chame-me quando tiver alguma coisa. Na mesma hora.
- Sim, tenente. Se encontrarmos uma conexo. Precisaremos de um
perito.
- Sim, pode ser que eu tenha uma pessoa. - Eve pensou em Reeanna,
depois girou e acrescentou-: Comece a ser mover, Peabody.
- Agora mesmo, tenente.
Captulo 9
Eve no gostava de quebrar regras, contudo se encontrava parada, do
lado de fora da porta fechada, com chave da sala privativa de Roarke nas
mos. Era desconcertante dar-se conta de que, depois de uma dcada
seguindo um cdigo de conduta, podia ser to fcil se desviar do procedimento.
Realmente o fim justificava os meios?, perguntou-se. Esses meios seriam
assim to errados? Talvez os equipamentos no quarto eram, alm de no
registrado, no detectado pela Compuguardia, e conseqentemente ilegais,
mas se tratava de um modelo de primeira linha. Os lamentveis equipamentos
eletrnicos includos no oramento do Departamento de Polcia e Segurana j
estavam defasados quase antes que os instalassem, e a parte do oramento
correspondente a Homicdios era particularmente miservel.
Bateu a mo sobre bolso onde guardava o disco e trocou o apoio dos ps.
Ao inferno com isso, decidiu. Podia ser uma policial respeitadora da lei e se
afastar, ou ser esperta. Apoiou a mo na tela de leitura.
- Tenente Eve Dallas.
As fechaduras abriram com um estalido suave e a porta deslizou para dar
entrado a enorme base de dados de Roarke. As grandes e curvas janelas eram
guardadas por protetores solares, que tambm ocultava o local do trfico
areo e mantinham a sala na penumbra. Requisitou luzes, fechou a porta e se
aproximou do grande console em forma de U.
Roarke tinha registrado sua voz e a palma de sua mo meses atrs no
sistema, mas ela nunca tinha utilizado o equipamento sozinha. Inclusive depois
de casados ainda sentia-se como uma intrusa.
Aproximou-se da cadeira do console e ordenou:
- Unidade um acoplada. - Ouviu o zumbido leve do equipamento de alto
nvel sendo ligado e quase suspirou. O disco deslizou com suavidade no driver,
e dentro de alguns segundos tinha sido decodificado e lido pelo computador
civil.
- E depois falam do sofisticado sistema de segurana do DPSNY -
murmurou- Tela cheia. Visualizar dados. Fitzhugh processo H-12871.
Compartilhar tela com Mathias, processo S-30912
Os dados fluam como gua para a enorme tela na parede situada em
frente ao console. Em sua admirao, Eve esqueceu de se sentir culpada.
Inclinou-se e revisou as datas de nascimento, avaliaes de crditos, hbitos
de compra, afiliaes polticas...
- Eram completos desconhecidos - disse para si mesma- No podiam ter
menos em comum. -E apertou os lbios ao notar uma correlao no item
hbitos de compras - Bem, ambos gostavam de jogos. Vrios programas
interativos e de entretenimento. - Depois suspirou- Junto com
aproximadamente o setenta por cento da populao. Dividir a tela e visualizar o
scaner cerebral dos dois arquivos carregados.
Comeou a estudar as imagens.
- Aumentar e destacar as anormalidades inexplicveis.
- Iguais- murmurou estreitando os olhos. Nisso os dois homens eram to
iguais como irmos gmeos. As sombras das queimaduras eram exatamente
do mesmo tamanho e forma, e estavam situadas precisamente na mesma
posio.
- Analisar anomalia e identific-la.
Analisando... Dados incompletos... Procurando histricos mdicos. Por
Favor, espere a anlise.
-  o que todos dizem. -Afastou-se do console e comeou a caminhar
enquanto o computador reorganizava a informao. Quando a porta se abriu,
Eve girou sobre os calcanhares e quase ruborizou ao ver Roarke entrar.
- Oi, tenente.
- Oi - respondeu ela metendo as mos nos bolsos  Isto ... tive
problemas com o computador da central de polcia e precisava dessa anlise,
por isso eu ... Posso interromper se precisar do equipamento.
- No preciso dele nesse momento - O evidente incomodo de Eve lhe
divertia. Aproximou-se, inclinando para beij-la com delicadeza - E no 
necessrio que fique se justificando por usar o equipamento. Est tentando
escavar segredos?
- No nesse sentido. - O fato dele prosseguir sorrindo aumentou seu nvel
de embarao  Precisava de algo mais potente do que o traste que temos na
central, e no o esperava antes de algumas horas.
- Encontrei o transporte antes do previsto. Quer alguma ajuda?
- No sei. Talvez. Quer parar de sorrir?
- Eu? - O sorriso de Roarke se alargou quando a envolveu com os braos
e meteu as mos nos bolsos traseiros de seus jeans - Foi tudo bem no almoo
com a doutora Mira?
Ela o olhou com cenho franzido.
- Voc sabe de tudo?
- Tento. A verdade  que cruzei com William e ele comentou que Reeanna
tinha se encontrado com voc e com a doutora. Negcios ou prazer?
As duas coisas, suponho. - Ela arqueou as sobrancelhas ao perceber que
as mos de Roarke pareciam muito ocupadas em seu traseiro - Estou de
servio, Roarke. Suas mos esto nesse momento apalpando o traseiro de
uma policial em servio.
- Isso s deixa as coisas mais emocionantes - respondeu ele,
mordiscando-lhe o pescoo - O que acha de transgredi mais algumas leis?
- J estou fazendo. - Inclinou a cabea instintivamente para lhe permitir
melhor acesso.
- Ento que diferena vai fazer? - murmurou ele ao mesmo tempo em que
deslizava as mos para fora de seus bolsos para passear por seu corpo e
pousar sobre seus seios - Adoro senti voc. - Comeava a lhe percorrer a
mandbula com a boca quando o computador emitiu um apito.
Anlise completa. Visualizar a imagem com ou sem udio?
- Sem - ordenou Eve se esforando para se soltar.
- Maldito seja. - Roarke suspirou.  Eu estava quase l.
- Que demnios  isso? - Esfregando as mos sobre as coxas Eve
estudou o que a tela mostrava - No consigo entender merda nenhuma.
Com resignao, Roarke sentou-se na beirada do console e tambm
estudou a tela -  linguagem tcnica; termos mdicos, sobretudo. Um pouco
fora do meu terreno. Trata-se de uma queimadura de origem eletrnica. Faz
sentido?
- No sei. - Pensativa, Eve coou a orelha - Tem sentido que dois sujeitos
mortos tenham uma queimadura de origem eletrnica no lbulo frontal de seus
crebros?
- O atrito de um instrumento durante a autpsia - sugeriu Roarke.
- No. - Negou com a cabea - No se tratando de dois, examinados por
diferentes equipes forense em diferentes necrotrios. E no se trata de leses
superficiais. Esto dentro do crebro. So impresses microscpicas.
- Que relao existiam entre os dois homens?
- Nenhuma. Absolutamente nenhuma. - Ela encolheu os ombros. Roarke
j estava na margem do problema, por que no mete-lo no centro? - Um deles
trabalhava para voc  adicionou - O engenheiro de auto-eletronica do resort
Olympus.
- Mathias? - Roarke se afastou do console, e sua expresso entre
divertida e intrigada mudou-se para surpresa - Por que est investigando o
suicdio do Olympus?
- Oficialmente, no estou.  um pressentimento, isso  tudo. O outro
crebro que seu poderoso equipamento est analisando  o de Fitzhugh. E se
Peabody conseguir as permisses, estou disposta a analisar o do senador
Pearly.
- E espera encontrar essa microscpica queimadura no crebro do
senador.
- Voc  rpido. Sempre o admirei por isso.
- Por que?
- Por que  irritante ter que explicar tudo etapa por etapa.
Ele revirou os olhos.
- Eve.
Ela levantou as mos e deixou-as cair.
- Est bem. Fitzhugh no dava a impresso de ser um desses caras que
tiram a prpria vida. No posso fechar o caso at ter estudado todas as
possibilidades, e estas esto se esgotando. Devia deixa-lo correr, mas no
consigo tirar da cabea esse menino que se enforcou.
Eve comeou a andar de um lado para o outro. No h uma predisposio
em nenhum dos dois casos. Nem um motivo bvio, nenhum inimigo conhecido.
Eles simplesmente pegam algo e se matam. Depois fiquei sabendo da morte
do senador. Com ele so trs suicdios sem uma explicao lgica. Pessoas
com os meios econmicos de Fitzhugh e do senador podem recorrer a terapias
com um estalar de dedos. Ou em casos de doena terminal, fsica ou
emocional, tem a facilidade da eutansia voluntria. No entanto optaram por
faz-lo de modo sangrento e doloroso. No se esquadra.
Roarke assentiu.
- Prossiga.
- E o forense de Fitzhugh se deparou com esta anormalidade inexplicvel.
Eu quis ver se o rapaz tinha algo semelhante. - Gesticulou para a tela - Agora
preciso saber o que a colocou l.
Ele voltou a fixar o olhar na tela.
- Uma falha gentica?
-  possvel, mas o computador diz que  improvvel. Ao menos nunca se
encontrou algo parecido antes, nem por causa hereditria, mutao ou motivos
externos. - Eve se moveu por trs do equipamento e fez avanar a tela - Veja
aqui :projeo de possveis repercusses mentais? Alteraes na conduta.
Padro desconhecido. Muita ajuda. - Esfregou os olhos enquanto refletia sobre
tudo aquilo. - No entanto isso significa que o sujeito pode agir, e provavelmente
o fez, fora de seu padro normal de comportamento. O suicdio no devia
entrar no padro de conduta normal de nenhum dos dois homens.
- Verdade - concordou Roarke. Apoiando-se contra o console, cruzou os
ps - Como tambm no  danar nu na igreja ou empurrar matronas de uma
passarela aerodeslizante. Por que ambos optaram pelo suicdio?
- Essa  a questo, no parece? Mas j  o bastante, tenho s que vender
isso a Whitney de modo que ele mantenha os dois casos em aberto. Passar os
dados para o disco, imprima os resultados - ordenou. Voltou-se para Roarke e
acrescentou - : Tenho alguns minutos agora.
Ele arqueou uma sobrancelha, um gesto caracterstico que ela adorava
em segredo.
-  mesmo?
- Que leis voc tinha em mente quebrar?
- Diversas na verdade. - Roarke deu uma olhada no seu relgio enquanto
ela dava um passo adiante para desabotoar sua elegante camisa de linho -
Temos uma estria na Califrnia esta noite.
Ela se deteve e seu semblante demonstrou decepo.
- Esta noite?
- Mas acho que teremos tempo para alguns delitos menores. - Com uma
risada, levantou-a do cho e a estendeu de costas sobre o equipamento.
.......................
Eve se debatia em um vestido tubo, que chegava at os ps, de cor
vermelho intensa, queixando-se amargamente da impossibilidade de levar o
mnimo trao de roupa de baixo sob o justo tecido, quando soou o
comunicador. Despida da cintura para cima, com o fino corpete pendurando
pelos joelhos, ela atendeu.
- Peabody?
- Tenente. - O rosto de Peabody registrou vrias expresses at decidir-se
pela neutralidade - Um lindo vestido. Est pensando em lanar moda? Ou est
experimentando um estilo novo?
Confusa, Eve baixou o olhar e revirou os olhos.
- Merda. J viu meus peitos antes.  Mas mudou a posio do
comunicador e se esforou para colocar o corpete no lugar.
- E posso dizer que est muito bem, tenente?
- Puxando o saco,Peabody?
- Pode apostar.
Eve conteve a risada e se sentou no sof do closet.
- Tem o relatrio?
- Sim, tenente. Eu... isto...
Ao ver olhar de Peabody se erguer lentamente e se tornar vtreo, Eve
olhou de relance por cima do ombro. Roarke acabava de entrar no quarto
recm sado do chuveiro, gotas minsculas de gua brilhavam em seu peito e
uma toalha branca estava enrolada frouxamente sobre seus quadris.
- Permanea fora do quadrante, Roarke, antes que minha assistente sofra
um morte cerebral.
Roarke olhou a tela do comunicador e sorriu.
- Oi, Peabody.
- Oi. -Ouviram Peabody pigarrear atravs do aparelho - Fico contente em
v-lo...Quero dizer, como vai?
- Muito bem. E voc?
- h...?
- Roarke,...- disse em um suspiro.-D-lhe tempo para respirar ou terei que
obstruir o vdeo.
- No  necessrio, tenente. - Peabody relaxou quando Roarke
desapareceu da vista - Deus - exclamou sorrindo tontamente a Eve.
- Acalme seus hormnios e me passe o relatrio.
- J estou calma, tenente. - A ajudante pigarreou novamente -
Desembaracei a maior parte dos trmites burocrticos, tenente. S ficaram
alguns problemas. Desse modo, s teremos os dados requeridos s nove
horas. Porm ter que ir a East Washington para conferi-los.
- Isso que eu temia. Est bem, Peabody. Pegaremos o vo das oito.
- No seja tola. Pode usar a minha aeronave - respondeu Roarke as suas
costas enquanto examinava com uma olhada crtica as rugas do smoking que
sustentava com as mos.
-  um assunto de polcia.
- No  motivo para que viajem espremidas como sardinhas
acondicionadas. Viajar com comodidade no o faz menos oficial. De todos
modos tenho um assunto para tratar em East Washington. As levarei. Inclinou
por cima do ombro de Eve e sorriu para Peabody - Vou enviar um carro para
peg-la. As sete e quarenta e cinco, est bem para voc?
- Perfeito. - Peabody no pareceu decepcionada em v-lo com camisa.
- Escuta, Roarke... - comeou Eve. Mas ele a interrompeu com
delicadeza:
- Desculpe Peabody, mas ns estamos um pouco atrasados aqui. At
manh. - E estendeu uma mo para desconectar o comunicador.
- Sabe que eu odeio quando voc faz isso.
- Eu sei - se apressou em responder - Por isso no consigo resistir.
...............................
- Desde que te conheci minha vida  ser transportada de um lugar para o
outro - grunhiu Eve enquanto tomava o assento do Jet Star privado de Roarke.
- Ainda de mau humor - observou ele, e fez um gesto para que a
aeromoa se aproximasse- Minha esposa precisa de outra dose de caf, e eu
a acompanharei.
- Neste momento, senhor. - A aeromoa entrou na cozinha com silenciosa
eficincia.
- Voc realmente acha o mximo dizer isso no? Minha esposa.
- Acho. - Roarke acariciou a face e beijou a covinha discreta de seu
queixo- No dormiu o bastante - murmurou, passando-lhe o polegar por
embaixo de seus olhos- Voc raramente desliga esse seu crebro ocupado. -
Ergueu o olhar para a aeromoa quando esta deixou duas xcaras fumegantes
de caf diante deles - Obrigada, Karen. Decolaremos assim que a oficial
Peabody chegar.
- Informarei ao piloto, senhor. Boa viagem.
- No tem que ir a East Washington, no ?
- Poderia ter resolvido em Nova York. - Encolheu-se de ombros e pegou
uma xcara- Mas a ateno pessoal tem sempre mais impacto. E ainda tenho o
benefcio adicional de v-la em ao.
- No quero envolve-lo nisso.
- Nunca quer - Pegou a outra xcara e a ofereceu com um sorriso-
Entretanto,tenente, estou envolvido com voc...e conseqentemente no pode
me deixar de fora.
- Quer dizer que no vai permitir que o faa.
- Exato. Ah, aqui temos  temvel Peabody.
A ajudante subiu a bordo desperta e arrumada, mais estragou o efeito
quando deixou que a mandbula se pendurasse enquanto mexia a cabea de
um lado para o outro tentando assimilar tudo ao mesmo tempo.
A cabine era to suntuosa quanto uma quarto de um hotel cinco estrelas,
com assentos cmodos, mesas brilhantes e vasos de cristais contendo flores
to frescas que ainda estavam cobertas de orvalho.
- Feche a boca, Peabody. Parece uma truta.
- J estou quase terminando, tenente.
- No se preocupe, Peabody, ela acordou de mau humor. - Roarke
levantou, desconcertando Peabody at que esta se deu conta que lhe oferecia
um assento- Gostaria de um caf?
- Isto seria... sim, obrigada.
- Irei peg-lo e as deixarei a ss para que falem de trabalho.
- Dallas, isto ... demais.
-  coisa de Roarke.
- O que te digo. Demais. - Eve levantou a vista quando ele entrou com
mais caf. Moreno, atraente e um pouco perverso. Sim, demais devia de ser a
palavra, pensou.
- Vamos, aperte o cinto e aprecie a viagem, Peabody.
A decolagem foi suave e o trajeto breve, dando a Peabody tempo apenas
para deixar Eve  parte dos detalhes. Deviam se apresentar no escritrio do
chefe de segurana dos membros do governo. Todos os dados seriam
conferidos dentro do edifcio, e no podiam transferir nem levar nada.
- Malditos polticos - se queixou Eve subindo em um txi- De quem se
protegem, pelo amor de Deus? Esse homem est morto.
-  o procedimento clssico de cobrir o traseiro. E em East Washington
sempre h um monto de traseiros que cobrir. Traseiros gordos.
Eve olhou para Peabody pensativa.
- J esteve alguma vez em East Washington?
- Uma vez quando era menina - respondeu encolhendo os ombros - Com
minha famlia. Os da Free Age propuseram um minuto de silncio para
protestar contra a inseminao artificial em gado.
Eve suspirou.
-  uma caixa de surpresas, Peabody. Como faz tempo que no vem aqui,
talvez queira desfrutar da paisagem. Contemplar os monumentos. - Indicou o
Lincoln Memorial e a multido de turistas e vendedores ambulantes.
- Assistir vrios vdeos - comeou Peabody, mas Eve arqueou as
sobrancelhas.
- Observe a paisagem, Peabody. Considere isso uma ordem.
- Sim, tenente. - Com uma expresso que poderia ser considerada um
amuo em outro rosto, Peabody voltou a cabea.
Eve tirou de sua bolsa um carto-gravadora e o colocou embaixo da
camisa. Duvidava que o sistema de segurana aplicasse raios X ou uma
revista em policiais E se isso ocorresse sempre poderia dizer que levava uma
sobressalente por questo de segurana. Eve olhou de esguelha para o
motorista, mas o andride tinha a viso fixada na estrada.
- No  uma cidade ruim de se olhar - comentou Eve quando giraram para
tomar a estrada que conduzia  Casa Branca, e de onde podiam ver a velha
manso atravs de grades reforadas e protetores de ao.
Peabody voltou a cabea e lanou um olhar triste para Eve.
- Pode confiar em mim, tenente.Pensei que j soubesse disso.
- No  questo de confiana. - Ao ouvir o tom magoado de Peabody, Eve
adicionou com delicadeza- : A questo  que no quero colocar em perigo
outro traseiro alm do meu.
- Se somos parceiras...
- No somos parceiras. - Eve inclinou a cabea e dessa vez ps
autoridade no tom- Ainda no.  minha auxiliar e est sendo treinada. Como
sua superior, eu decido at quando deve expor seu traseiro ao vento.
- Sim, tenente - respondeu rgida.
Eve suspirou.
- No me leve a mal, Peabody. Chegar o dia em que deixarei que voc
leve ferro do comandante. E acredite, ele tem um bom punho.
O taxista se deteve diante das portas do edifcio governamental. Eve
deslizou os crditos atravs do espao de segurana, desceu e se aproximou
da tela. Apoiou a mo no leitor, deslizou a placa na abertura de identificao e
esperou a que Peabody a imitasse.
- Tenente Dallas, Eve, e auxiliar. Encontro com Dudley.
Um momento para a verificao. Autorizao confirmada. Por favor,
deixem as armas no recipiente. Advertimos que  um delito federal introduzir
armas no edifcio. Todo indivduo que entre com um arma em seu poder ser
detido.
Eve desafivelou sua arma. Depois, com certo pesar, agachou-se para tirar
a que levava presa a bota. Ao ver a mirada inexpressiva de Peabody, encolheu
os ombros.
- Comecei a lev-la depois de minha experincia com Casto. Poderia terme
poupado algum desgosto.
- Sim. - Peabody colocou no recipiente o arma habitual da polcia, o
chamado paralizador - Quem me dera tivesse explodido aquele filho de uma
cadela.
Eve abriu a boca e voltou a fech-la. Peabody tinha tido o cuidado de no
mencionar o charmoso detetive de entorpecentes ilegais que a tinha seduzido e
a usado enquanto matava por lucro.
- Olhe - disse Eve depois de um momento .- Sinto que as coisas foram
assim para voc . Se quiser desabafar ...falar sobre isso...
- No sou muita boa em desabafar. - limpou a garganta - Obrigada em
todo caso.
- Bem, estar preso at o prximo sculo.
Peabody esboou um sombrio sorriso.
- J est.
Tm autorizao para entrar. Por favor, cruzem a grade e subam no
autoguia na linha verde que as conduzir ao centro de informao do segundo
nvel.
- Cus, qualquer um diria que estamos indo ver o presidente em vez de
um policial engravatado.
Eve cruzou a porta que se fechou e lacrou-se atrs delas. Ela e Peabody
se acomodaram nos assentos de plstico duro do bonde. Com um zumbido
mecnico, este as levou a toda velocidade atravs dos corredores e ao longo
de passagens nas paredes de ao que descia em diagonal, at que lhes foi
requisitado que saltassem em uma ante-sala iluminada por luz artificial e com
as paredes cobertas de pinturas.
- Tenente Dallas, oficial.
O homem que se aproximava usava um uniforme cinza da Segurana do
Governo com o insgnia de cabo. Tinha o cabelo loiro e curto, tanto que
deixava entrever o couro cabeludo branco. Seu rosto delgado era igualmente
plido, a cor da pele de um homem que passava a vida enterrado no mundo
subterrneo.
A manga da camisa do uniforme se esticou sobre seus avantajados
bceps.
- Deixem suas bolsas aqui, por favor. A partir deste ponto so proibidos
os dispositivos eletrnicos de udio e vdeo. Esto sob vigilncia e assim
permanecero at que deixem o edifcio. Entendido?
- Entendido, cabo. - Eve lhe entregou sua bolsa e o de Peabody, e
guardou o comprovante que ele lhe entregou- Esse lugar  espetacular.
- Ns nos orgulhamos dele. Siga-me, tenente.
Depois de meter as bolsas num armrio  prova de bombas, conduziu-as
a um elevador e o programou para a seo trs, nvel A. As portas se fecharam
sem fazer rudo e a cabine se moveu sem indcio de movimento.
Eve sentiu vontade de perguntar quanto tinham pagado os contribuintes
por aquele luxo, mas decidiu que o cabo no apreciaria a ironia.
Estava convencida disso quando saram para um espaoso vestbulo
decorado com poltronas alcochoadas e vasos de rvores. O tapete era grosso
e tinha um sistema de cmeras para detectar o movimento. A mesa  frente
onde trabalhavam trs elegantes recepcionistas estava equipada com toda a
classe de computadores, monitores e sistemas de comunicao. A msica de
fundo, mais do que tranqilizar, embotava o crebro.
As recepcionistas no eram andrides, mas eram to rgidas e esnobes
quanto, e to radicalmente conservadoras em sua forma de vestir, que ela
pensou que se dariam melhor como mquinas. Mavis teria ficado horrorizada
pela falta de estilo, pensou Eve com profundo afeto.
- Reconfirmao da leitura de mos, por favor - disse o cabo e,
obedientes, Eve e Peabody colocaram a palma direita sobre o leitor - O
sargento Hobbs as acompanhar a partir de agora.
O sargento, em seu impecvel uniforme, saiu de trs da mesa. Abriu outra
porta reforada e as conduziu por um silencioso corredor.
No ltimo ponto de verificao havia uma tela detectora de armas, e
finalmente as chaves foram codificadas para que entrassem no escritrio do
chefe. Nesta tinha uma vista panormica da cidade. A Eve bastou jogar uma
olhada para Dudley para saber que a considerava sua. Sua mesa era to
grande quanto um lago, e numa parede tinha telas de vdeo que mostravam
vrias partes do edifcio e dos jardins. Em outra tinha fotos e hologramas de
Dudley com chefes de Estado, membros da famlia real e embaixadores. Seu
centro de comunicaes rivalizava com os da sala de controle da NASA.
Mas o homem em questo deixava todo o restantes na sombra.
Era enorme, dois metros de estatura e cento vinte quilos de importncia.
Seu rosto amplo e ossudo estava curtido e bronzeado, com o cabelo brancos e
brilhantes cortado bem curtos. Em suas mos, to grandes como presuntos de
Virgnia, levava dois anis. Um era o smbolo de seu posto militar; o outro, uma
imensa aliana de ouro.
Permaneceu em p com o semblante inexpressivo estudando Eve com
seus olhos da cor e textura do nix. No lanou nem sequer um olhar para
Peabody.
- Tenente, soube que est pesquisando a morte do senador Pearly.
No perdemos tempo com amenidades, pensou Eve, e lhe respondeu na
mesma moeda.
-  o que parece, senhor. Estou analisando uma possvel relao entre a
morte do senador e outra morte. Valorizamos e agradecemos ao senhor por
sua colaborao neste assunto.
- Eu acredito que uma possibilidade de conexo  muito remota. No
entanto, depois de revisar sua folha de servio no departamento de homicdios
de Nova York, no tenho motivos para impedir que confira o relatrio do
senador.
- At a mais remota possibilidade merece ser analisada, senhor.
- Estou de acordo e admiro sua meticulosidade.
- Ento posso lhe perguntar se conhecia o senador pessoalmente?
- Claro, e ainda que no tivssemos as mesmas idias polticas,
considerava-o um servidor pblico consagrado e um homem de firme princpios
morais.
- Daqueles que nos obrigam a tirar a prpria vida?
Os olhos de Dudley cintilaram-se por um momento.
- No, tenente, diria que no. E esta  a razo pela qual voc est aqui. O
senador deixou uma famlia. No mbito familiar o senador e eu coincidamos.
Portanto, seu aparente suicdio no encaixa com seu perfil.
Dudley tocou um boto sobre sua mesa e inclinou a cabea na direo da
parede coberta de telas de vdeos.
- Na tela um, sua ficha pessoal. Na dois, seus dados financeiros. Na trs,
sua carreira poltica. Tem uma hora para revisar os dados. Este escritrio
permanecer sob estrita vigilncia eletrnica. Limite-se a chamar o sargento
Hobb quando essa hora terminar.
Eve expressou a opinio sobre Dudley quando este saiu do escritrio.
- Deixou as coisas mais fceis para ns. Se no gostava particularmente
de Pearly, diria que, ao menos o respeitava. Em fim, Peabody, mos  obra.
Com a concordncia de Peabody, estudou as telas com o olhar policial, do
mesmo modo que tinha feito com o ambiente em sua volta. Tinha quase
certeza de ter localizado todas as cmaras e microfones de segurana, e
mudou de posio para que seu corpo ficasse parcialmente oculto pelo o de
Peabody.
A seguir se tirou da camisa o diamante que Roarke havia lhe dado e
brincou distrada com ele enquanto com outra mo pegava a pequena
gravadora e a mantinha junto ao pescoo focado nas telas.
- Uma vida limpa  comentou  Nem ao menos um registro criminal. Pais
casados, ainda vivos, residentes em Carmel. Seu pai prestou servio militar
com o posto de coronel e serviu durante as Rebelies Urbanas. Sua me era
enfermeira com tempo livre para exercer o papel de me profissional. Foi
criado em um lar muito unido.
Peabody mantinha o olhar mas telas, alheia a gravadora.
- E teve uma boa educao. Bacharel em Princeton, realizou trabalhos de
ps- graduao no centro de estudos universais da estao espacial
Liberdade. Isso foi logo depois de sua fundao, somente os melhores
estudantes conseguiam vagas. Casado aos trinta anos, pouco antes de se
apresentar pela primeira vez para o cargo. Defensor do controle demogrfico. E
era o tpico filho nico, varo. - Deslocou seu olhar para outra tela - Suas idias
polticas esto bem focadas no partido liberal. Deu cabeadas com seu velho
amigo DeBlass em relao  proibio de armas e ao de moralidade.
- Tenho o pressentimento que teria gostado do senador-Eve se voltou
ligeiramente - Passar para o histrico mdico.
Os termos tcnicos que foram desfilando pela tela a sua frente a fizeram
seus olhos revirarem. Encarregaria-se de que os traduzissem mais tarde,
pensou. Se  que conseguiria sair do edifcio com a gravadora.
- Parece uma pessoa saudvel. Os dados fsicos e mentais no mostram
nada anormal. Amdalas infeccionadas quando era um menino, e uma tbia
fraturada aos vinte anos, fazendo esporte. Correo da vista, habitual, aos
quarenta e cinco anos. Esterilizao permanente nesse mesmo perodo.
- Isto  interessante. - Peabody tinha passado a examinar a tela sobre a
carreira poltica - Propunha-se apresentar um projeto de lei segundo a qual
todos os representantes legais e tcnicos deviam se submeter a cada cinco
anos a uma investigao de antecedentes, cada um se responsabilizando por
seus gastos. Isso no deve ter deixado muito feliz seus colegas.
- Ou mesmo a Fitzhugh - murmurou Eve - Parece que ele tambm
andava atrs do imprio eletrnico. Pedindo leis mais rgidas para os novos
dispositivos e novas leis para conceder licenas. Isto tambm no deve t-lo
feito ganhar o trofu de Mr. Popularidade. Relatrio da autpsia - solicitou.
Estreitou os olhos quando este apareceu na tela. Leu superficialmente o
que conseguiu entender do jargo e mexeu a cabea.
- Caramba, ele devia ser uma panqueca quando o rasparam de l. No
ficou muito que analisar. Escanear e dissecar o crebro. Nada - disse aps um
momento - No est constando nenhuma leso ou falha. Visualizar seo
transversal. Vista lateral ampliada - ordenou, e se aproximou mais da tela para
estudar a imagem - O que consegue ver, PeabodY?
- Uma nada atraente matria cinza, destroada demais para ser
transplantada.
- Ampliar hemisfrio direito, lbulo frontal... Inferno, ele se destruiu. No
d para ver nada. No tem como ter certeza de algo.
Olhou para a tela at que seus olhos arderem. Era uma sombra ou
simplesmente parte do trauma resultante do despedaar de um crnio humano
contra o concreto duro?
- No sei, Peabody. - J tinha o que precisava, assim deslizou o
microcamera para dentro de sua camisa outra vez - Mas sei que nestes dados
no se reflete uma causa ou uma predisposio para suicdio. E com este j
so trs. Vamos sair deste maldito lugar, Peabody. J est me dando nos
nervos.
- Eu concordo plenamente com voc, tenente.
Compraram tubos de Pepsi e o que chegava perto de ser um sanduche
de carne e verduras picadas num carrinho aerodeslizante da esquina de
Pensilvnia com Security Row. Eve j estava pronta para conseguir aos gritos
um txi a fim de regressar ao aeroporto quando uma brilhante limusine negra
parou junto ao meio fio. A janela da porta traseira deslizou lentamente e Roarke
sorriu para elas.
- As senhoras desejam ir a algum lugar?
- Caramba - foi tudo o que Peabody pde dizer ao examinar o carro de
ponta a ponta.
Tratava-se de uma reluzente pea de antiqurio, um luxo de outra poca,
e to romntico e tentador quanto o pecado.
- No o incentive, Peabody. - Eve comeava a subir no veculo, quando
Roarke pegou sua mo e a puxou fazendo-a sentar em seu colo.
- Ei! - exclamou Eve mortificada, tentando levar o cotovelo na mesma hora
ao seu abdmen.
- Eu adoro deix-la envergonhada quando est a servio - comentou ele
lutando para manter o traseiro de Eve sobre seu colo - Foi tudo bem na
jornada, Peabody?
A oficial sorriu, encantada de ver sua chefe ruborizada e soltando
palavres.
- Agora est comeando a melhorar. Se essa coisa tem um painel de
privacidade eu posso deixar os dois sozinhos...
- Eu lhe disse para no incentiva-lo, certo? - Desta vez seu cotovelo
acertou o alvo e Eve tratou-se de se afastar - Idiota - murmurou.
- Ela  to doce. - Roarke suspirou e se recostou no assento - Se vocs
terminaram com o assunto policial posso propor um passeio pela cidade.
Antes que Peabody pudesse abrir a boca, Eve respondeu:
- No. Temos que voltar Nova York. Sem rodeios.
- Tambm  to divertida - comentou Peabody com seriedade. Entrelaou
as mos e dedicou-se a observar a cidade atravs da janela.
Captulo 10
Antes de voltar para a casa, Eve preparou um detalhado relatrio sobre as
similaridades entre os supostos suicdios alegando que a morte do senador se
devia s mesmas causas desconhecidas. Transferiu suas concluses ao
terminal do comandante, que receberia a chamada em casa. A menos que sua
esposa estivesse dando alguns de seus glamorosos jantares, sabia que
Whitney analisaria o relatrio at a manh seguinte. Com essa esperana,
tomou o aerodeslizante da homicdio at a diviso de investigao eletrnica.
Encontrou Feeney em sua mesa, com algumas delicadas ferramentas em
seus dedos gordos e uma micro-lupa que faziam seus olhos se assemelharem
a um pires, desmontando um mini-teclado.
- Agora  voc que cuida do reparo e da manuteno? - apoiou
cuidadosamente o quadril na borda de sua mesa, para no atrapalhar a
operao delicada. No esperava outra resposta alm do grunhindo que
recebeu. Ficou ali at que ele apoiasse a lmina de alguma coisa em um prato
vazio.
- Algum tem estado se divertindo - murmurou ele - E conseguiu meter um
vrus direto no computador do chefe. A memria se multiplicou e a GCC est
comprometida.
Ela deu uma olhada na lmina prateada e imaginou que devia ser o GCC.
Os computadores no eram o seu forte.
- Alguma idia?
- Ainda no. - Com uma pina minscula, levantou a lmina e a examinou
atravs das pequenas lupas - Mas terei. J encontrei o vrus e o eliminei, o que
era a prioridade. O pequeno bastardo est morto. Quando eu fizer a autpsia
veremos o que vamos encontrar.
Teve que sorrir. Era tpico de Feeney referir-se aos componentes e chips
em termos humanos. Substituiu a lmina, selou o prato e retirou os culos.
Seus olhos se encolheram e ele piscou, voltando ao foco.
E ali estava ele, enrugado e desarrumado, como ela mais gostava.
Ele tinha feito dela uma policial, tinha lhe dado uma tipo de treinamento de
campo que jamais teria aprendido por meio de discos ou realidade virtual. E
ainda que o tivessem transferido da Homicdios para nome-lo capito do
departamento eletrnico, ela continuava dependente dele.
- Sentiu minha falta? - perguntou.
- Voc tinha ido a algum lugar? - Ele sorriu e estendeu a mo para uma
tigela cheia de amndoas carameladas  Aproveitou sua lua de mel,
extravagante?
- Hum...hu. - Eve pegou uma amndoa. Fazia algum tempo que tinha
almoado  Apesar do morto que apareceu no fim. Obrigada pelos dados que
conseguiu.
- No h de que. Sempre se arma muito alvoroo com os suicdios.
-Talvez.
Seu escritrio era maior do que o dela devido a sua patente e a obsesso
pelo espao de Feeney. Sempre se vangloriava de ter uma grande tela
sintonizada a um canal de filmes clssicos. Naquele exato momento Indiana
Jones entrava num poo de cobras.
- Porm esses oferecem alguns aspectos interessantes.
- Quer compartilh-los?
- Por isso estou aqui. - Eve tinha copiado os dados obtidos do arquivo do
senador num disco que tirou do bolso - Tenho aqui uma dissecao cerebral,
mas a imagem  pouco ntida. Poderia limp-la e melhor-la um pouco?
- Os ursos podem cagar nos parques reflorestados? - Pegou o disco e o
introduziu em seu terminal carregando-o. Alguns segundos mais tarde franzia a
testa ao ver a imagem - Lamentvel. O que voc fez, utilizou uma cmera
porttil para filmar de uma tela?
- Preferiria no falar sobre isso.
Ele voltou a cabea e a observou sem deixar de franzir o cenho.
- Andando em corda bamba, Dallas?
- Tenho um bom equilbrio.
- Esperemos que sim. - Feeney preferiu trabalhar manualmente e puxou o
teclado. Seus dedos danaram sobre as teclas e controles como os dedos de
um experiente harpista sobre as cordas. Empurrou o ombro quando ela se
inclinou sobre ele - No me amole, pequena.
- Eu preciso ver.
Com sua percia tcnica a imagem foi ficando mais ntida e os contrastes
se intensificando. Eve esforou-se para ter pacincia enquanto ele trabalhava
digitando velozmente. A suas costas comeava um autntico inferno entre
Harrison Ford e as serpentes.
- Isso  o melhor que podemos fazer com este computador. Se quiser
mais, teremos que o levar  unidade principal. - lanou um olhar de esguelha
para ela  Para isso teramos que entrar no sistema.
Sabia que ele contornaria os regulamentos por ela e se arriscaria a fazer
uma entrevista com o IAD.
- Vamos deixar ficar com o que temos. Consegue ver isso, Feene? 
Bateu o dedo contra a tela embaixo da diminuta sombra.
- Vejo um enorme trauma. Este crebro deve ter sido achatado.
- Refiro-me a isto... - Eve mal podia distingu-lo- J vi isso antes. Em duas
outras anlises.
- No sou neurologista, mas imagino que no devia estar ai.
- No. - Eve se ergueu - Suponho que no deveria estar.
.................
Chegou atrasada em casa e Summerset foi recebe-la na porta.
- H dois cavaleiros que desejam v-la, tenente.
Com um ligeiro sobressalto Eve pensou nos dados que tinha roubado.
- Esto fardados?
Summerset apertou seus finos lbios.
- No. Eu os deixei esperar no salo de visitas. Insistiram em esperar,
ainda que voc no tivesse indicado a hora que chegaria, e Roarke est detido
no escritrio.
- Est bem, me ocuparei disso.
Queria engolir um prato enorme de qualquer coisa comestvel, tomar um
banho quente e ter tempo para pensar. Em lugar disso se encaminhou at o
salo e encontrou com Leonardo e Jess Barrow. Sentiu-se primeiro aliviada e
depois contrariada. Summerset, aquela serpente, conhecia Leonardo e poderia
ter dito que era ele quem estava esperando.
- Dallas.  No rosto de lua cheia de Leonard apareceu um lardo sorriso
quanto ela entrou.
Cruzou a salo como um gigante, vestido com um macaco rosa e com
um bluso de gaze verde esmeralda. No era estranho que Mavis o adorasse.
Quase esmagou seus ossos ao abra-la, depois estreitou os olhos.
- Voc no arrumou seus cabelos ainda. Chamarei Trina eu mesmo.
- Oh, eu posso... - Intimidada, Eve levou seus dedos ao curtos e
desalinhados cabelos - A verdade  que agora no tenho tempo para...
- Voc tem que arranjar tempo para cuidar de voc. No  somente uma
figura pblica importante, mas tambm  a esposa de Roarke.
Ela era policial, maldita seja. Os suspeitos no estavam nem ai para seu
penteado.
- Assim que...
- Est negligenciando seus tratamentos - ele acusou- Simplesmente
inventando desculpas to esfarrapadas quantos suas roupas.Est com olhos
cansados e precisa modelar suas sobrancelhas.
- Sim, mas...
- Trina entrar em contato com voc para marcar uma sesso  Ele a
levou at o outro lado do salo e a fez sentar em uma confortvel cadeira-
Agora relaxe ordenou  Ponha seus ps para cima. Voc teve um longo dia.
Posso trazer qualquer coisa para voc?
- No, na verdade estou...
- Um copo de vinho. - deu sorriso radiante enquanto lhe fazia uma breve
massagem nos ombros- Eu cuidarei disso. No se preocupe. Jess e eu no
ficaremos muito tempo.
-  intil discutir com um homem que nasceu para cuidar - comentou Jess
quando Leonardo saiu em procura do vinho  Fico feliz em v-la, tenente.
- No ir me dizer que perdi peso, que engordei, ou que preciso uma
limpeza facial? - Contudo suspirou e se recostou. Era muito agradvel sentar
numa cadeira que no tinha sido projetada para torturar a coluna - Em fim,
deve ser algo importante para que tolerem serem insultados por Summerset
at eu chegar em casa.
- Realmente , limitou-se a olhar horrorizado e nos prender aqui dentro.
Imagino que quando sairmos ir fazer uma vistoria no salo para ver se no
levamos nenhuma das relquias. - Jess sentou-se com as pernas cruzadas nas
almofadas que estavam sob seus ps. Seus olhos prateados sorriam e sua voz
era suave como um pudim de claras  Tenho que concordar que  uma bela
sala.
- Gostamos dela. Se queria fazer uma tour, deveria ter tido antes que
Leonardo me sentasse aqui. Irei ficar nessa posio por um bom tempo.
- Basta contempl-la, tenente.Ser um troca justa. Espero que no se
importe que eu lhe diga que  a policial feminina mais atraente com quem eu
j...tive contanto.
- Estamos tendo contato, Jess? - Ela arqueou as sobrancelhas, que
desapareceram sob a franja - No tinha percebido.
Ele soltou uma risada e tocou seu joelho levemente com uma de suas
esbeltas mos.
- Ficaria encantado em fazer a tour em outra ocasio. Mas agora temos
que lhe pedir um favor.
- Algum problema de trfico que precisa que eu resolva?
O rosto de Jess resplandeceu.
- Bem, agora que falou...
Leonardo trouxe uma taa de cristal cheia de vinho dourado.
- No a aborrea, Jess.
Eve aceitou a taa e ergueu o olhar para Leonardo
- No me aborrece, s est flertando comigo. Ele gosta de viver
perigosamente.
Jess deixou escapar uma melodiosa gargalhada.
- Voc me pegou. As mulheres felizes no casamento geralmente so as
mais seguras para se flertar - Jess estendeu os braos enquanto ela bebia um
gole do vinho, observando-o - No h mgoas nem preconceitos. -Pegou uma
mo e percorreu com um dedo o intrincado desenho do anel de casamento.
- O ltimo homem que tentou algo comigo est atrs das grades -
comentou Eve - Isso foi depois que eu fiz pedacinhos dele.
- Nossa! - Rindo, Jess soltou sua mo - Talvez seja melhor do que deixe
do que Leonardo lhe pea o favor.
-  para Mavis - explicou Leonardo, e seu olhar se transformou em um
lago morno quando pronunciou o nome - Jess acredita que o disco do
programa demonstrativo est pronto. O mundo da msica e dos espetculos 
duro, voc sabe. Uma pessoa precisa ser obstinada e competitiva e Mavis est
ajustada para isso. Mas depois do que ocorreu com Pandora... - Estremeceuse
ligeiramente- Bem, depois do que ocorreu, e pelo fato que Mavis foi presa e
despedida de Blue Squirrel, passar por tudo isso... Foi duro para ela..
- Eu sei. - Eve se sentiu de novo culpada pela parte que tinha tomado no
assunto- So guas passadas.
- Graas a voc. - Eve negou com a cabea, mas Leonardo insistiu-: Voc
acreditou nela, lutou por ela e a salvou. Agora vou lhe pedir que faa algo mais
por que eu sei que a ama tanto quanto eu.
Ela estreitou os olhos.
- Voc est me envolvendo em sua teria direitinho, no?- disse
Ele nem se dignou a disfarar o sorriso.
-  minha esperana.
- A idia foi minha.- Jess interrompeu.- Tive que empurrar um pouco
Leonardo para que ele viesse at voc. Ele no queria se aproveitar de sua
amizade nem da sua posio.
- Minha posio como polcia?
- No. - Jess sorriu, compreendendo a reao dela - De esposa de
Roarke.
- Ah.
Ela no ligava para aquilo, pensou divertido. Era uma mulher que queria
que a valorizassem por si mesma- Seu marido tem uma grande influncia,
Dallas.
- Sei muito bem o que Roarke tem. - No era exatamente verdadeiro. Eve
no tinha nem idia at aonde chegavam suas propriedades e operaes. E
no queria saber - O que quer dele?
- S uma festa - apressou-se a responder Leonardo.
- Uma que?
- Uma festa para Mavis.
- Uma grande festa - adicionou Jess com um sorriso - Daquelas de
arromba.
- Um acontecimento. - Leonardo lanou um olhar de advertncia para Jess
- Um palco, por assim dizer, onde Mavis possa se apresentar para o pblico e
atuar. Eu ainda no comentei com Mavis sobre isso, caso voc se opusesse.
Mas pensamos que se Roarke pudesse convidar...  Ficou evidente seu
embarao quando Eve o encarou fixamente- Bem, ele conhece muitas
pessoas...
- Pessoas que comprar discos, vo a clubes, procuram entretenimento.-
Jess sorriu cativante sem parecer muito embaraado- Talvez devssemos
tomar mais um gole de vinho?
Em lugar disso, Eve deixou de lado a taa que mal tinha tocado.  Voc
quer dar uma festa. - Temendo uma armadilha, vasculhou o rosto de ambos 
Apenas isso?
- Mais ou menos. - Leonardo a olhou esperanoso - Nos gostaramos de
apresentar o disco durante a festa e que Mavis atuasse tambm ao vivo. Sei
que  muito gasto, e estou mais do que disposto a pagar...
- No  o dinheiro que me preocupa - Eve olhou pensativa, tamborilando
no brao da cadeira  Vou falar com ele e entrarei em contato com vocs.
Suponho que queiram que seja logo.
- O mais breve possvel.
- Entrarei em contato - repetiu Eve levantando.
- Obrigado, Dallas. - Leonardo se inclinou para beij-la no rosto- No
iremos aborrece-la mais.
- Voa ser um grande sucesso - acrescentou Jess - S precisa um
empurrozinho. - Tirou o disco do bolso -  uma cpia, um disco piloto. - Uma
cpia especialmente montada para a tenente, pensou ele  D uma olhada.
Eve sorriu, pensando em Mavis.
- Vou olhar.
.........................
Uma vez sozinha no andar de acima, Eve programou o Autochef e se
encontrou com um fumegante prato de massa e o que sem dvida era um
molho recm preparado a base de tomates e ervas exticas. Nunca deixava de
se assombrar com tudo o que Roarke tinha a sua disposio. Devorou-o
enquanto enchia a banheira, depois decidiu jogar na gua os sais aromticas
que ele tinha comprado para ela em Paris.
Pensou que cheiravam como sua lua de mel, ostentosa e romntica.
Submergiu o corpo numa banheira do tamanho de uma pequena piscina e
suspirou. Esvazie a mente antes de coloc-la para pensar, ordenou a si mesma
ao mesmo tempo em que abria o painel de comandos acoplado na parede. J
tinha carregado o disco piloto na unidade do banheiro e a ligou para v-lo na
tela da parede.
Afundou na gua quente e espumosa e se recostou com uma segunda
taa de vinho na mo, mexendo a cabea. Que demnios estava fazendo ali?
Eve Dallas, uma policial que tinha feito a si mesma; uma menina sem nome
que tinha sido encontrada num beco, abandonada e violentada, com um
assassinato, o qual tinha apagado de sua memria, pesando sobre si.
At um ano atrs essa recordao tinha permanecido oculta e sua vida
tinha sido trabalho, sobrevivncia e mais trabalho. Sua misso era fazer justia
aos mortos, e era boa nisso. E tinha sido o bastante. Ela havia se encarregado
que fosse o bastante.
At que Roarke apareceu. Os reflexos da aliana dourada em seu dedo
ainda a desconcertavam.
Ele a queria. Desejava-a. Ele, o competente, perfeccionista e enigmtico
Roarke, inclusive parecia precisar dela. Isso era ainda mais desconcertante.
Era o maior de todos os enigmas e talvez com o tempo, j que pelo jeito no
conseguiria resolve-lo, aprenderia a aceit-lo.
Bebeu um gole de vinho, submergiu-se um pouco mais no gua e pulsou
o boto do controle.
Imediatamente, a cor e o som explodiram no quarto. Eve baixou o volume
antes que seus tmpanos estourassem. Ento Mavis cruzou a tela, to extica
quanto um duende, to potente quanto um usque sem gelo. Sua voz era um
alarido, mas o resultado era atraente, e parecia combinar como a msica que
Jess tinha projetado especialmente para ela. Era um tema quente, cruel, e
selvagem. Muito prprio de Mavis. Mas enquanto Eve o assimilava, percebeu
que o som e a imagem tinham sido polidos. Oh, Sempre havia brilho e cores
quando se tratava de um trabalho de Mavis, mas agora havia o refinamento
que havia faltado antes. Tcnicas da produo, sups. Orquestrao. E algum
que tinha o olho para reconhecer um diamante bruto, o talento e tinha a
vontade de poli-lo. A opinio de Eve sobre Jess subiu alguns degraus.
Talvez o tivesse enxergado apenas como um menino crescido exibindo
seu complicado equipamento, mas sabia obviamente fazer o trabalho. Mais,
compreendia Mavis, Eve percebeu. Apreciava o que ela queria fazer e tinha
descoberto um jeito que ela o fizesse bem. Eve riu para si mesma e levantou-o
seu o cristal brindando a sua amiga. Ao que lhe parecia iriam promover uma
festa para ela.
............................
Em seu estdio na periferia Jess revisava o programa demonstrativo.
Esperava de todo o corao que Eve prestasse ateno no disco. Se o fizesse,
sua mente se abriria aos sonhos. A grandes sonhos. Desejou saber quais
seriam, onde a levariam. Deste modo poderia ver o mesmo que ela. Poderia
document-lo, reviv-lo. Mas sua pesquisa no tinha permitido ainda descobrir
o caminho que conduzia aos sonhos. Algum dia, pensou. Algum dia.
.........................
Os sonhos voltaram a levar Eve para a escurido e o medo. A princpio
eram confusos, depois assombrosamente claros at dispersassem novamente
como folhas ao vento. Sonhava com Roarke, e isso era tranqilizante.
Contemplando um explosivo pr-do-sol com ele em Mxico, fazendo amor nas
guas escuras e borbulhantes de uma lagoa. Ouviu sua voz em seu ouvido
enquanto a penetrava, incitando-a para que deixasse levar. Simplesmente
deixar-se levar.
Ento era seu pai, mantendo-a deitada, e era uma menina indefesa,
ferida, assustada.
Por favor, no...
O cheiro dele estava l, o cheiro doce de lcool. Demasiado doce,
demasiado forte. Sentia aquele cheiro e se punha a chorar, sua mo estava
sobre sua boca para aplacar seus gritos enquanto a violava.
Nossas personalidades so programadas no momento da concepo. A
voz de Reeanna flutuava, fria e segura. Somos o que somos. Nossas decises
so tomadas quando nascemos.
Era uma criana, em um quarto horrvel, um quarto frio que cheirava a
lixo, urina e morte. E havia sangue em suas mos.
Algum a prendia, segurando seus braos, e ela lutava como um animal
selvagem, como uma menina estarrecida, desesperada lutaria.
- No, no, no...
- Shhh, Eve,  um sonho. - Roarke a abraou aproximando-a de seus
braos enquanto o suor de Eve manchava sua camisa e lhe partia o corao -
Est tudo bem.
- Eu matei voc. Est morto. Continue morto.
- Acorde.
Pressionou os lbios contra sua tmpora, tratando de achar o modo de
tranqiliz-la. Se pudesse, teria retrocedido no tempo e assassinado
alegremente quem a atormentava.
- Desperta, querida. Sou Roarke. Ningum vai te fazer mal. Est morto -
murmurou quando ela deixou de ofegar e comeou a tremer- E nunca voltar.
- J estou bem. - Sempre se sentia humilhada ao ser surpreendida no
meio de um pesadelo.- Estou bem.
- Pois eu no. - Ele continuou segurando-a, acariciando-a, at que seus
tremores cessaram - Foi terrvel.
Ela manteve os olhos fechados, tentando se concentrar no cheiro que
desprendia dele, limpo e msculo.
- Lembre-me de no dormir depois de comer espaguete com molhos
exticos. - Eve deu-se conta de que ele ainda estava vestido e que as luzes do
dormitrio estavam fracas - Ainda no deitou.
- Acabo de entrar. - Ele limpou uma lgrima de sua face  Continua plida.
 Odiava v-la daquele jeito e sua voz se tornou tensa - Por que, demnios,
no toma ao menos um tranqilizante?
- No gosto. - Como de costume, o pesadelo tinha lhe deixado uma
incomoda dor de cabea. Sabendo que ele perceberia isso se a olhasse com
ateno, afastou - Fazia tempo que no tinha nenhum. Semanas, na verdade. -
Mais calma, esfregou os olhos cansados - Este era muito confuso e estranho.
Talvez tenha sido o vinho.
- Ou o estresse. Voc trabalha at desmoronar.
Ela esticou o pescoo e conferiu o relgio que ele levava no pulso.
- E quem acaba de chegar do escritrio as duas da madrugada? - Eve
sorriu, desejando apagar a preocupao refletida nos olhos de Roarke  Tem
andado comprando algum pequeno planeta ultimamente?
- No, s uns satlites insignificantes. - Roarke levantou, tirou a camisa e
arqueou uma sobrancelha ao ver a expresso com que ela olhava seu peito nu
- Est cansada demais.
- Eu no preciso fazer nada. Voc pode fazer todo o trabalho.
Rindo, ele sentou para tirar os sapatos.
- Muito obrigado, mas porque ns no esperamos at que tenha energia
para participar?
- Cus, estamos parecendo pessoas casadas  Mas escorregou para
baixo dos lenis, esgotada. A dor de cabea a rondava, esperando para tomla
por completo.
Quando ele deitou-se a seu lado, ela descansou a cabea em seu ombro
macio.
- Fico feliz que esteja em casa.
- Eu tambm. - Roarke lhe acariciou o cabelo com os lbios - Agora durma
- Sim - Eve se tranqilizava ao sentir as batidas de seu corao contra a
palma da mo. Apenas ficava ligeiramente envergonhada daquela
necessidade, da necessidade de sua presena Acredita que somos
programados ao nascer?
- Como?
- S queria saber. - Eve j se afundava em um sonho relaxante, e falava
devagar, com voz pastosa -  a casualidade, o acaso gentico, que une os
vulos e os espermatozides? E no que isto nos transforma, a mim e a voc,
Roarke?
-Em sobreviventes - ele respondeu, mas sabia que ela dormia -
Sobrevivemos.
Permaneceu acordado um longo tempo observando-a respirar e
contemplando as estrelas. Quando teve certeza que ela dormia sem
interrupo, imitou-a.
.........................................
As sete acordou com um comunicado do escritrio do comandante
Whitney. Esperava o telefonema. Tinha duas horas para preparar o relatrio
que devia expor.
No lhe surpreendeu encontrar Roarke j de p, vestido e tomando caf
enquanto revisava os relatrios da bolsa em seu monitor. Ela lhe dedicou um
grunhindo, sua acostumada saudao de bom dia, e levou o caf para o
chuveiro.
Ele falava por tele-link quando ela voltou. Com seu corretor da bolsa,
segundo deduziu pelos fragmentos que captou da conversa. Eve pegou um
fatia de po com a inteno de comer enquanto se vestia, mas Roarke pegou
sua mo e a fez sentar no sof.
- Voltarei a entrar em contato depois do meio dia - disse a seu corredor
antes de cortar a transmisso  Qual  a pressa? perguntou a Eve.
- Tenho que me reunir com Whitney dentro de uma hora e meia e
convence-lo de que h uma conexo entre trs vtimas no relacionadas entre
si, e persuadi-lo a me deixar manter o caso aberto alm de aceitar os dados
que consegui de forma ilegal. Depois me esperam outra vez no tribunal para
testemunhar, para que um cafeto do submundo, que tinha um prostbulo ilegal
de menores e que espancou uma delas at mat-la, v para priso e no sai
dali to cedo. E voc?
Ele a beijou com delicadeza.
- Apenas outro dia no escritrio.Pegue uns morangos.
Ela sentia fraqueza por morangos e pegou uma da tigela.
- No temos nenhum compromisso esta noite, verdade?
- No. Que tem em mente?
- Estava pensando que poderamos no fazer nada.  Deu os ombros - A
menos que eu seja chamada para uma entrevista para ser rebaixada por ter
violado a segurana do governo.
- Voc deveria ter me deixado fazer isso  sorriu para ela - Com um pouco
de tempo, poderamos ter acessado os dados daqui.
Ela fechou os olhos.
- No me diga isso. Eu realmente prefiro no saber.
- O que voc me diz de assistir alguns vdeos velhos, comendo a pipoca
esparramados no sof?
- Eu digo, obrigado Deus.
- Est combinado ento.  descobriu sua xcara de caf.  Talvez at
consigamos jantar juntos. Este caso...ou casos...esto incomodando voc.
- No consigo achar o gancho, algo que me esclarea. No consigo ver a
causa e nem como foi feito. Aparte do cnjuge de Fitzhugh e de sua scia,
ningum nem sequer deu um passo fora da linha. E os dois so imbecis. -
moveu os ombros - No  homicdio quando se trata de suicdio, mas me
parece um homicdio.  respirou fundo- E se isso  tudo o que tenho para
convencer a Whitney, terei que arrastar meu traseiro para fora do escritrio
antes que ele o chute.
- Confia em seus instintos. Tenho a impresso de que esse homem  o
bastante pronto para confiar tambm nele.
- Logo saberemos..
- Se a prenderem querida. Vou esper-la.
- Ha ha.
- Summerset me disse que teve visitantes na ltima noite. - Roarke
acrescentou enquanto ela se levantava para ir ao armrio.
- Oh, merda, esqueci - Jogou o roupo no assoalho, nua procurava entre
suas roupas o que vesti. Era um processo que Roarke nunca deixava de
apreciar. Encontrou uma camisa azul clara de algodo e passou por cima da
cabea.  Eu trouxe uma par de rapazes para uma rpida orgia depois d
trabalho.
- Tirou algumas fotos?
Riu e encontrou uma cala jeans, mas lembrou-se do compromisso na
corte, e trocou por uma mais social.
- Era Leonardo e Jess. Queriam pedir um favor. A voc.
Roarke observava como Eve comeava a vestir a cala para depois se
recordar da roupa de baixo, e abria uma gaveta arrancando uma de l.
- Oh-oh-oh. Vai doer?
- Eu acho que no. Na verdade a escolha  sua. Eles querem fazer uma
festa aqui em homenagem a Mavis. E deixa-la atuar. O disco piloto j est
pronto. Eu o assistir na ltima noite e  realmente bom. Daramos uma
oportunidade de promov-la antes que o disco saia, como uma premiere.
- Certo. Podemos realizar a festa dentro de uma ou duas semanas.
Revisarei minha agenda.
Meio vestido ela se voltou para ele.
- Apenas isso?
- Por que no? No  um problema.
- Imaginei que teria que persuadi-lo.
A antecipao iluminou os olhos maliciosos.
- Voc gostaria?
Ela abotoou as calas e o olhou inexpressiva.
- Bem, o agradeceria. E j que est to condescendente, imagino que 
um bom momento para falar sobre a segunda parte.
Ele serviu mais caf e lanou um olhar ao monitor enquanto comeavam a
desfilar na tela os relatrios de agricultura de fora do planeta. Recentemente
tinha comprado uma mini-granja na estao espacial Delta.
- Que segunda parte?
- Bem, Jess preparou um nmero. Mostrou-me ontem  noite. - Encarou
Roarke - Formam um dueto realmente impressionante. E nos perguntamos se
durante a festa, na parte da atuao ao vivo, poderia fazer um com Mavis.
Ele piscou, perdendo interesse nos cultivos.
- Faa o que com Mavis?
- Cantar. A verdade foi idia minha - prosseguiu ela, com quase deleite ao
v-lo empalidecer - Tem uma bonita voz. Ao menos no chuveiro. Tem aquele
acento irlands, sabe? Comentei isso com Jess e ele achou fabuloso.
Roarke conseguiu fechar a boca, mas no foi fcil. Lentamente estendeu
o brao para desligar o monitor.
- Eve...
- Seria grande! Leonardo projetou um traje magnfico para voc.
- Para mim... ? - Alterado, Roarke levantou-se  Quer que eu me vista
com uma roupa de Leonardo e faa um dueto com Mavis em pblico?
- Significaria muito para ela. Pense s na publicidade que
conseguiramos.
- Publicidade. - Roarke empalideceu  Jesus Cristo, Eve.
- Ser realmente um nmero muito sexy.  Testando a ambos, ela se
aproximou e comeou a brincar com os botes de sua camisa enquanto o
olhava esperanosa - Poderia lev-la diretamente ao sucesso.
- Eve, eu tenho muita afeio por Mavis, muita. S que no acredito...
- Mas voc  to importante..- interrompeu-o deslizando um dedo por seu
peito- To influente. To maravilhoso.
Aquilo foi exagerado demais. Roarke estreitou os olhos e observou o
sorriso dela.
- Est fazendo hora com a minha cara.
Eve explodiu em gargalhadas.
- Voc engoliu. Ah, voc tinha que ver seu rosto!  Levou uma mo ao
estmago e gritou quando ele puxou uma orelha - Por pouco no o conveno.
- Duvido. - Roarke lhe voltou as costas e voltou a servir-se caf.
- Eu teria conseguido. Voc faria se eu tivesse insistido um pouco mais -
sem parar de rir, ela rodeou seu pescoo e o abraou pelas costas  Oh, eu te
amo.
Ele permaneceu imvel enquanto a emoo o invadia, perfurando seu
corao. Comovido, voltou-se e a prendeu entre seus braos.
- O que foi?  a risada morreu em sua garganta. Ele parecia aturdido..- O
que aconteceu?
- Voc nunca diz - A puxou para si e enterrou o rosto em seus cabelos-
Nunca diz - repetiu.
Ela no podia fazer mais do que esperar, estremecida ante as emoes
que pulsavam dele. De onde vinha aquilo ?, perguntou-se. Onde tinham
permanecido escondidas?
- Claro que digo.
- No assim.  Ele no sabia quanto precisava ouvir ela dizer aquelas
palavras, daquele jeito - S o faz de forma impulsiva, sem pensar.
Ela abriu a boca para negar, mas voltou a fech-la. Era verdade, estpido
e covarde.
- Eu sinto muito.  difcil para mim. Eu amo voc - disse ela baixinho- s
vezes assusta por que voc  o primeiro E o nico.
Ele a abraou at estar certo que poderia falar, a afastou de si e a
encarou.
- Voc mudou minha vida. Tornando-se minha vida.- tocou seus lbios,
deixou o beijo se aprofundar lentamente, docemente- Eu preciso de voc.
Ela passou os braos por seu pescoo atraindo-o para si.
- Mostre-me. Agora.
Captulo 11
Eve foi trabalhar cantarolando. Sentia o corpo leve e gil, e a mente
descansada. Pareceu-lhe um bom agouro o fato de que seu veculo tivesse
funcionado na primeira tentativa e que o controle da temperatura
permanecesse estvel em agradveis vinte e dois graus.
Sentia-se preparada para enfrentar o comandante e convenc-lo de que
tinha um caso por resolver.
Ento chegou  Quinta Avenida com a Quarenta e sete, e se deparou com
o congestionamento. O trfico estava parado e ningum prestava ateno s
leis contra a poluio sonora. Ouviam-se gritos, buzinas, um alarido sem fim.
Depois de um minuto no interior do carro a temperatura do interior do veculo
subiu para agradveis 34 graus.
Eve desceu do carro e se uniu ao tumulto.
Os vendedores dos carrinhos aerodeslizantes estavam se aproveitando da
ocasio, colando-se entre as pessoas e oferecendo suas frutas geladas no
palito e xcaras de caf. Eve nem perdeu tempo mostrando seu distintivo e os
lembrando que no tinham permisso para vender fora de suas localizaes.
Em vez disso chamou um vendedor e comprou um tubo de Pepsi e perguntou
que demnio estava acontecendo.
- Os Livre-free-Agers.  Seus olhos se deslocavam procurando novos
clientes, o homem deslizou seu carto de crditos pela abertura de segurana
do carrinho - Uma manifestao contra o consumo excessivo. H centenas
deles esparramados pela Quinta. Quer um pedao de bolo de trigo para
acompanhar? Acabou de ser feito.
- No.
- Fica para outra hora  ele disse antes de deslizar seu carrinho para
dentro do trfego congestionado.
- Maldio!
Eve contemplou a cena. Estava bloqueada por todos os lados por furiosos
trabalhadores que iam para seus empregos. Seus ouvidos estavam explodindo
e o calor era insuportvel.
Voltou a subir no carro, golpeou com o punho o painel de comandos e
conseguiu fazer a temperatura baixar bruscamente a uns quinze graus. Acima
de sua cabea um areo dirigvel passou cheio de turistas boquiabertos.
Sem nenhuma f em seu veculo, Eve o forou a uma elevao vertical ao
mesmo tempo em que ligava a sirene, mas esta no podia competir com
semelhante cacofonia. Eve conseguiu uma trmula ascenso e as rodas
passaram a menos de cinco centmetros dos tetos dos carros da frente
enquanto seu veculo se elevava tossindo e engasgando.
- Parada seguinte, ferro velho para reciclagem. Juro - murmurou enquanto
pegava o comunicador - Peabody, que merda  est que est acontecendo
aqui?
- Senhor.
Peabody apareceu na tela, olhos calmos e os lbios abertos em um
sereno sorriso.
Tenente, imagino que encontrou com o congestionamento provocado
pela manifestao da Quinta.
- No estava prevista. Sei muito bem que no estava anunciada para esta
manh. No podem ter permisso.
- Os da Livre-free-Agers no acreditam em permisses, tenente. -
Peabody limpou a garganta quando Eve grunhiu - Acredito que se pegar 
oeste ter mais sorte na Setenta. O trfico tambm est pesado, mas est se
movendo. Se voc verificar no seu monitor de trfico...
- Como se isso fosse funcionar neste monte de sucata! Chame a
manuteno e diga que so homens mortos. Contate ento o comandante e
explique que pode ser que eu chegue alguns minutos mais tarde para a
reunio. - Enquanto falava, lutava com a tendncia do veculo de perder altura
e a fazer que tanto os pedestres como os demais motoristas olhassem para
cima horrorizados - Se eu no cair antes sobre algum, estarei ao em vinte
minutos.
Esquivou por um fio da extremidade de um holograma do cartaz
publicitrio que pregava as delcias de voar num veculo particular. Ela e o jet
Star tinham tomado direes contrrias com diferentes graus de sucesso.
Roou a borda da calada ao entrar na Setenta e no pde culpar o homem de
terno que andava com patins areos por levantar o dedo mdio.
Mas tinha conseguido desviar, no ?
Permitiu-se um suspiro de alvio quando soou seu comunicador.
- Todas as unidades, todas as unidades. Doze dezessete. Telhado do
Tattler Building. Setenta com Quarenta e dois. Ir de imediato. Mulher no
identificada, ao que parece armada.
Doze dezessete, pensou Eve. Ameaa de suicdio. Que demnios era
isso?
- Mensagem recebida, tenente Dallas, Eve. Hora de chegada prevista em
cinco minutos.
Voltou a ligar a sirene e elevar o carro.
O Tattler Building, sede do jornal sensacionalista mais popular do pas,
era brilhante e novo. Os edifcios de sua antiga sede tinham sido destrudos
nos anos trinta por causa do programa de embelezamento da cidade, o que era
um eufemismo da decadncia de infra-estrutura e da construo civil que tinha
infestado Nova York nesse perodo.
Erguia-se em forma de uma bala de ao prateado, e estava rodeado de
corredores areos e passarelas aerodeslizantes com restaurante ao ar livre
que sobressaam de sua base.
Eve estacionou em fila dupla, recolheu seu equipamento de campo e abriu
passo a empurres entre as pessoas apinhada na calada. Mostrou o distintivo
ao guarda de segurana e viu alvio em seu rosto.
- Graas a Deus. Est l acima, mantendo a todos afastados com um
spray lacrimejante. Quase cegou Bill quando ele tentou agarr-la.
- Quem  ela? - perguntou Eve enquanto encaminhavam-se para o
elevador interno.
- Cerise Devane.  a dona deste maldito lugar.
- Devane?
Eve a conhecia de vista. Cerise Devane, a presidenta de Tattler
Enterprises, era uma das pessoas privilegiadas e influentes que freqentavam
os crculos de Roarke.
- Cerise Devane est no telhado ameaando de saltar? Que  isto, ardil
publicitrio para aumentar a tiragem?
- Para mim pareceu bem srio. - O guarda deixou escapar o ar  Tambm
est nua em pelo. Isso  tudo o que sei - afirmou enquanto o elevador
disparava para cima  Quem fez a chamada foi Frank Rabbit. Pode obter mais
informao dele se j voltou em si. Desmaiou quando a viu sair pela janela.
Isso  o que ouvi dizer.
- Chamou um psiclogo?
- Algum o fez e j temos um na companhia, e est a caminho um
especialista em suicdios. Bem como os bombeiros e a brigada de resgate
areo. Todos esto atrasado. H um terrvel congestionamento na Quinta.
- Percebi.
As portas se abriram no telhado, e ao sair da cabine Eve sentiu uma
rajada de ar frio que no encontrava espao atravs dos altos edifcios em
direo ao vale que formavam as ruas. Fez uma anlise rpida do espao. O
escritrio de Cerise estava construdo sobre o telhado, ou mais exatamente,
dentro dele. As paredes inclinadas de cristal terminavam em ponta e ofereciam
 presidenta uma vista de trezentos sessenta graus da cidade.
Atravs do vidro, Eve viu o material grfico, a decorao e o equipamento
desenhados para um escritrio de primeira classe. E no sof em forma de L
tinha um homem estendido com uma compressa na testa.
- Se este  Rabbit, diga-lhe para se recuperar e vim prestar depoimento.
Depois saia daqui e leve todas as pessoas que no sejam imprescindveis e
evacue a rua. Se ela resolver pular, no queremos que achate os
observadores.
- No tenho homens suficientes - respondeu o guarda.
- Comece tirando Rabbit dali - repetiu ela, e chamou  central - Peabody,
estou com um problema.
- Certo. Do que precisa?
- Venha aqui com homens para dispersar a multido da rua. Traga-me
todos os dados disponveis sobre Cerise Devane, e pea a Feeney que consiga
os telefonemas de seu tele-link de casa, pessoal e porttil, das ltimas vinte e
quatro horas. Ande depressa!
- Feito- respondeu Peabody cortando a transmisso.
Eve se voltou quando o guarda aproximou-se dela trazendo um homem
jovem. O n de sua gravata estava frouxo e o cabelo de corte elegante em
desalinhado, suas mos elegantes e bem feitas tremiam.
- Explique-me exatamente como aconteceu - pediu ela  E faa depressa,
claro. Voc poder se deitar quando eu tiver acabado com voc.
- Ela apenas...saiu andando para fora....no telhado - A voz falhou
enquanto se apoiava fraco contra o brao do guarda que o sustentava - Parecia
to contente. Quase danava de contentamento. Tinha...tinha tirado toda a
roupa. Toda.
Eve encolheu os ombros. Rabbit parecia mais assombrado pelo repentino
gosto de sua chefe pelo exibicionismo do que pela possibilidade de sua morte.
- O que a levou a fazer isso?
- No o sei. Juro, no tenho nem idia. Quis comear cedo hoje, antes da
oito horas da manh. Estava preocupada por um dos processos. Sempre esto
nos processando. A encontrei fumando, tomando caf e andando pela sala. Me
pediu que sasse por alguns momentos. Disse que iria tirar alguns minutos para
se recuperar e relaxar  Parou e colocou o rosto entre as mos - Quinze
minutos mais tarde saiu sorrindo e... nua. Fiquei to perplexo que continuei
aqui sentado, sem fazer nada.  Seus dentes comearam a bater um contra o
outro  Eu nunca sequer a tinha visto descala!
- Que ela esteja nua no  nosso maior problema agora - assinalou Eve -
Falou com voc, disse algo para ela?
- Bem, eu estava perplexo... j sabe. Disse algo, algo como Senhorita
Devane, que est fazendo? Aconteceu algo?. E ela se limitou a sorrir. Disse
que era perfeito. Que j o tinha tudo acertado e que tudo era maravilhoso. Que
ia se sentar por algum tempo na borda do telhado antes de saltar. Pensei que
estivesse brincando, e fiquei to nervoso que tambm comecei a rir Seus
olhos a fitaram assustados  Eu ri, e de repente a vi na beirada do telhado.
Apenas sentou ali. Foi quando percebi que ela ia saltar e sai correndo em sua
direo. Ela estava ali, sentada no borda, balanando as pernas e cantando
uma cano. Eu pedi, por favor, que ela voltasse para dentro antes que
perdesse o equilbrio. Ela riu, aspergiu o spray em mim e me pediu para ir
embora como um bom garoto.
- Recebeu ou fez algum telefonema?
- No.  passou a mo aberta pela boca- Qualquer transmisso teria
passado pelo meu terminal. Vai saltar, acredite no que estou lhe dizendo.
Inclinou-se enquanto eu a observava e esteve a ponto de faz-lo. E disse que
ia ser uma viagem agradvel. Vai saltar.
- Isso  que vamos ver. No v muito longe.
Eve girou o corpo na direo do telhado. O psiclogo da companhia era
fcil de reconhecer. Estava vestido com um jaleco branco  altura do joelho e
calas negras e justas. Usava seu cabelo cinza preso em uma trana perfeita e
estava inclinado sobre o parapeito da janela numa postura que revelava
ansiedade.
Ao se aproximar dele, Eve murmurou uma maldio. Ouviu o rudo dos
aparelhos areo e voltou a amaldioar os meios de comunicao ao ver a
primeira aerovans. O canal 75, naturalmente, murmurou. Nadine Furst sempre
era a primeira a chegar.
O psiclogo empertigou-se e alisou a jaleco para as cmaras. Eve
suspeitou que iria detest-lo.
- Doutor?  Mostrou a identificao e percebeu a excitao em seus
olhos. A nica coisa que lhe veio  mente era que uma companhia da categoria
e com poder de Tattler poderia ter conseguido algo melhor.
- Tenente, estou fazendo certos progressos com a paciente.
- Continua na beirada do telhado, no? - Eve fez um gesto para em
direo ao telhado e afastou o homem tomando seu lugar - Cerise?
- Mais companhia?
Brilhante e bela, com a pele da cor de ptalas de uma rosa, balanando
alegremente suas pernas bem bronzeadas, Cerise ergueu o olhar. Seu cabelo
negro azeviche ondulava ao vento, em seus olhos verdes e profundos tinham
uma expresso vivaz e astuta.
- Caramba, estou vendo a Eve? Eve Dallas, a recm casada. Um
casamento encantador. Realmente, o evento social do ano. Mobilizamos
milhares de unidades para cobri-lo.
- Bom para voc.
- Voc sabe, eu arrebentei minha bunda em documentao e busca de
dados para tentar averiguar o itinerrio da lua de mel. Penso que s Roarke 
capaz de se esconder de todos os meios de comunicao desse modo. -
Agitou uma mo brincalhona e seus generosos seios balanaram  Poderia ter
compartilhado, s um pouquinho. O pblico morre para saber dessas coisas.-
riu, mudou de posio e quase perdeu o equilbrio.- Ns todos morremos de
vontade de saber. Opa! Ainda no. Isto  muito divertido e no quero me
apressar  Endireitou o corpo e acenou para as aerovans. Normalmente
detesto os meios de comunicao visuais. Mas agora no consigo recordar o
motivo. Amo todos vocs ! - gritou ao ltimo, abrindo os braos.
- Est tudo bem, Cerise. Mas por que no volta aqui para cima um
minuto? Darei a voc detalhes de minha lua de mel. Uma exclusiva.
Cerise sorriu com astcia.
- Uh-uh-uh. - A negativa voltava a ser brincalhona, quase um risinho - Por
que voc no desce aqui para baixo e se junta a mim? Podemos pular juntas. 
sensacional, eu lhe asseguro.
- Vamos, senhorita Devane - comeou o psiclogo -, todos temos
momentos de desespero. Compreendo-a. E estou com voc. Sinto sua dor.
- Oh, cala-se. - Cerise fez um gesto de desprezo em sua direo - Estou
falando com Eve. Venha para c, querida. Mas no perto demais. - Agitou o
spray e riu- Venha aqui e se junte  festa.
- Tenente, no recomendo que...
- Cale-se e espere a meu ajudante ordenou Eve ao psiclogo enquanto
passava uma perna por cima do muro metlico de segurana e se abaixava at
a borda.
O vento no parecia mais to agradvel quando se achava a setenta
andares de altura, sentada numa salincia de ao de menos de meio metro de
cumprimento. Com a ajuda das hlices das aerovans sacudia a roupa e
aoitava sua pele. Eve tentava controlar as batidas de seu corao enquanto
apertava as costas contra a parede do edifcio.
- No  lindo? - suspirou Cerise  Eu adoraria beber alguns goles de vinho
aqui, voc no? No, melhor, uma longa taa de champanhe. A reserva
quarenta e sete de Roarke seria uma boa pedida neste momento.
- Creio que temos uma em casa. Por que no vamos l abri-la?
Cerise riu, virou o rosto em sua direo e deu um enorme sorriso. Foi o
sorriso, Eve compreendeu com o corao batendo com fora novamente. J
tinha visto aquele mesmo sorriso, no rosto de um jovem pendurado em uma
corda.
- J estou bbada de felicidade.
- Se est to feliz, por que est aqui, nua num parapeito do edifcio,
pensando em dar o ltimo salto?
-  exatamente isso que me faz feliz! No sei por que voc no consegue
compreender. - levantou o rosto para o cu e fechou os olhos. Eve arriscou a
se aproximar alguns centmetros  No sei por que no entendem.  to lindo.
Excitante.  tudo.
- Cerise, se voc pular...j no ser nada. Tudo estar acabado.
- No, no e no. - Cerise voltou a abrir os olhos, e desta vez os tinha
vtreos -  apenas o comeo, no entende? Oh, somos todos to cegos!
- Um erro pode ser corrigido. Eu sei - Com cuidado, Eve apoiou uma mo
sobre a de Cerise. Mas no a pegou, no quis se arriscar a faz-lo 
Sobreviver  o que conta. Voc pode mudar as coisas, faze-las melhor, mas
para isso tem que sobreviver.
- Sabe quanto custa fazer isso? Sinto-me bem assim. No. - Rindo, Cerise
apontou o spray para os olhos de Eve- No estrague tudo agora. Estou tendo
agradveis momentos aqui.
- Voc tem pessoas que esto preocupadas com voc. Tem uma famlia
que a ama. - Eve tentava puxar da memria. Tinha filhos, um marido, pais? 
Fazendo isso vai lhes causar sofrimento.
- S at que compreendam. Aproxima-se o tempo em que todos
compreenderam. Ento tudo ser melhor. Esplendoroso. - Encarou os olhos de
Eve com expresso sonhadora e um radiante e aterrorizante sorriso nos lbios
- Venha comigo.  agarrou a mo de Eve - Vai ser maravilhoso. Voc s tem
que se entregar.
O suor escorreu pelas costas de Eve. A mo da mulher a apertava como
uma garra, e debater para se liberar condenaria s duas. Obrigou-se a no por
resistncia, ignorar o vento que sacudia suas roupas e o barulho das aerovans
que documentavam cada movimento - No quero morrer, Cerise - respondeu
com calma - E voc tambm no. O suicdio  para covardes.
- No,  para exploradores. Mas ser como voc quiser. - Cerise deu uma
palmadinha em sua mo e se a soltou, depois emitiu uma longa e ruidosa
gargalhada ao vento - Oh, Deus, estou to feliz! - E abrindo os braos de par
em par, inclinou-se no espao.
Instintivamente Eve tentou segur-la e quase perdeu o equilbrio ao roar
com os dedos nos delgados quadris de Cerise. Caia voltada para cima, o
gravidade trabalhava rpido e sem misericrdia. Eve olhou fixamente para
baixo, para o rosto que parecia ostentar um congelado sorriso descontrolado
at que este fosse somente um borro.
- Oh, Meu Deus. Deus. Oh Deus!
Sentindo-se mareada, sentou-se, inclinou a cabea para trs e fechou os
olhos. Os gritos e o tumulto chegaram at ela, e o ar deslocado pelas vans dos
jornalistas que se aproximavam para um close aoitava sua face.
- Tenente Dallas.
A voz era como uma abelha zumbindo ao ouvido e Eve se limitou a
balanar a cabea.
No telhado, Peabody olhava fixamente para baixo e tentava conter as
nuseas que chegava at sua garganta. Tudo o que podia ver era que Eve
estava recostada contra a salincia, branca como papel, e que o menor
movimento a enviaria atrs da mulher que tinha tentado salvar. Respirou
profundamente e adotou um tom spero e profissional.
- Tenente Dallas, precisamos de voc aqui. Preciso de seu registro para
fazer um relatrio completo.
- Estou ouvindo - respondeu Eve com tom cansado. Mantendo os olhos
voltados para frente, estendeu a mo para trs para a prender na borda do
muro de proteo. Com a mo de Peabody segurando a dela, se levantou.
Girou o corpo e olhou inexepressivamente para Peabody, viu o medo em seus
olhos - A ltima vez que pensei em saltar tinha oito anos. - Ainda que suas
pernas tremessem ligeiramente, conseguiu pass-las por cima do muro - No
vai ser dessa maneira.
- Jesus, Dallas! - esquecendo-se de tudo por um momento Peabody a
abraou fortemente  Voc quase me mata de susto! Pensei que ela ia arrastla
junto!
- Eu tambm, mas no aconteceu. Vamos colocar um pouco de ordem
aqui, Peabody. A imprensa est tendo um dia cheio.
- Desculpe-me.- Peabody deu um passo para trs corando - Desculpe-me.
- No se preocupe. - Eve olhou para psiclogo, que posava para as
cmaras com uma mo no corao e murmurou -: Idiota. - Depois meteu as
mos nos bolsos. Precisava de um minuto, s um minuto, para recuperar -.
No pude det-la, Peabody. No pude encontrar a tecla certa para fazer-la
parar.
- s vezes no h uma.
- Algum a incitou a faz-lo - afirmou Eve num sussurro - Devia de ter um
jeito de faze-la mudar de idia.
- Sinto muito, Dallas. A conhecia, no?
- No realmente. Era uma dessas pessoas que passam acidentalmente
por sua vida.  Afastou-a de sua mente. Tinha que afast-la. A morte,
chegasse quando chegasse, sempre deixava responsabilidades, isso era uma
certeza - Vejamos o que podemos fazer aqui. Voc conseguiu falar com
Feeney?
- Afirmativo. Bloqueou o tele-link de seu escritrio e diz que vir
pessoalmente. Entrei com os dados do indivduo, mas no tive tempo de
estud-los.
Encaminharam-se ao escritrio de Cerise. Pelo vidro viram Rabbit
sentado, a cabea entre os joelhos.
- Me faa um favor, Peabody. Pea a um agente que tome uma
declarao formal dele. No quero tentar nada com ele por enquanto. E quero
este escritrio vedado. Deixe-me ver se podemos encontrar o que, demnios,
ela estava fazendo para que decidisse se matar.
Peabody entrou e se ocupou de fazer com que Rabbit sasse com um
agente em questo de segundos. E com a mesma eficincia, trancou o
escritrio, selando as portas externas.
- J  todo nosso, senhor.
- Eu j lhe disse para no me chamar de senhor?
- Sim, senhor - respondeu Peabody com um sorriso que esperava,
levantasse seu nimo.
- H uma espertinha escondida embaixo desse uniforme - respondeu Eve
- Ligue a gravadora, Peabody.
- J est ligada.
- Muito bem, aqui estamos. Chegou cedo ao escritrio, est puta da vida.
Rabbit disse que estava preocupada com um processo. Consiga informaes
sobre isso.
Enquanto falava, Eve andava de um lado para o outro na sala,
absorvendo detalhes: as esculturas, em sua maioria figuras mitolgicas de
bronze, muito estilizadas; o tapete azul profundo para combinar com o cu; a
escrivaninha em tons rosados e superfcie brilhante como um espelho; o
equipamento de escritrio, reluzente e moderno, e do mesmo tom; um enorme
recipiente de cobre cheio de flores exticas; e um par de pequenas rvores em
vasos.
Aproximou-se computador, tirou de sua valise o carto mestre e pediu o ltimo
relatrio utilizado.
ltimo uso, 8:10 ,Telefonema a linha 3732-1 Legal, Cluster contra Tattler
Entreprises.
- Este deve de ser a ao que a estava aborrecendo - concluiu Eve -
Enquadra com a declarao anterior de Rabbit. - Deu uma olhada para o
cinzeiro de mrmore com meia dzia de pontas de cigarro. Recolheu uma com
as pinas e a examinou  Tabaco caribenho com filtro de fibra. So caros.
Guarde-os como prova.
- Acredita que poderiam estar relacionados com algo?
- Algo a fez fazer aquilo. Tinha um olhar muito estranho. - No esqueceria
aqueles olhos durante um longo, longo tempo. Ela sabia disso. - Esperemos
que haja bastante para um relatrio de toxicologia. Leve tambm amostra dos
restos do caf.
Mas Eve no acreditava que fossem encontrar o que procuravam no
cigarro ou no caf, pois no tinha indcio de substncias qumicas em nenhum
dos demais suicdios.
- Tinha alguma coisa errada nos olhos dela  repetiu - E seu sorriso. Eu vi
esse sorriso antes, Peabody. Na verdade j o vi algumas vezes agora.
Peabody guardou os sacos de evidncias e lanou um olhar de relance
para Eve.
- Acredita que est relacionado com os outros casos?
- Acredito que Cerise Devane era uma mulher bem sucedida e ambiciosa.
E vamos seguir todos os trmites, mas aposto que no descobriremos nenhum
motivo do suicdio. Fez Rabbit sair - continuou Eve, andando pelo escritrio.
Irritada pelo zumbido das aerovans que continuavam pairando no ar, levantou o
olhar e grunhiu  Veja se a consegue encontrar os protetores de privacidade.
Estou farta desses idiotas.
- Ser um prazer. - Peabody se aproximou ao painel de comandos  Acho
que vi Nadine Furst numa delas. Pelo modo em que se inclinava, ela fez bem
em se prender as cordas de sustentao. Poderia ter acabado como a estrela
de seu prprio noticirio.
- Ao menos o cobrir bem - disse Eve e assentiu quando as persianas
baixaram sobre os vidros  Bom. Luzes - requisitou, e a sala voltou a se
iluminar. Deu uma olhada no interior de uma pequena geladeira e encontrou
refrigerantes, frutas e vinho. Uma garrafa tinha sido aberta e fechada com filme
transparente, mas no tinha nenhum copo que indicasse que Cerise tinha
comeado a beber cedo aquele dia. E no haveria de ser algumas taas que
tinham provocado aquele olhar, disse-se Eve.
No banheiro contguo, que possua uma banheira de hidromassagem,
sauna pessoal e um tubo alterador de nimo, descobriu um armrio cheio de
calmantes, tranqilizantes e estimulantes legalizados.
- Uma devota dos auxlios qumicos, nossa Cerise - comentou Eve  Leve
a todos para anlise.
- Cus, tinha uma farmcia. O tubo alterador de nimo est em posio de
concentrao, e a ltima vez que o utilizou foi ontem pela manh. Esta manh
no.
- Ento que fez para relaxar? - Eve entrou no quarto adjacente, que era
uma pequena sala de estar equipada com toda as classes de aparelhos de
entretenimento, uma poltrona de relaxamento e um andride servente.
Um traje verde oliva, encantador, tinha sido sistematicamente dobrado
sobre uma mesinha. Os sapatos combinando estavam no cho sobre eles, e as
jias, uma grossa corrente de ouro com um desenho intricado, uns sofisticados
brincos e um elegante relgio gravador de pulso tinham sido guardados num
recipiente de vidro.
- Despiu-se. Por que? Com que objeto?
- Algumas pessoas relaxam melhor sem o incmodo da roupa - explicou
Peabody, e se ruborizou quando Eve lhe lanou um olhar curioso por cima do
ombro   o que dizem.
- Sim.  possvel, mas ela no se esquadra nessa categoria. Era uma
mulher muito serena. Seu ajudante disse que nunca a tinha visto descala
sequer, e de repente se transforma em uma nudista de telhado. No posso
acreditar.
Pegou os culos de realidade virtual colocados no brao da poltrona de
relaxamento.
- Talvez tenha feito uma viagem  murmurou  Est muito nervosa e quer
se tranqilizar, entra aqui, estica-se na poltrona e decide fazer um passeio.
Eve se sentou e pegou os culos. culos de realidade virtual, murmurou.
Fitzhugh e Mathias tambm tinham feito viagens antes de morrer, recordou.
- Vou ver at aonde foi e quando. Se lhe parecer que tenho qualquer
impulso suicida depois de us-lo ou decidir que me sentirei melhor sem os
incmodos das roupas, estou ordenando que me faa desmaiar com um bom
murro.
- Sem hesitao, senhor.
Eve arqueou uma sobrancelha.
- Mas no quero que voc se deleite com isso.
- Odiarei cada instante - prometeu Peabody e dobrou as mos.
Com uma risada fraca Eve deslizou o culos de Realidade virtual sobre o
rosto.
- Visualizar hora da ltima viagem realizada  ordenou  Bem no alvo. P
utilizou s 8:17 desta manh.
- Dallas, se for o caso, talvez no devesse faze-lo nesse momento.
Podemos fazer os testes em uma situao mais controlada.
- Voc  meu controle, Peabody. Se eu lhe parecer muito feliz com a idia
de morrer, tombe-me. Voltar a executar o ltimo programa - ordenou
recostando-se.
- Cristo!  assobiou baixinho ao ver que se aproximavam dela dois jovens
garanhes. Vestidos somente com algumas tiras de couro negro brilhante
incrustadas de prata, tinham os msculos cobertos de leo e os membros
totalmente eretos.
Encontrava-se num quarto branco ocupado em sua maior parte por uma
cama, e havia cetim embaixo de seu corpo nu, e vus de tecido transparentes
pendurados acima da cama para filtrar a luz das velas que ardiam num
candelabro de cristal. A msica, suave e pag, flua pelo ambiente. Ela estava
estendida sobre uma pilha de travesseiros de plumas, e comeou a levantar-se
quando o primeiro jovem Deus se sentou de joelhos sobre ela.
- Olha, rapaz...
-  s para seu prazer, senhora - cantarolou ele untando seus seios com
leo aromtico. Est foi uma m idia, Eve pensou no instante em que
experimentava um ligeiro e involuntrio estremecimento de prazer entre as
pernas.
O leo foi deslizado por seu estmago, coxas, pernas, ps... at os dedos
de cada p.
Compreendia que essa situao fizesse uma mulher sorrir, mas no
compreendia como poderia lev-la ao suicdio.
Mantenha-se  margem, ordenou-se, e se concentrou em outra coisa.
Pensou no relatrio que tinha que apresentar ao comandante. Naquelas
sombras inexplicveis nos crebros.
Dentes se fecharam com delicadeza sobre um de seus mamilos, uma
lngua deslizou mida pelo alvo capturado. Arqueou os quadris em resposta,
mas as mos se estenderam em protesto e escorregaram pelo duro ombro
untado de leo.
Ento o segundo garanho se ajoelhou entre seus ps e comeou a
trabalhar nela com sua boca.
Veio antes que pudesse evitar. Um pequeno estopim de realizao.
Ofegando, tirou os culos e encontrou Peabody olhando-a boquiaberta.
- No era um passeio numa praia calma - balbucio.
- Pode ver isso por mim mesma. O que era exatamente?
- Um par de rapazes quase nus e uma grande cama de lenis de cetim. -
Respirou fundo e abaixou os culos de realidade virtual - Quem diria que ela
relaxava com fantasias sexuais?
- Tenente, em qualidade seu auxiliar direto, acredito que  minha
responsabilidade testar esse programa. Controle de evidncias, j sabe.
Eve fez uma careta.
- No posso permitir que corra esse tipo de risco, Peabody.
- Sou uma policial, tenente. O risco  uma constante em minha vida.
Eve se levantou ainda corada e entregou os culos a Peabody, e ao ver
que seus olhos se iluminavam, apressou-se a ordenar:
- Guarde-os, oficial.
Decepcionada, Peabody os colocou na sacola de provas.
- Inferno. Eram bons?
- Eram deuses. - Eve retrocedeu at o escritrio propriamente dito e
lanou uma ltima olhada em sua direo - Vou chamar  equipe para recolher
provas, mas no acredito que vo encontrar alguma coisa. Levarei o disco que
carregou na central e entrarei em contato com os parentes mais prximos...
ainda que os meios de comunicao j devem t-los deixado a par do
acontecido com essas malditas transmisses ao vivo. - Recolheu seu
equipamento e acrescentou -: No sinto nenhum desejo de suicdio.
- Fico aliviado de ouvi-la, tenente.
Eve olhou os culos com o cenho franzido.
- Quanto tempo estive viajando? Cinco minutos?
- Quase vinte. - Peabody sorriu com amargura - O tempo voa quando
estamos fazendo sexo.
- No era exatamente sexo - replicou Eve, a culpa a fez olhar para sua
aliana de casamento  Se existisse algo nesse programa eu teria notado, teria
sentido tambm. De modo que ainda seguimos sem nada concreto. De
qualquer jeito vamos analis-lo.
- Ns o faremos.
- E esperar Feeney. Talvez encontre algo interessante nos registros dos
tele-links. Eu estou indo implorar ao comandante. Quando terminar aqui, leve
as sacolas ao laboratrio e o relatrio para meu escritrio.  Encaminhou-se
para porta e lanou uma olhar por cima do ombro - E Peabody, nada de brincar
com as evidncias.
- Estraga-prazeres - murmurou a oficial quando Eve j no podia ouvi-la.
Captulo 12
O comandante Whitney se achava sentado ante sua ampla e bem
organizada mesa, escutando-a. Apreciou o fato de que a tenente lhe
entregasse um relatrio claro e conciso, e se admirou ao v-la omitir certos
detalhes sem nem ao menos piscar.
Um bom policial devia ter sangue frio diante do perigo. E Eve Dallas, ficou
satisfeito ao perceber, era gelo puro.
- Assim voc fez as anlises dos dados da autpsia de Fitzhugh fora do
departamento.
- Sim, senhor. - no piscou. A anlise requeria um equipamento mais
sofisticado do que temos acesso no departamento de homicdios.
- E voc teve acesso a esse equipamento mais sofisticado.
- Consegui acesso a ele.
- E voc mesma analisou os dados? - perguntou ele, arqueando uma
sobrancelha - A informtica no  seu forte, Dallas. Ela olhou-o nos olhos, seu
semblante, inexpressivo.
- Ultimamente tenho me dedicado a ampliar meus conhecimentos neste
campo, comandante.
Ele o duvidava, sinceramente, daquilo.
- Posteriormente conseguiu ter acesso aos arquivos do Centro de
Segurana Governamental, e uma vez ali, alguns relatrios confidenciais
caram em suas mos.
- Est correto. E no desejo revelar minha fonte.
- Sua fonte?- repetiu  Est dizendo que tem um informante nesse centro?
- H informantes em todos as partes, senhor  disse sua semblante
inexpressivo.
- Ento seria melhor que este desaparecesse  murmrio- Ou voc
poderia acabar diante de da comisso interna em East Washington.
O estmago do Eve revirou-se, mas sua voz permaneceu firme.
- Estou preparada para isso.
- Penso que sim - Whitney recostou, uniu suas mos, e apoiou seu queixo
nas pontas dedos.
- Com respeito ao caso do Olympus, voc tambm teve acesso aos seus
dados. Isso fica um pouco fora de sua jurisdio, no lhe parece, tenente?
-Encontrava-me na cena durante o incidente e relatei minhas
averiguaes s autoridades interespaciais.
- Os quais se responsabilizaram ento pelo assunto.
- Tenho autorizao para solicitar dados quando um caso externo est
relacionado com um interno, comandante.
- Que deve ser demonstrado ainda.
- Precisava dos dados para demonstrar tal relao.
- Isso a sustentaria, Dallas, se houvesse um homicdio, Dallas.
- Acredito que se trata de quatro homicdios, incluindo o de Cerise
Devane.
- Dallas, acabo de ver a gravao desse incidente. Vi a uma polcia e a
uma suicida num telhado. A polcia tratou de persuadir  suicida, mas esta
decidiu saltar. No recebeu nenhum empurro ou coao de nenhum tipo, nem
foi ameaada de nenhuma maneira.
-  minha opinio profissional que ela foi coagida.
- Como?
- No o sei. - E pela primeira vez Eve deixou entrever sua frustrao - Mas
estou segura de que se pudessem recolher da rua a quantidade suficiente de
crebro para analis-lo, encontrariam a mesma queimadura no lbulo frontal.
Sei disso, comandante. S que no sei como chegou ali. - Fez uma pausa e
adicionou -: Ou a puseram.
Seus olhos cintilaram.
- Voc est insinuando que algum est influenciando determinadas
pessoas ao suicdio com algum tipo de implante cerebral?
- No achei nenhuma conexo gentica entre os indivduos. Nem grupo
social, mbito educativo ou afiliao religiosa. No cresceram na mesma
cidade, nem bebiam a mesma gua, nem iam aos mesmos clubes ou centros
de sade. Mas todos tinham a mesma falha no crebro. E, alm disso, h mais
do que uma coincidncia, comandante. Foi causada, e se ao caus-la se
induziu a essas pessoas pr fim a suas vidas, ento se trata de assassinato. E
ai eu entro.
- Est andando em corda bamba, Dallas - disse Whitney - Os mortos tm
famlias, e as famlias preferem superar e esquecer esse tipo de coisa. Sua
investigao no faz seno prolongar sua dor.
- Eu lamento por eles comandante.
- Tambm est fazendo que a Torre faa perguntas - acrescentou,
referindo-se ao chefe do Departamento de Polcia e Segurana.
- Estou disposta a apresentar meu relatrio a Tibble se assim me ordenar.
- Mas esperava que no precisasse faze-lo - Estarei  altura de minha folha de
servio. No sou um calouro que quer desenterrar um caso j fechado.
- At os polcias mais experimentados exageram e cometem erros.
- Ento me deixe comet-los. - Ela negou com a cabea antes que ele
pudesse replicar - Fui eu a que esteve naquele telhado, comandante. Vi seu
rosto, os olhos dessa mulher quando saltou. E sei do que estou falando.
Whitney apertou suas mos contra o borda da mesa. Seu cargo exigia que
se esforasse para administrar aquele departamento de acordo com que
tinham. Havia outros casos e precisava que ela se dedicasse a eles. O
oramento era curto, e nunca tinha tempo ou homens suficientes.
- Dou-lhe uma semana, isso  tudo. Se no tiver respostas convincentes,
fecharemos esta investigao.
Ela conteve o suspiro.
- E o chefe?
- Falarei com ele pessoalmente. Consiga-me algo, Dallas, ou prepare-se
para seguir adiante.
- Obrigada, senhor.
- Dispensada.- disse, a seguir acrescentou quando ela alcanava a porta-
Oh, Dallas, se voc sair da esfera oficial para pesquisar...faa com cuidado. E
der lembranas a seu marido.
Ela se ruborizou ligeiramente. Whitney tinha adivinhado a fonte, e ambos
o sabiam. Eve murmurou algo e saiu. Tinha esquivado do golpe, disse a si
mesma, passando as mos pelo cabelo. Depois, murmurou uma maldio,
correu at a paragem de airbus mais prxima. Estava atrasada para a corte.
Era quase fim de seu turno quando regressou ao escritrio e encontrou
Peabody recostada diante de sua escrivaninha com uma xcara de caf na
mo.
Eve se apoiou contra o batente da porta.
- Confortvel, oficial?
Peabody deu um pulo, derramou um pouco de caf e pigarreou.
- No sabia a que horas voltaria.
- Posso ver. Algo errado com seu computador?
- No, no. Pensei que seria mais eficiente introduzir os novos dados no
seu.
-  um bom argumento, Peabody. Mantenha-o  Eve aproximou-se de seu
AutoChef e pediu um caf. Era a mistura de Roarke em lugar do veneno que
serviam no departamento e explicava por que Peabody estava instalada to
confortavelmente na mesa de seu superior.
- Quais dados novos?
- O capito Feeney analisou todas as comunicaes dos tele-links de
Devane. No parece ter nenhuma conexo, mas est tudo aqui. Temos sua
agenda pessoal com todos os compromissos e a maioria dos dados da ltima
reviso mdica que ela fez.
- Algum problema com ela?
- Pelo que parece nenhum. Era viciado em cigarros e tomava injees
anticncer com regularidade. No tinha nenhum sintoma de doena; nem
fsica, nem emocional, nem mental. Tinha tendncia ao estresse e ao excesso
de trabalho, o que contrapesava usando calmantes e tranqilizantes. Segundo
todos os relatrios vivia muito bem com seu parceiro, que est atualmente fora
do planeta. Tambm h o nome de um parente prximo, o filho de seu
casamento anterior.
- Sim, J o contatei. Trabalha nos escritrios de Tattler de New Los
Angeles. Estar chegando.  Eve fez um gesto com a cabea  Se importa,
Peabody?
- Sim, tenente. Oh, desculpe-me. - Apressou-se a se levantar e acomodar
numa cadeira ao seu lado - Tudo bem na reunio com o comandante?
- Temos uma semana - respondeu Eve com brusquido enquanto se
sentava  Temos que aproveit-la ao mximo. O relatrio da forense de
Devane?
- Ainda no est pronto.
Eve se voltou para seu tele-link.
- Vejamos se podemos dar um pequeno empurro.
..............................
Eve chegou a casa cambaleando. No tinha jantado nada, algo pela qual
se alegrou j que tinha terminado a jornada no necrotrio contemplando os
restos de Cerise Devane.
At o estmago de uma polcia veterana podia revolver-se.
E no ia conseguir nada dali, nada em absoluto. Duvidava at que o
equipamento de Roarke fosse de alguma ajuda.
Ao entrar quase tropeou no gato, que estava esparramado no umbral, e
reuniu energias para se agachar e peg-lo nos braos. Ele a olhou jogando
fogo por seus olhos de duas cores.
- No pisaria em voc se colocasse seu traseiro gordo em outro lugar,
camarada.
- Tenente.
Eve pegou o gato com o outro brao e viu Summerset, quem, para variar,
tinha aparecido do nada.
- Sim, cheguei tarde  replicou - Castigue-me.
Ele no respondeu com seu habitual comentrio mordaz. Tinha visto as
imagens no canal de notcias e a tinha observado no telhado. Havia observado
seu rosto.
- No vai querer jantar?
- No, obrigada.  Queria apenas cama, e se dirigiu para as escadas.
- Tenente. Summerset esperou a que ela soltasse uma maldio e
voltasse a cabea com um rosnado - Uma mulher que caminha por um telhado
 ou muito valente ou muito estpida.
O rosnado se converteu numa risada zombadora.
- No  preciso que me diga em que categoria me ps.
- No, no  preciso. - Ele a observou subir as escadas e pensou que
aquela mulher tinha muita coragem.
No tinha ningum no dormitrio. Pensou em fazer um registro da casa
por computador para localizar a Roarke, mas caiu de bruos na cama. Galahad
escapuliu de seus braos e foi se acomodar em cima de seu traseiro rodando
vrias vezes antes de deitar-se confortavelmente. Roarke a encontrou ali
esparramada alguns minutos mais tarde, morta de esgotamento e com um gato
obeso guardando suas costas.
Limitou-se a observ-la. Ele tambm tinha visto as imagens do noticirio.
Tinham o deixado paralisado, com a boca seca e o estmago embrulhado.
Sabia com que freqncia ela se enfrentava  morte,  dela e  dos demais, e
repetia para si mesmo que aceitava isso.
No entanto essa manh tinha observado impotente como ela se passeava
a beira do abismo. Havia olhado em seus olhos e havia visto terror e medo. E
tinha sofrido.
Agora estava em casa, uma mulher com mais ossos e msculos que
curvas, com um cabelo que necessitava urgentemente de umas tesouradas e
velhas botas de cano alto.
Aproximou-se, sentou-se no borda da cama pegando a mo que
descansava na colcha.
- S estou carregando a bateria - murmurou ela.
- Isso j percebi. Iremos danar daqui a alguns minutos.
Ela conseguiu soltar uma risada.
- Podes tirar essa coisa do meu traseiro?
Solcito, Roarke pegou a Galahad e lhe acariciou a pelagem arrepiada.
- Teve um dia cheio, tenente. Estava em todos os meios de comunicao.
Ela girou o corpo, mas permaneceu com os olhos fechados.
- Fico contente por no ter assistido. Ento j sabe sobre Cerise.
- Sim, tinha posto no canal 75 enquanto preparava minha primeira reunio
desta manh. Vi tudo ao vivo.
Eve percebeu a tenso em sua voz e abriu os olhos.
- Sinto muito.
- Voc vai me dizer que estava fazendo seu trabalho. - Roarke deixou o
gato de lado e afastou o cabelo de seu rosto  Mas isso foi alm, Eve. Poderia
ter arrastado voc com ela.
- Eu no estava disposta a acompanh-la. - Eve lhe pegou a mo que ele
tinha apoiado em sua face. Eu tive uma lembrana enquanto estava l em
cima. Eu era uma menina magra e estava na janela de algum albergue de
vagabundos, diante de uma janela que ele acabava de quebrar. Ento pensei
em saltar e terminar de uma vez com tudo. Mas naquele momento decidi que
no estava pronta para ir. E ainda no estou.
Galahad saiu do colo de Roarke e se esticou sobre o estmago de Eve.
Roarke sorriu.
- Parece que ambos querem mant-la por aqui por mais algum tempo. O
que comeu hoje?
- O que  isso? Um interrogatrio? A comida no  uma das minhas
prioridades nesse momento. Acabo de sair do necrotrio. O impacto contra o
cimento depois de uma queda de setenta andares no causa um resultado
muito atrativo nas carnes e ossos.
- Imagino que no ter material suficiente para compar-los com os
demais.
Apesar da desagradvel imagem, Eve sorriu, levantou-se e lhe deu um
rpido e sonoro beijo.
- Voc  esperto, Roarke.  uma das coisas que mais gosto em voc.
- Eu acreditava que era o meu corpo.
- Tambm est em no topo da lista - respondeu ela enquanto ele se
levantava e caminhava em direo ao Autochef  No, no ter material
suficiente para fazer uma anlise. Mas h uma conexo. Voc tambm a v,
no?
Roarke esperou receber a bebida de protenas que tinha pedido.
- Cerise era uma mulher inteligente e sensata que sabia o que queria. Era
com freqncia egosta e sempre vaidosa, e podia ser uma enorme dor de
cabea. -Aproximou-se de novamente da cama e ofereceu o copo a Eve - Mas
no era do tipo que salta do telhado de seu prprio edifcio e deixa que os
meios de comunicao visuais passem na frente de seu jornal no furo de
reportagem.
- Incluirei isso em meus dados. - Eve olhou com cenho franzido a cremosa
bebida de cor verde que segurava entre as mos  O que  isto?
- Nutrio. Beba.  Levou at os seus lbios - Tudo.
Ela bebeu o primeiro gole com receio. Decidiu que no era to repugnante
e prosseguiu tomando.
- Sente-se melhor agora?
- Sim. Whitney lhe deu luz verde para continuar?
- Tenho uma semana. E sabe que tenho estado utilizando seus...
equipamentos. Ainda que finja que no. - Deixou o copo de lado e voltou a se
deitar. Ento recordou  Eu pensei que amos ver vdeos, comer pipoca e nos
beijarmos.
- Isso me manteve de p - respondeu ele - Agora terei que me divorciar
de voc.
- Deus, voc  to tolerante. - Nervosa de repente, esfregou-se as mos 
J que  assim, acho melhor que eu desembuche agora.
- Andou aos beijos com outro?
- No exatamente.
- O que quer dizer com isso?
- Quer uma taa de vinho? Temos vinho aqui em cima, no ? - Eve
comeou a levantar-se da cama, mas no se surpreendeu quando ele
estendeu sua mo fechando-a em torno de seu brao.
- Esclarea.
- J vou fazer. Eu s pensei que poderia descer melhor com um copo de
vinho. Concorda?
Tentou esboar um sorriso, mas compreendeu que no o tinha
conseguido ao ver a glacial mirada de Roarke. Ele a ajudou a levantar e
conduzi-la com rapidez  geladeira. Ela serviu dois copos de vinho e manteve a
distncia enquanto comeava.
- Peabody e eu fizemos a primeira anlise no escritrio e dependncias de
Devane. Tinha uma sala de relaxamento.
- Sim. Uma prtica comum.
- Sim.
Eve tomou mais um gole da bebida para unir foras para a confisso
antes de voltar para seu lado  De qualquer maneira observei que tinha uns
culos de realidade virtual no brao da poltrona. Mathias tinha feito uma
viagem antes de enforcar-se, e Fitzhugh tambm costumava faz-las. Era uma
ligao muito fraca, mas imaginei que era melhor do que nenhuma.
- Cerca do noventa por cento da populao deste pas possui uma
unidade de realidade virtual - assinalou Roarke sem deixar de estreitar os
olhos.
- Sim, mas temos que comear por algum lugar. Trata-se de uma falha no
crebro, e a realidade virtual conecta com o crebro do mesmo modo que
conecta com todos os sentidos. Ocorreu-me que, se os culos tivessem um
defeito, intencional ou acidental os culos poderiam ter causado um impulso
suicida.
Ele assentiu devagar.
- Est certo. At aqui estou indo junto com voc.
- Assim eu os usei.
- Espera. - Ergueu uma mo - Estava suspeitando que esses culos
tinham feito Cerise tirar sua prpria vida e mesmo assim os usou alegremente?
Perdeu o juzo?
- Peabody estava como controle, com ordens de me derrubar se fosse
necessrio.
- Entendo. - Aborrecido Roarke agitou a mo  Ah...ento est tudo bem.
 perfeitamente razovel. Peabody estava preparada para lhe deixar
inconsciente antes que pulasse do telhado.
- Seria assim - Ela se sentou a seu lado e estendeu o copo - Pesquisei a
ltima data em que utilizara os culos. Tinha feito uma viagem minutos antes
de sair para o telhado. Estava convencida de que ia encontrar algo naquele
programa. - Deteve-se para coar a nuca - J sabe, imaginei que seria algum
programa de relaxamento. Ou talvez de meditao, o clssico cruzeiro pelo
mar ou um passeio pelo campo.
- E no o era.
- No. Era, bem... uma fantasia. Sabe...uma fantasia sexual.
Intrigado, Roarke cruzou as pernas e inclinou a cabea para o lado
observando-a. A boca permaneceu sria e os azuis olhos irlandeses plcidos.
- Verdade? - Bebeu um gole de vinho com ar de indiferena antes de
deixar o copo de lado  E o que consistia a...?
- Bem, havia aqueles rapazes.
- Plural?
- Apenas dois. - Eve sentiu a cor subir por sua garganta e se irritou - Era
uma investigao oficial.
- Estava nua?
- Por Deus, Roarke.
- Creio que  uma pergunta razovel.
- S durante um minuto, certo? Estava no programa, e tinha que
experiment-lo, e no foi culpa minha se esses sujeitos se lanaram para cima
de mim... alm disso, os interrompi antes, bom, quase antes...
Deteve-se vacilante e viu com surpresa que ele sorria em sua direo.
- Voc est achando engraado? - Fechou o punho e lhe golpeou no
ombro  Passo o dia inteiro me sentindo culpada e voc acha isso engraado?
- Antes de que? - perguntou ele pegando o copo de sua mo antes que
ela acertasse sua cabea. Deixou-o junto  mesinha e acrescentou -:
Interrompeu o programa quase antes de que, exatamente?
Ela revirou os olhos.
- Eram incrveis. Vou conseguir uma cpia desse programa para meu uso
pessoal. Agora no precisarei mais de voc, pois irei ter um par de escravos
sexuais.
- Quer apostar?  a fez deitar-se na cama e lutou com ela at que
conseguiu despir sua camisa.
- Pare. No te quero. J estou satisfeita com meus escravos. - o derrubou
e quase tinha conseguido imobiliz-lo quando ele capturou um seio em sua
boca e sua mo deslizou em um movimento preciso at se acomodar sobre o
fino tecido entre suas pernas.
O calor a atravessou com um raio.
- Maldio!  ofegou - S estou fingindo que gosto disso.
- Muito bem.
Ento ele lhe tirou as calas e a acariciou com os dedos. Ela j estava
mida, convidando-o a penetr-la. Ele mordiscou o mamilo at lev-la ao
xtase.
Desta vez no foi um orgasmo suave, foi uma rpida onda, que a afogava
e lanava sem misericrdia para a crista da onda seguinte.
Impotente, ela o chamava. Era sempre seu nome. Uma e outra vez. Mas
quando estendeu a mo para Roarke, este a pegou pelos pulsos e os prendeu
acima da cabea.
- No  seu prprio respirao era desigual e densa enquanto olhava
para ela - Tome-me.
E deslizou-se para dentro dela devagar, pouco a pouco, observando como
seu olhar se nublava e escurecia. Contendo o desejo de seguir o repentino e
frentico movimento de seus quadris, deixou que se abandonasse e chegasse
sozinha ao orgasmo seguinte.
E ao v-la por fim arquejante e sem foras, comeou as longas e
contnuas investidas.
- Mais uma vez  murmurou engolindo seus gemidos, mantendo-a cativa,
mos, bocas e sexo  Mais uma.
Seu organismo se sobrecarregava e acelerava como seu pulso. Seu corpo
estava sendo possudo, e tinha o sexo to sensibilizado que o intenso prazer
era quase dolorido. E ele continuava movendo-se devagar, preguiosamente.
- No posso - conseguiu dizer, sua mente se rendendo ainda que seus
quadris continuassem a se arquear pedindo mais -  demasiado.
- Deixa-se levar, Eve - disse ele mantendo a duras penas o controle -
Uma vez mais.
E no se permitiu ir at que ela fosse.
.........................................
Sua cabea ainda girava quando conseguiu levantar o corpo apoiado
sobre os cotovelos. Surpreendentemente os dois continuavam seminus e
estendidos sobre a colcha. Na cabeceira da cama, Galahad permanecia
sentado observando-a com reprovao felina. Ou talvez fosse inveja.
Roarke tinha deitado-se de costas e tinha, o que somente poderia ser
interpretado como um sorriso de satisfao nos lbios.
- Imagino que isso tenha aplacado seus hormnios.
Seu sorriso ficou ainda mais amplo. Ela afundou um dedo em suas
costelas.
- Se queria me castigar, no conseguiu.
Ele abriu os olhos cheios de um divertimento caloroso.
- Querida Eve, realmente acreditou que eu iria considerar sua pequena
aventura como uma espcie de adultrio virtual?
Ele fez um muxoxo. Por mais ridculo que parecesse ela se aborrecera por
ele no sentir cimes.
- Talvez.
Com um profundo suspiro ele se soergueu e a segurou pelos ombros.
- Pode se aventurar nas fantasias que quiser. Por motivos pessoais ou
profissionais. Eu no sou seu carcereiro.
- No o aborrece?
- Nem um pouco. - Ele lhe deu um beijo amistoso e lhe segurou o queixo
firmemente entre seus dedos -. Mas experimente faze-lo em carne e osso,
ainda que s seja uma s vez, e terei que mat-la.
Suas pupilas se dilataram e ela sentiu seu corao palpitar de prazer.
- Oh, bem,  justo.
-  um fato  ele se limitou a dizer - Uma vez tenhamos esclarecido este
ponto, podemos dormir um pouco.
- No me sinto mais cansada. - Eve voltou a vestir as calas, fazendo-lhe
suspirar de novo.
- Imagino que isso significa que quer trabalhar.
- Seu puder usar seu equipamento por algumas horas adiantar bastante
o trabalho amanh.
Resignado, ele tambm vestiu as calas.
- Vamos ento.
- Obrigada. - Ela segurou sua mo enquanto se dirigiam ao elevador
privativo - Roarke, voc no me mataria, realmente, no ?
- Mas  claro que sim.  Sorrindo ele a fez entrar dentro da cabine - Mas,
devido nossa relao, me encarregaria de faz-lo depressa e da forma menos
dolorosa possvel.
Ela o fulminou com a mirada.
- Ento terei que dizer que isso tambm vale para voc.
- Mas  claro. Ala leste, terceiro andar - ordenou ele, e sua mo a apertou
amistosamente  No poderia ser de outra maneira.
Captulo 13
Nos dias que seguiram, Eve deu cabeadas contra a parede de cada beco
sem sada que encontravam. Quando precisava de uma mudana de ritmo
para desanuviar a mente, utilizava a cabea de Peabody. E pressionou Feeney
para dedicar todo seu tempo disponvel para encontrar algo, o que quer que
fosse.
Rangia os dentes quando outros trabalhos apareciam sobre sua mesinha
j lotada e fazia horas extras para compensar.
Quando os rapazes do laboratrio seguiam a passos de tartaruga, ela
chutava seus traseiros e os pressionava sem piedade. At o ponto do
laboratrio comearam a evitar seus telefonemas. Para impedir aquilo solicitou
que Peabody a acompanhasse ao laboratrio para tratar de persuadi-los
pessoalmente.
- No tente fazer-me engolir a MVM da cpia de segurana, Dickie.
Dickie Berenski, conhecido em privado como Dickhead, parecia magoado.
Na qualidade de tcnico principal do laboratrio, deveria ser capaz de ordenar
a meia dzia de subalternos que o protegessem de uma confrontao direta
com uma detetive de homicdios mal-humorada, mas todos o tinham desertado.
Cabeas vo rolar, pensou com um suspiro.
- O que quer dizer com MVM?
- A Mesma Velha Merda, Dickie. Sempre  a MVM no que diz respeito a
voc.
Ele a olhou com cenho franzido, mas decidiu apropriar-se das siglas.
- Escute, Dallas, conseguiu toda a informao disponvel, no foi? Envieilhe
pessoalmente como favor.
- O inferno que foi de favor. Subornei-o com lugares no camarote para os
play-offs de Arena Ball.
Dickie adotou uma expresso compungida.
- Achei que era um presente.
- No era. E no penso suborn-lo de novo. - Eve afundou um dedo em
seu esqueltico peito  O que h com os culos de realidade virtual? Por que
no recebi seu relatrio?
- Porque no tinha nada que informar.  um programa meio picante... -
Fez um sugestivo movimento com as sobrancelhas - Mas est limpo e sem
defeitos. Igualmente como todas as demais opes dessa unidade... est limpo
e cumpre os requisitos. Ou, melhor que isso - adicionou sorrindo ligeiramente 
Quem dera tivssemos to bons. Fiz que Sheila desmontasse a unidade e
voltasse a mont-la.  uma equipe incrvel, de primeirssima qualidade, a
melhor. A tecnologia supera qualquer escala. Mas no poderamos esperar
outra coisa tratando-se de um produto de Roarke.
-  um... - Eve se interrompeu, esforando-se para no deixar entrever
sua surpresa ou consternao ante essa nova informao - Que empresa o
fabrica?
- Merda, Sheila tem esses dados. Interespacial, tenho certeza. A mo de
obra  mais barata l. E esta criatura acaba de ser lanada. No est h nem
um ms no mercado.
O estmago de Eve se encolheu.
- E no  defeituosa?
- No;  uma maravilha. Eu j encomendei uma. - Dickie enrugou a testa,
esperanoso - Claro que seguramente voc poderia conseguir-me uma a preo
custo.
- Consiga para mim o relatrio com todos os detalhes e me devolva a
unidade, que pensarei em seu caso.
- Sheila tirou o dia livre - justificou ele fazendo um muxoxo para inspirar
compaixo. Mas ter o relatrio em sua escrivaninha amanh ao meio dia.
- Amanh? Vamos, Dickie. - Um bom policial conhecia o ponto fraco de
sua presa  Tentarei lhe dar um de presente.
- Bem, nesse caso... espere-me aqui. - Esta vez com alegria, Dickie se
aproximou do computador no canto de um dos cubculos do laboratrio de
diversas reparties.
- Dallas, uma dessas unidades deve custar pelo menos dois mil dlares.-
Peabody olhou a Dickie em desagrado -  muito.
- Quero o relatrio. - Eve imaginou que Roarke tinha em algum lugar, uma
gaveta cheia dessas unidades para fazer distribuies promocionais. Agrados
para polticos, empregados e cidados destacados, pensou com um
desagradvel n no estmago  Restam-me trs dias e no tenho nada. E no
vou conseguir que Whitney os prolongue.
Dickie saiu do cubculo.
- Sheila o tinha deixado marcado. - Entregou um disco etiquetado e selado
 D uma olhada nisso. So partes segmentadas do desenho do ltimo
programa. Sheila assinalou alguns defeitos.
- O que quer dizer? Est com defeitos? - Eve rancou a folha de sua mo e
estudou o que parecia uma srie de raios e redemoinhos.
- No posso dizer com segurana. Provavelmente se trata de relaxamento
subliminar, ou neste caso, de uma opo de subestimulaco. Alguns dos
modelos mais inovadores esto oferecendo vrios pacotes mensagens
subliminares ampliados. Pode-se notar como se adaptam ao programa,
aparecendo a cada poucos segundos.
- Sugesto? - Eve sentiu que recobrava a energia - Quer dizer que
introduziram no programa mensagens subliminares para o usurio?
-  uma prtica bastante comum. Utilizou-se para abandonar maus
costumes, melhorar as relaes sexuais ou ampliar a mente, H dcadas 
usado. Meu velho deixou de fumar com subliminares ir fazer cinqenta anos.
- O que quer dizer que pode implantar desejos... Suicidas?
- Olhe, as mensagens subliminares podem abrir seu apetite ou incit-la a
comprar certos artigos de consumo, ou at podem ajuda-la a eliminar um mau
costume ou vcio. Mas este tipo de sugesto direta...  Apertou os lbios e
meneou a cabea  Teria que ser mais profundo do que isso, e em minha
opinio iria requerer longas sesses para conseguir que a sugesto surtisse
efeito em um crebro normal. O instinto de sobrevivncia  arraigado demais. -
Voltou a mexer a cabea - Analisamos esses programas repetidas vezes.
Sobretudo as seqncias de fantasias sexuais, pensou Eve.
- Os testamos em uma pessoa e em um andride, e nenhum deles saltou
do telhado. De fato, no observamos nenhuma reao anormal nem no
cidado nem no andride.  de primeira categoria, e isso  tudo.
- Quero uma anlise completa das mensagens subliminares.
Ele j contava com isso.
- Ento devo ficar com a unidade. Sheila j comeou a analis-las, como
pode ver, mas leva tempo. Tem que executar o programa, extrair o RV evidente
e suprimir os mensagens subliminares. Ento o computador entra neste
momento para testar, analisar e informar. Uma boa mensagem subliminar, e
lhe garanto que este  o caso,  algo sutil. Estabelecer suas coordenadas no
 o mesmo que interpretar o resultado de um detector de mentiras.
- De quanto tempo estamos falando?
- Dois dias, um e meio se tivermos sorte.
- Pois que a tenha - sugeriu ela, e entregou a papelada a Peabody.
................................................
Eve tentou no se preocupar pelo fato que a unidade de realidade virtual
fosse um dos brinquedos de Roarke, nem das conseqncias que podia
ocorrer se descobrisse, realmente, que fazia parte da coao. Mensagens
subliminares. Essa podia ser a conexo que tinha estado procurando. O
prximo passo era codificar as unidades de RV que tinham estado em poder de
Fitzhugh, Mathias e Pearly no momento de sua morte.
Apressou-se a descer pelo corredor areo com Peabody caminhando a
seu lado. Seu veculo continuava em manuteno e no valia a pena a incrvel
dor de cabea que seria solicitar um substituto para percorrer a distncia de
trs quarteires.
- Se aproxima o outono.
- Eh?
Intrigada ao ver que Eve parecesse alheia ao ar mais fresco e ao aroma
balsmico da brisa do leste, Peabody se deteve para respirar fundo.
- Nota-se no ambiente.
- Sobre o que est falando? - perguntou Eve - Est louca? Est inalando
muito ar de Nova York e ter que passar um dia no centro de desintoxicao.
- Esquea-se das fumaas dos transportes e dos cheiros corporais e 
maravilhoso. Pode ser que nestas eleies aprovem o novo projeto de limpeza
do meio ambiente.
- Voltou para a comunidade Free Age, Peabody?
- No h nada de mal em se ter preocupaes ecolgicas. Se no fosse
pelas plantas, todos usaramos mscaras e culos de sol o ano inteiro. -
Peabody olhou nostlgica para um aerodeslizador repleto de gente, mas
acelerou o passo para seguir as longas passadas de Eve - No quero lhe
desanimar, tenente, mas ter que fazer malabarismos ainda mais sofisticados
para conseguir a essas unidades de RV. Segundo o procedimento operante
padro, a esta altura elas foram devolvidas aos familiares dos mortos.
- Cuidarei eles, e quero que isto no se espalhe e apenas pessoas
estritamente necessrias devem se inteirar de tudo at que tudo esteja
resolvido.
- Entendido - respondeu Peabody e aguardou uns momentos antes de
adicionar -: Posso dizer que Roarke tem tantos tentculos que  impossvel no
se inteirar de quem faz algo num momento dado.
-  um conflito de interesses, e ambas o sabemos. Estou pondo em perigo
seu traseiro.
- Lamento no estar de acordo, tenente. Eu sou a nica responsvel pelo
meu traseiro e este s fica em perigo quando eu o ponho.
- Est anotado e agradeo.
- Ento anote que eu tambm sou uma grande admiradora dos Areia Ball,
tenente
Eve se deteve e a olhou fixamente, depois ps-se a rir.
- Uma ou duas entradas?
- Duas. Pode ser que eu tenha sorte.
Sorriram enquanto o estridente barulho de uma sirene cortou o ar.
- Oh, merda, mais cinco minutos em qualquer direo e estaramos longe
daqui.
Eve desembainhou a arma e girou sobre seus calcanhares. O alarme que
soava procedia do escritrio de troca de crditos que se situava bem na frente
de onde estavam.
- Tem que ser um imbecil para dar um golpe num escritrio de troca h
dois quarteires de uma delegacia. Evacue a zona, Peabody, e depois cubra a
porta dos fundos.
A primeira ordem foi quase desnecessria j que os pedestres j tinham
se dispersado, brigando entre si para subirem nas passarelas areo
deslizantes e corredores areos procurando se colocarem em segurana. Eve
tirou seu comunicador e pediu reforos antes de cruzar as portas automticas.
O vestbulo era o caos. A nica vantagem era que a massa de gente saa
quando ela entrou, oferecendo-lhe certa proteo. Como a maioria dos
escritrios de troca, era pequeno e sem janelas, cheia de altos balces que
permitiam a privacidade. Apenas um dos balces de servio tinha um ser
humano atendendo, nos outros trs trabalhavam andrides que tinham ficado
automaticamente paralisados pelo controle de pnico.
O nico ser humano era uma mulher de uns vinte e cinco anos, com o
cabelo negro cortado quase no couro cabeludo, um arrumado e conservador
macaco branco e uma expresso de terror em seu rosto enquanto agarravamna
pela garganta do outro lado da porta de segurana.
O homem que a segurava estava atarefado asfixiando-a e agitando com a
mo livre o que lhe parecia um explosivo de fabricao caseira.
- A matarei. Enfiarei isso pela sua garganta.
Eve no se preocupou tanto com a ameaa, o que a fez ficar alerta foi a
forma calma com que a pronunciou o sujeito. Descartou que se achasse sob o
efeito de substncias ou que se tratasse de um profissional. A julgar pelo
aspecto de suas calas sujas e camisa, e o rosto cansado e sem barbear, Eve
tinha diante de si um dos pobres desesperados da cidade.
- Ela no lhe fez nada - disse aproximando-se devagar - No tem a culpa
de nada. Por que no a solta?
- Todos tm culpa. Todos fazem parte do sistema! - gritou ele, arrastando
 desafortunada empregada um pouco alm da porta de segurana. Ela tinha
adquirido uma cor azulada - No se mova. No tenho nada a perder nem um
lugar aonde ir.
- Est a est sufocando. Mate-a e no ter mais sua proteo. Acalma-se
um pouco. Como se chama?
- Os nomes valem uma merda. - Mas o homem afrouxou um pouco o
brao, o suficiente para que a jovem empregada fizesse um rudo sibilante ao
inspirar - O dinheiro  a nica coisa que conta. Se saio com uma bolsa de
crditos, ningum ficar ferido. Merda, se limitaro a fazer mais.
- No  bem assim que so as coisas. - Cautelosa, Eve deu outros trs
passos sem tirar os olhos de cima dele - Sabe que no vai sair daqui. A esta
altura a rua est isolada e as unidades de segurana j se deslocaram. Vamos,
amigo, esta rea est lotada de policiais a qualquer hora do dia e a noite.
Poderia ter escolhido melhor.
Com o canto do olho, Eve viu Peabody entrar discretamente pela entrada
de servio e tomar posio. Nenhuma das duas poderia correr o risco de abrir
fogo enquanto o sujeito estivesse com suas mos ocupadas pela empregada e
pelo explosivo.
- Se deixar isso cair, ou se a balanar demais, pode explodir. Ento todos
aqui morrero.
- Pois morreremos todos. J no importa.
- Solte a trabalhadora.  uma civil. Ela s quer cuidar de sua vida.
- Eu tambm.
Viu em seu olhar, mas era tarde demais: o profundo desespero. O homem
jogou o explosivo para o alto e para sua direo. Eve reviveu toda sua vida
enquanto dava um salto e mergulhava no solo. No o pegou por alguns
centmetros.
Enquanto aguardava o estrondo da exploso, a esfera de fabricao
caseira rolou at um canto, balanou e quedou imvel.
-  das que no estouram. - O aspirante a ladro deixou escapar uma
risada  No parece justo? - Ento, ao ver que Eve se punha de p, lanou-se
sobre ela.
Ela no teve tempo de apontar e muito menos disparar sua arma. Ele a
golpeou, a jogou de costas contra um balco de auto-atendimento. E desta vez
veio a exploso, mas dentro de sua cabea, ao mesmo tempo em que seu
quadril atingia dolorosamente a quina do balco. Mas no soltou a arma.
Esperou que o estalo que tinha escutado procedesse do barato material e no
de seus ossos.
O homem a mantinha cativa num pattico abrao que parecia
surpreendentemente eficaz, j que lhe impedia de usar a arma e a mantinha
imobilizada contra o equipamento, de maneira que se viu obrigada a mudar o
peso do corpo em lugar de voltar-se.
Caram ao solo, e desta vez ela teve a m sorte de aterrissar primeiro, de
maneira que o pesado e aterrorizado corpo do homem caiu sobre ela. Bateu o
cotovelo contra o cho e torceu dolorosamente o joelho.
Ento, com mais entusiasmo do que sutileza, acertou sua tmpora com
sua arma.
O golpe teve um resultado to efetivo quanto o choque e o homem revirou
os olhos antes que o afastasse com um empurro e se pusesse de joelhos.
Ofegando, contendo a nusea que tinham causado os ossos do homem
ao fincar-se em seu estmago, Eve afastou o cabelo dos olhos com um sopro.
Peabody tambm estava de joelhos com o explosivo em uma mo e a arma na
outra.
- No podia apontar, assim fui para o explosivo. Pensei que poderia cuidar
dele.- deu os ombros-  apenas uma imitao.
- Estupendo.  O corpo de Eve doa inteiro e seu corao comeou a
martelar com fora ao ver sua ajudante com o explosivo na mo - No se
mova.
- No estou me movendo. S respiro.
- Chamarei o maldito departamento antibombas. E procurarei um
recipiente blindado.
- Ia faz-lo eu... - Peabody se interrompeu e empalideceu - Oh, merda,
Dallas, est esquentando.
- Atira-a! Atira-a e se proteja! - Eve arrastou consigo o homem
inconsciente at detrs do balco se posicionou sobre ele e cruzou os braos
atrs da nuca.
A exploso veio, seguida de uma onda de calor, e fazendo chover Deus
sabe que em sobre eles. O extintor de incndios comeou a trabalhar
esguichando gua gelada e conectando um alarme para advertir aos
empregados e clientes que deviam abandonar o edifcio com calma e de forma
ordenada.
Eve agradeceu a quem estivesse a escutando por no sentir dor demais e
pelo fato de, ao que parecia, ainda conservava unidas todas as partes de seu
corpo.
Tossindo por causa da espessa nuvem de fumaa, saiu se arrastando de
trs do balco em runas.
- Por Deus, Peabody. - Voltou a tossir, esfregou os olhos irritados e
continuou se arrastando pelo mido e agora imundo solo. Algo fumegante lhe
tocou a mo e a fez soltar uma praga - Vamos, Peabody, onde demnios est
voc?
- Aqui... - chegou a fraca resposta, seguida de um acesso de tosse - Estou
bem, eu acho.
Uniram-se as mos atravs da cortina de fumaa e gua, e se olharam, os
rostos enegrecidos. Ento Eve estendeu a mo e deu alguns suaves tapas na
cabea.
- Est com fascas no cabelo - explicou com delicadeza.
- Oh, obrigada. Como est o idiota?
- Continua inconsciente. - Eve sentou sobre os calcanhares e fez um
exame de si mesma. No sangrava, e conservava a maior parte da roupa,
ainda que destroada - Sabe, Peabody? Acredito que este  um edifcio de
Roarke.
- Ento provavelmente se aborrecer. A fumaa e a gua causam grandes
estragos.
-  o que dizem. Digamos que foi um dia cheio. Podemos dar um jeito na
situao. H uma festa esta noite l em casa.
- Sim. -Peabody torceu o nariz ao arrancar uma manga esfarrapada de
seu uniforme  Tenho muita vontade de ir. - Depois se voltou e revirou os olhos
- Dallas, quantos pares de olhos possua quando entrou aqui?
- S um.
- Merda, pois agora tem dois. Imagino que uma das duas tem um
problema.
No teve tempo para se limpar. Depois de tirar Peabody dos entulhos e
deix-la nas mos dos enfermeiros, Eve teve que dar um relatrio oficial ao
comandante da equipe de segurana, e repetiu os mesmos dados  brigada de
desativao de explosivos. Entre ambos informes encheu os enfermeiros com
perguntas sobre o estado de Peabody e impediu suas tentativas de examinarlhe
os ferimentos.
Roarke j estava vestido para a festa quando ela cruzou correndo a porta.
Interrompeu sua conversa com Tokio e fez sair  equipe de floristas que
colocavam hibiscos rosas e brancos no vestbulo.
- Que diabos aconteceu?
- No faa perguntas. - Passou por ele e subiu as escadas correndo.
Tinha tirado as tiras de sua camisa quando ele entrou no dormitrio e
fechou a porta.
- Penso em faz-las.
- A bomba no uma imitao pelo jeito. - Para no se sentar e manchar os
mveis com o que quer que fosse que tivesse nas calas, se equilibrou sobre
um p tratando de descalar as botas.
Roarke respirou fundo.
- Que bomba?
- Bem, era um explosivo de fabricao caseira. Muito pouco confivel. -
Conseguiu tirar a segunda bota, depois passou a tirar os restos enegrecidos
das calas - Um sujeito assaltou um escritrio de trocas a dois quarteires d
delegacia. Rapaz idiota. - Jogou os farrapos no cho j se encaminhando para
o banheiro quando Roarke a pegou por um brao.
- Pelo amor de Deus! - A virou em sua direo para examinar o hematoma
que se espalhava pelos quadris. Era maior do que sua mo aberta. Tinha o
joelho direito ralado e mais alguns ferimentos nos braos e ombros  Est um
caco, Eve.
- Voc tinha que ver o sujeito. Bem, pelo menos ele vai desfrutar de meio
metro quadrado e um teto por alguns anos, cortesia do Estado. Tenho que me
arrumar.
Ele no a soltou e a olhou aos olhos.
- Imagino que voc nem se importou de deixar a equipe mdica examinla.
- Aqueles aougueiros? - Sorriu - Estou bem, s um pouco dolorida.
Posso cuidar disso amanh.
- Ser sorte se amanh consegui andar. Vamos.
- Roarke... - Mas Eve se interrompeu com uma careta de dor e gemeu,
enquanto ele a sentava na banheira.
- Sente-se e fique quieta.
- No h tempo para isto.  Se acomodou e revirou os olhos - Vou
demorar algumas horas para tirar da minha pele essa sujeira e este odor.
Deus, como fedem esses explosivos.  Cheirou seus ombros e fez uma careta
de desgosto - Enxofre. - Depois olhou a Roarke  O que  isso?
Ele se aproximava com uma gorda compressa impregnada de algo rosa.
- O melhor do que podemos fazer neste momento. Pare de se mexer. -
Colocou-lhe a compressa no joelho ferido sem fazer caso de suas maldies.
- Escute. Por Deus, ficou louco?
- Comeo a acreditar que sim. - Com a mo livre, Roarke segurou seu
queixo e examinou o rosto enegrecido  Correndo o risco de soar repetitivo.
Voc est um caco. Segure esta compressa no joelho.  Apertou ligeiramente o
queixo e adicionou -: Falo srio.
-Est bem, est bem. - Eve respondeu e o fez enquanto ele regressava ao
armrio de primeiros socorros. A ardncia se amenizava a cada segundo e no
queria admitir que a intensa dor no joelho estava cedendo  O que  esta
mistura?
- Uma mistura disto e daquilo. Aliviar o inchao e anestesiar a ferida por
algumas horas.  Voltou para seu lado com um pequeno copo de algo lquido -
Beba isto.
- Eh, drogas no.
Ele colocou uma mo em seu ombro.
- Eve, se no est sentindo dores neste momento  apenas pela
adrenalina. Vai doer, e muito, em pouco tempo. Sei o que ser atingido por
todas as partes. Agora, beba isso.
- Estarei bem. No quero... - Interrompeu-se quando ele lhe tampou o
nariz, empurrando sua cabea para trs e verteu o lquido pela garganta -
Bastardo... - conseguiu dizer, afogando-se e golpeando-o.
- Boa garota. Agora ao chuveiro. - Roarke se aproximou da banheira de
vidro e ordenou um jorro de mdia intensidade e a trinta graus de temperatura.
- Me vingarei disto. No sei como nem quando, mas o farei. - Eve disse
entrando aos gemidos no chuveiro. O filho de uma cachorra me obrigou a
tomar drogas. Trata-me como uma maldita imbecil - ainda murmurava. Mas
gemeu de alvio quando a gua cobriu seu corpo ferido.
Ele sorriu ao v-la apoiar ambas mos contra a parede e pr a cabea
embaixo do jorro.
- Vai querer vestir algo bem leve e solto. Um longo. Prove o vestido azul
que Leonardo desenhou para voc.
- Oh, vai para o inferno! Posso me vestir sozinha. Por que no me deixa
em paz a vai distribuir ordens aos seus subalternos?
- Agora so os nossos subalternos, querida.
Ela conteve uma risada e deu uma palmada no painel do chuveiro para ter
acesso ao tele-link embutido.
- Centro mdico Brightmore  ordenou  Atendimentos do quinto andar -
Esperou a conexo enquanto conseguia ensaboar com uma s mo o cabelo 
Aqui  a tenente Eve Dallas. Vocs esto com minha auxiliar, a oficial Delia
Peabody, e quero saber seu estado. - Escutou a enfermeira de planto
pronunciar as tpicas frases cinco segundos antes de interromp-la  Pois eu j
sei sobre o que lhe ocorreu. Quero saber o seu estado e  melhor que me
informe.
Em questo de uma hora a dor tinha desaparecido, tinha que admitir. O
que quer que fosse que Roarke tivesse lhe dado para beber no a deixou com
aquela sensao de impotncia e nem com a de que flutuava, o que detestava.
Ao invs disso, sentia-se muito desperta e s um pouco mareada. Talvez foi a
droga o que a fez admitir, ao menos tentou se convencer disso, que ele tinha
razo em relao ao vestido. Este lhe caa leve sobre o corpo, ocultando
elegantemente as contuses com sua gola alta, mangas compridas e justas e a
saia que chegava at os tornozelos. Completou o traje com o diamante que a
havia presenteado como uma desculpa simblica por t-lo amaldioado, ainda
que ele tivesse merecido.
Menos zangada do que de costume, maquilou-se e brigou alguns
momentos com seu cabelo. O resultado no estava nada mau, decidiu,
examinando-se no espelho triplo do armrio. E sups que estava quase to
elegante quanto podia ficar.
Quando entrou na sacada aberta do telhado aonde ia se dar  atuao, o
sorriso de Roarke lhe deu a razo.
- Aqui est ela - murmurou e se aproximou para pegar suas mos e levlas
aos lbios.
- Ainda no estou lhe dirigindo a palavra.
- Muito bem. - Ele se inclinou e, sem fazer caso dos ferimentos, beijou-a
com delicadeza - Melhor assim?
- Talvez. - Eve no tentou afastar suas mos e suspirou - Suponho que
terei que suport-lo j que est fazendo tudo isto por Mavis.
- Estamos fazendo por Mavis.
- Eu no fiz nada.
- Casou-se comigo - respondeu ele - Como est Peabody?Ouvi voc ligar
para o centro mdico do chuveiro.
- Uma ligeira concusso cerebral, contuses e hematomas. Sofreu um
ligeiro choque, mas j voltou a si. Foi pelo explosivo. - Ao recordar esse
momento, Eve completou - Comeou a esquentar em sua mo. No vi um
modo de me aproximar dela. - Fechou os olhos e balanou a cabea Eu
quase morri de susto. Pensei que encontraria pedaos dela por todas as
partes.
-  uma mulher dura e inteligente, e est aprendendo com a melhor.
Eve revirou os olhos
- Seus elogios no iro conseguir meu perdo por drogar-me.
- J, j vou pensar em algo.
Ela o surpreendeu segurando seu rosto entre as mos e dizendo:
- Falaremos disto, logo.
- Quando quiser, tenente.
Mas ela se limitou a olh-lo com seriedade.
- H algo mais que tenho que discutir com voc. Algo grave.
- Isso eu j percebi. - Preocupado, Roarke deu uma olhada aos eficientes
encarregados do servio de comida e bebida, e aos garons j em fileira 
espera das ltimas instrues - Summerset pode ocupar-se de tudo isto.
Podemos utilizar a biblioteca.
-  um mau momento, eu sei, mas no pode esperar. - Eve pegou sua
mo num instintivo gesto de apoio enquanto saam da habitao e percorriam o
amplo corredor em direo  biblioteca.
Uma vez dentro, Roarke fechou a porta, ordenou que as luzes se
acendessem, servindo uma gua mineral para Eve.
- Ter que passar algumas horas sem lcool  disse - O analgsico no
combina muito com bebidas.
- Imagino que poderei agentar.
- Sou todo ouvidos.
Eve deixou o copo de lado sem ao menos toc-lo e passou as mos no
cabelo.
- Bem, voc tem um novo modelo de realidade virtual no mercado.
-  verdade. - Ele se sentou no brao do sof de couro, tirou um cigarro e
o acendeu - Saiu h um ms, seis semanas dependendo da regio.
Melhoramos muitas as opes e programas.
- Com mensagens subliminares.
Ele exalou a fumaa, pensativo. No era difcil ler os pensamentos de Eve
quando a compreendia. Estava preocupada e estressada, e o efeito sedativo
do frmaco no podia fazer nada nesse sentido.
- Com certeza. Vrios dos pacotes de opes incluem uma gama de
subliminares. So muito populares. - Sem deixar de observ-la, assentiu com a
cabea - Suponho que Cerise tinha um de meus modelos novos e era o que
estava utilizando antes de saltar.
- Sim. O laboratrio ainda no pde identificar as subliminares, e pode ser
que no seja nada, mas...
- Voc no acredita - concluiu ele.
- Algo a instigou a fazer aquilo. A ela e a todos os demais. Estou tentando
confiscar os aparelhos de realidade virtual dos demais indivduos. Acontece
que todos tinham esse novo modelo... a investigao envolver a sua
companhia. E a voc.
- Por que eu iria ter um desejo repentino de incentivar o suicdio?
- Sei que no tem nada que ver com isto - se apressou a dizer - E vou
fazer de tudo para mant-lo fora disso. S quero...
- Eve...  interrompeu-a baixinho, girando o corpo para apagar o cigarro 
No tem que justificar sua conduta para mim. - Tirou do bolso seu cartoagenda
e digitou um cdigo  As pesquisas e desenvolvimento desse modelo
se realizaram em duas localidades: Chicago e Travis II. A fabricao foi
realizada por uma de minhas filiais, de novo em Travis II. Da distribuio e do
transporte, dentro e fora do planeta, encarregou-se Fleet. O empacotamento se
fez atravs de Trilliym, e o marketing atravs de Top Drawer aqui em Nova
York. Posso enviar todos esses dados ao terminal de seu escritrio, se achar
isso oportuno.
- Sinto tanto.
- No se preocupe - Ele guardou a agenda e levantou-se - Nessas
companhias h centenas, talvez milhares de empregados. Certamente que
posso conseguir uma lista, se servi para algo. - Fez uma pausa e acariciou o
diamante que ela carregava consigo - Tem que estar ciente que trabalhei e
aprovei pessoalmente o desenho, e fui eu quem ps em andamento o projeto
desde do rascunho. Estamos aperfeioando esse modelo h mais de um ano, e
durante esse tempo revisei cada fase num momento ou outro. Encontrar
minhas mos por todas as partes.
Eve o tinha imaginado. Tinha-o temido.
- Pode que no seja nada. Dickhead diz que minha teoria de incitao
subliminar ao suicdio risca no impossvel.
Roarke esboou um sorriso.
- Como vai fazer caso de um homem com esse nome? Eve, voc mesma
testou a nova unidade.
- Sim, o que faz fraquejar minha dbil hiptese. Tudo o que consegui na
verdade foi um orgasmo. - Eve tentou sorrir  Quem me dera estar equivocada,
Roarke. Eu queria estar equivocada e fechar todos esses casos como
suicdios. Mas se no...
- Ns lidaremos com isso. Ser a primeira coisa que faremos amanh de
manh. Eu mesmo pesquisarei. - Ela comeou a negar com a cabea, mas ele
pegou sua mo - Eve, conheo o assunto melhor que voc. Conheo o meu
pessoal ou ao menos o chefe de departamento de cada etapa. J trabalhamos
juntos antes.
- Eu no gosto disso.
Roarke voltou a brincar com o diamante pendurado entre seus seios.
-  uma lstima, porque acho que eu sim.

Captulo 14
- Roarke sabe como montar uma festa. - Mavis encheu a boca com um
ovo de codorna com molho picante e falou com a boca cheia - Todo mundo
est aqui, e me refiro a todo mundo. Voc viu Roger Keene? Ele  o cabea
em B There Records. E Lilah Monroe? Est arrasando em Broadway com seu
espetculo com participao do pblico. Talvez Leonardo consiga convenc-la
a usar seu projeto novo como vesturio do espetculo. E ali est...
- Tome um pouco de ar, Mavis - aconselhou Eve enquanto sua amiga
tagarelava introduzindo sem parar canaps  boca - D uma pausa.
- Estou to nervosa... - Com as mos momentaneamente livres, Mavis
apertou o estmago, que levava descoberto salvo por uma artstica verso de
uma orqudea vermelha - No posso controlar, sabe?. Quando estou to
excitada s consigo comer e falar.
- Comer e falar. E vomitar se no se acalmar um pouco - advertiu Eve.
Percorreu com o olhar a habitao e teve que admitir que Mavis tinha razo.
Roarke sabia montar uma festa.
O salo reluzia, e o mesmo acontecia com as pessoas. Mesmo a comida
aparentava brilhar, quase decorativa demais para se comer. Embora No fosse
o caso de Mavis. Como o tempo tinha cooperado, tinham aberto o telhado
deixando entrar a suave brisa e o brilho das estrelas. Uma das paredes estava
coberta por uma enorme tela, onde Mavis dava voltas e pulava , enquanto se
ouvia crepitar a msica. Roarke tinha sido o bastante astuto para pr o volume
ao mnimo.
- Nunca poderei pagar o que esto fazendo por mim.  Mavis se
aproximou.
- Vamos, Mavis.
- No; falo srio. - Depois de dedicar a Leonardo um radiante sorriso e
enviar-lhe um exagerado beijo, voltou-se para Eve - Nos conhecemos h muito
tempo, Dallas. Demnios, se no tivesse me detido certamente eu estaria
ainda batendo carteiras e roubando as pessoas.
Eve escolheu um canap de aspecto interessante.
- Voc est indo longe, Mavis.
-  possvel, mas no muda os fatos. Fiz muito para me endireitar e mudar
de rumo, e me sinto orgulhosa.
Mudando, pensou Eve. Podia ocorrer. Tinha ocorrido, na verdade. Olhou
para onde Reeanna e William falavam com Mira e seu marido.
- E tem que o estar. Eu estou orgulhosa de voc.
- Mas  disso que estou falando. Quero conseguir me livrar daquilo,
compreende? Antes que eu me levante e tente arrancar os diamantes das
orelhas dessas pessoas. - Mavis limpou a garganta e se esqueceu
prontamente do pequeno discurso que tinha preparado - Ao inferno com isso
tudo. Conheo-me e a amo. Amo realmente voc, Dallas.
- Deus, Mavis, no me deixe sensvel. Roarke j me drogou.
Emocionada Mavis de um fungadela e esfregou o nariz.
- Teria feito tudo isto por mim... se soubesse como. - Ao ver que Eve
piscava e franzia o cenho, Mavis conseguiu converter seu discurso emocionado
em uma brincadeira - Vamos, voc no teria nem a mais remota idia de como
se encarregar de algo mais complicado do que salsichas de soja e pratos de
verduras picadas. Vejo a mo de Roarke por todas as partes.
Encontrars minha mo por todas partes. As palavras de Roarke
ressoaram na mente de Eve e a fizeram estremecer.
-  verdade.
Decidida a no permitir que nada lhe estragasse a noite, Eve negou com a
cabea.
- Fez tudo por voc, Mavis.
Lentamente os lbios de Mavis se curvaram e seus olhos voltaram a
brilhar.
- Sim, imagino que sim. Voc conseguiu um maldito prncipe, Dallas. Um
maldito prncipe. Agora vou l em cima vomitar. Volto em seguida.
- Claro. - Meio rindo, Eve pegou uma taa de gua com gs de uma
bandeja que passou por seu lado e se aproximou de Roarke - Perdo, s  um
momento - se desculpou afastando-o do grupo -  um maldito prncipe.
- Oh, muito obrigado. Suponho. - Deslizou um brao por sua cintura com
delicadeza, ps a outra mo sobre a dela envolvendo a haste da taa, e a
surpreendeu com uns passos de dana  Voc tem que utilizar sua imaginao
ao... estilo de Mavis. Mas este tema quase pode ser considerado romntico.
Eve arqueou uma sobrancelha e se concentrou na voz de Mavis que se
erguia acima dos instrumentos de metal.
- Sim,  uma melodia antiquada e sentimental. Sou uma pssima
danarina.
- No seria se tentasse para de me conduzir. Decidi que, j que no vai
ficar sentada e descansar seu corpo exausto, poderia se apoiar em mim um
momento. - Sorriu - Est comeando a mancar ligeiramente. Mas tem um
aspecto quase relaxado.
- Meu joelho ainda est um pouco rgido. Mas estou muito relaxada.
Suponho que foi de tanto ouvir Mavis tagarelar. Agora est vomitando.
- Encantador.
- So s os nervos. Obrigada. - Deixou-se levar por um impulso e lhe deu
um de seus raros beijos em pblico.
- De nada. Por que?
- Por se assegurar que no tivssemos salsichas de soja e pratos de
verduras picadas.
- O prazer  meu. - Atraiu-a com delicadeza - Acredite, o prazer  meu.
Bem, Peabody fica muito bem de negro e parece recuperada da concusso.
- Como? - separando-se dele, Eve viu sua ajudante, que acabava de
cruzar as amplas portas duplas, pegar uma taa de uma bandeja - Deveria
estar na cama - murmurou e se afastou de Roarke - Desculpe-me, eu mesmo
vou coloc-la l.
Cruzou a sala estreitando os olhos enquanto Peabody tentava esboar um
sorriso.
- Uma grande festa, tenente. Obrigada pelo convite.
- Ao inferno, o que voc est fazendo fora da cama?
- S foi uma pancada na cabea, e tudo o que me faziam era ficar me
apalpando. No ia permitir que uma tolice como uma exploso impedisse-me
de assistir uma festa de Roarke.
- Tomou alguma medicao?
- Apenas dois comprimidos de calmantes e...  Sua cara caiu quando Eve
arrebatou o champanhe de sua mo  S estava segurando a taa. Verdade!
- Sustente isto em seu lugar - sugeriu Eve e lhe entregou seu copo de
gua - Eu devia levar seu traseiro direto para o centro de sade.
- Voc tambm no foi - murmurou Peabody, e ergueu queixo adicionando
-: Alm disso, no estou de servio. Voc no pode me dar ordens fora de meu
horrio de trabalho.
Por muito que simpatizasse e admirasse a determinao, Eve se manteve
firme na deciso.
- Nada de lcool  replicou - Nem de danar.
- Mas...
- Arrastei voc de um edifcio hoje e posso fazer o mesmo agora. A
propsito, Peabody - adicionou - poderia perder alguns quilos
- Minha me sempre me dizia isso.  replicou e suspirou- Nada de lcool
nem de danar. Agora, se terminou as recriminaes irei conversar com
algum que no me conhea.
- Muito bem. Ah, Peabody...
A oficial se voltou com o cenho franzido.
- Sim, senhor?
- Fez um bom trabalho hoje. No pensaria duas vezes em atravessar uma
porta com voc.
Eve se afastou enquanto ela a olhava boquiaberta. Tinha sido proferido
com um ar de indiferena, mas era o maior elogio que jamais tinha recebido no
plano profissional.
............................................
Socializar no era o passatempo preferido de Eve, mas fez o que podia.
Inclusive se resignou a danar quando no pde escapulir. Assim encontrou-se
sendo conduzida - isto era o que pensava de danar - pelo salo nos braos de
Jess.
- Conhece William? - perguntou Jess.
-  amigo de Roarke. No o conheo muito bem.
- Pois tinha certas idias interessantes sobre o desenho de um interativo
para acompanhar este disco. E fazer vibrar o pblico com a msica... com
Mavis.
Ela arqueou uma sobrancelha e voltou a vista para a tela. Mavis
balanava seus quadris seminus e gritava algo sobre arder no fogo do amor
enquanto algumas chamas vermelhas e douradas jorravam a seu redor.
- Voc acredita realmente que essas pessoas gostariam de vibrar com
ela?
Ele riu e adotou um acento sulino.
- Eles se pisotearo para faze-lo, meu bem. E gastariam muito dinheiro
para faze-lo.
- E se o fizerem voc ganharia uma generosa porcentagem - respondeu
ela, voltando-se para ele.
-  o habitual nesta classe de contrato. Pergunte ao seu marido. Ele
explicar.
- Mavis tomou uma deciso. - Eve se amaciou ao ver a vrios convidados
observar absortos o espetculo da tela - E eu diria que foi acertada.
- Ambos a tomamos. E acredito que ser um grande sucesso. E quando
fizermos uma demonstrao ao vivo, bem, a casa se vir abaixo com ovao.
- No est nervoso? - Eve observou seu olhar confiante, sua expresso de
astcia - No, no est nervoso.
- Eu tenho tocado por meu sustento h anos.  um trabalho. - Sorriu e
percorreu suas costas com os dedos  Voc tambm no fica nervosa
correndo atrs de seus assassinos. Se sente intranqila, mas no nervosa.
- Depende. - Eve pensou no que estava perseguindo naquela ocasio e
seu estmago revolveu.
- No; voc tem nervos de ao. Percebi isso a primeira vez que a
encontrei. Nunca cede e nem anda para trs. Nem ao menos pisca. Isso faz
que seu crebro, bom, sua forma de ser, por assim diz-lo, seja fascinante. O
que a move Eve Dallas? A justia, a vingana, o dever, a moralidade? Eu diria
que  uma combinao nica de tudo isso, exacerbado por um conflito de
insegurana em voc mesma. Tem uma idia muito clara do que  certo, e se
questiona constantemente sobre quem  voc.
Ela no estava muito segura se gostava do rumo que tinha tomado a
conversa.
- O que  voc, msico ou psiquiatra?
- As pessoas criativas estudam as outras pessoas, e a msica  uma
cincia tanto como a arte. -Seus olhos prateados permaneceram fixados nos
dela enquanto a conduzia ao redor das demais pares - Quando componho uma
srie de notas quero que elas cheguem at as pessoas. Devo compreender, e
inclusive estudar a natureza humana, se quero obter deles a reao correta.
Saber como se comportaro, pensaro ou sentiro.
Eve sorriu ausente quando William e Reeanna passaram danando ao
seu lado, absortos o um no outro.
- Pensei que era para entret-los.
- Essa  a superfcie. Apenas a externa. - Os olhos de Jess brilhavam de
excitao enquanto falava - Qualquer msico medocre pode executar um tema
por computador e conseguir com uma melodia aceitvel. O ofcio do msico
cada vez se torna mais comum e previsvel graas  tecnologia.
Com as sobrancelhas arqueadas, Eve deu uma olhada na tela de Mavis.
- Tenho que dizer que no ouo nada ordinrio nem previsvel aqui.
- Exato. Dediquei-me a estudar como os diferentes sons, notas e ritmos
afetam as pessoas, e sei que teclas tenho que tocar. Mavis  uma jia.  to
aberta, to malevel. - Sorriu ao ver que oi olhar dela se endurecia  Digo isso
como um elogio, no como uma fraqueza. Mas  uma mulher que gosta dos
riscos e est disposta a ser um conduto para uma mensagem.
- Qual mensagem?
- Depende da mente da audincia. De suas esperanas e sonhos.
Gostaria de saber quais so seus sonhos, Dallas.
E eu os seus, pensou ela, mas o olhou com benevolncia.
- Prefiro ater-me  realidade. Os sonhos so enganosos.
- No; so reveladores. A mente, e o inconsciente em particular, so como
um quadro que pintamos continuamente. A arte e a msica podem pr
muitos tons e estilos. A medicina compreendeu isso h dcadas e os utiliza
para tratar e estudar certas doenas, tanto psicolgicas como fisiolgicas.
Ela inclinou a cabea. Tinha outra mensagem sob essas palavras?
- Agora fala mais como cientista do que como msico.
- Tenho um pouco de ambos. Algum dia poder escolher uma cano
desenhada pessoalmente para suas ondas cerebrais. As possibilidades do
alterador de nimo sero infinitas e ntimas. Essa  a chave, a intimidade.
Ela detectou seu discurso e parou de danar.
- No acredito que o custo fora rentvel. Alm disso, pesquisar em
tecnologia concebida para analisar e coordenar as ondas cerebrais individuais
 ilegal. E por uma boa razo:  perigoso.
- Em absoluto.  libertador. Os novos processos, qualquer vertente do
verdadeiro progresso costuma comear sendo ilegal. Quanto ao custo, seria
alto inicialmente, mas baixaria quando o desenho se adaptasse  fabricao
em massa. O que  um crebro seno um computador, depois de tudo? Um
computador analisando um computador. O que h de mais simples? 
Levantou o olhar para a tela - Essas so as primeiras notas do ltimo nmero.
Tenho que verificar o equipamento antes de minha entrada. - Inclinou-se e a
beijou na face  Nos deseje sorte.
- Sim, sorte - murmurou ela, mas tinha um n no estmago.
O que era o crebro seno um computador?, pensou. Computadores
analisando computadores. Programas individualizados desenhados para
padres de ondas cerebrais pessoais. Se isso era possvel, seria tambm
possvel incorporar programas de sugesto diretamente vinculados ao crebro
do usurio? Eve negou-se com a cabea.
Roarke jamais teria dado sua aprovao. No teria corrido um risco to
absurdo. Mas se abriu espao entre a multido em direo a ele e lhe pegou
pelo brao.
- Preciso lhe fazer uma pergunta - disse baixinho - Alguma de suas
companhias se dedicou a pesquisar clandestinamente o desenho de unidades
de realidade virtual para ondas cerebrais pessoais?
- Isso  ilegal, tenente.
- Roarke.
- No. Houve um tempo em que eu teria me aventurado em alguns
nmeros de negcios duvidosos. Mas esse no teria sido um deles. E no -
repetiu, adiantando-se a ela - meu modelo de realidade virtual tem um desenho
universal, no individual. S os programas podem ser personalizados para um
determinado usurio. Est falando de um custo elevadssimo, logisticamente
complicado e que suponho me daria muita dor de cabea.
- Certo,  o que eu estava pensando. - Relaxou os msculos - Mas
poderia ser feito?
Ele fez uma pausa, depois se encolheu de ombros.
- No tenho nem idia. Teria que contar com a colaborao do indivduo
ou ter acesso ao scaner de seu crebro. Isso tambm necessitaria de
aprovao e do consentimento pessoal. E ento... no tenho nem idia -
repetiu.
- Se pudesse falar com Feeney a ss. - Eve tentou avistar o experiente
detetive da eletrnica entre a multido que circulava.
- Essa  sua noite de folga, tenente. - Roarke deslizou um brao pela
cintura - Mavis est a ponto para atuar.
- Est bem. - Ela obrigou-se a deixar de lado a preocupao enquanto
Jess se acomodava diante de seu console e tocava algumas notas
introdutrias. Amanh, prometeu-se, e aplaudiu quando Mavis apareceu
danando no palco.
De repente suas inquietudes se desvaneceram, derretidas pela exploso
de prazer selvagem que emanava de Mavis, enquanto as luzes, a msica e o
talento se combinavam num vertiginoso calidoscpio.
-  boa no  verdade? - Eve tinha agarrado, sem dar-se conta, o brao
dele, como uma me que assistia ao jogo de seu filho na escola -  algo
diferente e estranho, mas bom.
- Ela  tudo isso. - A dissonante mistura de notas, efeitos sonoros e vozes
no seriam nunca a msica preferida de Roarke, mas se surpreendeu sorrindo-
Cativou o pblico. Pode relaxar.
- J o estou.
Ele riu e a abraou ainda mais.
- Se tivesse usando botes eles j estariam saltando - sussurrou, sem se
importar me ter que colocar seus lbios prximos ao seu ouvido para que ela o
escutasse. E j que estava ali adicionou uma sugestiva proposta para depois
da festa.
- Como? - Ela se excitou ao ouvi-la - Acredito que esse ato em particular 
ilegal neste estado. Conferirei meu cdigo e me porei em contato com voc.
Certo?- E ergueu um ombro em resposta quando Roarke comeou a mordisclo
e lamber o lbulo de sua orelha.
- Quero voc - sussurrou. E a luxria penetrou sob sua pele
impetuosamente, instantaneamente  Agora mesmo.
- No est falando srio - comeou ela, mas comprovou que o fazia
quando a beijou na boca de um modo frentico e urgente. Seu pulso disparou o
e sentiu que os msculos de sua perna falhavam em sustent-la. Conseguiu se
afastar alguns centmetros, sem flego e atnita, e muito perto de ruborizasse.
Nem todo mundo estava absorto em Mavis  Controle-se. Estamos no meio de
um evento pblico.
- Pois vamos sair daqui. - Ele estava duro como uma rocha,
dolorosamente pronto. Dentro dele tinha um lobo pronto para devor-la - H um
monte de quartos privativos nesta casa.
Ela teria rido se no tivesse percebido a urgncia que vibrava dentro dele.
- Domine-se, Roarke.  o grande momento de Mavis. No vamos nos
trancar num armrio como um par de adolescentes excitados.
- Sim, ns vamos. - Meio cego, conduziu-a entre a multido enquanto ela
balbuciava um protesto.
-  uma loucura. O que  voc, um andride de prazer? Pode se conter
perfeitamente por algumas horas.
- Ao inferno que posso. - Roarke abriu inesperadamente uma porta e a
empurrou para dentro do que era realmente um armrio.- Agora, Deus.
Ela colidiu as costas de encontro a parede, e antes que pudesse emitir
sequer um grito de espanto, ele ergueu seu vestido e a penetrou.
Estava seca, desprevenida e chocada. Ele a estava saqueando, era tudo
que podia pensar enquanto mordia o lbio inferior para se impedir de gritar. Ele
foi brusco e descuidado, e reavivou a dor de suas contuses ao for-la
repetida vezes contra a parede. Mesmo enquanto tentava empurr-lo, ele
prosseguiu penetrando-a, suas mos fincando acima de seus quadris,
arrancando um assustado grito de dor de sua garganta. Ela poderia t-lo
detido, j que possua um treinamento completo. Mas este se tinha
desaparecido por completo dando lugar a uma profunda angstia. No
conseguia ver seu rosto, mas no tinha certeza se conseguiria reconhece-lo se
o fizesse.
- Roarke...  Era o medo profundo que divisava em sua voz- Est me
machucando...
Ele murmurou algo num idioma que Eve no entendeu e que nunca tinha
escutado, de maneira que deixou de lutar contra ele, segurou seus ombros e
fechou os olhos ao que estava ocorrendo entre ambos.
Ele seguiu penetrando-a, segurando seus quadris para mant-la aberta,
sua respirao resvalando em sua orelha. Fazia tudo brutalmente, sem o
refinamento ou controle que era uma caracterstica to inata dele.
No podia parar. Ainda que uma parte de sua mente retrocedesse
horrorizada diante do que estava fazendo, ele simplesmente no podia parar. A
urgncia era como um cncer que o devorava e tinha que se satisfazer para
sobreviver. Num recndito canto de sua mente ouvia uma voz ansiosa e
ofegante: mais forte, mais depressa. Mais. Animava-o e o estimulava, at que,
com uma ltima e cruel investida, descarregou-se.
Ela o segurou. Era faz-lo ou cair no cho. Ele tremia como um homem
febril, e ela no sabia se o tranqilizava ou lhe dava uma surra.
- Maldio, Roarke. - Mas ao v-lo apoiar uma mo contra a parede para
manter o equilbrio, esqueceu-se da indignao e comeou a se preocupar -:
Vamos, o que aconteceu? Quantos copos bebeu? Vamos, apoiasse em mim.
- No.  Com a necessidade violenta satisfeita, Roarke voltou a raciocinar.
E o arrependimento lhe causaram um n no estmago. Sacudiu a cabea para
combater a nusea e se afastou dela - Por Deus, Eve. Deus. Desculpe-me.
Sinto muito.
- Est bem. Tudo bem.
Roarke estava branco como o papel. Ela nunca o tinha visto remotamente
enfermo e isso a assustou.
- Deveria chamar a Summerset ou a algum. Tem que se deitar.
- Pare.
Ele afastou com delicadeza as mos que lhe acariciavam e retrocedeu at
que deixaram de se tocar. Como podia suportar que o fizesse?
- Pelo amor de Deus, a violentei. Acabo de violent-la.
- No - replicou ela, esperando seu tom de voz fosse to eficaz quanto
uma bofetada - Sei o que  um estupro. E no o fez ainda que se mostrasse
um pouco entusiasmado demais.
- Eu a feri- Quando ela estendeu uma mo, ele levantou as suas para
det-la  Maldio Eve, est machucada das cabeas aos ps e eu te jogo
contra a parede de uma armrio e a uso como uma qualquer. A usei como se
fosse uma...
- J basta. - Ela deu um passo adiante e ao ver que ele negava com a
cabea, adicionou - : No se afaste de mim, Roarke. Isso sim me machucaria.
No o faa.
- Preciso de um minuto - respondeu friccionando as mos contra seu
rosto. Seguia aturdido e mareado, e pior ainda, algo fora de si - Deus, preciso
uma bebida.
- O que me leva a perguntar de novo quanto bebeu.
- No o suficiente. No estou bbado, Eve. - Deu a entender as mos e
olhou ao redor. Um armrio, era tudo que podia pensar. Pelo amor de Deus,
um armrio! - No sei o que aconteceu, que se apoderou de mim... Perdoe-me.
- Isso eu j percebi. - Mas ela continuava sem ter uma viso de conjunto 
Voc no parava de dizer algo. Era estranho. Como liomsa.
Seu olhar se escureceu.
-  galico. Significa minha. No voltei a falar galico desde que era
menino. Meu pai o utilizava com freqncia quando estava... bbado. - Vacilou
antes de lhe acariciar a face - Fui to brusco contigo. To indelicado.
- No sou um de seus vasos de cristal, Roarke. Posso suport-lo.
- No deste modo. - Ele pensou nas queixas e protestos das prostitutas do
beco que chegavam at ele atravs das delgadas paredes e o perseguiam
quando seu pai as levava  cama - Nunca assim. No pensei em voc. No me
importei com voc e isso no tem desculpa.
Ela no queria que se humilhasse. A incomodava.
- Bem, est ocupado demais se mortificando para que me preocupe em
faze-lo, ento acho melhor voltarmos.
Ele a segurou pelo brao antes que pudesse abrir a porta.
- Eve, no sei o que aconteceu, literalmente. H um minuto estvamos ali
fora, escutando Mavis, e em seguida... foi superior a minhas foras. Como se
minha vida dependesse de t-la naquele mesmo instante. No era s sexo, e
sim questo de sobrevivncia. No podia controlar. Isso no  desculpa para...
- Espera. - Ela se apoiou contra a porta alguns instantes, lutando para
diferenciar mulher e policial, esposa e detetive  No acha que est
exagerando?
- No; era como uma mo em torno de minha garganta. - Roarke
conseguiu esboar um sorriso fraco - Bem, talvez essa no seja a parte correta
da anatomia. No h nada que possa dizer ou fazer para...
- Esquea um pouco de seu sentimento de culpa, certo? E raciocine. 
Daquela vez o olhar de Eve era frio e duro como uma gata - Uma urgncia
repentina e irresistvel, semelhante a uma compulso, que voc, um homem
com um grande autodomnio, no pode controlar? E me penetra com a
delicadeza de um celibatrio saudoso rompendo o jejum com uma andride de
aluguel.
Diante daquilo seu face se contorceu e ele sentiu novamente os rasgos da
culpa.
- Sou muito consciente disso.
- Esse no  seu estilo, Roarke. Voc tem seus movimentos
caractersticos, no posso acompanh-lo todos, mas so rtmicos e estudados.
Talvez seja brusco, mas nunca egosta. E algum que fez amor com voc em
quase todas as posies anatomicamente possveis pode afirmar que nunca foi
mesquinho.
- Bem...- ele no sabia ao certo como reagir- Isso  uma lio de
humildade?
- No era voc - murmurou ela.
- Lamento desmentir.
- No era algo que voc faria por si mesmo - corrigiu ela - E isso  o que
conta. Algo dentro de voc o agarrou Ou o impulsionou. Esse filho de uma
me. - Conteve a respirao ao olhar a Roarke nos olhos e ver que comeava
a compreender o ocorrido - Esse maldito tem algo. Comentou comigo enquanto
danvamos. Esteve se vangloriando e eu no compreendi. Esta foi sua
maneira de fazer uma pequena demonstrao. E ser isso sua perdio.
Roarke segurou seu brao com fora.
- Est falando de Jess Barrow? De scaners cerebrais e de sugesto? Do
controle da mente?
- A msica deveria afetar o modo que as pessoas se comportam, sentem
e agem. Era isso que me dizia h alguns minutos atrs, antes que comeasse
a atuao. Bastardo presunoso.
Roarke recordou a surpresa refletida nos olhos de Eve quando a jogou de
encontro  parede e a penetrou como uma garanho ansioso.
- Se voc tem certeza disso. - disse com um tom frio. Talvez frio demais -
Quero ter alguns momentos a ss com ele.
-  assunto da polcia - comeou a dizer, mas ele se aproximou com uma
expresso de fria determinao.
- Ou voc me d alguns minutos a ss com ele ou terei que arranjar outros
meios de faze-lo. De um modo ou de outro o farei.
- Est bem. - Ela posou uma mo sobre a dele, no para impedir de
segura-la e sim como um gesto de solidariedade - Est bem, mas ter que
esperar a sua vez. Tenho que ter certeza.
- Esperarei - concedeu ele.
Mas esse homem pagaria, prometeu-se Roarke, por ter introduzido um
instante de medo e desconfiana em seu relacionamento.
- Deixarei que termine a atuao - decidiu ela - Ento o interrogarei de
forma extra-oficial em meu escritrio sob a superviso de Peabody. No faa
nada por sua conta, Roarke. Falo srio. - Ele abriu a porta.
- Disse que esperaria.
A msica seguia soando forte e os golpeou com uma nota aguda vrios
metros antes que chegassem ao umbral. Mas bastou que Eve sasse e abrisse
espao entre a multido para que Jess levantasse o olhar de sua mesa de
controle e se fixasse nela. Ento esboou um rpido sorriso entre orgulhoso e
divertido.
E ela esteve segura.
- Procura a Peabody e pea a ela que desa para o meu escritrio e se
prepare para um interrogatrio preliminar. - Deu um passo na direo de
Roarke e o olhou aos olhos - Por favor, no estamos falando apenas de um
insulto pessoal aqui, e sim de um assassinato. Deixe-me fazer meu trabalho
Roarke girou o corpo e se afastou sem dizer uma palavra. Quanto se
perdeu na multido, ela foi at Summerset.
- Quero que fique de olho em Roarke.
- Como diz?
- Escute - Ela lhe fincou um dedo em sua vestimenta impecvel at atingilo
nas costelas. -  importante. Poderia estar em apuros. No quero que o
perca de vista at ao menos uma hora depois da atuao. Se algo acontecer
com ele, fritarei sua bunda. Compreendido?
Em absoluto, mas ele compreendeu a urgncia.
- Est bem - respondeu com dignidade, e cruzou o salo com graa, ainda
que seus nervos estivessem alterados.
Segura de que Summerset vigiaria a Roarke como uma falco me a suas
crianas, Eve voltou a abrir espao entre o pblico at chegar a primeira fila.
Aplaudiu com o resto da multido se esforou para dedicar um sorriso de apoio
a Mavis quando esta subiu para cantar um bis. E enquanto continuava a
ovao seguinte aproximou-se de Jess que continuava na mesa de controles.
- Um triunfo completo - murmurou.  Eu lhe disse que ela preciosa.
Havia um brilho malicioso em seus olhos quando a olhou sorridente e
adicionou - : Voc e Roarke perderam algumas atuaes.
- Um assunto pessoal - respondeu ela - Preciso falar com voc, Jess.
Sobre sua msica.
- Alegro-me. No h nada que eu goste mais.
- Agora, se no se importa. Vamos a um lugar um pouco mais privado.
- Claro. - Fechou sua consola e digitou o cdigo de segurana -  sua
festa.
- Claro que  - murmurou ela, precedendo-o.
Captulo 15
Optou pelo elevador, querendo mover-se depressa e discretamente.
Programou-o para uma breve ascenso, e a seguir para um deslocamento
horizontal de ala em ala.
- Tenho que dizer que voc e Roarke tm um belo lugar aqui.
Simplesmente incrvel.
- Oh, servir at que encontremos algo maior - respondeu Eve secamente,
e se negou a permitir que a gargalhada de Jess lhe crispasse os nervos  Digame,
decidiu trabalhar a srio com Mavis antes ou depois de inteirar-se de sua
conexo com Roarke?
- J lhe disse, Mavis  uma entre um milho. Bastou-me v-la algumas
vezes dando uma breve apresentao no Down and Dirty para saber que
combinaramos.  Lhe dedicou um grande sorriso, charmoso, como um menino
do coro segurando um sapo sobre a tnica - Claro que no a prejudicou ter um
contato como Roarke. Mas tinha que valer a pena.
- No entanto se inteirou da conexo antes.
Jess encolheu os ombros.
- Tinha escutado alguns comentrios. Por isso fui v-la. Esse clube no 
o tipo de local que costumo freqentar. Mas ela me deslumbrou. Se conseguir
que d grandes concertos quentes como esse, e se Roarke, ou algum de sua
posio, por assim dizer, estiver interessado em investir numa prxima
atuao, tudo estar resolvido.
- Tem muita lbia, Jess. - Eve saiu da cabine quando as portas se abriram
- Muita lbia.
- Como eu j lhe disse, tenho feito shows desde de menino. Acredito que
sei como faz-lo.
Jess olhou ao redor enquanto ela o conduzia pelo corredor. Arte antiga,
madeira cara, tapetes feitos a mo que um arteso devia ter confeccionado a
sculos atrs. Isso era o dinheiro, pensou. O suficiente para levantar imprios.
Eve girou o corpo e o encarou diante da porta do escritrio.
- No sei quanto tem - disse, lendo-lhe o pensamento com perfeio - e
tambm no me importa.
Sem deixar de sorrir, ele arqueou uma sobrancelha e lanou um olhar
para o gordo diamante em forma de lgrima que descansava sobre o corpete
de seu delicado traje de seda.
- Mas no se veste com farrapos ou usa bijuterias, querida.
- Mas j o fiz, e posso e posso voltar a faze-lo - Digitou abrindo a
fechadura codificada - E no me chame de querida.
Entrou e saudou com um movimento da cabea a uma confusa, mas
atenta Peabody.
- Sente-se - disse a Jess, e se moveu diretamente para sua mesa.
- Um lugar agradvel. Oi docinho. - No conseguiu se lembrar do nome de
Peabody, mas lhe dedicou um radiante sorriso como se fossem velhos amigos
Acompanhou a atuao?
- A maior parte.
Ele se estendeu na cadeira.
- O que achou?
- Incrvel. Voc e Mavis fizeram realmente uma bela apresentao. -
Aventurou-se em devolver-lhe o sorriso, sem saber ao certo o que Eve queria
dela - Estou pronta para comprar o primeiro disco.
-  o tipo de coisa que aprecio escutar. H alguma bebida aqui dentro?-
pediu a Eve- Eu gosto de manter-se abstnico antes de uma atuao e estou
mais do que pronto para comear a beber.
- Sem problema. O que prefere?
- Um champanhe me cairia bem.
- Peabody, deve haver uma garrafa na cozinha. Sirva a nosso convidado
uma taa. E aproveite e nos sirva de um caf.
Inclinou-se para trs e considerou. Tecnicamente, deveria comear a
gravao deste ponto, mas quis uma pequena introduo antes do registro.
- Algum como voc , que projeta a msica e a atmosfera tem que ser
tanto tcnico quanto artista, certo? Aquilo que voc me explicava antes do
desempenho.
- Que  o modo que as coisas seguem agora, e assim vai continuar por
muitos anos.
Ergueu uma de suas belas mos ornada com um bracelete de ouro.
- Eu tenho sorte de possuir uma aptido para ambos os interesses. Os
dias de tirar uma melodia de um piano ou um tema de jazz da guitarra foram
apenas um combustvel que praticamente se extinguiu.
- De onde tira sua preparao tcnica? Eu diria que no est ao alcance
de qualquer um.
Ele sorriu quando Peabody regressou com as bebidas. Estava tranqilo,
relaxado, e imaginou que estava numa espcie de entrevista de trabalho.
- De trabalhar at altas horas da noite. Mas tambm fiz um curso a
distncia com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts.
Ela j conhecia alguns dados por Peabody, mas queria aprofund-lo.
- Digno de elogio. Voc fez sozinho um nome no mundo do espetculo e
das artes. No  assim, Peabody?
- Sim. Tenho todos seus discos e espero ansiosa pelo prximo. J faz
tempo desde do ltimo.
- Ouvi dizer isso em algum lugar. - Eve segurou o gancho que Peabody
lhe lanou sem saber - Passou por uma poca de pouca inspirao, Jess?
- Em absoluto. Queria dedicar tempo a aperfeioar o novo equipamento,
reunir todos os componentes adequados. Quando o novo material for lanado
ser algo que nunca ningum escutou.
- E Mavis  o trampolim.
-  um modo de dizer. Foi um golpe de sorte. Ela exibir parte do material
que no vai comigo, e personalizei certos temas para que encaixem com ela.
Eu estarei fazendo apresentaes por minha prpria conta nos prximos
meses.
- Quando tudo estiver em seu lugar.
Ele bebeu um gole de champanhe.
- Exato.
- Desenhou alguma vez trilhas sonoras para realidade virtual?
- De vez em quando. No  um ofcio ruim se o programa  interessante.
- E aposto a que sabe colocar mensagens subliminares.
Ele fez uma pausa e voltou a beber.
- Subliminares? Isso  algo puramente tcnico.
- Mas voc  um bom tcnico, no, Jess? Bom o bastante para conhecer
os computadores por dentro e por fora. E igualmente os crebros. Um crebro
 um computador, lembra-se?
- Claro
Seu foco era todo para Eve de modo que no observou que Peabody
tinha comeado a se empertigar.
- E se aventurou em alteradores de nimo, que provocam mudanas de
humor. Padres de conduta e emocionais. Ondas cerebrais. - Tirou da gaveta
da escrivaninha uma gravadora e a colocou bem a vista  Fale-nos sobre isso.
- Que demnios  isto? - Jess deixou a taa de lado e se deslocou at a
beirada da cadeira  O que est acontecendo?
- Ocorre que vou recitar seus direitos e vamos ter uma conversa. Oficial
Peabody, ligue a gravadora de reforo e tome nota, por favor.
- No concordei com essa merda de entrevista - replicou ele pondo-se de
p.
Eve o imitou.
- Est bem. Podemos fazer que seja obrigatrio e lev-lo a delegacia. Ali
ter que esperar, j que no reservei a sala de interrogatrios. Mas no vai se
importar de passar algumas horas preso, no  verdade?
Lentamente ele voltou a se sentar.
- Como voc se transforma rpido em policial, Dallas.
- Digamos que nunca deixo de s-lo. Tenente Dallas, Eve - comeou a
dizer  gravadora, e passou a precisa a hora e o lugar antes de recitar o
Miranda revisado - Compreendeu seus direitos e alternativas, Jess?
- Sim, compreendi-os. Mas no sei qual o motivo de todo esse inferno.
- Vou lhe dizer claramente. Est sendo interrogando em relao s mortes
no resolvidas de Drew Mathias, S. T. Fitzhugh, o senador George Pearly e
Cerise Devane.
- Quem? - exclamou ele, convincentemente confundido - Devane? No 
essa a mulher que saltou do Tattler Building? Por que est supondo que tenho
algo a ver com esse suicdio? Nem sequer a conhecia.
- Talvez no saiba que Cerise Devane era a presidente e principal
acionista da Tattler Enterprises?
- Bem, suponho que eu saiba, mas...
- Suponho que seu nome apareceu no The Tattler alguma vez ao longo de
sua carreira.
- Claro, sempre esto escavando alguma sujeira. E cavaram alguns meus.
 parte do negcio.  Tinha abandonado o medo da expresso que agora era
de indignao- Escute, essa mulher pulou. Eu estava em meu estdio do
centro ensaiando quando ela fez isso. Tenho testemunhas. Mavis  um delas.
- Sei que no estava no lugar dos fatos porque eu estava. Ao menos no
estava ali em carne e osso. - Jess esboou um sorriso zombador.
- Que sou ento, um maldito fantasma?
- Conheceu ou teve alguma vez contato com um tcnico autotrnico
chamado Drew Mathias?
- No reconheo o nome.
- Mathias e voc estudaram na mesma escola.
- Como outros milhares. Eu optei por um curso a distncia. Nunca
coloquei meus ps no campus.
- E nunca teve nenhum contato com outros estudantes?
- Claro que sim. Mediante tele-link, correio eletrnico, fax laser ou o que
fora.  Encolheu os ombros, tamborilando com os dedos na parte superior de
uma de suas botas feitas a mo - No me recordo de nenhum tcnico
eletrnico com esse nome.
Decidiu mudar de ttica.
- Quantas vezes trabalhou em mensagens subliminares individualizados?
- No sei sobre o que est falando.
- No compreende o termo?
- Sei o que significa. - Desta vez os ombros de Jess estremeceram ao
encolher os ombros  E pelo que eu sei, ela nunca foi feita, desse modo no
sei por que est me perguntando.
Eve tentou outra possibilidade e olhou a sua auxiliar.
- Sabe o que estou perguntando-lhe, Peabody?
- Acredito que est bastante claro, tenente. - A oficial estava se
esforando para conseguir acompanhar aquela situao-: Voc gostaria de
saber quantas vezes o interrogado trabalhou em mensagens subliminares
individualizadas. Talvez deveria recordar ao interrogado que hoje em dia no 
ilegal pesquisar ou interessar-se neste campo. S o desenvolvimento e
fabricao vo contra a atual legislao estatal, federal e internacional.
- Muito bem, Peabody. As coisas ficaram mais claras para voc, Jess?
Aquela interveno tinha dado tempo a Jess para tranqilizar-se.
- Claro. Interessa-me esse campo. Como tantas outras pessoas.
-  um pouco fora de seu campo, no?  um msico, no um cientista.
Esse era o boto certo. Jess se empertigou na cadeira e seus olhos
piscaram brilhantes.
- Sou bacharel em musicologia. A msica no  s um monte de notas
que tocando unidas, corao.  a vida. So recordaes. As msicas
provocam especficas reaes emocionais e com freqncia previsveis. A
msica expressa emoes e desejos.
- E eu aqui pensando que era s uma forma agradvel de passar o
momento.
- O entretenimento  s uma faceta. Os celtas iam  guerra com gaitas.
Para eles era uma arma to vlida como o machado. Os nativos guerreiros da
frica se preparavam para a luta com tambores. Os escravos se alimentavam
de seus cantos espirituais, e os homens h sculos seduzem s mulheres com
msica. A msica atua sobre a mente.
- O que nos leva de novo a pergunta: quando decidiu dar um passo alm
e vincul-la s ondas cerebrais individuais? Descobriu por acaso, por pura
casualidade, enquanto estava compondo alguma melodia?
Ele soltou uma breve gargalhada.
- Acredita mesmo que  s isso que eu fao, no? Limito-me a sentar em
minha cadeira e apenas tocar algumas notas e pronto.  um trabalho duro. Um
trabalho duro e exigente.
- E est muito orgulhoso de seu trabalho, verdade? Vamos, Jess, estava a
ponto de contar-me antes. - Eve levantou e rodeou a escrivaninha para se
sentar em sua beirada, a sua frente  Estava morrendo de vontade de me
contar. Para contar para algum. O incrvel que , a satisfao que lhe produz
criar algo to assombroso, para depois ter que continuar ocultando.
Ele voltou a pegar a taa e percorreu com os dedos a longa e delgada
haste.
- Isto no era exatamente o que eu tinha imaginado. - Bebeu um gole e
considerou as conseqncias... e as vantagens - Mavis diz que podes ser
flexvel. Que no segue ao p da letra os cdigos e procedimentos.
- Oh, posso ser flexvel, Jess. - Quando fosse autorizada a ser  Explique-
me.
- Bem, digamos que, se tivesse inventado...hipoteticamente, uma tcnica
para introduzir mensagens subliminares individualizadas, alteradores do nimo
que atuassem sobre as ondas cerebrais pessoais, seria incrvel. Pessoas como
Roarke ou como voc, com seus contatos, base financeira e influncia, por
assim dizer, poderiam passar por alto em algumas leis antiquadas e fazer uma
grande fortuna. Revolucionar a indstria do entretenimento pessoal.
-  uma proposta de negcio?
- Hipoteticamente - disse ele e gesticulou com a taa - As indstrias de
Roarke tem o caminho, o poderio e o dinheiro para fazer algo como isso d
certo e lev-lo adiante. E uma polcia inteligente como voc poderia achar uma
maneira de dobrar a lei para que tudo deslizasse sobre rodas.
- Por Deus, tenente, parece que voc e Roarke so o casal perfeito -
exclamou Peabody com um sorriso que no lhe atingiu os olhos -
Hipoteticamente.
- E Mavis como o canal - murmurou Eve.
- Ei, esquea-se de Mavis. J tem o que queria. Depois desta noite vai
decolar.
- E voc acha que isso a compensa de ter sido utilizada para chegar a
Roarke?
Ele voltou a encolher os ombros.
- Os favores esto sendo pagos, querida. E a tratei como uma rainha. -
Nos olhos de Jess voltava a ter um brilho entre malicioso e divertido  Apreciou
a demonstrao informal de meu sistema hipottico?
Apenas o treinamento policial a fez manter seu semblante impassivo, deu
a volta na mesinha voltando a se sentar.
- Demonstrao?
-  noite que voc e Roarke vieram ao estdio para observar a sesso de
Mavis. Pareceu para mim que ambos estavam muito ansiosos por sarem e
ficarem a ss. - Seu sorriso se tornou mais amplo  Queriam reviver a lua de
mel.
Ela manteve as mos por trs da mesa at conseguir abrir os punhos.
Olhou de relance para a porta do escritrio de Roarke que comunicava com o
seu e se sobressaltou ao ver piscar a luz verde do monitor.
Estava observando-os, pensou. Isso no somente era ilegal, mas perigoso
nessas circunstncias, pensou ela. Voltou-se para Jess. No podia se permitir
quebrar o ritmo.
- Parece que tem um interesse exagerado em minha vida sexual.
- J disse, Dallas. Voc me fascina. Tem uma mente.  puro ao, com
todos esses espaos escuros adentro em seu interior. Eu quero saber o que
aconteceria se voc abrisse esses espaos. E sexo  a chave mestra. Inclinou
o corpo para frente e a olhou nos olhos - Com que sonha, Dallas?
Recordou os sonhos, os pesadelos horrveis da noite que assistira o disco
de Mavis. O disco que ele tinha lhe dado. Suas mos tremeram.
- Filho de puta. - Levantou-se lentamente plantando as mos na mesa -
Voc gosta de fazer demonstraes, no , bastardo?  isso o que Mathias foi
para voc? Uma demonstrao?
- J lhe falei, no sei quem .
- Talvez tenha precisado de um tcnico de autotrnica para aperfeioar
seu sistema. Depois o testou com ele. Tinha seu padro de suas ondas
cerebrais, assim voc o programou. Voc o programou para que fabricasse
uma corda e a deslizasse em torno de seu pescoo, ou deixou que ele
escolhesse o mtodo?
- Voc est louca.
- E Pearly? Que relao tinha com tudo isto? Um motivo poltico? Olhava
para o futuro?  um autntico visionrio. Ele teria sido contra a legalizao de
seu novo brinquedo. Por que no o uso nele?
- Pare com isso!  levantou-se - Est falando de assassinato. Por Deus,
est tentando me envolver em um caso de assassinato?
E depois Fitzhugh. Mais demonstraes Jess? Ou voc apenas pegou
gosto? Sentia-se poderoso, no? Podendo matar sem sujar as mos de
sangue.
- Nunca matei ningum. Voc no pode me envolver nisso!
- E Devane era um bnus, com todos os meios de comunicao ali. Voc
precisava ver. E aposto que realmente adorou observar. Que se excitou
observando. Do mesmo modo que se excitou ao pensar que empurraria Roarke
esta noite com seu brinquedo maldito.
- Isso  o que a irrita, no? - Furioso, Jess se inclinou sobre a mesa.
Desta vez seu sorriso no era charmoso e sim feroz - Quer me ferrar comigo
porque me conectei com Roarke. Deveria me agradecer. Aposto que ambos
treparam como bfalos selvagens.
Sua mo estava fechada em punho e seu punho acertou-lhe a maxila
antes que seu crebro registrasse o ato. Caiu como uma pedra, de cara para
baixo e braos abertos levando seu tele-link com ele.
- Maldio  prendeu a respirao enquanto abria e fechava os punhos-
Maldio!
A voz de Peabody veio fria e serena acima do som da gravadora.
- Que conste em ata que o indivduo ameaou fisicamente a tenente
durante o interrogatrio. Em conseqncia disso o interrogado perdeu o
equilbrio e bateu a cabea contra a mesa. Parece momentaneamente aturdido.
Quanto a Eve no pde fazer outra coisa seno olhar Peabody enquanto
esta se levantava, aproximava-se de Jess e o levantava segurando-o pela gola
da camisa. Sustentou-no ar por alguns instantes como se considerasse sua
condio. Seus joelhos cederam e seus olhos reviraram-se na rbita.
- Afirmativo - declarou, e se estendeu em uma cadeira - Tenente Dallas,
acredito que sua gravadora estragou. - A seguir Peabody derramou seu caf no
aparelho de Eve para fritar eficazmente seus chips - A minha continua
funcionando e bastar para continuar o interrogatrio. Est ferida?
- No. - Eve fechou os olhos e recuperou o controle - No, estou bem,
obrigada. O interrogatrio se interrompe a uma e meia. O indivduo Jess
Barrow ser levado ao centro mdico Brightmore para ser examinado e tratado,
e ali permanecer at as nove da manh, hora em que este interrogatrio
continuar na central de polcia. Oficial Peabody, favor se ocupar do transporte.
O civil ser retido para ser submetido a um interrogatrio.
- Sim, senhor. - Peabody se voltou para a porta do escritrio de Roarke
quando esta se abriu. Bastou olhar em seu rosto para saber que teriam
problemas - Tenente - comeou a dizer com cuidado de manter a gravadora
voltada para baixo - H interferncia em meu comunicador e seu tele-link
poderia ter se danificado quando o interrogado caiu no cho. Peo permisso
para utilizar o outro quarto para chamar os mdicos.
- Pode ir - Eve, disse e suspirou ao ver a Roarke entrar e Peabody sair em
grandes passadas  Voc no tinha nenhum direito a espionar este
interrogatrio - comeou.
- Lamento discordar. Tenho todo o direito.  olhou de relance para baixo,
para a cadeira onde Jess gemia e mudava de posio - Est voltando em si. Eu
gostaria de um momento com ele agora.
- Escute, Roarke...
Interrompeu-a com uma mirada glacial.
- Agora, Eve. Deixe-nos a ss.
Esse era o problema entre eles, decidiu ela. Ambos eram acostumados a
dar ordens que nenhum dos dois aceitavam bem. Mas recordou o olhar
atormentado quando ele tinha se afastado dela. Ambos tinham sido utilizados,
mas Roarke tinha sido a vtima.
- Voc tem cinco minutos. Isso  tudo. Cuidado Roarke. Na gravao
aparece levemente ferido. Se aparecer com mais marcas, eles iro em cima de
mim, o que poderia comprometer meu argumento contra ele.
Roarke esboou um sorriso enquanto a pegava do brao e a
acompanhava at a porta.
- Me de um crdito, tenente. Sou um homem civilizado.
Fechou a porta em sua cara e a travou. Sabia como causar grandes
tormentos a um corpo humano sem deixar rastro.
Aproximou-se de Jess, levantou-o da cadeira e o sacudiu at que abrisse
os olhos.
- Acorde, est desperto?- Roarke disse com voz macia- Est ciente?
O suor escorria frio na base da espinha de Jess. Estava olhando para o
rosto de um assassino e ele sabia.
- Quero um advogado.
- Voc no est tratando com um policial agora. Voc est tratando
comigo. Ao menos nos cinco minutos seguintes. E voc no tem direito a
privilgios.
Jess engoliu em seco e tratou de conservar a calma.
- Voc no pode me machucar. Se o fizer, a responsabilidade cai sobre
sua esposa.
Os lbios de Roarke se curvaram e seu punho golpeou o estmago de
Jess.
- Vou lhe demonstra que est equivocado.
Seus olhos no se afastaram dos olhos de Jess enquanto se agachava,
agarrou seu membro e o torceu.
Deu-lhe alguma satisfao ver cada gota de sangue desaparecendo do
rosto do homem e observar a boca que torcia como um peixe moribundo. Com
o polegar lhe apertou a traquia at que seus olhos soltassem da rbita.
- No  repugnante ver-se conduzido por seu pnis? - retorceu-lhe o
membro pela ltima vez antes de deixar que se desaprumasse sobre uma
cadeira e se encolhesse como um girino - Agora falemos - acrescentou com
tom agradvel - De assuntos pessoais.
Do lado de fora do corredor, Eve andava de um lado para o outro, olhando
de relance a cada poucos segundos para a porta. Sabia que Roarke tinha
conectado a opo sem udio, Jess podia estar gritando em plenos pulmes,
que ela no o ouviria.
Se o matasse... Por Deus, se o matasse, como iria resolver o caso?
Deteve-se horrorizada e colocou a mos sobre o estmago. Tinha a obrigao
de proteger esse idiota. Havia regras. No importavam os sentimentos
pessoais, havia regras.
Dirigiu-se  porta, digitou o cdigo da fechadura e respirou fundo quando
este foi recusado.
- Maldito seja, Roarke.
Ele a conhecia bem demais. Com poucas esperanas dirigiu-se ao outro
extremo do corredor e tentou abrir a porta que comunicava com o escritrio.
Mas tambm foi negada sua entrada.
Aproximou-se do monitor e conectou a cmara de segurana de seu
escritrio, mas descobriu que ele tambm lhe tinha impedido o acesso.
- Meu Deus, ele est o matando.
Correu de novo at a porta e a golpeou inutilmente com seu punho.
Alguns momentos mais tarde, como mgica, a porta se abriu silenciosamente.
Viu Roarke sentado diante a mesa, fumando calmamente.
Seu corao martelou deu ao ver a Jess. Estava plido como um morto,
suas pupilas estavam dilatadas, mas estava respirando. De fato, ofegava como
um termostato defeituoso.
- No tem nem um arranho- disse Roarke pegando o conhaque que
acabava de se servir - E acredito que comeou a compreender o erro que
cometeu.
Eve se inclinou e examinou os olhos de Jess, que se encolheu de medo
na cadeira como um cachorro medroso. O som que fez era quase sobrehumano.
- Que inferno voc fez com ele?
Roarke duvidava que Eve ou o DPSNY aprovasse os truques que tinha
aprendido em seu passado.
- Muito menos que merecia.
Endireitou e lanou um longo olhar para Roarke. Este tinha o aspecto de
algum que se dispe a entreter seus convidados ou presidir uma importante
reunio de negcios. Tinha o traje sem uma ruga, o cabelo perfeitamente
penteado e as mos firmes. Mas em seus olhos, notou, ainda restavam traos
selvagens.
- Deus, voc me d medo.
Roarke deixou de lado o conhaque.
- Nunca voltarei a te machucar.
- Roarke.- conteve o desejo de aproximar e estreit-lo em seus braos.
No era o que pediam as circunstncias do momento. Ou o que ele precisava.
- Roarke, no pode ser assunto pessoal.
-  - respondeu ele, tragou o cigarro e exalou lentamente a fumaa. Pode
.
- Tenente - Peabody entrou com rosto inexpressivo.
- Os enfermeiros j esto aqui. Com sua permisso, acompanharei ao
suspeito ao centro mdico.
- Eu irei.
- Senhor - Peabody um olhar glacial em direo a Roarke, que ainda no
tinha afastado os olhos de Eve, e viu que tinha uma expresso mais do que
perigosa.
- Se me desculpar, tenente, acredito que tem aqui assuntos mais
importantes. Posso acompanh-lo eu at o centro mdico. Ainda tem a casa
cheia de convidados, incluindo a imprensa. Estou certa de que preferiria que o
assunto no se espalhasse at nova ordem.
- Voc est certa. Chamarei a central daqui e farei os arranjos
necessrios. Prepare a segunda entrevista para amanh s nove horas.
- Estou impaciente. - Peabody de uma olhada de relance para Jess e
arqueou uma sobrancelha - Deve de ter golpeado a cabea com muita fora,
porque ainda est aturdido, e sua pele est fria e mida - Dedicou a Roarke um
sorriso e adicionou - Sei muito bem o que ele est sentindo.
Roarke riu, e sentiu que um pouco da tenso o abandonava.
- No, Peabody. Neste caso no acredito que voc saiba.
Levantou e se aproximou dele moldando seu rosto quadrado entre as
suas mos elegantes. Beijou-a.
- Voc  maravilhosa.- ele murmurou antes de voltar-se para Eve- Eu
cuidarei dos restos de nossos convidados. Faa o que tem que fazer.
Peabody levou os dedos aos lbios enquanto se dirigia  porta. O prazer
se irradiava da ponta de seus ps at a cabea.
- Oh... Eu sou maravilhosa, Dallas.
- Estou em dvida com voc, Peabody.
- Acredito que acabam de sald-la.  atravessou a porta - Aqui esto os
assistentes. Ns levaremos o nosso amigo. Diga a Mavis que esteve
absolutamente ultra.
- Mavis? - Eve pressionou os dedos contra seus olhos fechados. O que
iria dizer a Mavis?
- Eu a deixaria brilhar esta noite. Deixe para dizer tudo a ela mais tarde.
Ser melhor. Ei aqui!- chamou gesticulando  Aparentemente ele est com
uma suave concusso.
Captulo 16
Obter uma ordem de registro e deteno as duas da madrugada era um
negcio complicado. Faltavam-lhe os dados mais singelos para obter uma
autorizao automtica. E precisou de um juiz. Os juzes costumavam ficar de
mal-humor com chamadas a meia-noite. E tentar explicar por que tinha
necessidade de uma autorizao para examinar um console de msica em sua
prpria casa era uma tarefa delicada.
Como este era o caso, Eve suportou o sermo do furioso e cortante do
juiz escolhido.
- Compreendo-o, vossa senhoria. Mas isto no pode esperar at uma hora
decente amanh. Tenho forte suspeita de que o console em questo est
relacionada com as mortes de quatro pessoas. Seu projetor e operador est
neste momento detido, e no posso contar com sua colaborao imediata.
- Est tentando me convencer que a msica mata, tenente? - replicou o
juiz - Eu mesmo poderia chegar a esta concluso. A porcaria que se ouve hoje
em dia poderia matar um elefante. Em meus tempos sim tnhamos msica.
Springsteen, Live, os Cult Killers. Isso era msica.
- Sim, senhor. - Ela revirou os olhos. Tinha que ter escolhido precisamente
um amante da msica clssica - Preciso a ordem, vossa senhoria. O capito
Feeney est disponvel para comear a anlise inicial. Segundo consta na ata,
o operador confessou ter utilizado o console de forma ilegal. Preciso de mais
provas para relacion-lo com os outros casos em questo.
- Se quer minha opinio, esses consoles de msica deveriam ser
proibidos e queimados. Isto  lixo, tenente.
- No se provarem minha convico de que este console e quem o opera
esto relacionados com a morte do senador Pearly e dos demais.
O juiz fez uma pausa seguida de um profundo suspiro.
- Isso  um grande salto no vazio. Literalmente.
- Sim, senhor. E quero a ordem para construir uma ponte.
- A enviarei, mas espero que consiga algo, tenente. E espero que seja
consistente.
- Obrigado. Lamento ter-lhe interrompido... o tele-link fez clic em seu
ouvido - seu sono concluiu ela.
Depois pegou o comunicador e chamou a Feeney.
- Ei, Dallas. O rosto do tcnico se iluminou com um amplo e alegre
sorriso  Onde se meteu? A festa acaba de comear. Voc perdeu Mavis
fazendo um nmero com um holograma dos Rolling Stones. J sabe o que
sinto pelo Jagger.
- Sim,  como um pai para voc. No v embora, Feeney. Tenho uma
misso para voc.
- Misso? So duas da madrugada e minha mulher parece, sabe... -
piscou com expresso sentimental - interessada.
- Sinto muito. Suas glndulas tero que esperar. Roarke se encarregar
de que a leve a casa. Estarei ai em dez minutos. Tome algo para animar se
acha necessrio. Pode ser que tenhamos uma longa noite pela frente.
- Animar? - Feeney adquiriu a expresso taciturna de costume  Estou me
animando durante toda  noite. Do que se trata?
- Em dez minutos - repetiu ela antes de cortar a comunicao.
Ocupou-se em trocar o vestido de festa e descobriu algumas marcas que
no tinha reparado antes. Dedicou alguns minutos a untar-se com creme at
onde conseguia alcanar e fez uma careta de dor ao vestir a camisa e calas.
No obstante, cumpriu sua palavra e dez minutos mais tarde saia na
sacada do telhado.
Roarke estava ocupado, percebeu, despedindo-se dos ltimos
convidados. Se havia algum convidado ainda vagando perdido tratava de darlhe
rumo a sada.
Sentado junto ao buf dizimado, Feeney comia um pat com tristeza.
- Voc sabe acabar com uma festa, Dallas. Minha mulher ficou to
deslumbrada de ser levada para casa em uma limusine que se esqueceu de
mim. E Mavis ficou lhe procurando o tempo todo. Parece que estava meio
louca por voc no ter ficado aqui para felicit-la pela apresentao.
- Falarei com ela. - Seu tele-link porttil emitiu um apito. Leu a tela e
ordenou uma impresso - Aqui temos a ordem judicial.
- Ordem? - Feeney pegou uma trufa e a meteu na boca - Para que?
Eve se voltou e apontou pata o console.
- Para ele. Pronto para utilizar sua magia?
Feeney engoliu a trufa e olhou a console. Uma luz que muitos chamariam
de amor, brilhou em seus olhos.
- Voc que eu toque nisso? Caramba.
P-se de p com um pulo e quase correu at o equipamento. Percorreu-o
reverente com as mos e Eve o ouviu murmurar algo parecido com TX-42, com
ondas sonoras de alta velocidade.
- A ordem de autoriza a cancelar a cdigo de proteo?
- Sim, Feeney. Isto  algo srio.
- Olhe para quem est dizendo isso!  levantou as mos e estalou os
dedos como um assaltante de bancos das antigas a ponto de dar o grande
golpe - Esta criatura sim  algo srio. O desenho  perfeito, a potncia est
fora de escala. ...
- Provavelmente a causa de quatro mortes - completou Eve. Aproximou-se
e adicionou -: Deixa-me colocar voc em dia.
Dentro de vinte minutos, utilizando o equipamento porttil que levava no
carro, Feeney estava a trabalho. Eve no podia entender que murmurava, e ele
se impacientava quando ela se inclinava sobre seu ombro.
Isso lhe deu tempo para andar pelo salo e fazer um telefonema para
informar-se do estado de Jess. Acabava de ordenar a Peabody que
requisitasse um agente e voltasse para casa tentar dormir um pouco quando
Roarke entrou.
- Desculpei-me por voc a nossos convidados - disse e se serviu outro
conhaque - Expliquei-lhes que foi chamada para trabalhar inesperadamente.
Eu recebi muita simpatia por viver com uma policial.
- Eu tentei lhe avisar que fazia um mau negcio.
Ele sorriu, mas seu sorriso no alcanou seus olhos.
- Isso aplacou Mavis. Est esperando seu telefonema amanh.
- Ligarei para ela amanh. Terei que lhe explicar algumas coisas.
Perguntou por Barrow?
- Disse a ela que tinha se sentido... indisposto de repente. - Roarke no a
tocou. Desejava faz-lo, mas ainda no estava preparado  Voc sente dores,
Eve. Posso ver.
- Volte a tampar meu nariz e eu o derrubarei. Feeney e eu temos muito
que fazer aqui, e devo estar desperta. No sou frgil, Roarke.  A mensagem
era clara em seus olhos. Esquea.  Ponha isso na cabea.
- No o consigo. - Deixou de lado o conhaque e meteu as mos nos
bolsos - Poderia dar uma mo ali - adicionou, inclinando a cabea para Feeney.
-  um assunto policial. No esta autorizado a tocar o aparelho.
Quando ele voltou a olh-la com algo do velho humor, ela soltou um
suspiro.
-  coisa de Feeney  replicou - Est hierarquicamente acima de mim, e
se quer meter-te em isto,  assunto seu. Eu no quero saber sobre isso. Tenho
relatrios para preparar.
Encaminhou-se para a porta com cada linha do corpo demonstrando
irritao.
- Eve. - Quando ela se deteve e o olhou com cenho franzido, ele negou
com a cabea - Nada. - E encolheu os ombros, impotente.  Nada- repetiu.
- Pare com isso, maldio. Est me deixando puta da vida - rebateu ela
saindo com largas passadas e quase o fazendo sorrir.
- Eu tambm a amo muito - murmurou ele. A seguir se aproximou de
Feeney perguntando-: O que temos aqui?
-  to lindo que quase me faz chorar. Eu juro. Estou lhe dizendo, esse
homem  um autntico gnio. Vem aqui e olha esse painel de comandos. S
olhe.
Roarke despiu smoking, se ajoelhou e comeou a trabalhar.
..................................
Ela no se deitou. Por uma vez enterrou os preconceitos e tomou sua
autorizada dose de anfetaminas, que lhe cancelaram a fadiga e lhe sacudiram
a maioria das teias de aranha da cabea. Usou o chuveiro de seu escritrio e
ps uma compressa de gelo sobre o joelho dolorido e disse a si mesma que se
ocuparia das contuses mais tarde.
Eram seis da manh quando voltou  sacada do telhado. Tinham
desmontando o console metodicamente, e os cabos, tabuleiros, chips, discos e
painis estavam distribudos pelo reluzente piso no que sups eram pilhas
ordenadas.
Com sua elegante camisa de seda e as calas feitas sob medida, Roarke
se achava sentado com as pernas cruzadas no meio delas, introduzindo dados
num carto-registrador. Tinha prendido o cabelo para impedir que lhe casse
sobre os olhos e ostentava uma expresso concentrada, seus olhos azuis
incrivelmente abertos para quela hora da manh.
- J o tenho - murmurou para Feeney- J vi algo parecido antes. Muito
parecido. Est calibrado.  Passou-o carto-registro por baixo do painel inferior
do console- De uma olhada.
Uma mo surgiu de dentro do console e agarrou o aparelho.
- Sim, isto pode servir. Poderia fuder com isso. Beije minha bunda.
- Os irlandeses tm um jeito com as palavras.
Ante o tom seco de Eve, Feeney levantou a cabea inesperadamente.
Tinha o cabelo arrepiado, como se tivesse sofrido uma descarga eltrica ao
tocar o equipamento. Os olhos brilhavam fora de rbita.
- Ei Dallas! Acredito que conseguimos.
- Por qu demorou tanto?
- Muito engraado. - A cabea de Feeney voltou a desaparecer.
Eve lanou um longo e srio olhar para Roarke.
- Um bom dia, tenente.
- Voc no est aqui - contestou ela passando por ele  No o vejo aqui.
O que tem aqui, Feeney?
- H um monte de opes neste beb - comeou ele, e voltou a sair para
acomodar-se na cadeira do console  So variados controles, todos
impressionantes. Mas o que mais trabalho para encontrar, porque estava
escondido sob vrios dispositivos de segurana,  o mel real. Voltou a passar
as mos pelo console, acariciando a lisa superfcie que agora s cobria
entranhas vazias. - O projetista teria feito uma grande carreira no departamento
eletrnico. A maioria dos camaradas que esto sob meu comando no sabem
fazer o que ele fez. A criatividade  indicou com um dedo no est nas
frmulas e nos teclados. A criatividade est no pedao escondido de uma
campo aberto. E este tipo percorreu esse campo.  se fez dono. E isso  que
eu chamo de glria.
Estendeu o registrador em sua direo sabendo que ela no ia gostar de
seu contedo.
- Ento?
- Precisou de alguma percia para chegar at onde queramos. O tinha
ocultado com um passe confidencial, com sua prpria voz e a palma de sua
mo. E sob vrios dispositivos de segurana. Quase nos fundiu a
mente...ficamos uma hora nisso, no , Roarke?
Roarke se ergueu e meteu as mos nos bolsos.
- No duvidei de voc nem por um momento, capito.
- Ao inferno que no duvidou - Feeney sorriu com cumplicidade  Se voc
no rezava suas oraes eu estava. Mesmo assim, no penso em outra
pessoa que me agradaria mais como companhia se tivesse que ir para o
inferno.
- O sentimento  quase mtuo.
- Se ambos terminaram sua pequena mostra de afeto masculino, se
importariam de me explicar o que, demnios, eu devia estar vendo aqui?
-  um scaner. O mais intrincado do que jamais vi aparte durante os
Testes .
- Testes?
Tratava-se de um procedimento que cada tira temia, e que deviam
enfrentar sempre que se viam obrigados a ajustar suas armas para matar.
- Mesmo que tenhamos arquivado os padres das ondas cerebrais de
cada membro do DPSNY, durante os Testes uma varredura  feita. Procurando
as possveis leses, defeitos e anomalias que poderiam t-los levado a utilizar
a fora mxima. Este scaner  comprado com o ltimo realizado, e o indivduo
deve realizar algumas viagens em realidade virtual baseados nessa varredura.
Um assunto desagradvel.
Feeney tinha-o enfrentado uma vez e esperava nunca mais passar pelo
processo.
- E ele conseguiu copiar ou simular esse processo? - perguntou Eve.
- Diria que o melhorou em alguns aspectos. - Feeney fez um gesto para a
pilha de discos - Ali temos variados tipos de padres de ondas cerebrais. No
deve de ser muito difcil compar-los com os das vtimas e identific-las.
Seu padro de ondas devia estar ali, pensou ela. Sua mente comprimida
num disco.
- Fascinante murmurou a si mesma em tom comedido.
- Realmente brilhante. E potencialmente letal. Nosso amigo conta com
uma assombrosa variao de estados de nimo. E esto vinculados a
partituras musicais, sabe...notas e acordes. Ele escolhe a melodia, depois
reala o que chamaria o tom desta para estimular a reao da vtima, digamos
o estado de nimo deste, seus impulsos inconscientes.
- Assim o utiliza para submergir-se no mais profundo recanto de nossas
mentes. No subconsciente.
- H uma variedade de tecnologia mdica com a qual no estou muito
familiarizado, mas diria que  algo assim. Sobretudo no que se refere aos
impulsos sexuais - adicionou Feeney - Essa  a especialidade de nosso
menino. Ainda tenho que examinar um pouco mais, mas diria que pode
programar as ondas cerebrais, fixar o estado de nimo e dar  mente da vtima
um forte empurro.
- Para que pule de um telhado? - exigiu.
- Isso  armadilha, Dallas. Estou falando de sugesto. Claro que se
algum na beira de um telhado disposta a saltar, com isto podes dar-lhe o
ltimo impulso. Mas que seja coagir numa mente para que aja de uma maneira
completamente adversa e completamente fora de seu carter no posso
afirm-lo por enquanto.
- Saltaram, asfixiaram-se e se deixaram sangrar at morrer- recordou
impaciente - Talvez todos ms temos inclinaes suicidas no subconsciente e
isso apenas s faz traze-los a superfcie.
- Voc vai precisar de Mira para lhe dizer isso. No eu. Eu continuarei com
meu trabalho. - Sorriu esperanoso - Depois de tomar caf da manh?
Forou-se a acalmar sua impacincia.
- Depois de tomar caf da manh. Agradeo pela longa noite, Feeney, e
por seu trabalho rpido. Mas precisava do melhor.
- E o tiveste. O sujeito com o que se decidiu se ligar tambm no  nada
mau como tcnico. Faria dele um ajudante decente se decidisse renunciar seu
montono estilo de vida.
- Minha primeira oferta do dia. - Roarke sorriu- J sabe onde fica a
cozinha, Feeney. Pode utilizar o Autochef ou pedir a Summerset que lhe
prepare a comida que quiser.
- Estando onde estou, isso significa ovos de verdade. - Feeney esticou o
pescoo e as articulaes - Quer que eu pea caf da manh para os trs?
- Voc comea - sugeriu Roarke - Ns desceremos em seguida - Esperou
que Feeney sasse assobiando ante a perspectiva de uns ovos Benedict e
crepes de gelia, e se voltou para Eve -: No tem muito tempo, eu sei.
- Tenho bastante se tem algo para me dizer.
- Eu... - Era raro que ele se sentisse inbil. Quase tinha esquecido essa
sensao - O que Feeney acabar de dizer, a respeito da capacidade desse
console. Do fato de que seja pouco provvel que um indivduo seja influenciado
de agir fora de seu carter para fazer algo abominvel.
Viu imediatamente aonde ele queria chegar e quis soltar uma maldio.
- Roarke...
- Deixe-me terminar. Eu fui o homem que fez aquilo com voc ontem 
noite. Fui aquele homem e no faz tanto tempo assim, para que eu tenha
esquecido. Transformou-me em outro homem por que quis. E pude. O dinheiro
ajudou, e certo desejo de... distino. Mas ainda est l. Segue sendo parte de
mim. Ontem  noite o recordei inesperadamente.
- Quer que eu te odeie pela ltima noite? Que eu o culpe?
- No; quero que me compreenda, e tende entender. Venho dessa classe
de homem que a machucou ontem  noite.
- Eu tambm.
Isso o deteve, e lhe fez aflorar lgrimas nos olhos.
- Por Deus, Eve.
- E me assusta. Acordo no meio da noite e me pergunto o que h dele
dentro de mim. Eu vivo com isso a cada minuto do dia. Sabia de onde veio
quando o aceitei, e no me importou. Sei que fez coisas, quebrou leis e viveu 
margem delas. Mas estou aqui. - Eve deixou a respirao sair e mudou o apoio
de seus ps  Amo voc, certo? Isso  tudo. Agora estou com fome, e um dia
muito atarefado me espera, desse modo vou descer antes que Feeney nos
deixe sem ovos.
Ele interrompeu seus passos antes que pudesse se afastar.
- S mais um minuto.  segurou seus rosto entre as mos, abaixou seu
boca at a dela e transformou sua carranca em um suspiro com um beijo que
fez sua pulsao se acelerar e os dedos dos ps se contrarem.
- Bem - conseguiu ela quando ele a soltou - Assim est melhor, suponho.
- Muito melhor. - Ele entrelaou os dedos com os seus. E porque o tinha
utilizado quando a ferira, agora o compensou fazendo-o de novo-: A ghra.
- Como? Outra vez galico?
- . - Levou-se os dedos entrelaados de ambos aos lbios - Meu amor.
- Soa bem.
- Acredito que sim - respondeu ele com um suspiro. Tinha decorrido muito
tempo desde a ltima vez que tinha se permitido ouvir sua musicalidade.
- No deveria deix-lo triste- murmurou.
- No o faz. S me deixa melanclico  lhe apertou a mo amorosamente
 Ficaria encantado de tomar caf da manh com voc, tenente.
- Me convenceu. Tem crepe?
..................................
O problema com os produtos qumicos, pensou Eve enquanto se
preparava para interrogar Jess Barrow, era que no importava quanto seguros,
leves e teis afirmassem ser, sempre lhe davam um falsa sensao. Soube
que no estava naturalmente desperta, que embaixo daquela energia induzida,
seu corpo era uma massa de cansao desesperador.
No parava de imaginar-se levando uma enorme mscara de entusiasmo
sobre seu rosto triste e exausto.
- J est com o traseiro sobre a sela, Peabody? - perguntou a sua auxiliar
quando entrou na despojada sala de paredes brancas.
- Sim, tenente. Li seus relatrios, e passei por seu escritrio quando
estava me dirigindo para c. Tem uma mensagem do comandante, e duas de
Nadine Furst. Acredito que ela est sentindo o cheiro da histria.
- Nadine ter que esperar. E falarei com o comandante em nosso primeiro
descanso. Sabe um pouco de beisebol, Peabody?
- Joguei alguns anos na academia. Luvas de ouro.
- Bem, se aquea. Quando eu lhe lanar a bola, deve intercept-la e
devolver-me. Feeney far sua apario antes do final do primeiro tempo.
Os olhos de Peabody se iluminaram.
- Ei...eu no sabia que era uma entendida em beisebol.
- Tenho muitas facetas ocultas. Limite-se a interceptar a bola, Peabody.
Quero dar-lhe um bom arremesso a esse filho de uma cadela. J leu o relatrio
e conhece o procedimento. - Fez um gesto para que trouxessem o suspeito
para dentro - Vamos cozinh-lo. Se ele chamar um advogado teremos que nos
reorganizar, mas creio que  arrogante demais para tomar esse caminho logo
de incio.
- No geral me agradam os homens arrogantes. Terei que fazer uma
exceo aqui.
- E tem um rosto to atraente - acrescentou e moveu-se para o lado
quando o agente trouxe seu homem - Tudo bem, Jess? Sente-se melhor hoje?
Ele tinha tido tempo para se recompor.
- A mataria sem muito esforo. Mas vou deix-lo continuar porque sei que
antes de terminar ser palhao de seu estpido departamento.
- Sim, encontra-se melhor. Sente-se. - Aproximou-se da pequena mesa e
ligou o gravador - Tenente Dallas, Eve, e a oficial Peabody, Delia, sua auxiliar.
So as 9:08 do 8 de setembro de 2058. Indivduo interrogado Barrow, Jess,
arquivo S-19305. Por favor, diga seu nome para o ata.
- Jess Barrow.
- Comeou bem. Em nosso ltimo interrogatrio voc se informou de seus
direitos e opes como est estipulado, no ?
- Voc falou seu discurso, isso  certo.  E para que tinha servido. Seu
membro doa como um dente cariado, mudou com cuidado sua posio no
assento.
- E compreendeu esses direitos e opes tal como esto estipulados?
- Os entendi e ainda entendo.
- Deseja desta vez, fazer uso de seu direito de solicitar um advogado ou
representante?
- No preciso a ningum aparte de mim mesmo.
- Muito bem. - Eve se sentou, entrelaou as mos e sorriu - Comecemos.
Em sua declarao anterior admitiu ter projetado e utilizado um equipamento
construdo para alterar os padres de conduta e as ondas cerebrais individuais.
- No admiti merda nenhuma.
- Isso  uma questo de interpretao - replicou ela sem deixar de sorrir -
No negar que, no curso de um ato social que teve lugar em minha casa
ontem  noite, utilizou-se de um programa que projetou para influenciar
subliminarmente o indivduo Roarke, verdade?
- Ei, se seu marido tirou-a dali para levantar suas saias,  problema seu.
Eve seguiu sorrindo.
- Certamente que . - Precisava pendur-lo ali, neste ponto, para acus-lo
de todo o resto - Peabody, talvez Jess no esteja inteirado da penalidade por
falso depoimento a oficiais da polcia durante um interrogatrio.
- A pena...- proferiu Peabody calmamente- ...consiste num mximo de
cinco anos encarcerado. Devo passar a gravao do primeiro interrogatrio,
tenente? Pode ser que a memria do civil esteja com problemas devido a
pancada que sofreu quando tentava agredir um policial.
- Agredir? Minha bunda - replicou Jess  Acredita que pode me manipular
desse modo? Ela me golpeou sem que eu a provocasse, e depois deixou que
esse bastardo com que se casou entrasse e...
Interrompeu-se ao recordar a advertncia de Roarke emitida com uma voz
sedosa e suave enquanto a dor, quase insuportvel em sua intensidade,
estendia-se por todo seu organismo.
- Deseja formalizar uma denncia? - perguntou Eve formalmente.
- No - respondeu ele. Mesmo agora, uma gota de suor escorreu por seu
lbio superior e Eve voltou a se perguntar o que Roarke tinha lhe feito - Ontem
 noite estava alterado. As coisas saram um pouco do controle - Respirou
fundo - Escute, sou musico e estou muito orgulhoso de meu trabalho, da arte
que implica. Eu gosto de pensar que posso influenciar as pessoas. Chegar at
o ntimo delas. Pode que este orgulho tenha criado uma impresso equivocada
a respeito do alcance de meu trabalho. Na verdade, no sei qual o motivo tanta
estardalhao.
Sorriu outra vez com uma grande dose de seu encanto habitual ao mesmo
tempo em que alongava suas esbeltas mos.
- Aquelas pessoas sobre o qual falava ontem  noite, no as conheo.
Ouvi falar delas, certamente, mas no as conheo pessoalmente nem tive nada
que ver com suas decises de tirar a prpria vida. Eu mesmo me oponho a
isso. Em minha opinio a vida  curta demais tal e como . Tudo isto  um malentendido,
e estou desejando esquec-lo.
Eve se recostou em sua cadeira e lanou um olhar a seu auxiliar.
- Peabody, ele est desejando esquecer.
-  generoso de sua parte, tenente, e no  surpreendente nestas
circunstncias. A pena por violar o estatuto da intimidade pessoal mediante a
eletrnica  muito severa. E, imagino que  o agravante de ter projetado e
utilizado o equipamento para subliminares individuais. Penso que neste
momento estamos falando de dez anos, no mnimo, atrs das grades.
- No pode provar nada. Nada. No tem argumentos.
- Estou lhe dando a oportunidade de confessar, Jess. Tudo fica mais fcil
quando se confessa. E no que se refere  ocorrncia que meu marido e eu
temos direito em fazer, que conste aqui, que renunciarei a esse direito, com a
condio que voc admita a culpa das acusaes mencionadas, e que essa
admisso chegue em trinta segundos. Pense sobre isso.
- No tenho nada que pensar porque no fiz nada. inclinou-se para frente
- No  a nica que tem costas quentes, tenente. O que acha que vai ocorrer
com sua grande carreira quando a imprensa ficar a par dessa histria?
Ela sustentou seu olhar e observou calmamente o relgio em seu pulso
- A oferta foi negada. - Eve assentiu para a cmara - Peabody, por favor,
decodifique a porta para que entre o capito Feeney.
Feeney entrou com um radiante sorriso. Deixou na mesa um disco e um
dosier, e estendeu a mo A Jess.
- Tenho que lhe dizer que seu trabalho  o melhor que eu j vi.  um
autntico prazer conhece-lo.
- Obrigada. - Jess adotou a atitude que adotava ao tratar com o pblico e
estreitava suas mos calorosamente  Amo meu trabalho.
- Oh... nota-se. - Feeney sentou-se - H anos que no sinto tanto prazer
em desmontar algo como sentir ao faze-lo com o seu console.
Em outro momento, em outro lugar, poderia ter sido cmica a
transformao que sofreu o rosto de Jess: de uma expresso amvel a uma
palidez mortal e a vermelho de ira.
- Voc acabou com meu equipamento? O desmontou? No tinha nenhum
direito de colocar suas mos nele!  um homem morto!Est acabado!
- Que conste na gravao que o interrogado est exaltado - recitou
Peabody brandamente - Suas ameaas contra a pessoa do capito Feeney so
aceitas mais como emocionais do que literais.
- Bem, ao menos desta vez - replicou Feeney alegremente  Porm tem
que ter cuidado, meu amigo. Se comearmos a ouvir demais essas palavras no
registro, nossa tendncia  comear a acreditar. Agora... - Apoiou-se nos
cotovelos - Em fim, falemos do trabalho. Possua um admirvel sistema de
segurana. Demorei um tempinho para cancel-lo. Mas estou nesse jogo a
mais tempo do que a sua idade. Desenhar esse scaner cerebral foi uma
realizao.  to consistente e to delicado ao toque. Eu calibrei sua escala
para dois milmetros. Vamos, isso  muitssimo para um aparelho to pequeno
e porttil.
- No entrou em meu equipamento  a voz de Jess estava trmula - Est
blefando. No conseguiu chegar ao centro.
- Bem, os trs dispositivos de segurana eram complicados - reconheceu
Feeney  Gastei quase uma hora com o segundo, mas o ltimo era superficial.
Suponho que nunca acreditou que precisaria de algo mais no terceiro
dispositivo, no ?
- Revisou os discos, Feeney? - perguntou Eve.
- Comecei. Est nele, Dallas. Roarke no est em nosso arquivo.  um
civil, j sabe. Mas encontrei o seu e o de Peabody.
A oficial piscou.
- O meu?
- E estou pesquisando para ver se aparecem os nomes que me pediu,
Dallas.
- Voltou a dedicar um sorriso radiante a Jess  Tem estado ocupado
colecionando espcimes. Desenhou uma bonita opo de armazenamento,
com uma incrvel capacidade de compresso de dados. Vai me partir o corao
ter que destruir aquele equipamento.
- Voc no pode  a dor e a aflio eram sinceras agora. Seus olhos
lacrimejaram  Pus tudo o que tinha nele. No s dinheiro, seno tempo,
idias, energia. Trs anos de minha vida, dedicados a ele. Deixei minha
carreira de lado para projet-lo. Tem idia do que posso fazer com ele?
Eve rebateu a bola.
- Por que no nos conta, Jess? Com suas prprias palavras. Ficaramos
encantados de saber.
Captulo 17
Jess Barrow comeou a falar lentamente e aos tropeos de seus
experimentos e investigaes, de sua fascinao pela influncia dos estmulos
externos sobre o crebro humano, dos sentidos e a estimulao dos mesmos
por meio da tecnologia.
- Ainda no chegamos sequer a superfcie do que somos capazes de
fazer para obter prazer ou dor  explicou - Isso queria fazer eu. Bater na
superfcie e atingir em seguida o interior. Os sonhos, Dallas. As necessidades,
os medos, as fantasias. Em toda minha vida a msica foi  motivao de...
tudo: a fome, a paixo, a tristeza, a alegria. Quanto mais intenso seria tido se
pudssemos entrar e utilizar realmente a mente para explorar?
- Assim voc trabalhou nela - o instou ela  Devotou-se a isto.
- Trs anos. Mais na realidade, mais trs dedicados exclusivamente ao
projeto, experimentao e aperfeioamento. A cada moeda que tinha o
dedicava a isso. J no me restava praticamente nada. Por isso precisava de
apoio, precisava de vocs.
- E Mavis era seu vnculo comigo, comigo e com Roarke.
- Escute- Jess levantou as mos e esfregou o rosto, depois as deixou cair
sobre a mesa.  Eu gosto de Mavis. Tem a fasca. Certo, eu a teria usado
mesmo que fosse inspida como um andride, mas no  caso. Eu no lhe
machuquei. Ao contrrio disso, lhe dei um empurro para o sucesso. Tinha o
ego estava na sarjeta quando nos encontramos. Oh, claro. Estava indo bem,
mas tinha perdido a confiana em si mesma pelo o que ocorreu antes. Eu
injetei uma grande dose de confiana nela.
- Como?
Ele vacilou e decidiu que, posteriormente, a queda seria pior se
sonegasse informaes agora.
- Est bem. Encorreia suavemente suave utilizando mensagens
subliminares na direo certa. Deveria estar ser agradecida. E trabalhei com
ela, melhorei seu material, poli seu trabalho sem tirar o seu toque pessoal. J a
ouviu. Est melhor do que nunca.
- Experimentou nela  disse Eve, e quis pendur-lo em sua prpria corda
- sem seu conhecimento nem consentimento.
- No foi como se tratasse de uma rata andride. Por Deus, tinha
aperfeioado o sistema. Indicou Feeney com um dedo - Voc sabe que 
perfeito.
-  bonito- concordou Feeney- Mas isso no o faz legal.
- Merda, tambm eram ilegais a engenharia gentica, a fecundao em
vitro e a prostituio. Aonde nos levou tudo isso? Percorremos um longo
caminho, mas seguimos na idade das trevas, homem. Isto  um avano, uma
forma de aproximar a mente dos sonhos e fazer realidade o que sonhamos.
- No todos queremos que nossos sonhos se tornem realidade. O que lhe
dar direito de decidir por outra pessoa?
- Certo - Jess levantou uma mo. - Talvez me entusiasmei demais em
algumas ocasies. Deixei-me levar. Mas tudo o que fiz com voc foi ampliar o
que j estava ali. De maneira que aumentei seu potencial sexual aquela noite
no estdio. Qual foi o dano que lhe fiz? Em outra ocasio dei a sua memria
um pouco de impulsos, abrir algumas fechaduras. Queria ser capaz de
demonstrar o que poderia ser feito, para quando chegasse o momento, eu
poderia me aproximar de voc e Roarke com uma proposta de negcio. E a
ltima noite...
Interrompeu-se, sabendo que tinha calculado muito mal.
- Est bem, ontem  noite fui longe demais. Deixei-me levar pela msica.
O tom era forte demais. Atuar diante um pblico novamente,  como uma
droga. Excita-me. Talvez tenha mergulhado um pouco profundo demais. Foi um
erro bem intencionado. - Tentou sorrir novamente- Olhe, utilizei-o em mim
mesmo dzias de vezes. No tem seqelas, nada permanente. S  uma
alterao temporria do estado de nimo.
- E voc escolhe o estado de nimo?
- Parte. Com uma equipe padro, voc no tem tanto controle, nem a
mesma profundidade de campo. Com o que desenvolvi pode acend-lo e
apag-lo como se fosse uma luz. Desejo ou satisfao sexual, euforia,
melancolia, energia, relaxamento. Escolhe e pronto.
- Como um desejo de morrer?
Jess negou com a cabea.
- Eu no brinco com esse tipo de coisa.
- Mas tudo  um jogo para voc, no? Aperta os botes e a gente se pe
a danar.  o Deus da eletrnica.
- Voc no tem a viso do conjunto - insistiu ele  Sabe quanto essas
pessoas esto disposta apagar para se sentir como quiserem?
Eve abriu o dossier que Feeney tinha trazido e tirou algumas fotografias.
- Que sentiam eles, Jess? - Lanou-lhe as fotos dos quatro cadveres no
depsito  Qual foi  ltima coisa que lhes fizeste sentir para que se matassem
com um sorriso?
Ficou branco como a morte, e seus olhos se puseram vtreos antes que
conseguisse fech-los.
- No. E nenhuma maneira. De jeito nenhum. - Dobrando-se em dois,
vomitou o caf da manh que tinha tomado no centro mdico.
- Que conste em ata que o suspeito se indisps momentaneamente -
disse Peabody secamente - Chamo a manuteno e a um assistente de sade,
tenente?
- Por Deus, sim - murmurou Eve enquanto Jess continuava vomitando -
Interrompe-se o interrogatrio s dez e quarto. Tenente Dallas, Eve.
- Muito crebro, mas o estmago fraco. - Feeney se aproximou da
mquina distribuidora do canto e selecionou um copo de gua  Aqui est
rapaz, tente engolir um pouco disso.
Os olhos de Jess estavam molhados. Seus msculos do estmago
estavam doloridos e a gua tremia em sua mo, de modo que Feeney teve que
auxili-lo a beber.
- No pode me acusar disso - balbuciou.
- Isso  o que vamos ver.  Eve se afastou por que o assistente de sade
acabava de chegar para lev-lo para a enfermaria - Preciso um pouco de ar -
murmurou e saiu.
- Espera, Dallas. - Feeney correu depois dela, deixando a Peabody dirigir
a operao e recolher o dossier - Temos que conversar.
- O mais prximo  meu escritrio. - Eve amaldioou em silncio ao sentir
que o joelho tremia. A bandagem de gelo estava derretendo e precisava ser
substituda. Seus quadris latejavam.
- Vocs se deram em no escritrio de trocas, ontem heim? - Feeney sorriu
compassivamente ao v-la mancar - J a examinaram?
- Mais tarde. No tive tempo ainda. Daremos uma hora a esse idiota de
merda para que coloque seu estmago no lugar, depois voltaremos a golpear.
Ainda no chamou um advogado, mas logo este vai aparecer. Mas ai ento
no vai mais importar que as ondas cerebrais coincidam com as das vtimas.
- Esse  o problema. Sente-se e descansa essa perna  aconselhou-a
enquanto entravam na sala.
-  o joelho. Se eu sentar ficar mais rgido ainda. Qual  o problema? -
perguntou Eve servindo o caf.
- Nada coincide - Feeney a olhou decepcionado quando ela se voltou para
ele - No coincidiu nenhuma, no lote inteiro. Muitas continuam sem identificar,
mas tenho a varredura de todas as vtimas, e no disponho da de Devane, mas
tenho a de sua ltima reviso mdica. No coincidem, Dallas.
Desta vez Eve se sentou pesadamente. No era preciso lhe perguntar se
estava seguro. Feeney era to meticuloso como um andride domstico
procurando poeira dos cantos.
- Certo, temos outros lugares para procurar. Conseguimos uma ordem
judicial para seu estdio e sua casa?
- Uma equipe est l agora. Ainda no recebi o relatrio.
- Poderia ter uma caixa forte ou algo semelhante. - Eve fechou os olhos -
Merda, Feeney, por que ia guard-las depois de terminar com eles?
Provavelmente as destruiu.  arrogante, mas no estpido. Podiam
compromet-lo e ele o sabia.
- H uma possibilidade que ele tenha feito isso. Mas tambm poderia tlas
guardado como recordao. Nunca deixa de surpreender-me o que as
pessoas so capazes de guardar. Lembra-se daquele sujeito que despedaou
a sua mulher o ano passado? Conservou os olhos numa maldita caixa de
msica.
- Sim, lembro-me.  De onde vinha esta dor de cabea?, perguntou-se
Eve, esfregando-se em vo as tmporas para alivi-la - Assim que talvez
tenhamos sorte. Se no, temos outras muitas provas. E uma boa base para
acus-lo.
- Esse  o problema, Dallas. - Feeney se sentou na beirada da mesa e
procurou no bolso um pacote de amndoa gratinadas - No cai bem.
- Como que no? Ns o pegamos.
-  certo, mas no por assassinato. - Pensativo, Feeney mastigou uma
amndoa - No consigo compreend-lo. O homem que projetou esse
equipamento  brilhante, algo retorcido e egocntrico. E o sujeito que
acabamos de interrogar  tudo isso, e podes adicionar infantil. Para ele  um
jogo com o qual pretende fazer uma grande fortuna. Mas assassinato...
- O que acontece  que se apaixonou pelo console dele.
- Certo - reconheceu ele sem envergonhar-se-  um homem fraco, Dallas,
e no s de estmago. Como vai ficar rico matando gente?
Ela arqueou uma sobrancelha.
- Imagino que nunca ouviu falar em assassinos de aluguel?
- Esse rapaz no tem colhais nem para isso. - Comeu outra amndoa- E
onde est o motivo? Tirou a essa gente de um chapu? Alm disso, sua
descoberta requer estar perto para intervir no subconsciente. No pode coloclo
em todos os lugares dos crimes.
- Disse algo sobre possibilidade de controle remoto.
- Sim, tinha um muito bom, mas no se selecionou essa opo. No que
eu tenha percebido.
Eve se recostou em seu assento.
- Voc no veio aqui fazer meu dia, Feeney.
- Eu queria que pensasse um pouco, Dallas. Se ele est envolvido nisso,
tem uma ajudante ou um outro equipamento porttil.
- Poderia adaptar-se a culos de realidade virtual? - A idia o intrigou e fez
que seus olhos abatidos brilhassem.
- No posso falar com segurana. Encontrarei tempo para averigu-lo.
- Espero que o encontre.  a nica coisa que temos, Feeney. Se no
consigo demonstrar nada, sair impune dos assassinatos. Encerr-lo dez a
vinte anos na priso no so o bastante para mim replicou - Pedir um exame
psicolgico e far o que seja para sair do atoleiro. Talvez Mira saiba mant-lo
l.
- Deixe que ela fale com ele depois desse descanso - sugeriu Feeney -
Deixa que ela fique algumas horas com ele, e v se faz um favor a si mesma e
vai para casa descansar um pouco. Se continuar assim vai desmaiar a
qualquer momento.
- Pode que o faa. Por enquanto falarei com Whitney. Algumas horas
livres talvez arejem minha mente. Devo ter deixado algo passar.
....................................
Por uma vez Summerset no estava a espreita. Eve entrou na casa furtiva
como um ladro e subiu as escadas mancando. Deixou atrs de si um rastro de
roupas ao encaminhar-se ao dormitrio, mirou na cama e suspirou de prazer ao
deixar o corpo cair.
Dez minutos mais tarde jazia de costas, olhando o teto. A dor era intenso,
pensou de mau humor. Mas o efeito do estimulante que tinha tomado horas
atrs no tinha terminado. Estava passando, deixando-a mareada de cansao,
enquanto seu organismo seguia transbordante de energia.
Era incapaz de conciliar o sonho.
Encontrou-se separando as peas do quebra-cabea para a seguida
voltar a uni-las. Cada vez formava uma figura diferente at converte-la numa
confusa miscelnea de fatos e teorias.
A esse passo no falaria com muita coerncia quando se reunisse com
Mira. Considerou tomar um longo banho quente em vez de dormir. Inspirada,
levantou-se e agarrou um roupo. Tomou o elevador com a finalidade de evitar
Summerset, e baixou no andar inferior onde se achava o trajeto para o jardim
que a conduzia at o solrio. Uma sesso na piscina seria a soluo, decidiu.
Atirou ao cho o roupo e se aproximou nua da gua escura contida por
um muro de pedra autntica e rodeada de flores perfumadas. Quando
submergiu um p dentro da gua esta lhe pareceu agradavelmente quente.
Sentou-se no primeiro degrau e ajustou o painel para jorros e borbulhas.
Quanto o gua comeou a agitar-se programou a msica. Com uma careta,
decidiu que no estava com humor para melodias.
Ao princpio se limitou a boiar, agradecendo que no tivesse ningum por
perto para ouvi-la choramingar quando os jorros de gua atuavam em seus
msculos doloridos. Deixou-se respirar. Perfume floral. Deixou-se flutuar.
Prazeres singelos.
O conflito entre a fadiga e o estimulante se equilibrou quando o
relaxamento chegou. As drogas eram excessivamente supervalorizadas,
decidiu Eva. O gua fazia maravilhas.Virou-se preguiosamente e comeou a
nadar, devagar a princpio, enquanto os msculos se aqueciam. Depois ps
mais energia, esperando livrar-se do excesso do estimulante e reanimar-se
com o exerccio.
Quando soou o relgio automtico e o gua se acalmou, ela continuou
dando longas e constantes braadas, submergindo-se at quase roar o
brilhante fundo negro, at que se sentiu como um embrio num tero e saiu 
superfcie com um gemido alto e satisfeito.
- Nada como um peixe.
O instinto fez que Eve estendesse sua mos em busca da arma que
levava mas encontrou apenas suas prprias costelas despidas. Apressou-se
em secar os olhos e focalizou Reeanna.
-  um clich, mas em seu caso  verdadeiro. - Aproximou-se da borda da
piscina. Depois chutou os sapatos, sentou-se e submergiu as pernas na gua 
Importa-se?
- Fique a vontade. - Eve no se considerava uma puritana, mas submergiu
um pouco mais. Odiava que a surpreendessem nua - Procurava Roarke?
- No. Na verdade no. Acabo de deix-los. Ele e William subiram para
seu escritrio. Eu tenho hora no salo.  Balanou os fabulosos cachos
vermelhos e reluzentes. Tenho que fazer algo com esta mata de cabelo.
Summerset comentou que estava aqui embaixo, e pensei em lhe dar um oi.
Summerset. Eve sorriu divertida. Ento ele a tinha visto.
- Tinha algumas horas livres. Pensei em tirar vantagens delas.
- E que lugar maravilhoso para faze-lo. Roarke tem uma classe
surpreendente, no?
- Sim. Pode-se dizer que sim.
- Queria para aqui um momento apenas para lhe dizer o quanto apreciei a
noite passada. No tive tempo para conversar com voc, tal a multido. E
depois voc foi requerida.
- Os policiais so uma negao no trato social.- Eve comentou. Queria
saber como sairia dali e recuperaria seu roupo sem se sentir uma idiota.
Reeanna estendeu a mo at afund-la na gua e depois a recolheu
deixando que o lquido quente escorresse entre seus dedos.
- Espero que no tenha sido nada... desagradvel.
- No morreu ningum, se  a isso que se refere  Ela mesma era
pssima no trato social, mas obrigou-se a sorrir e fazer um esforo  Na
verdade tivemos um golpe de sorte no caso que estou investigando. Ns
detivemos um suspeito.
- Isso  bom. - Reeanna inclinou a cabea com expresso intrigada- Se
refere ao suicdios que discutimos em outra ocasio?
- No estou autorizada a responder.
Reeanna sorriu.
- Conversa de policial. Bem. Deu modo ou de outro eu tenho pensado
muito sobre isso. Seu caso, ou o que quer que voc o chame, seria um artigo
fascinante. Tenho estado to absorta em temas tecnolgicos que no tenho
escrito nada. Espero discutir o assunto com voc uma vez que o solucione e
divulgue.
- Faremos isso, se resolv-lo - respondeu Eve cedendo um pouco. Essa
mulher era uma perita, apesar de tudo e podia ajud-la  Pois neste momento
ele est sendo avaliado pela doutora Mira. J fez alguma vez avaliao de
comportamento e personalidade?
- Certamente. Mas de uma ngulo diferente de Mira. Poderia dizer-se que
somos dois lados de uma mesma moeda. Nosso diagnstico final com
freqncia seria o mesmo, mas utilizaramos um mtodo diferente e um ponto
de vista diferente.
-  possvel que precise dois pontos de vista antes de que termine este
assunto - murmurou Eve, medindo-a com o olhar - No tem por acaso
autorizao para se envolver em um assunto confidencial?
- Por coincidncia tenho sim. - Reeanna continuava balanando as pernas
lentamente, mas tinha uma expresso alerta e interessada em seus olhos-
Nvel quatro, classe B.
- Quase. Se lhe desse o caso, o que acharia de trabalhar para sua cidade
com o cargo de assessora temporria? Posso garantir muitas horas de
trabalho, ms condies e pssimo salrio.
- Quem poderia declinar uma oferta assim? - Reeanna riu jogando o
cabelo para trs  Na verdade, eu ficaria encantada com a oportunidade de
novamente trabalhar com pacientes. Fico tempo demais encerrada em
laboratrios, trabalhando com mquinas. Willian adora, j percebeu, mas eu
preciso de pessoas.
- Pois  possvel que eu lhe chame - concluiu Eve. E decidindo que era
mais estpido permanecer na gua do que sair com naturalidade, levantou-se.
- J sabe onde me encontrar... Por Deus, Eve! O que aconteceu? -
Reeanna ficou de p imediatamente.
- Ossos do ofcio.- pegou uma das toalhas amontoadas prxima do borda
e estava se envolvendo nela quando Reeanna a arrebatou.
- Deixe-me dar uma olhada em voc. No foi tratada  seus dedos
sondaram o quadril de Eve. - Voc est negra e azul.
- Ei, voc se importa?
- Sim. - Impaciente, Reeanna levantou o olhar - Oh, fique quieta. No s
sou mulher e conheo pessoalmente o corpo feminino, como tambm tenho um
diploma em medicina. O que colocou no joelho? Tem um pssimo aspecto.
- Uma bandagem de gelo. Est melhor.
- Pois eu odiaria t-lo visto quando no estava. Por que no foi ao centro
mdico ou a um posto de assistncia?
- Porque os odeio. E no tinha tempo.
- Bem voc tem tempo agora. Quero encontr-la de barriga para baixo em
uma mesa de massagem. Irei ao carro pegar minha valise de emergncia e
cuidarei eu mesma disso.
- Escuta, eu lhe agradeo- teve que levantar a voz porque Reeanna j se
afastava- Mas so apenas contuses.
- Ser sorte se no estilhaou um osso nesse quadril. - Com esse sombrio
vaticnio, Reeanna entrou no elevador e as portas se fecharam.
- Oh, agradeo. Sinto-me bem melhor agora.
Resignada, Eve despiu a toalha, colocou o roupo e se aproximou de m
vontade da mesa acolchoada situada embaixo de uma prgula cheia de
glicnias em flor. Mal tinha instalado quando Reeanna voltou, seus passos
ecoando sobre o piso e com uma valise de couro puro nas mos.
Essa mulher sabia atuar, pensou Eve.
- Pensei que tinha hora na cabeleireira.
- Telefonei para que me mudem. Deite-se, me ocuparei primeiro do joelho.
- Cobra extra pelas visitas a domiclio?
Reeanna sorriu ligeiramente enquanto abria a valise. Eve deu uma olhada
distrada para o interior da maleta e voltou a cabea. Por Deus, odiava a
medicina.
- Esta  grtis. Considera-a uma prtica. Faz quase dois anos que no
trabalho em seres humanos.
- Isso  algo que inspira confiana. - Eve fechou os olhos quando
Reeanna tirou um miniscaner e lhe examinou o joelho - Por qu deixou a
medicina humana?
- Hummm. No est quebrado, isso j  algo. Um pouco torcido e
inflamado. Por qu?  devolveu o aparelho para a valise  Pea a Roarke a
razo. Fez a Willian e a mim uma oferta que no podamos recusar. O dinheiro
era sedutor, e Roarke sabe que teclas tocar.
Eve deixou o ar escapar entre os dentes enquanto algo frio era
pressionado contra seu joelho.
- Voc est dizendo isso para mim?
- Ele estava ciente que eu me interessava, h um bom tempo, por padres
de comportamento e nos efeitos da estimulao. A oportunidade de criar nova
tecnologia, trabalhando com fundos literalmente ilimitados era tentadora
demais para deix-la escapar. A vaidade no podia resistir a oportunidade de
participar de algo novo, e com o respaldo de Roarke sem dvida ia ser um
sucesso.
Fechar os olhos tinha sido um erro, Eve decidiu. Estava comeando a
boiar. As palpitaes nos quadris se atenuaram. Sentiu os dedos delicados de
Reeanna espalharem algo frio e macio sobre ele. Se ombro recebeu o mesmo
tratamento. A ausncia de dor agia como um tranqilizante e a levou ainda
mais profundamente.
- Ao que parece nunca fracassa.
- No, ao menos desde que o conheo.
- Tenho uma reunio dentro de duas horas - se apressou a dizer Eve.
- Descansa primeiro. - Reeanna retirou a compressa de seu joelho e ficou
satisfeita ao perceber que o inchao tinha diminudo - Vou aplicar outra
bandagem ultracicatrizante, e depois uma de gelo para finalizar.  provvel que
continue sentindo-o um pouco duro depois de uma caminhada mais
prolongada. Aconselho a cuidar desse joelho com carinho nos prximos dois
dias.
- Claro. Carinho.
- Tudo isto aconteceu ontem  noite, enquanto corria atrs de seu
suspeito?
- No, antes. Ele no me deu problemas. Era um grande bastardo. - Eve
enrugou as sobrancelhas - No consigo achar provas contra ele.
- Estou segura de que o far  a voz de Reeanna era tranqilizadora pois
continuava com o tratamento -  rigorosa e se envolve nos casos. Assisti voc
em um dos canais de notcias. No telhado com Cerise Devane, arriscando a
vida.
- A perdi.
- Eu sei. - Reeanna untou as contuses com um creme anestesiante - Foi
horrvel. Visualmente chocante. E mais ainda para voc, imagino. Tinha que
ver seu rosto e seus olhos quando ela saltou.
- Ela estava sorrindo.
- Percebi.
- Queria morrer.
-  no que acredita?
- Disse que era magnfico. A experincia final.
Satisfeita por ter feito tudo que poderia, Reeanna escolheu outra toalha e
a estendeu sobre Eve.
- H alguns que acreditam nisso. Consideram a morte como a experincia
humana suprema. No importa quo avanada estejam a medicina e a
tecnologia, ningum pode escapar dela. E dado que estamos destinados a
morrer, por que no ver a morte como um objetivo em lugar de um obstculo?
- Somos chamados para lutar. Cada trecho sangrento do caminho
- Nem todo mundo tem a energia ou a necessidade de lutar. Alguns a
aceitam calmamente. - Reeanna pegou sua mo e lhe tomou o pulso - Outros
vo mais resistentemente. Mas todos vo.
- Algum a incitou. E isso o converte em um assassinato. E ai eu entro.
- Sim, suponho que sim. Dorme um pouco. Direi a Summerset para
acord-la a tempo para a reunio.
- Obrigada.
- No  nada. - Reeanna lhe tocou o ombro - Entre amigas.
Estudou Eve por algum tempo, depois deu uma olhada a seu relgio com
incrustado de diamantes.Teria que correr para chegar a tempo no salo, mas
havia um pequeno detalhe para resolver antes,
Guardou o equipamento e depois de deixar na mesa um tubo de creme
anestesiante, apressou-se a sair.
Captulo 18
Andava pelo tapete macio do escritrio elegantemente decorado da
doutora Mira com as mos nos bolsos e a cabea baixa como um touro pronto
para investir.
- No o entendo. Como  possvel que no coincida seu perfil? Posso
encerr-lo por acusaes menos graves. Esse bastardo tem jogado com os
crebros de outras pessoas, sentido prazer com isso.
- No se trata de coincidncias, Eve, sim de probabilidades.
Paciente e com expresso serena, Mira se achava sentada em sua
confortvel poltrona adaptvel ao corpo, bebendo um ch ao jasmim. Precisava
daquilo, murmurou para si mesma. O ambiente estava carregado demais da
frustrao e energia que emanavam de Eve.
 Voc tem sua confisso e provas de que ele experimentou introduzir
influncias por meio de ondas cerebrais individualizadas. E eu concordo que
tem muitas perguntas a responder. Mas no que se refere  acusao de
coao ao suicdio, no posso colaborar de um modo decisivo em sua
suspeita, de acordo com minha avaliao.
- Bem, isso  estupendo. - Eve se voltou. O tratamento de Reeanna e um
cochilo de uma hora a tinham restaurado. Tinha a face rosada e os olhos
brilhantes - Sem sua colaborao Whitney no engolir o assunto, o que
significa que o promotor tambm no o far.
- No posso ajustar meu relatrio a seu gosto, Eve.
- Quem pediu que o fizesse? - levantou as mos, depois voltou a met-las
nos bolsos  Por que no se encaixa, pelo amor de Deus? Esse homem
acredita que  Deus e at uma pessoa cega, antes de uma cirurgia de
recuperao de viso, pode perceber isso.
- Concordo que sua personalidade se inclina para um excesso de amor
prprio e que seu temperamento recorda a de um artista atormentado. - Mira
suspirou - Eu gostaria que voc se sentasse. Voc est me cansando.
Eve se estendeu numa cadeira e franziu o cenho.
- J estou sentada. Explique-se.
Mira no pde evitar o sorriso. A incrvel energia e infinita capacidade de
concentrao de Eve eram admirveis.
- Sabe, Eve, posso nunca conseguir explicar por que a impacincia  to
atraente em voc. E como, com to elevada dose dela, continua sendo
meticulosa em seu trabalho.
- No estou aqui para que me analise, doutora.
- Eu sei. S gostaria de convence-la de assistir a sesses regulares. Mas
este  outro assunto que deixaremos para outra hora. J tem meu relatrio,
mas para resumir minhas concluses, o sujeito  um homem egocntrico, que
se congratula a si mesmo e costuma explicar seu comportamento anti-social
como uma arte. Tambm  brilhante. - A doutora suspirou levemente, depois
mexeu a cabea - Tem uma mente realmente ativa.  quase um super dotado
segundo os clssicos testes de Trislow e Secour.
- Alegro-me por ele.  Eve murmurou  Deixe-nos por seu crebro num
disco e submete-lo a vrias sesses de sugesto.
- Sua reao  compreensvel - respondeu Mira suavemente - A natureza
humana se resiste a qualquer classe de controle da mente. Os viciados
geralmente enganam a si mesmo dizendo que esto no controle. - Encolheu os
ombros - Em todo caso, o sujeito tem uma admirvel e inclusive assombrosa
aptido para a visualizao e a lgica. Tambm  muito consciente e
convencido, por assim dizer, de sua aptido. Sob sua aparncia encantadora ,
utilizando um termo no cientfico, um idiota. Mas no posso em conscincia
catalog-lo de assassino.
- No estou preocupada com sua conscincia - replicou Eve apertando os
dentes -  capaz de desenhar e fazer funcionar um equipamento que pode
influenciar no comportamento de outras pessoas. Eu tenho quatro mortos que
eu acredito, perdo, sei que foram influenciados para o suicdio.
- E, logicamente, deve haver uma conexo. - Mira se recostou, estendeu a
mo e programou um ch para Eve  Mas voc no prendeu um sciopata,
Eve.  Passou para Eve uma fragrante e fumegante xcara que ambas sabiam
que ela no queria - At esta data no existe uma razo clara para essas
mortes, e se foram realmente compelidas, em minha opinio o responsvel 
um sujeito anti-social.
- Assim o que o diferencia?
- Ele gosta de pessoas - explicou Mira  E quer, desesperadamente e
completamente, ser adorado por eles.  manipulador,  verdade, mas ele
acredita que fez uma grande descoberta para a humanidade. E quer se
beneficiar disso, certamente.
- Quer dizer que talvez ele apenas se deixou levar? - No era como ele
tinha explicado ao refere-se ao uso do console em Roarke na noite anterior.
perguntou-se. Tinha apenas se deixado levar - E talvez no controle tanto seu
equipamento quanto pensa.
-  possvel. Por outra parte, Jess aprecia seu trabalho e precisa ver os
resultados dele. Seu ego requer que veja e experimente ao menos parte do
que criou.
Ele no estava no maldito armrio conosco, pensou Eve, mas temeu ter
compreendido o que Mira queria dizer: o modo como Jess a tinha procurado
com o olhar quando voltara para a festa, seu jeito de sorrir. - Isso no  o que
quero ouvir.
- Eu sei - Mira deixou a xcara a um lado - Escuta-me, esse homem  um
menino, um sbio emocionalmente atrofiado. Sua viso e sua msica so mais
reais e mais importantes, para ele, do que as pessoas, mas no descarta a
humanidade. Em uma palavra, no encontro nenhuma evidncia que arriscaria
sua liberdade de expresso para matar.
Eve bebeu um gole de ch, mas por reflexo do que por vontade.
- E se tivesse um scio? - especulou, recordando a teoria de Feeney.
-  possvel. No  um homem que compartilharia alegremente seus
lucros, mas sente uma grande necessidade de adulao e de sucesso
financeiro. Pode ser que, em um ponto determinado do projeto tivesse
necessitado de auxlio e tenha procurado um scio.
- Ento por que no confessou?  agitou a cabea -  um covarde; o teria
delatado. No teria carregado sozinho a culpa. - Voltou a beber uma poro do
ch, deixando seus pensamentos flurem - E se estivesse geneticamente
marcado para uma conduta sociopatolgica?  inteligente, e bastante astuto
para mascar-la, mas  s parte de sua maquiagem.
- Marcado ao nascer? - quase bufou - No assino tal hiptese. A famlia,
o meio ambiente, a educao, as escolhas tanto morais como imorais que
tomamos nos convertem no que somos. No nascemos monstros ou santos.
- Mas h experientes que acreditam que sim. - E tinha uma a sua
disposio, Eve murmurou ara si mesma.
Mira leu-lhe to facilmente o pensamento que no pde evitar se sentir
atingida em seu orgulho.
- Se deseja consultar a doutora Ott sobre esse assunto,  livre de faz-lo.
Estou segura que ela ficaria excitada coma possibilidade.
Eve no sabia se fazia uma careta ou sorria. Mira raramente falava com
irritao.
- No era minha inteno insultar suas habilidades, doutora. Mas preciso
de algo com que golpear, e voc no pode fornece-lo.
- Deixa-me dizer o que penso sobre o fato de sermos codificados ao
nascimento, tenente. Acredito que  uma forma simples de conceituar algo
complexo. Uma muleta. No consegui evitar incendiar aquele edifcio onde 100
pessoas morreram queimadas. Concluso: nasci piromanaco. No pude evitar
matar a pauladas aquela anci por um punhado de crditos. Concluso: minha
me era ladra.
A deixava furiosa imaginar que poderia ser usado esse argumento para se
justificar um crime e simplesmente fugir das responsabilidades, alm de deixar
marcado para sempre uma pessoa que no tinha culpa de ter nascido de um
monstro.
- Essa teoria nos exime de humanidade, de moralidade  continuou - de
distinguir o bem do mal. Permite-nos dizer que fomos marcados no tero
materno e nunca teremos uma oportunidade.  negou com a cabea - E voc
deveria sab-lo melhor do que ningum.
Eve deixou a xcara com brusquido.
- No estamos falando de mim.- apertou seu copo de encontro 
superfcie da mesa - No estamos falando sobre de onde vim ou em que me
transformei, e sim de quatro pessoas que, estou ciente, no tiveram uma
escolha. E algum tem que responder por isso.
- Uma coisa - adicionou Olha quando Eve se levantou  Voc tem se
concentrado nesse sujeito pelos insultos que fez a voc e aqueles que voc
ama, ou pelos mortos a que representa?
- Talvez por ambos - admitiu Eve aps um momento.
...............................
No contatou Reeanna em seguida. No ainda. Queria um pouco de
tempo para deix-lo repousar na mente. E se viu obrigada repensar o assunto
ao encontrar a Nadine Furst em seu escritrio.
- Como passou pelos dispositivos de segurana?
- Oh, tenho meus mtodos. - Nadine balanou a perna e lhe dedicou um
sorriso amistoso - E a maioria dos policiais daqui sabem que voc e eu nos
conhecemos a um longo tempo.
- O que quer?
- No diria no a um caf.
De m vontade, Eve virou-se para o Autochef e ordenou duas xcaras.
- Seja breve, Nadine. O crime est se espalhando por esta cidade.
- E isso nos mantm ns duas ocupadas. O que lhe fez sair ontem  noite,
Dallas?
- Desculpe-me?
- Vamos, eu estava na festa. Mavis esteve incrvel, com certeza. Primeiro
voc e Roarke desaparecem. - bebeu um gole com delicadeza - No  preciso
ser uma reprter esperta como eu para imaginar do que se trata.  Uniu as
sobrancelhas e soltou uma risada leve ao ver que Eve a olhava fixamente -
Mas sua vida sexual no  notcia, no na minha rea.
- Estvamos ficando sem croquetes de camares, desse modo descemos
at a cozinha e fizemos mais. Seria constrangedor.
- Claro, claro. - Nadine fez um gesto com a mo e se concentrou no caf.
Nem nos mais altos degraus do canal 75 raras vezes se tinha acesso a to
poderosa bebida - Ento percebi, sendo a observadora que sou, que ao fim do
nmero levou Jess Barrow dali. E no voltou mais. Nenhum dos dois.
- Estamos tendo um caso ilcito - respondeu Eve secamente  E  livre
para notici-lo na seo de fofocas.
- E eu estou me envolvendo com um andride sexual de um s brao.
- Sempre gostou de explorar.
- Na verdade eu experimentei uma vez...mas estamos nos afastando do
tema. Roarke, com seu estilo encantador, conseguiu guiar os convidados
retardatrios e os conduzir at a sala de recreao, com um grande
equipamento de holograma, certamente, e nos comunicou seu pesar. Uma
chamada do dever?  Inclinou a cabea - Que interessante. Nada consta no
meu scaner policial, pelo menos nada que tiraria nossa brilhante detetive de
homicdios as altas horas da noite de uma festa.
- Em seu scaner no aparece tudo, Nadine. E eu sou um soldado. Vou
quando e a onde me mandam.
- Conte outra. Sei o quanto gosta de Mavis. Apenas lago grande teria feito
voc perder o seu grande momento - Inclinou-se para frente - Onde est Jess
Barrow, Dallas? E que, inferno ele fez?
- No tenho nada para lhe dizer, Nadine.
- Vamos, Dallas, j me conhece. Guardarei para mim at que me d a luz
verde. Quem ele matou?
- Troque a disco  Eve recomendou. Depois tirou seu comunicador
quando este soou - S visualizar, desconectar udio.
Leu a transmisso de Peabody, e pediu usando o teclado que se
reunissem, incluindo Feeney, em vinte minutos. Deixou o comunicador na
escrivaninha e se voltou para o Autochef para ver se tinha batatas de soja.
Precisava comer algo para contrabalanar a cafena.
- Tenho trabalho, Nadine - disse, depois de descobrir que no tinha nada
salvo um sanduche de ovo irradiado - E nada para aumentar seu ndice de
audincia.
- Voc est ocultando algo de mim. Sei que Jess est sob custdia. Tenho
informantes em Detenes.
Aborrecida, Eve se voltou. Em Detenes sempre tinha filtragens.
- No posso ajudar.
- Do que vai acus-lo?
- As acusaes ainda no podem ser divulgadas.
- Maldita seja, Dallas.
- Eu estou na beira de um precipcio aqui - replicou Eve -. Posso cair em
qualquer direo nesse momento.No me empurre. E quando eu estiver
autorizada para falar com os meios de comunicao, voc ser a primeira a
saber, certo? Vai ter que se conformar com isso.
- No diga que tenho que me conformar com nada. - Nadine se ps de p
 Voc deve estar trabalhando com algo grande, ou no estaria to alterada
assim. Estou pedindo somente... - Interrompeu-se quando Mavis se atirou para
dentro do escritrio.
- Por Deus, Dallas, como pode prender Jess? O que pensa que est
fazendo?
- Maldita seja, Mavis. - Eve podia perceber as orelhas de Nadine se
tornando mais longas e mais afiadas- Sente-se- ordenou apontando a cadeira
com um dedo e virou-se para Nadine  Voc, fora daqui.
- Tenha compaixo, Dallas. - Nadine uniu-se a Mavis - No percebe que
ela est alterada? Deixe-me trazer-lhe um caf, Mavis.
- Eu disse: fora daqui, e falo srio. - Eve passou a mo pelo rosto no limite
de sua pacincia  Retire-se daqui, Nadine, ou a colocarei na lista negra.
Aquela ameaa teve o efeito desejado. Estar na lista negra da informao
significava no ter um s policial na brigada de homicdios que informasse a
Nadine a hora correta, e muito menos os protagonista de uma notcia.
- Certo. Tudo bem. Mas eu no esquecer esse assunto  Havia outras
maneiras de escavar, pensou, e outros mtodos.
Arrematou a bolsa de cima da mesa e depois de lanar um olhar
fulminante para Eve saiu.
- Como pode? - perguntou Mavis - Dallas, como pode fazer isso comigo?
Para assegurar certa privacidade Eve fechou a porta. A dor de cabea
tinha traado um crculo completo e agora latejava atrs de seus olhos.
-  meu trabalho.
- Seu trabalho?  seus olhos eram azul laser aquele dia, e vermelhos de
tanto chorar. Era tocante a maneira que se contrastavam com as mechas azul
cobalto de seu cabelo vermelho - E a minha carreira? Quando finalmente
chega a oportunidade que eu estava esperando e pela qual trabalhei duro,
voc coloca meu scio atrs das grades? E por que?  sua voz estremeceu 
Por que se ensinou para voc e isso aborrece Roarke?
- Que? - Eve abriu a boca e fez um esforo por articular as palavras -: De
onde, demnio, tirou essa idia?
- Acabo de falar com ele. Est destroado. No posso acreditar que tenha
feito isso, Dallas. - Comeou a chorar aos berros novamente - Sei que para
voc a prioridade  Roarke, mas nos conhecemos h muito tempo.
Nesse momento, com Mavis chorando ruidosamente, Eve teria
estrangulado alegremente Jess Barrow.
- Sim, faz muito tempo que nos conhecemos, e deveria saber que no
brincando. No detenho ningum s por um desentendimento pessoal. Por que
no se senta?
- No quer sentar!- lamentou Mavis.
Eve fez uma careta de dor quando o som penetrou em seu crebro como
a ponta de uma faca.
- Pois eu sim.  deixou-se cair na cadeira. Quanto podia contar a um civil
sem cruzar a linha? E at que ponto dessa linha estava disposta a chegar?
Voltou a olhar a Mavis e suspirou. Quanto fosse necessrio - Jess  o principal
suspeito de quatro mortes.
- Como? O que aconteceu com voc ontem  noite? Jess jamais...
- Basta - replicou Eve - Ainda no tenho provas, mas estou trabalhando
nisso. No entanto tenho outras acusaes, e srias. Agora, se para de
choramingar e se sentar eu explicarei tudo.
- Nem sequer ficou at o final da apresentao. - Mavis deixou-se cair em
uma cadeira, mas no deixou de seguir resmungando.
- Oh, Mavis. Sinto muito.  estendeu uma mo atravs de seus cabelos.
Era pssima para consolar as pessoas. - No pude... no havia nada que eu
pudesse fazer, Mavis. Jess est envolvido no controle da mente.
- O que? - Era uma afirmao to fora da realidade vindo da pessoa mais
sensata que conhecia, que Mavis deixou de chorar e fungou o nariz,
boquiaberta.
- Desenvolveu um programa para ter acesso ao padro das ondas
cerebrais e influenciar no comportamento das pessoas. E o utilizou em mim,
em Roarke e em voc.
- Em mim? No..no. Voc est enganada.  muito Frankenstein para
meu gosto. Jess no  um cientista louco.  um msico.
-  engenheiro e musiclogo, mas tambm  um bastardo.
Eve respirou fundo, depois lhe explicou mais do que acreditava ser
necessrio. As lagrimas de Mavis secaram e seu olhar se tornou duro. Seus
lbios tremeram uma vez mais.
Usou-me para chegar at Roarke e voc. Fui apenas um trampolim. Ento
uma vez que conseguiu. Fudeu com a mente de vocs.
- No foi culpa sua. Pare com isso- ordenou Eve quando os olhos de
Mavis comearam a brilhar novamente  Falo srio. Estou muito cansada e
minha cabea parece que vai estourar a qualquer momento. A ltima coisa que
preciso agora  de suas lgrimas. No foi culpa sua. Utilizou-a e fez o mesmo
comigo. Esperava que Roarke apoiasse seu projeto. Isso no me faz menos
polcia e nem a voc menos artista. Voc  boa e ser ainda melhor. Sabia do
que voc era capaz e por isso a usou.  arrogante demais em relao ao seu
prprio talento para se ligar a uma intil. Queria algum que poderia brilhar.
Voc.
Mavis esfregou a mo sob seu nariz.
- Est falando srio? - disse com uma esperana to tmida em sua voz
que a fez perceber como seu ego tinha estado ferido.
- Claro. Voc  genial, Mavis. Voc  grande. Isso  uma certeza.
- Est bem. - secou-se os olhos - Suponho que meus sentimentos tenha
sido feridos pelo fato de voc no ter ficado at o fim. Leonardo me chamou de
tonta por isso. Que voc no teria ido embora se no precisasse.  respirou
fundo erguendo os ombros magros, mas em seguida os deixou cair novamente
- Ento Jess me chamou e me soltou todo esse conto. No devia ter
acreditado.
- No importa. Resolveremos tudo mais tarde. Tenho muito que fazer,
Mavis. No tenho tempo que perder.
- Acha que ele matou pessoas?
- Isso  o que tenho que averiguar. - Eve se voltou ao ouvir as batidas em
sua porta.
Peabody entrou vacilante.
- Desculpe-me, tenente. Espero fora?
- No, j estou saindo - Mavis fungou mais uma vez, levantou-se e sorriu
com tristeza  Sinto muito pelo mar de lgrimas e tudo o mais.
- J est esquecido. A chamarei quando tido estiver resolvido. No se
preocupe por nada.
Mavis assentiu, e baixou as plpebras para ocultar o fogo que jogava
pelos olhos. Pretendia fazer algo mais do que se preocupar.
- Tudo bem por aqui, tenente? - perguntou Peabody quanto Mavis as
deixou sozinhas.
- Na verdade, Peabody, tudo est um maldito inferno - Eve sentou-se e
esfregou os dedos contra as tmporas para aliviar a dor  Mira no acredita
que nosso suspeito tenha o perfil do assassino e a insultei por que disse que
iria trazer outra perita no assunto para a avaliao. Nadine Furst est chegando
muito perto do nosso caso e, alm disso, parti o corao de Mavis e deixei seu
ego ali no cho.
Peabody esperou uns instantes.
- Bem, aparte disso, como vo as coisas.
- timas - Eve sorriu - Maldio, prefiro mil vezes um bonito e claro
assassinato que esta porcaria psicolgica.
- Esses eram bons tempos. -Peabody de um passo para o lado e Feeney
entrou - Bem, a banda j est completa.
- Ento comecemos a trabalhar. O que temos? - perguntou Eve a Feeney.
- A equipe de procura de provas encontrou mais discos no estdio do
suspeito, mas at as datas no correspondem s vtimas. Mantm um registro
de seu trabalho - Incomodado, Feeney mudou de posio. Jess tinha sido
muito explcito ao especular sobre os resultados, incluindo o impulso sexual
que tinha dado a Eve e Roarke - Anotava nomes, horas, ah, e as sugestes.
No h nenhuma meno dos quatro mortos. Revisei seus sistemas de
comunicaes. No h nenhuma transmisso para as vtimas e nem delas para
ele.
- Bem, isso  fabuloso.
Feeney voltou a mudar de posio e seu rosto comeou a adquirir um tom
vermelho.
- Selei o registro dos trabalhos apenas para voc averiguar.
Ela franziu o cenho.
- Porqu?
- Bem... fala muito de voc. A nvel pessoal. Fixou o olhar alm da cabea
de Eve  Novamente, ele  muito explcito em suas especulaes.
- Certo, deixou claro que estava bem interessado em minha mente.
- No estava interessado apenas nesta parte de sua anatomia. - Feeney
deixou a respirao sair devagar- Considerava que seria uma experincia
interessante tentar...
- O que?
- Influenciar seu comportamento para ele... de maneira sexual.
Eve bufou. No tinha sido apenas as palavras, e sim a forma to formal de
pronunci-las por parte de Feeney.
- Acreditava que poderia utilizar seu brinquedo para me levar para cama?
Genial. Podemos acusar-lo de outro crime. Inteno de assdio sexual.
- Diz qualquer coisa sobre mim? - quis saber Peabody e recebeu um olhar
fulminante de Eve.
- Voc  doente, oficial.
- S queria saber.
- Estamos aumentando seu tempo atrs das grades - continuou Eve - mas
no temos provas do assunto grande. E a anlise de Mira vai  contramo do
que queremos.
Peabody respirou fundo e tentou a sorte.
- J pensou que ela poderia ter razo? Que ele poderia no ser o
culpado?
- Sim, j pensei. E me aterroriza a idia. Se ela tem razo, ento h
algum l fora com um brinquedo para manipular crebros. E ns no estamos
nem perto de peg-lo. Ento toda nossa esperana est em nosso prisioneiro.
- Falando de nosso homem - interrompeu Feeney  tem que saber que ele
chamou advogados.
- Imaginei que ele fazeria isso. Algum que conheo?
- Leanore Bastwick.
- Inferno, esse mundo  pequeno.
- Essa mulher quer ganhar pontos a sua costa, Dallas. - Feeney tirou um
pacote de frutos secos e ofereceu a Peabody  Est ansiosa para por mos a
obra. Quer fazer uma coletiva de imprensa. Corre a voz de que cobra os
honorrios mnimos, que s o faz para pegar voc, e que para isso organizou a
coletiva.
- J pode atacar. Podemos impedir a coletiva de imprensa por vinte e
quatro horas. Vamos confiar que at l consigamos encontrar algo consistente.
- Averigei algo que poderia levar-nos a alguma parte - comentou
Peabody - Mathias assistiu dois semestres ao Instituto de Tecnologia de
Massachusetts. Por desgraa, isso foi trs anos depois de que Jess obtivesse
sua licenciatura, mas Jess utilizou sua categoria de aluno para conseguir dados
dos arquivos. Tambm ensinou musicologia atravs de um programa optativo
classe E que a universidade carregou nas ofertas da biblioteca. Mathias fez
esse curso durante seu ltimo semestre.
Eve sentiu uma subida de tenso.
- Que  algo a se pensar. Bom trabalho. Um conexo. Talvez temos
estado procurado no lugar errado. Pearly foi a primeira vtima que conhecemos.
E se  o nico que estava em contato com os demais? Poderia tratar-se de
algo to simples como seu interesse pelos jogos eletrnicos.
- J procuramos nessa direo.
- Pois volte a faz-lo - ordenou Eve a Peabody - E mais a fundo. Nem
todos os circuitos so legais. Se Mathias foi utilizado para desenvolver esse
sistema, devia estar orgulhoso disso. Os hackers aficionados utilizam toda
classe de computadores pessoais. Podes averiguar o seu?
- Com tempo - concordou Feeney.
- Entre em contato com Jack Carter. Era seu colega de quarto no
Olympus. Talvez possa ajud-lo. Peabody, chame o filho de Devane e veja o
que pode conseguir sobre o assunto com ele. Eu me centrarei em Fitzhugh. -
Deu uma olhada ao relgio - Mas primeiro farei uma visita. Pode ser que eu
consiga poupar alguns passos.
Eve tinha a sensao de ter retrocedido no ponto de partida na procura de
uma conexo. Tinha que ter alguma, e teria que envolver Roarke para
encontr-la. Chamou-o do tele-link do carro.
- Oi, tenente. Como foi seu almoo?
- Menor do que eu preciso e maior do que eu queria. Em quanto tempo
estar no escritrio?
- Algumas horas. Por que?
- Eu gostaria de passar por ai. Agora mesmo. Pode me encaixar uma
hora?
Ele sorriu.
- Sempre.
- Assunto de trabalho - disse Eve, e cortou a comunicao sem devolver o
sorriso. A seguir arriscou-se a e programar seu destino no carro. E depois
voltou a utilizar o tele-link.
- Nadine.
Nadine inclinou a cabea para um lado lanando uma mirada glida em
sua direo.
- Tenente.
- As nove em meu escritrio.
- Devo levar um advogado?
- Traga sua gravadora. Ter seu furo de reportagem antes da coletiva da
imprensa amanh.
- Que coletiva?  melhorou sua imagem e Nadine passou para o udio
privativo e colocou os fones- No h nenhuma programada.
- Haver. E se quiser ser a primeira a ter o relatrio oficial esteja aqui s
nove horas.
- Qual  a armadilha?
- O senador Pearly. Traga-me tudo. No os dados oficiais, e sim o que
ocultaram. Passatempos, lugares de recreio, suas conexes no submundo.
- Pearly estava limpo como um coro de igreja.
- No precisa estar na sujeira para jogar na clandestinidade, tem apenas
que ser curioso.
- E o que a faz pensar que posso acessar dados confidenciais a respeito
de um servidor pblico do governo?
- Porque  voc, Nadine. Envia-me os dados ao terminal de casa e nos
veremos s nove. Voc conseguir duas horas de vantagem, pense nos
ndices de audincia.
- Estou pensando. Negcio fechado - replicou, e cortou a comunicao.
Enquanto Eve introduzia com suavidade o veculo no estacionamento do
escritrio de Roarke situado na periferia do centro da cidade, comeou a
pensar com mais benevolncia no departamento de manuteno de veculos.
Sua vaga VIP a esperava, e desceu a tela de segurana quanto desligou o
motor.
O elevador aceitou sua leitura de mo e a levou ao terceiro andar em um
silencioso e decorado trajeto. Nunca se acostumaria a isso.
A secretria pessoal de Roarke lhe sorriu radiante, deu-lhe as boas vindas
e a conduziu atravs dos escritrios externos e pelo corredor de desenho
funcional que levava ao elegante, mas eficiente sala privativa de Roarke.
Mas no estava sozinho.
- Desculpe-me. - Eve fez um esforo por no demonstrar seu
aborrecimento a Reeanna e William.  Estou interrompendo.
- Em absoluto. - Roarke se aproximou e a beijou - J terminamos.
- Seu marido  um escravizador. - William estreitou afetuosamente a mo
de Eve - Se no tivesses chegado, Reeanna e eu nos teramos ficado sem o
jantar.
- Isso  Willian. - Reeanna riu  Ou est pensando em eletrnicos ou em
sue estmago.
- Ou em voc. Quer nos acompanhar? - perguntou William a Eve 
Estvamos pensando em provar o restaurante francs do corredor areo.
- Os policiais nunca comem - respondeu Eve tratando de adaptar-se ao
tom ameno da conversa - Mas obrigada.
- Voc necessita de combustvel regular para acelerar o processo de
cicatrizao - observou Reeanna. E estreitou os olhos ao fazer-lhe um rpido e
profissional exame - Alguma dor?
- Pouca coisa. Agradeo seus servios. Poderia falar com voc alguns
minutos sobre um assunto oficial? Se tiver tempo depois da refeio.
- Certamente. - Reeanna a olhou intrigada - Posso perguntar de que se
trata?
- Da possibilidade de fazer uma consulta sobre um caso em que estou
trabalhando. Se estiver disposta, precisarei de voc amanh cedo.
- Uma consulta sobre um ser humano real? Ali estarei.
- Reeanna est farta de mquinas - comentou William - H semanas est
ameaando voltar a montar um consultrio particular.
- Realidade virtual, hologramas, autotrnica. - Reeanna revirou seus belos
olhos - Morro de vontade de trabalhar um pouco com pessoas de carne e osso.
Roarke acaba de instalar-nos no andar 32, ala oeste. Dentro de uma hora terei
terminado minha refeio com William. Encontre-me l.
- Obrigada.
- Oh, e Roarke - adicionou Reeanna enquanto se encaminhava com
William para a porta  Ficaramos encantados de nos dar sua opinio sobre a
unidade nova assim que estiver experimentado.
- E depois me chama escravagista. Darei uma olhada essa noite, antes de
sair.
- Maravilhoso. At depois, Eve.
- Comida, Reeanna. Estou sonhando com uma coquille de Saint Jacques.
dizia Willian enquanto a puxava para fora da porta e ria.
- No era minha inteno interromper sua reunio - se desculpou.
- No o fez. E me deixe respirar um pouco antes de me afundar nessa
montanha de relatrios e processos. Fiz que lhe transmitissem todos os dados
sobre essa unidade de realidade virtual que a preocupa. Dei uma olhada
superficial, mas no encontrei nada de extraordinrio por enquanto.
- Isso  algo. - Eve respiraria mais calma quando pudesse deixar de lado
aquela possibilidade.
- William sem dvida perceberia o problema mais rapidamente 
acrescentou ele - Mas como ele e Ree estiveram envolvidos no
desenvolvimento, pensei que voc no gostaria que passasse por ele.
- No. Prefiro que no os envolva nessa anlise.
- Reeanna estava preocupada com voc. Assim como eu.
- Esteve me examinando.  boa.
- Sim . No entanto...  tocou sua nuca com um dedo  Est sentindo dor
de cabea.
- Por que utilizar scaners cerebrais ilegais quando pode ver dentro de
minha cabea?  Eve segurou seu pulso antes que ele se afastasse - Eu no
consigo ver dentro da sua.  insultante.
- Eu sei. - Roarke sorria enquanto seus lbios tocavam sua testa  Amo
voc. Desesperadamente.
- No vim aqui para isso - murmurou ela quando ele a rodeou com os
braos.
- S um momento. Preciso-o.  podia sentir a ondulao do diamante que
usava em seu pescoo, a princpio relutante, e agora de forma habitual - Est
bom  Soltou-a satisfeito por ela ter-se deixado abraar. - O que tem em
mente, tenente?
- Peabody encontrou uma fraca conexo entre Barrow e Mathias e quero
ver se  possvel fortalec-la. Seria muito complicado acessar as transmisses
clandestinas, utilizando os servios do Instituto de Tecnologia de
Massachusetts como ponto de partida?
Os olhos de Roarke se iluminaram.
- Eu adoro um desafio. - Rodeou a escrivaninha, ligou o computador e,
depois de abrir um painel escondido sobre a mesa, apertou manualmente um
interruptor.
- O que  isto? - Eve apertou os dentes - Um sistema de bloqueio? Voc
est impedindo o acesso da Compuguardia?
- Isso seria ilegal, no? - replicou ele alegremente. Deu uma palmadinha
na mo que estava sobre seu ombro: No faas perguntas, tenente, se no
gostar de ouvir as respostas. Vejamos, qual  o perodo que particularmente
lhe interessa?
Com expresso mal humorada, Eve tirou seu carto-registrador e conferiu
as datas da assistncia de Mathias ao ITM.
- Estou pesquisando Mathias especificamente Ainda no sei que nomes
que utilizava, Feeney est pesquisando.
- Hum...acredito que posso averiguar isso para voc. Por que no se
ocupa da comida? No precisamos passar fome.
- Coquille de Saint Jacques? - perguntou secamente.
- Um bife querida.- puxou o teclado e comeou a trabalhar manualmente.
Captulo 19
Eve comia de p, respirando quase no pescoo de Roarke. Quando teve o
bastante disso, simplesmente estendeu a mos e a beliscou.
- Tire seu traseiro daqui.
- S estou querendo ver - replicou ela, mas retrocedeu - Faz meia hora
que est nisso.
Imaginou que, com a equipe disponvel na central de polcia, mesmo
Feeney teria demorado o dobro de tempo para chegar a esse mesmo ponto.
- Querida Eve, h protees e mais protees - respondeu. Depois
suspirou ao ver que ela o olhava com a expresso aborrecida - Por isso 
clandestino. Localizei dois dos nomes codificados pelo nosso jovem e
experiente em eletrnica. Ter mais, mas o computador demora um pouco em
decodificar transmisses.
Colocou o computador no automtico para desfrutar seu jantar So
simples jogos, verdade? - Eve mudou de postura para ver as cifras e estranhos
smbolos que apareciam na tela - Meninos grandes jogando. Sociedades
Secretas. Inferno. So apenas clubes de alta tecnologia.
- Mais ou menos. A maioria de ns apreciamos a diverso. Jogos,
fantasias, o anonimato de uma mscara que nos permite fingir por um tempo
que somos outra pessoa por algum tempo.
Jogos, pensou outra vez. Talvez tudo se resumia a um jogo, e ela no
tinha estudado com ateno suficiente as regras e os jogadores.
- O que h de errado em ser como se ?
- Para muitos no  suficiente. Esse tipo de coisa atrai aos solitrios e
egocntricos.
- E fanticos.
- Certamente. Os servios eletrnicos, sobretudo os clandestinos,
proporcionam aos fanticos um frum aberto. - Arqueou uma sobrancelha e
cortou um pedao da bisteca - Tambm fornecem um servio educacional,
informativo, intelectual... E pode ser um passatempo perfeitamente inofensivo.
Lembre-se que so legais. Ainda que os clandestinos no podem ser regulados
muito de perto. E isso acontece porque  quase impossvel faz-lo. E o custo 
proibitivo.
- O departamento de eletrnica os mantm na linha.
- At certo ponto. Olhe isso. - Roarke se voltou, apertou vrias teclas e fez
aparecer uma imagem em uma das telas da parede - Percebe? Nada mais  do
que uma divertida stira sobre uma nova verso de Camelot. Um programa de
papel multi-usurio, com holograma optativo  explicou- Todos querem ser o
rei. E ali  gesticulou para a outra tela - H um anncio muito direto procurando
um parceiro para Ertica, um programa de realidade virtual de fantasias
sexuais, duplo comando a distncia. - Sorriu ao ver a Eve enrugar a testa 
Uma de minhas companhias os fabrica.  muito popular.
- Aposto que sim. - No perguntou se tinha experimentando nele mesmo.
Certas informaes ela preferia ignorar - No entendo. Podem pagar por ter
acompanhante licenciado provavelmente por um preo menor do que o custo
deste programa. E transa com algum de carne e osso, por que precisam
disso?
- Fantasia, querida. Tendo o controle ou se abdicando dele. E podem
executar o programa vrias vezes, com variaes quase ilimitadas. Novamente
 algo emocional e mental. Todas as fantasias o so.
- As fatais tambm - adicionou ela  No  a que tudo isso conduz?
Possuir o controle. O controle supremo sobre o estado de nimo e a mente de
algum. Nem sequer sabem que esto jogando. Esse  o grande segredo.
Tudo o que precisa  um enorme ego e poucos escrpulos. Mira diz que Jess
no se encaixa.
- Esse  o problema ento.
- No parece surpreso.
- Jess  o que em meus tempos de rua em Dublin teramos chamado de
um capo, um cruzamento entre um bastardo e uma bicha. Um covarde que
no honra suas calas. Nunca conheci nenhum capaz de derramar sangue
sem desmaiar.
Eve acabou sua bisteca e afastou o prato.
- Pois para mim, matar dessa maneira no  necessrio derramar sangue.
 covarde, prprio de capes.
Ele sorriu.
- Certo, tem razo. Mas os capes no matam, apenas falam.
Eve resistia a admitir que comeava concordar com ele e que tinha se
metido no que aparentava um beco sem sada em relao a Jess Barrow.
- Preciso algo mais. Quanto acha que vai demorar ainda?
- At que termine. Pode se entreter revisando os dados sobre a unidade
de realidade virtual.
- Farei isso. Mas antes vou passar pelo escritrio de Reeanna. Deixarei
um recado se ainda no voltou do restaurante.
- Bem. - Roarke no tratou de dissuadi-la. Tinha que permanecer ativa, e
ele o sabia  Voltar quando terminar ou a verei em casa?
- No sei.
Ele parecia perfeito ali, pensou, sentado em seu escritrio super elegante,
manipulando teclas. Talvez todo mundo quisesse ser o rei, mas Roarke estava
satisfeito em ser Roarke.
Ele se voltou e lhe sustentou o olhar.
- Sim, tenente?
- Voc  exatamente o que quer ser. E isso  muito bom.
- Quase sempre. E voc tambm  o que quer ser.
- Quase sempre - murmurou ela - Antes de me reunir com Reeanna falarei
com Feeney e Peabody para ver se eles tm algo. Obrigada pela comida... e
pelo tempo.
- Sei como podes pagar-me. - Roarke segurou sua mo e levantou  Eu
gostaria muito, muito de fazer amor com voc est noite.
- No tem que pedir - respondeu Eve incomodada, encolhendo ou ombros
- Estamos casados e tudo isso.
- Digamos que o pedir faz parte da fantasia. - Ele se aproximou, apenas
um pouco, roou seus lbios com o dele e sussurrou -: Deixe-me cortej-la esta
noite, Eve querida. Deixe-me surpreende-la. Deixe-me... seduzi-la.  Espalmou
uma mo sobre seu corao e sentiu a batida firme e acelerada - Aqui j
comecei.
Seus joelhos falharam.
- Obrigada. Era s isso que eu precisava para me concentrar no trabalho.
- Tem duas horas. - Desta vez Roarke prolongou o beijo - Depois nos
dedicaremos a ns.
- Eu tentarei. - Ela retrocedeu quando esteve segura de poder faz-lo, e
se encaminhou para a porta. Depois se voltou e o olhou - Duas horas. Ento
poder terminar o que comeou.
Ela o ouviu rir enquanto fechava a porta e corria para o elevador.
- Trinta e nove, oeste - ordenou, e sem, seguida se surpreendeu sorrindo.
Sim, tinham que se dedicar um pouco de tempo. Algo que Jess e seu
desagradvel brinquedo tinha tentado roubar deles. De repente se deteve e
seu sorriso se desvaneceu. Era esse o problema?, perguntou-se. Estava to
obcecada com isso, com uma espcie de revanche pessoal, que deixava
escapar algo maior, ou menor.
Se Mira estivesse certa, e Roarke com sua teoria do capo estivesse com
razo, ento ela estava equivocada. Era o momento de dar um passo para trs
e voltar focar, admitiu. Era um crime tecnolgico. Mas ainda os crimes
tecnolgicos seguiam requerendo o elemento humano: as emoes, a cobia,
o dio, os cimes e o poder. Qual deles, ou que combinao, podia ser o
motivo? Em Jess via cobia e nsia de poder. Mas era capaz de matar por
eles?
Armou-se de idias e repassou mentalmente a reao de Jess ao ver as
fotos do depsito de cadveres. Um homem que tinha causado tal horror, que
tinha dirigido a ao, reagiria com tanta consternao ao enfrentar os
resultados? No era impossvel, decidiu-se, mas no se enquadrava na
imagem do assassino.
Alm disso, Jess apreciava ver os resultados de seu trabalho,ela
recordou. Gostava de rir deles e anot-los. Haveria algo mais? Um registro que
a equipe de busca deixara passar...Teria que fazer uma visita a seu estdio.
Absorta em seus pensamentos, saiu do elevador no andar 39 e examinou
as paredes de vidro escuro do laboratrio. Tudo estava silencioso, e os
dispositivos de segurana estavam em pleno funcionamento, como indicavam
as cmaras colocadas  plena vista e a luz vermelha advertindo sobre os
detectores de movimento. Se tinha algum escravo ainda trabalhando, estava do
outro lado das portas fechadas.
Apoiou a mo no leitor de palmas e recebeu a verificao, depois passou
pela prova da voz dando seu nome, e aproveitou para pedir a disposio do
escritrio de Reeanna.
Tem autorizao para acessar os nveis superiores, tenente Dallas, Eve.
Dirija-se  esquerda do corredor de vidro, logo vire  direita e continue at o
final. O escritrio da doutora Ott se encontra cinco metros alm. No ser
necessrio que repita o procedimento para entrar. Dispe de autorizao.
Perguntou a si mesma, se fora Roarke ou Reeanna que tinha lhe
autorizado  passagem e se dirigiu para a indicao. O corredor a
impressionou, pois oferecia uma vista panormica da cidade de todos os
ngulos. Olhou a seus ps e viu a vida que se agitava na rua de abaixo. A
melodia que flua era animada, e a fez pensar, com amargura, na inteno de
algum musiclogo de infundir aos escravos entusiasmo por seu trabalho.
Talvez no era isso outro modo de controlar a mente?
Cruzou uma porta com uma placa que a identificava como a de William. O
perito em jogos, pensou Eve. Podia se mostrar til para ela, obter dele algumas
informaes, espremer-lhe o crebro e lhe rancar algumas hipteses. Bateu e
viu observou a luz vermelha de uma gravadora para a seguir apagar-se.
Desculpe-me, mas William Shaffer no se acha no momento em seu
escritrio. Se quer deixar seu nome e algum recado, ele lhe responder o mais
cedo possvel.
-  Dallas. Escute, William, se tiver um minuto quando terminar de jantar,
tenho algo que gostaria que conversar com voc. Vou passar pelo escritrio de
Reeanna. Se no estiver, deixarei um recado. Estarei no edifcio ou em casa
mais tarde, se tiver tempo para falar comigo.
Voltou-se e deu uma olhada em seu relgio. Por Deus, quanto tempo eles
levariam para comer? Pegava a comida, enfiava na boca, mastigava e engolia.
Encontrou o escritrio de Reeanna e hesitou cinco segundos ao ver que a
luz verde da gravadora piscava, deslizou ento pela porta aberta. Se Reeanna
no a quisesse l dentro, decidiu , a teria deixado fechada. Entrou em um
escritrio completo. Parecia com Reeanna, pensou. Perfeitamente lustroso,
com tons sexuais de vermelho impetuoso nos quadros de laser que se
destacavam contra as paredes brancas.
A mesa estava situado de frente para a janela para fornecer a Reeanna a
vista constante do denso trfico areo.
A sala de estar constava de uma chaise longue cujas grandes almofadas
conservavam as formas de sua ltima ocupante. As curvas de Reeanna eram
impressionantes inclusive em silhueta. A mesa era de um material transparente
duro como a pedra, e estava intrincadamente lavrada com formas de
diamantes que absorviam e refletiam a luz procedente de um lustre em forma
de arco e com uma cobertura de tom rosa.
Eve pegou os culos de realidade virtual sobre a mesa, viu que eram o
ltimo modelo de Roarke e voltou a deix-los ali. Ainda lhe faziam sentir-se
incmoda. Voltou-se e estudou o terminal de trabalho do outro lado da sala.
No tinha nada delicado ou feminino naquele espao em particular. Tudo
estava relacionado com o trabalho: um balco com a superfcie branca e polida
que sustentava um equipamento de primeira qualidade que estava em
funcionamento.
Ouviu o baixo rumor de um computador em automtico e franziu o cenho
ante os smbolos que brilhavam no monitor. Pareciam os que tinha tentado
decifrar na tela de Roarke. Bem, todos os cdigos de informtica pareciam
semelhantes para ela.
Intrigada, aproximou-se da escrivaninha, mas no tinha nada interessante
 vista. Uma pena de prata, um par de bonitos brincos de ouro, um holograma
de William vestido de piloto e sorrindo juvenil, e uma breve lista escrito naquele
desconcertante cdigo de computador.
Eve se sentou na borda da escrivaninha. No queria deixar as marcas de
sua esguia figura sobre as de Reeanna. Pegou o comunicador e chamou a
Peabody.
- Alguma coisa?
- O filho de Devane est disposto a colaborar. Est a par do interesse que
ela tinha pelos jogos, sobretudo os de papel. No era um interesse que ele
compartilhasse, mas afirma conhecer um de seus habituais colegas de jogo.
Devane saiu com ela durante um tempo. Tenho seu nome. Vive aqui mesmo
em Nova York. Quer que eu transmita os dados?
- Acredito que pode cuidar disso. Marque um encontro e leve-a a
delegacia se negar-se a colaborar. Informe-me depois.
- Sim, tenente. - A voz de Peabody se manteve sria, mas seus olhos
brilhavam com a atribuio- Agora mesmo.
Satisfeita, Eve tentou entrar em contato com Feeney, mas sua freqncia
estava ocupada. Teve que se conformar em deixar um recado pedindo que
entrasse em contato.
A porta se abriu e Reeanna se deteve ao ver Eve em sua escrivaninha.
- Oh, Eve. No a esperava ainda.
- O tempo  parte de meu problema.
- Entendo. - Sorriu e deixou que a porta se fechasse a suas costas -
Suponho que Roarke autorizou sua entrada.
- Suponho que sim. Algum problema?
- No. No- Reeanna fez um gesto despreocupado com a mo. 
Suponho que eu esteja um pouco ansiosa. William no parou de falar de certos
assuntos tcnicos maantes. Deixei-o com sua sobremesa. - Lanou uma
mirada para o computador que zunia - O trabalho no para nunca aqui. O
servio de Investigao e Desenvolvimento leva as vinte e quatro horas por
sete dias da semana.  Sorriu - Como o da polcia, imagino. Bem, no tive
tempo de tomar um conhaque. Voc gostaria de um?
- No, obrigada, estou de servio.
- Ento um caf. - Aproximou-se de um balco e pediu um copo de
conhaque e um caf preto - Ter que perdoar minha falta de concentrao.
Hoje estamos um pouco atrasados a respeito do programa. Roarke precisava
de alguns dados sobre o novo modelo de RV, desde sua concepo at a
fabricao.
-  sua criao. No tinha nem idia at que ele comentou h alguns
momentos.
- Oh, apenas uma pequena parte. William fez quase tudo. - Entregou-lhe o
caf, depois rodeou a escrivaninha com o conhaque se sentou - Vejamos, que
posso fazer por voc?
- Espero que voc concorde em fazer esta consulta. O indivduo se acha
neste momento detido e nas mos de seu advogado, mas no acredito que
permanea muito tempo ali. Preciso de seu perfil, do ponto de vista de sua
especialidade em particular.
- Marcao gentica - Tamborilou com os dedos - Interessante. Quais so
as acusaes?
- No estou autorizada para falar sobre isso at contar com seu
consentimento e marcar a sesso com meu comandante. Uma vez feito isto,
gostaria que realizasse o teste as sete da manh.
- s sete? - Reeanna uma careta  Sou mais uma coruja noturna do que
uma cotovia. Se voc me quiser funcionando a este horrio e d-me algum
incentivo. - Esboou um ligeiro sorriso  Imagino que pediu a Mira que
analisasse o sujeito e os resultados no foram o que voc queria.
- No  to incomum pedir segundas opinies - respondeu Eve. Sentia-se
na defensiva e culpada.
- No, mas os relatrios da doutora Mira so excelentes e raras vezes se
questionam. Quer agarr-lo de qualquer modo.
- Preciso descobrir a verdade. E para encontr-la tenho que separar a
teoria das mentiras e decepes. - Eve se afastou da mesa  Olhe, pensei que
lhe interessaria fazer este tipo de coisa.
- E me interessa muito. Mas eu gosto de saber com o que estou mexendo.
Precisaria do scaner cerebral do indivduo.
- Tenho-o. Como evidncia.
- Mesmo? - Os olhos Reeanna lhe brilharam como os de um gato -
Tambm  importante ter todos os dados disponveis de seus pais biolgicos.
So conhecidos?
- Acessamos esses dados para a anlise da doutora Mira. Estaro a sua
disposio.
Reeanna se recostou e fez movimentos circulares com seu copo de
conhaque.
- Deve ser um assassinato  Seus lbios de contraram ao ver a
expresso de Eve - Depois de tudo,  sua especialidade. Uma estudiosa dos
mortos.
-  uma forma de express-lo.
- Como voc expressaria?
- A investigao de quem tiram a vida a algum.
- Sim, sim, mas para fazer isso tem de estudar os mortos, a morte em si.
Como ocorreu, o que a causou, que aconteceu nos ltimos momentos entre o
assassino e sua vtima.  fascinante. Que tipo de personalidade tem que se
possuir para estudar a morte de forma rotineira, dia aps dia, ano aps ano,
por vocao? A deixou marcada Eve? Ou a endureceu?
- Me aborrece - respondeu Eve cortante - No tenho tempo para filosofar.
- Desculpe-me,  um mau costume.  Suspirou - William me disse que
analiso tudo at a morte  Sorriu - No  que seja um crime...um tipo de
assassinato. Em fim, estou interessada em ajud-la. Chame seu comandante.
disse- Esperarei para ver se daro a ordem. Depois podemos comentar os
detalhes.
- Obrigada.
Eve removeu seu comunicador e girou o corpo em busca de privacidade e
pediu apenas o vdeo. Demorava mais tempo e dava a impresso de ser
menos eficaz a codificao da informao e das peties. Como expressaria
suas intuies ou seus propsitos numa tela?
Mas fez o que pde e esperou.
- Que demnios est propondo, Dallas, questionar Mira?
- S quero ter uma segunda opinio, comandante. Estou dentro do
procedimento.Estou contemplando todos os pontos de vista. Se no sou capaz
de convencer o promotor de acus-lo de coao ao suicdio, no quero perder
as acusaes menores. Preciso verificar se tinha o propsito de fazer dano.
Era forar a situao, e ela o sabia. Eve esperou com um n no estmago
que Whitney tomasse uma deciso. D-me uma oportunidade, pensou, Esse
sujeito tem que pagar.
-Tem autorizao para proceder, tenente. Mas no desperdice o
oramento. Ambos sabemos que o relatrio de Mira ter muito peso.
- Compreendido e agradecida. O relatrio da doutora Ott causar ao
menos dor de cabea a advogada de Barrow. Neste momento estou
concentrada numa conexo entre suspeito e vtimas. Os resultados estaro
prontos s 9.00.
- Se assegure que est fazendo a coisa certa. Minha bunda est
balanando juntamente com a sua.
Whitney desligou.
Eve deixou escapar um longo e silencioso suspiro. Tinha conseguido um
pouco mais de tempo e isso era tudo o que queria. Com tempo poderia
pesquisar mais a fundo. Se Roarke e Feeney no obtivessem dados, no teria
ningum, fora ou dentro do planeta, que o fizesse.
Jess receberia o que merecia, mas o assassinato ficaria sem vingar.
Fechou os olhos por alguns instantes. Para isso ela estava ali, para vingar os
mortos.
Abriu os olhos outra vez querendo se concentrar antes de confiar os
dados a Reeanna.
Foi ento quando o viu em branco e preto na tela de seu computador.
Mathias, Drew registrado como AutoPhile. Mathias, Drew registrado como
Banger. Mathias, Drew registrado como HoloDick.
O corao deu um pulo, mas sua mo estava firme como uma rocha
quando ligou o comunicador e chamou a Peabody e Feeney com o cdigo um.
Apoio requerido. Responda imediatamente  fonte da transmisso.
Guardou o carto no bolso e se voltou.
- O comandante deu autorizao para a consulta. Relutante , desse modo
irei precisar de resultados, Reeanna.
- Vai t-los. - Bebeu um gole do conhaque, depois deslocou o olhar para o
pequeno e brilhante terminal sobre sua mesa. O pulso de Eve se acelerou, Eve
e seu nvel de adrenalina ascendeu vertiginosamente.  fez um gesto de
desalento com a cabea - Oh, cus - murmurou levantando uma mo.
Sustentava uma arma de choque oficial da DPSNY .- Isso  um problema.
Vrios andares acima, Roarke analisava os novos dados sobre Mathias
enquanto murmurava em pensamento consigo mesmo. No estavam indo a
nenhum lugar. Voltou a colocar o computador no automtico e se concentrou
nos dados da nova unidade de realidade virtual. No era estranho, e
interessante, que alguns dos componentes do mgico console de Jess Barrow
aparecessem quase exatos em sua nova unidade?
Murmurou uma maldio quando soou o tele-link interno.
- No quero interrupes.
- Desculpe-me, senhor. Mas est aqui uma tal Mavis Feestone. Diz que
vai querer v-la.
Programou o computador para o controle automtico e bloqueou tanto o
udio como o vdeo.
- Deixe-a passar, Caro. E pode ir para casa. No vou precisar mais de
ningum hoje.
- Obrigada, a acompanharei diretamente.
Roarke enrugou a testa e pegou a unidade de RV que Reeanna tinha
deixado para que lhe desse sua opinio. Alguns ajustes e estaria pronta para o
lanamento. Estava carregada de opes e mensagens subliminares, e isso
explicava a coincidncia da similaridade. Mas deixou isso de lado por alguns
momentos. Comeava a suspeitar que havia uma possibilidade que tivessem
filtragens em sua equipe de Investigao e Desenvolvimento.
Perguntou-se que modificaes tinha introduzido William para a segunda
srie de fabricao, e introduziu um disco no computador auxiliar. Podia
acessar os dados enquanto conversava com Mavis A mquina emitia um apito
e comeava a carregar o disco quando a porta se abriu e Mavis entrou
tempestuosamente.
-  toda a culpa  minha, tudo. E no sei o que fazer.
Roarke circulou a mesa, pegou as mos de Mavis e lanou um olhar de
compreenso a sua confusa assistente.
- V para casa. Eu cuidarei dela. Oh, e deixe o dispositivo de segurana
aberto para minha esposa, por favor. Sente-se, Mavis. - Conduziu-a at uma
cadeira  Respire fundo- e conhecendo-a como conhecia acariciou os cabelos
coloridos e acrescentou - e no grite. O que foi sua culpa?
- Jess. Utilizou-me para chegar a voc. Dallas disse que no era culpa
minha, mas pensei muito sobre isso e ,  culpa minha sim.  Deu um longo e
herico soluo - Tenho isto adicionou referindo-se ao disco que segurava.
- E o que  isto?
- No sei. Talvez seja uma prova. Fique com voc.
- Est bem. - Roarke o pegou o disco da mo trmula- Por que no o deu
a Eve?
- Eu ia entregar... Pensei que a encontraria aqui. Acredito que ningum
saiba que eu o tenho. No comentei nem sequer com Leonardo. Sou horrvel -
concluiu.
Outras mulheres histricas j tinham cruzado seu caminho antes, pensou
Roarke. Guardou o disco em seu bolso e foi at a mquina de opes e
requisitou um calmante da variedade mais suave.
- Aqui est. Beba isso. Que tipo de provas acredita que pode conter este
disco, Mavis?
- No sei. No me odeia, odeia?
- Querida, adoro voc. Beba isso.
- Mesmo? - Ela o bebeu obediente  Eu gosto realmente de voc, Roarke,
e no  s porque nada em crditos ou em qualquer coisa assim. Fico feliz por
voc ser assim, por que a pobreza  horrvel.
- Certamente.
- E em todo caso voc a faz muito feliz. Ela nem suspeita quanto est feliz
por que nunca o foi. Entende?
- Certo. Agora respire fundo trs vezes. Pronto?. Um.
- Est bem. - Mavis assim o fez, muito sria, com os olhos fincados nele 
Voc  bom nisso. De acalmar as pessoas. Aposto a que ela no o deixa fazer
isso com muito com freqncia.
-  verdade, no deixa. Ou no percebe quando o fao. - Roarke sorriu -
Ns a conhecemos muito bem, no,Mavis?
- E a amamos. Sinto tanto. - Mavis se ps a chorar de novo, mas desta
vez silenciosamente - Compreendi isso depois que ouvi o disco que lhe dei. Ao
menos compreendi em parte.  uma cpia da gravao do vdeo. A peguei as
surdinas, sabe? Queria guard-lo para a posteridade. Mas h um comentrio
no fim. - Olhou suas mos -  a primeira vez que o assisti, a primeira vez que o
escutei inteiro. Deu uma cpia a Dallas, mas ele fez comentrios depois desta
verso, sobre...  Interrompeu-se e levantou os olhos, repentinamente secos-
Quero que o faa sofrer. Que acabe com ele. Assista o disco de onde eu parei.
Roarke se levantou sem dizer nada e deslizou o disco na unidade de
entretenimento. A tela se encheu de luz e msica, a seguir o volume e a
intensidade diminuram para deixar ouvir a voz de Jess.
No estou certos dos resultados. Algum dia descobrirei a chave para
entrar na fonte. Por enquanto s posso especular. A sugesto se realiza na
memria. A recriao do trauma. H algo por trs das sombras que povoam a
mente de Dallas. Algo fascinante. Sonhar com o que esta noite depois de
escutar o disco? Quanto demorarei em seduzi-la e compartilhar tudo isso com
ela? Que segredos esconde?  to divertido especular. Estou apenas
esperando uma oportunidade para intervir no lado mais escuro de Roarke. Oh,
sim, tem um, e est to prximo da superfcie que quase se pode v. Imaginlos
juntos comportando-se como animais me faz estremecer. No posso pensar
em dois indivduos mais fascinantes para este projeto. Deus abenoe a Mavis
por ter-me aberto a porta. Dentro de seis meses conhecerei to bem os dois e
adivinharei de forma to clara suas reaes, que serei capaz de conduzi-los
exatamente aonde quero. Ento no haver limites. Fama. Fortuna. Adulao.
Serei o Deus do prazer virtual.
Roarke permaneceu em silncio at que o disco acabou. No o retirou,
convicto de que o esmagaria at faze-lo em pedaos se assim o fizesse.
- Eu j o fiz sofrer- disse por fim . - Mas no o bastante, No o bastante. 
Virou-se para Mavis. Esta tinha se levantado e permanecia de p, pequena
como uma fada, com um vestido de gaze rosa algo atrevido  Voc no 
responsvel por isso.- disse.
- Pode que seja verdade. Tenho que averiguar. Mas sei que ele no teria
chegado to prximo dela, ou de voc, sem minha ajuda. Voc acha que isso
servira para que o mantenha atrs das grades?
- Eu acredito que ele ter um longa estadia na priso antes que o vejamos
outra vez. Vai deix-lo comigo?
- Sim. Agora tenho que ir
- Sempre ser bem vinda aqui.
Os lbios de Mavis tremeram.
- Se no fosse por Dallas, voc teria corrido como louco na direo
contrrio quando me viu pela primeira vez.
Ele se aproximou e a beijou firmemente na boca
- E seria um erro, e uma perda. Chamarei um txi para voc.
- No tem por que...
- Estar lhe esperando na entrada principal. - Ela esfregou o nariz.
- Uma dessas limusines super?
- Claro.
A acompanhou at a porta e esperou pensativo at que esta se fechasse.
Confiava em que o disco bastasse para agarrar um pouco mais firme a Jess.
Mas no apontava em direo ao assassinato. Voltou e ordenou aos dois
computadores visualizar em tela.
Sentado atrs de mesa, pegou os culos de RV e estudou os dados.
..............................
Eve baixou seu olhar para a arma de choque. Daquele ngulo no tinha
certeza de seu nvel de ajuste. Um disparo podia causar desde um ligeiro
incomodo, uma paralisia parcial e at a morte, e ela o sabia.
-  ilegal que um civil tenha em seu poder ou utilize esse arma - replicou
friamente.
- No acredito que seja particularmente relevante, dadas as
circunstncias. Remova a sua devagar e com a ponta dos dedos, e a deixe
sobre a mesa. No quero lhe fazer mal - adicionou Reeanna ao ver que Eve
no fez nenhum movimento para obedecer - Nunca quis. No realmente. Mas
farei o que for necessrio.
Mantendo os olhos em Reeanna estendeu a mo devagar para o arma
que levava ao lado do corpo.
- E no pense em tentar us-la. No a ajustei at o nvel mximo, mas
est num em uma potncia bem elevada, o bastante para impedi-la de utilizar
as extremidades por alguns dias. E ainda que as possveis leses cerebrais
no sejam necessariamente permanentes, so muito inconvenientes.
Eve conhecia muito bem o que aquela arma podia fazer, e removeu a sua
com cuidado , deixando-a em uma canto da mesa.
- Ter que me matar, Reeanna. Mas ter que faze-lo pessoalmente. No
ser como com os demais.
- Vou tentar evitar que isso seja necessrio. Uma breve viagem de RV,
sem dor, inclusive agradvel, e poderemos ajustar sua memria e mudar de
alvo. Estava indo bem visando Jess, Eve. Por que no continuamos dessa
maneira?
- Por que matou aquelas quatro pessoas, Reeanna?
- Mataram-se, Eve. Voc estava presente quando Cerise Devane se atirou
do edifcio. Tem que acreditar no que v com seus prprios olhos. - Suspirou 
Na maioria das vezes. Mas no tem o costume de faze-lo, certo?
- Por que os matou?
- S os incentivei a pr fim em suas vidas de um modo e num momento
determinado. E por que? - Reeanna encolheu seus encantadores ombros e
adicionou- :Porque eu poderia.
Esboou um sorriso cativadora e soltou sua risada cristalino.
Captulo 20
No demorariam muito tempo para Peabody ou Feeney localizar o sinal,
calculou Eve. S precisava de tempo, e tinha o pressentimento de que
Reeanna o daria. Certos egos, e igualmente certas pessoas, alimentavam-se
continuamente de admirao. Reeanna se encaixava em ambas categorias.
- Trabalhou com Jess?
- Com esse amador? - Reeanna descartou a idia com um gesto de
desprezo - Era pianista. No  que lhe falte certo talento para a engenharia
elementar, mas lhe faltava viso... e coragem - adicionou com um sorriso felino
- No geral, as mulheres tm mais coragem e so mais maliciosas do que os
homens, voc no concorda?
- No. Acho que a coragem e a malcia no tm sexo.
- Entendo. - Decepcionada, Reeanna apertou os lbios - Em qualquer
caso, me correspondi com ele brevemente h alguns anos. Trocamos idias e
teorias. O anonimato dos servios eletrnicos clandestinos  muito acessvel.
Eu apreciava suas idias e o afagava para que compartilhasse parte de suas
descobertas tcnicas. Mas estava muito alm dele. Na verdade, jamais pensei
que chegaria to longe quanto parece ter chegado. Imagino que se trata de um
alterador do nimo com alguma tipo de sugesto direta.  Inclinou a cabea -
Me aproximei?
- Voc foi mais longe.
- Oh, quilmetros. Por que no se senta, Eve? Ns duas estaremos mais
confortveis.
- Estou bem de p.
- Como quiser. Mas d alguns passos para trs, se no se importa. - Fez
um gesto com a arma indicando que se afastasse  Eu no gostaria que
tentasse recuperar sua arma. Eu me veria obrigada a utilizar esta aqui e ficaria
aborrecida de perder uma audincia to atenta.
Eve retrocedeu um passo. Pensou em Roarke, vrios andares acima. No
desceria para procur-la. Ao menos no tinha que se preocupar por ele. Se
qualquer coisa acontecesse, ele telefonaria, de maneira que estava a salvo. E
ela podia entret-la para ganhar tempo.
-  uma mdica.  disse- Um psiquiatra. Passou anos estudando para
ajudar a condio humana. Que sentido tem tirar vidas quando foi treinada para
conserv-las?
- Talvez esteja marcada desde o nascimento. - Reeanna sorriu - Oh, j sei
que no gosta dessa teoria. S a teria utilizado para respaldar seu caso, mas
no lhe agrada. No sabe de onde veio, nem de quem. - Viu os olhos de Eve
brilhar e assentiu com a cabea - Estudei todos os dados disponveis sobre
Eve Dallas assim que eu soube que Roarke havia se envolvido com voc. Eu
sou muito prxima dele e em certo momento at pensei em fazer nossa breve
relao em algo mais permanente.
- Dispensou-a?
O sorriso de Reeanna congelou nos lbios quando o insulto acertou o
alvo.
- Isso foi um golpe baixo, indigno de voc. No, no o fez. Simplesmente
tomamos caminhos diferentes. Eu estava pretendendo, eventualmente, a
retomar nossa relao. Fiquei intrigada quando ele demonstrou um interesse
to vido por uma policial. A verdade  que voc no  seu estilo usual. Mas
... interessante. Mais ainda depois que acessei seus dados.
Sentou-se no brao da cadeira de relaxamento sem deixar de lhe apontar
o arma.
- A menina maltratada, encontrada num beco de Dallas. Espancada,
machucada, confusa. Que no se recordava como tinha chegado at ali, quem
a tinha golpeado, violado, abandonado. Um espao e, branco. Pareceu-me
fascinante. Sem passado, sem pais, sem ter nem idia de onde procedia. Vou
gostar de estud-la.
- No meter a mo em minha cabea.
- Oh, claro que sim. Inclusive voc mesma ir me propor, uma vez que
faa um ou duas viagens com a unidade que acabo de preparar. Fico triste em
saber que esquecer tudo o que estamos discutindo aqui. Tem uma mente to
astuta, e to ativa. Mas nos dar a oportunidade de trabalhar juntas. Gosto
muito de William, mas ...tem uma viso to curta.
- Ele est muito envolvido?
- No sabe de nada. A primeira vez que testei a unidade a utilizei nele. Foi
um grande sucesso e isso tornou as coisas mais fceis. Podia dar-lhe
instrues para que adaptasse todas as unidades do jeito que eu pedia. Ele 
mais gil e sabe mais eletrnica do que eu. Na realidade me ajudou a
aperfeioar o desenho e personalizar a unidade que enviei ao senador Pearly.
- Por que o fez?
- Outro teste. Proclamava a todos sobre o uso incorreto das mensagens
subliminares. Gostava dos jogos, como estou certa que descobriu, mas no
parava de exigir uma regulao. Uma censura, se est se perguntando. E
metia o nariz em pornografia, comandos duais consentidos para adultos,
anncios comerciais, o uso da sugesto, e toda classe de coisas. Considerei-o
como meu cordeiro sendo sacrificado.
- Como teve acesso ao padro de suas ondas cerebrais?
- William.  muito inteligente. Levou vrias semanas de trabalho intenso,
mas conseguiu burlar as medidas de segurana.  Moveu a cabea devagar,
desfrutando do momento - Nas altas esferas do Departamento de Polcia e
Segurana de Nova York tambm. Injetou um vrus ali, s para manter ocupado
a seu departamento eletrnico.
- E foi ali que acessou meu crebro.
- Certamente que foi. Meu William tem muito bom corao, e teria sofrido
terrivelmente ao saber que tomava parte vital na coero .
- Mas voc o usou. O fez participar de tudo isso. E sem nenhum
escrpulo.
-  verdade. O fiz sem escrpulos. William o fez possvel, mas se no
tivesse sido ele, teria sido outro.
- Ele a ama. Qualquer um pode ver.
Reeanna se ps a rir.
- Ora, vamos.  uma criana. Todos os homens o so quando se trata de
uma figura feminina atrativa. Limitam-se a se ajoelhar e suplicar.  divertido, s
vezes irritante, e sempre til.  Intrigada, passou a lngua em seu lbio
superior- No me diga que nunca utilizou suas armas femininas com Roarke.
- No nos utilizamos.
- Voc no sabe usar suas armas - Mas Reeanna o descartou com um
gesto - A prestigiosa doutora Mira me etiquetaria como uma sciopata com
tendncias violentas e uma necessidade incontrolvel de estar no controle.
Uma mentirosa patolgica com uma fascinao insana e inclusive perigosa
pela morte.
Eve esperou alguns momentos.
- E voc concordaria com a anlise, doutora Ott?
- Certamente. Minha me cometeu suicdio quando eu tinha apenas seis
anos. Meu pai nunca superou. Deixou-me ao cuidado de meus avs e partir
para se curar. No acredito que nunca conseguiu. Mas vi o rosto de minha me
depois de ter engolido aquele punhado de comprimidos. Estava muito atraente
e parecia feliz. Ento por que a morte no pode ser uma experincia
prazerosa?
- Tente voc. - sugeriu Eve.- E comprove.  sorriu- Se quiser eu lhe ajudo.
- Talvez algum dia. Depois de ter finalizado meus estudos.
- Somos ratos de laboratrio ento; nem brinquedos, nem jogos, e sim
experimentos. Andrides para dissecar.
- Exato. Lamentei por Drew porque era jovem e tinha potencial. Estive lhe
perguntando algumas coisas, por impulso, agora me dou conta, quando William
e eu trabalhamos no resort Olympus. E se apaixonou por mim. Era to jovem
que me senti lisonjeada, e William  muito tolerante com as distraes
externas.
Sabia demais, assim lhe enviei uma unidade modificada com instrues
para que se enforcasse. Na verdade, no teria sido necessrio, mas ele se
negou a acabar com nossa relao. Isso significava que tinha que morrer,
antes que se curasse da cegueira que a paixo causa nos homens e olhasse
perto demais.
- Despia suas vtimas - acrescentou Eve  A humilhao final?
-No.  Reeanna pareceu surpresa e insultada pela idia - Em absoluto.
Simbolismo elementar. Nascemos nus e nus morremos. Assim completamos o
crculo. Drew morreu feliz. Todos o fizeram. Nenhum sofrimento. Nenhuma dor.
Estavam alegres na verdade. No sou um monstro, Eve, eu sou uma cientista.
- No, Reeanna, voc  um monstro. E hoje em dia a sociedade pe seus
monstros entre grades e os mantm ali. E no ser feliz entre grades.
- No ir acontecer. Jess pagar o pato. Voc lutar por isso depois do
meu relatrio amanh. E se voc mo conseguir acus-lo de coero, vai
acreditar para sempre que ele foi o responsvel. E quando eu o fizer
novamente, serei muito seleta e muito minuciosa, e cuidarei para que se
matem bem distantes de sua rea. Assim voc no ser incomodado com isso
outra vez.
- Voc colocou dois em meu terreno  se sentiu mareada  Apenas para
chamar minha ateno?
- Em parte. Queria v-la trabalhar. Observar passo a passo. Analisa-la de
perto para verificar se era to boa quanto diziam. Detestava Fitzhugh, e pensei:
por que no fazer a minha nova amiga Eve um pequeno favor? Era um esnobe,
um incomodo para a sociedade e um mau jogador. Quis que sua morte fosse
sangrenta. Ele preferia os jogos sangrentos, voc sabe? Nunca lhe conheci
pessoalmente, mas de vez em quando me deparava com ele no Cyberspace.
Era um mal perdedor.
- Tinha famlia  Eve se controlava - Como Pearly, Mathias e Cerise
Devane.
- A vida segue. - Reeanna descartou a idia com um gesto de mo. 
Todos se adaptam. Assim  a natureza humana. Quanto a Cerise, era to
maternal como uma gata de beco. Era toda ambio. Aborrecia-me
sobremaneira. O maior divertimento que teve em sua vida foi morrer diante das
cmeras. Que sorriso. Todos sorriam. Essa era minha pequena brincadeira, o
meu presente. A sugesto final. Morrer  belo, divertido e prazenteiro. Morra e
experimente o prazer. Morreram experimentando prazer.
- Morreram com um sorriso congelado nos lbios e uma queimadura no
crebro.
Reeanna arqueou as sobrancelhas.
- O que quer dizer com isso? Uma queimadura?
Onde demnios estavam os reforos? Quanto tempo mais conseguiria
entret-la?
- No sabe nada sobre isso? Seu pequeno experimento tem uma pequena
falha, Reeanna. Produz uma queimadura no lbulo frontal, deixando o que
podemos chamar uma sombra. Ou uma impresso digital. Sua impresso.
- Isso no  nada.  Mas seu semblante denotou preocupao  Imagino
que a causa  a intensidade da subliminar. Tem que entrar com firmeza para
contornar a resistncia do profundo instinto de sobrevivncia. Teremos que
trabalhar nisso e veremos o que pode ser ajustado - A irritao sombreou seus
olhos - William ter que se esforar mais. No gosto de erros.
- Pois seu experimento est cheia delas. Ter que controlar William para
que continue ajudando-a. Quantas vezes utilizou o sistema nele, Reeanna? O
contnuo uso expandir essa queimadura? Gostaria de saber que tipo de
seqelas poderia causar.
- Pode ser corrigido. - Reeanna tamborilou os dedos de sua mo livre
numa perna, distrada - Ele o reparar. Farei um novo scaner de seu crebro e
examinarei essa falha... se  que a tem. E a consertarei.
- Oh, ter sim - Eve se aproximou, medindo a distncia e o risco - Todos
eles a tinham. E se no conseguir reparar a de William, ter que mat-lo. No
poder se arriscar que essa falha fique maior e lhe cause uma conduta
incontrolada, no tenho razo?
- No, no. Cuidarei disso imediatamente. Hoje  noite.
- Pode ser que seja tarde demais.
Reeanna lhe sustentou o olhar.
- Os reparos podem ser feitos. E sero. No cheguei to longe e
conseguir tanto para aceitar um fracasso agora.
- E, no entanto, para ter pleno sucesso ter que me controlar, e no vou
deixar as coisas fceis para voc.
- Tenho seu padro de ondas cerebrais  recordou-a Reeanna - E j
desenhei um programa especial para voc. Ser muito fcil.
- A surpreenderei - prometeu Eve  Alm disso, esqueceu-se de Roarke.
No poder fabric-los sem ele, e ele o averiguar. Espera control-lo
tambm?
- Esse ser prazer particular. Tive que ajustar a programao. Esperava
me divertir um pouco, uma breve viagem, podemos dizer assim, no plano da
memria. Roarke  to criativo na cama. No tivemos tempo para trocar
impresses, mas estou certa que vai concordar comigo.
Seus dentes rangeram, mas seu tom foi frio.
- Utiliza seu brinquedo para obter satisfao sexual? Que pouco cientfico,
doutora Ott.
- E que divertido. No sou um gnio como William, mas aprecio com um
bom jogo criativo.
- E foi assim que conheceu todas as suas vtimas.
- At agora. Atravs de circuitos clandestinos. Os jogos podem ser
relaxantes e interessantes. Eu e William concordvamos que processar dados
dos jogadores nos ajudaria a desenvolver opes mais criativas para o novo
modelo de realidade virtual. - Reeanna ajeitou o cabelo - Claro que ningum
tinha em mente o que eu estava criando.
Seu olhar se deslocou para o monitor e franziu o cenho ao ver os dados
que chegavam ao escritrio de Roarke. Processava neste momento as
especificaes da unidade de RV.
- Mas Roarke j estava comeando a me fazer perguntas. E no apenas
sobre o jovem Drew, mas tambm sobre a unidade em si. Deixou-me um tanto
aborrecida, mas sempre h um jeito de acabar com inconvenientes - Esboou
um sorriso - Roarke no  to necessrio como voc pensa. Que voc acha
que herdar isso tudo se algo lhe acontecer?
Riu outra vez de puro prazer quando Eve a olhou sem compreender.
-  voc querida. Tudo ser seu, estar sob seu controle, e
conseqentemente sob o meu. No se preocupe, no lhe deixarei viva muito
tempo. Encontraremos algum para voc. Escolherei pessoalmente.
O pnico gelou seu sangue, paralisou seu msculos, e lhe apertou o
corao.
- Fez uma unidade para ele.
- Terminei nesta tarde. Pergunto-me se j a provou. Roarke  muito
eficiente, e sempre se interessa pessoalmente com tudo que envolve suas
propriedades.  Disparou um jato a seu ps antecipando-a - No o faa. Ou irei
aturdi-la e o efeito ir demorar algum tempo para passar.
- Matarei voc com minhas prprias mos, juro-o. - Eve tentou respirar
fundo e se obrigou a pensar.
.................................
Em seu escritrio, Roarke refletia sobre os dados que acabava de obter.
Estava deixando algo passar, pensou. O que seria? Esfregou os olhos
cansados e recostou na cadeira.
Precisava um descanso, decidiu. Esvaziar a mente e descansar os olhos.
Pegou a unidade de RV da mesa e a girou entre suas mos.
.......................................
- Voc no ter chance. Se tentar algo, eu a atordoou e nunca chegar a
tempo. H sempre a esperana que voc pode conseguir salv-lo. - Reeanna
voltou a sorrir burlesca - Como pode perceber a compreendo perfeitamente.
- Mesmo? - perguntou Eve, e em lugar de lanar-se sobre ela retrocedeu.
- Desligue as luzes!- ordenou em voz alta e recuperou a arma enquanto a
sala era tomada pela escurido. Sentiu uma rpida ardncia quando Reeanna
apontou e errou apenas roando seu ombro.
Jogou-se no cho e ficou protegida pela mesa, apertando os dentes para
suportar a dor. Tinha rolado rapidamente, mas seu joelho tinha atingido o solo
duramente.
- Nisto eu sou melhor do que voc - disse Eve com calma. Mas os dedos
da mo direita tremiam, obrigando-a a sustentar o arma com a esquerda- Voc
 a amadora aqui. Se voc soltar a arma, pode ser que eu no a mate.
- Me matar? - A voz de Reeanna era um sussurro  Est programada
para ser uma policial e s usar fora mxima quando todos os mtodos
restantes falharem.
Perto da porta, disse-se Eve contendo a respirao e aguando o ouvido.
- Aqui no h ningum mais do que voc e eu. Quem iria saber?
- Escrpulos demais. No se esquea que eu a conheo a fundo. Tenho
estado em sua cabea. No seria capaz de super-lo.
Mova-se mais para perto da porta. Isso, continue. S mais um pouco.
Tente sair, sua piranha, e cair como um pedao de carne podre.
- Talvez esteja certa. Talvez s a deixe aleijada- Segurando a arma com
firmeza, Eve rodeou a mesa. A porta se abriu, mas em vez de Reeanna sair,
William entrou.
- Reeanna, que est fazendo no escuro?
Enquanto Eve se punha de p em um salto, o dedo de Reeanna contraiuse
na arma e fritou o sistema nervoso de William.
- Oh, William, pelo amor de Deus. - A voz de Reeanna transmitiu mais
irritao do que aflio.
Enquanto comeava a perder o equilbrio, Reeanna se lanou sobre Eve.
Fincou-lhe as unhas nos seios enquanto ambas caam ao solo.
Sabia onde golpear. Tinha lhe curado cada ferida e contuso, e agora as
apertava e retorcia. Com o joelho golpeou-a nos quadris, e com o punho
fechado lhe atingiu o joelho ferido.
Cega de dor, Eve ergueu o cotovelo e ouviu o rudo prazeroso da
cartilagem sendo achatada quando acertou o nariz de Reeanna. A mulher
soltou um grito agudo e feminino, e apertou os dentes em seu brao.
- Cadela.  baixando ao mesmo nvel agarrou-a pelos cabelo e os puxou.
Depois, ligeiramente envergonhada daquele deslize, afundou a arma sob seu
queixo - Respira mais forte e eu apago voc. Luzes.
Ofegante, sangrando e com o corpo dolorido. Esperava sentir satisfao
mais tarde, ao ver o rosto bonito de sua oponente achatado e manchado do
sangue que continuava fluindo do nariz quebrado. Mas por enquanto estava
assustada demais.
- Vou faz-lo de qualquer jeito
- No. Voc no- respondeu Reeanna com voz serena, e esboou uma
ampla e radiante sorriso  Eu o farei - adicionou. E lhe torceu o pulso que
sustentava o arma at o canho encostar a lateral de seu pescoo  Eu odeio
gaiolas. - E sorrindo, disparou
- Oh, Deus meu - exclamou Eve.
Levantou-se cambaleante enquanto o corpo de Reeanna continuava
estremecendo no cho, aproximou-se de William e tirou do bolso seu tele-link.
Respirava, mas tinha outra coisa que pensar neste momento.
Comeou a correr.
- Responde-me, responde-me! - gritou atrapalhando-se com a mquina -
Roarke, escritrio principal  ordenou  Responde, maldio. - E conteve um
grito quando a transmisso lhe foi recusada.
Linha em uso neste momento, por favor. Desligue e volte a tentar mais
tarde.
- Desbloqueie , seu equipamento de merda. Como se desbloqueia esta
coisa? - Apertou o passo e correu mancando sem dar-se conta de que estava
chorando.
Ouviu o som de passos que se aproximavam pelo corredor, mas no se
deteve.
- Santo cu, Dallas!
- Por aqui. - Passou correndo por Feeney e mal ouviu suas perguntas,
presa pelo mar de terror em sua cabea - Peabody, vem comigo. Depressa.
Chegou ao elevador e socou os botes de chamada. - Depressa,
depressa.
- Dallas, o que aconteceu? - Peabody tocoulhe o ombro, mas foi
empurrada - Est sangrando. Que est acontecendo aqui, tenente?
-  Roarke. Oh, Deus, oh Deus, por favor! - As lgrimas escorriam pela
face, escaldando-a, cegando-a. O suor de pnico escorreu por seus poros,
umedecendo sua pele  Vai mat-o. Ela vai mat-lo.
Peabody reagiu e tirou o arma enquanto se apressavam para dentro do
elevador.
- Andar superior, ala leste - gritou Eve- Vamos, vamos! - Lanou o tele-link
para Peabody e ordenou-: Tente desbloquear esta porcaria.
- Est estragado. Caiu no cho ou algo assim. O que h com Roarke?
- Reeanna. Est morta. Morta como Moiss. Mas vai mat-lo. - Eve quase
no podia respirar, seu pulmes no conseguiam manter o ar - O deteremos.
No importa o que lhe tenha dito que faa, o deteremos. - Voltou sua olhar
selvagem para Peabody - No o matar.
- O deteremos - respondeu Peabody.
J tinham cruzado as portas antes que ests se abrissem completamente.
Eve foi ainda mais rpida apesar de estar ferida, pois o pnico lhe dava
impulso. Atirou-se contra porta, amaldioou os dispositivos de segurana e
colocou bruscamente a mo no leitor de palmas. Chocou-se contra Roarke
quando este apareceu no umbral.
- Roarke.  Agarrou-o, poderia ter se fundido a ele se pudesse - Oh, meu
Deus. Est bem. Est vivo.
- O que aconteceu? - Ele a estreitou entre seus braos enquanto ela
tremia incontrolavelmente.
Mas Eve j estava o empurrando com brusquido, agarrou-lhe o rosto
entre suas mos e olhando fixamente.
- Olhe para mim. Voc usou? Usou a unidade de realidade virtual?
- No. Eve...
- Peabody, derrube-o se ele dar um passo em falso. E chame os
assistentes de sade. Temos que fazer um scaner cerebral nele.
- O inferno que tem. Mas faa-o, Peabody, chame-os. Desta fez voc ir
ao centro mdico mesmo que eu precise a deixar inconsciente.
Eve retrocedeu um passo, lutando para respirar enquanto o media com o
olhar. No sentia as pernas e se perguntou como conseguia manter-se de p.
- No o testou.
- J te disse que no. - Roarke passou as mo pelos cabelos  Estava
visado para mim desta vez, no? Eu devia ter imaginado.  Deu-lhe as costas e
viu de relance sobre seu ombro Eve levantar o arma - Vamos, abaixe essa
maldita arma. No vou me matar. S estou aborrecido. Salvei-me por um fio.
Percebi h cinco minutos. Docmente. Doutora Mente. Esse  o nome que
utilizava para jogar. E ainda o usa. Mathias e ela trocaram dzias de
transmisses nesse ano, antes dele morrer. E estudei o relatrio de dados
sobre a unidade, a que ela acabava de me apresentar, e as estatsticas dos
arquivos. No as ocultou o bastante.
- Sabia que o averiguaria. Por isso... - Eve se interrompeu e respirou
fundo. Sua cabea dava voltas - Por isso personalizou uma unidade para voc.
- A teria provado se no me tivessem interrompido. - Pensou em Mavis e
quase sorriu - Duvido que Ree se esforasse muito em alterar os dados. Sabia
que eu confiava nela e em William.
- William no fez nada, ao menos de forma voluntria
Ele se limitou a assentir. Observou a camisa arruinada e manchada de
sangue de Eve, e perguntou:
- Est sangrando?
- A maior parte  dela. - Esperava - No queria ser presa.  Respirou
fundo - Est morta, Roarke. Suicidou-se. No pude det-la. Ou talvez no
tenha desejado faz-lo. Explicou-me... o da unidade, sua unidade.  Sua
respirao se tornou ofegante outra vez - Pensei que no chegaria a tempo.
No conseguia fazer funcionar o tele-link e no podia chegar aqui.
No ouviu Peabody fechar a porta para dar-lhes privacidade. No se
importava com privacidade. Seguiu olhando o vazio e estremeceu. - No podia
- voltou a dizer - Entretive-a para ganhar tempo e juntar as coisas, enquanto
voc poderia ter...
- Eve, no o fiz. - Aproximou-se e a abraou - E chegou at aqui. Eu no a
deixarei  Beijou-lhe o cabelo quando ela enterrou o rosto se encontro a seu
ombro- J passou.
Ela sabia que voltaria a reviver em seus sonhos um milho de vezes
aquela interminvel corrida, o pnico, a sensao de impotncia.
- No acabou; Vai haver uma investigao completa, e no s de
Reeanna, mas tambm de toda sua companhia, das pessoas que trabalhavam
com ela no projeto.
- Poderei suportar.  a pressionou contra seu ombro- A companhia est
limpa, lhe prometo. No a farei passar por nenhum embarao oficial sendo
encarcerado., tenente.
Ela aceitou o leno que ele lhe entregou e se soou o nariz.
- Que desastre para minha carreira, casar-me com um vigarista.
- No tem com o que se preocupar. Por que o fez?
- Porque podia. Isso  o que disse. Desfrutava do poder, do controle. 
Esfregou o rosto com as palmas das mos, que quase no tremiam - Tinha
grandes planos para mim.  estremeceu - Queria que eu me transformasse em
seu animalzinho de estimao, imagino. Como William. Seu cozinho
amestrado. Uma vez que voc morresse, eu seria herdeira de suas
propriedades...No vai fazer isso, no ?
- O que, morrer?
- Deixar-me tudo isto.
Ele riu e a beijou.
- Somente voc se irritaria por isso  afastou seu cabelo do rosto - Tinha
uma unidade preparada para voc?
- Sim, mas no tivemos tempo de test-la. Feeney est l abaixo. Ser
melhor deix-lo saber o que aconteceu.
- Teremos que descer ento. Ela desconectou o tele-link, por isso me
dispunha a descer quando se jogou em cima de mim. Estava inquieto de no
conseguir falar com voc.
-  difcil ...- Eve lhe acariciou o rosto. - ...se importar com algum.
- Acho que posso sobreviver. Imagino que vai querer ir  delegacia para
resolver todo esse assunto esta noite mesmo.
-  o procedimento. Tenho um cadver... e quatro casos de assassinato
para fechar.
- Levarei voc at a central depois que passar pelo centro mdico.
- No vou ao centro mdico.
- Sim, voc ir.
Peabody chamou da porta e se aproximou.
- Desculpe-me, mas os assistentes de sade esto aqui. Precisam de
autorizao para entrar.
- Me encarregarei disso. Mande-os nos encontrar no escritrio da doutora
Ott, e, Peabody? Podem examinar Eve antes que eu a leve at o centro mdico
para fazer um tratamento completo.
- Eu j disse que no vou me submeter a nenhum tratamento.
- J escutei - Roarke apertou um boto de sua mesa - Autorizar a entrada
dos mdicos. Peabody, carrega o restringidor?
-  a norma.
- O emprestaria para ver se consigo dominar sua tenente e deix-la no
centro mdico mais prximo?
- Tente amigo, e ver quem precisa de um mdico.
Peabody fez um esforo por controlar-se. Uma risada nesse momento
no agradaria sua tenente.
- Compreendo seu problema, Roarke, mas no posso resolve-lo. Preciso
do meu emprego.
- No importa, Peabody.  passou o brao em torno de sua cintura e
apoiou seu corpo enquanto se dirigiam para a aporta - Estou certo que posso
encontrar um substituto.
- Tenho um relatrio para apresentar e um trabalho para terminar, alm de
um cadver para transportar. - Eve o olhou aborrecida enquanto ele chamava o
elevador - No tenho tempo para uma reviso.
- J ouvi - repetiu ele, e se limitou a peg-la nos braos entrar no elevador
- Peabody, diga aos mdicos que venham armados.  muito provvel que ela
tente escapar.
- Coloque-me no cho seu idiota! No vou a lugar nenhum - Mas estava
rindo quando as portas se fecharam.
Fim
Traduzido e revisado por Projeto_romances
Projeto_romances@yahooo.com.br
